Doce Rendição

Doce Rendição

Capítulo 1

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🟡 Em breve

Naquela tarde, Nox estivera sozinho na biblioteca da mansão, exatamente onde dissera que estaria. A luz filtrava-se pelas janelas altas, tingindo os tapetes com tons dourados e rubros, enquanto um copo de vinho repousava ao alcance da mão. O volume encadernado em couro estava aberto sobre o colo.

Quando Thomas surgiu à porta, Nox ergueu os olhos antes mesmo que o jovem pudesse anunciar-se.

— Mestre Vellet? — chamou Thomas, hesitante.

— Sim? — respondeu Nox, com o timbre baixo, marcando a pausa antes de voltar o olhar para ele.

Thomas avançou alguns passos, quase como se atravessasse um limiar proibido.

— Perdão… não achei que realmente estaria disposto a me encontrar.

— Eu disse que estaria aqui — comentou, num tom que soou mais como constatação do que boas-vindas.

O funcionário hesitou, mas um leve sorriso se insinuou em seu rosto. Aquelas poucas palavras carregavam a lembrança de outras interações — conversas ao acaso, toques que duraram mais do que deveriam, carícias rápidas em corredores vazios. O suficiente para que ambos soubessem que aquilo não era um encontro inocente.

Thomas avançou alguns passos, fechando a porta atrás de si com um movimento lento.

— Então eu vim. — Sua voz carregava aquela mistura de ousadia e contenção que Nox conhecia bem.

Nox fechou o livro e o deixou de lado. O silêncio que se seguiu não era vazio; era uma teia esticada entre eles, vibrando. Thomas se aproximou, e Nox o recebeu sem recuar. As mãos do funcionário encontraram a cintura dele, subindo pelo tecido da camisa de linho, explorando como quem já memoriza o caminho.

Os lábios se tocaram — primeiro um roçar quase hesitante, depois um beijo mais marcado, porém breve. Nox sentiu o gosto de Thomas e, por um instante, inclinou-se para ceder, permitindo que as mãos dele se insinuassem por baixo da roupa, deslizando pela pele quente de seu abdômen.

Mas a entrega durou pouco. O movimento de Thomas tentando abrir o primeiro botão da camisa fez Nox interromper o beijo, segurando-lhe o pulso com firmeza, embora sem brusquidão.

— Eu não disse que poderíamos fazer isso aqui — disse, com aquele tom baixo e controlado que soava mais como uma sentença do que um pedido.

Thomas recuou um passo, mas o brilho nos olhos não se apagou.

Nox, agora mais relaxado, pegou novamente a taça de vinho e tomou um gole, observando-o com um interesse que era mais estético do que emocional. Já se sentia entediado, embora apreciasse o jogo.

— Esta noite — disse, quase como quem lança um convite e uma ordem ao mesmo tempo. — No hotel. Vista algo que valha a pena tirar devagar.

Thomas assentiu, um pouco mais contido, mas a expectativa transparecia no modo como os dedos dele se fecharam e abriram, como se guardassem o impulso de tocá-lo outra vez. Sem acrescentar mais nada, Nox retomou a poltrona e o vinho, deixando o jovem se retirar com a promessa pendendo no ar.

—–

— Mais forte — murmurou Nox, a voz baixa e firme, ainda que os pulsos permanecessem tensos contra as algemas de couro que o prendiam à cabeceira da cama.

O homem acima dele hesitou. Os movimentos tornaram-se mais intensos, porém não o bastante. A respiração entrecortada, os músculos rígidos pelo esforço, não pelo desejo.

Havia algo desconectado naquele toque, algo vazio. Nox sentia nas investidas sem ritmo, na respiração irregular que não acompanhava a dele, que não nascia de desejo, mas de fadiga.

Aquilo não era o bastante.

Não era o que ele queria.

Nox fechou os olhos e tentou se deixar levar pela sensação. As mãos de Thomas agarravam seus quadris com força, as estocadas tornavam-se mais rápidas, mais urgentes — mas careciam de paixão. Não havia calor, nem entrega. Nox percebia o desespero nas investidas, a ânsia de terminar, de encerrar aquilo o mais rápido possível, como se fosse uma obrigação a ser cumprida. A irritação crescia sob sua pele como uma febre contida, incômoda, persistente — como o som de unhas arranhando um quadro-negro.

O rosto de Thomas, corado pelo esforço, estava franzido em concentração, mas seu olhar era vago, distante. Não havia fome ali. Nenhuma lascívia, nenhum desejo verdadeiro. Apenas o cansaço de quem quer cumprir um papel. Nox apertou o maxilar, mas permaneceu em silêncio. Recusava-se a oferecer qualquer migalha de confirmação. Thomas não merecia sequer saber que estava falhando.

Quando o rapaz enfim gozou, foi com um suspiro que soou mais como alívio do que êxtase. Retirou-se com rapidez, o corpo ainda trêmulo, e tirou a camisinha com uma facilidade metódica, mecânica, que apenas agravou o desagrado de Nox. Sem cerimônia, descartou o preservativo na lixeira do banheiro ao lado.

Nox não se moveu. Ficou deitado, o peito subindo e descendo em respirações curtas, o corpo ainda dolorosamente excitado, a ereção latejando como uma ferida aberta. Olhava para o teto do quarto de hotel com uma expressão vazia, marcada por uma insatisfação muda, como quem contempla a ruína de algo que já nasceu condenado.

— Mestre Veleth, eu… — começou Thomas, incerto.

Thomas se apressou. Os dedos nervosos buscaram os fechos com certa dificuldade, como se a tensão daquele momento subitamente o deixasse inepto. Quando enfim libertou os pulsos de Nox, este se sentou devagar, esticando os braços com um movimento preguiçoso, mas carregado de uma irritação contida.

Levantou-se em silêncio, ajustando a camisa parcialmente desabotoada — a mesma que usara durante o sexo — e começou a procurar suas roupas inferiores espalhadas pelo chão. Movia-se com a calma de quem já tomara sua decisão antes mesmo do fim.

— Fique à vontade pelo resto da noite — disse, sem olhar para Thomas. — O quarto já está pago. Aproveite, se quiser.

A frase veio sem emoção, com a indiferença elegante de quem oferece restos por mera cortesia.

Thomas hesitou. Os olhos deslizaram pelo corpo de Nox, ainda ereto sob a camisa de linho, como se quisesse dizer algo, talvez protestar ou agradecer — mas não disse nada. Aquela tensão entre os dois, que em outro cenário poderia ter significado algo, agora era apenas desconforto. Ele apenas assentiu em silêncio, respeitando o distanciamento que se instalara entre eles.

Nox pegou o casaco, vestindo-o com gestos tranquilos, metódicos. Caminhou até a porta, e antes de sair, lançou um último olhar sobre o quarto — sobre os lençóis desalinhados, a cabeceira marcada pelas algemas, o corpo de Thomas ainda suado, o ar carregado de um perfume barato de frustração.

Nada daquilo o tocava.

Fechou a porta atrás de si com a mesma frieza com que a abrira. E seguiu, sozinho, com o peso da ausência ainda pulsando em seu corpo como uma lembrança indesejada.

—–

Quando a porta de seus aposentos se fechou atrás dele, Nox soltou um suspiro longo, carregado de frustração. Sentou-se diante da mesa, o notebook aberto à sua frente. Ligou-o com um movimento automático, a tela iluminando seu rosto cansado.

Os dedos vagaram pelo touchpad até encontrar um site de vídeos que costumava visitar. Alguns criadores que seguia estavam ativos — dominadores, em sua maioria. Alguns tinham parceiros fixos, outros trocavam de companhia conforme a ocasião. Ao ver que um dos dominadores que conhecia estava ao vivo, clicou na transmissão. Pegou os fones de ouvido enrolados sobre a mesa, conectou-os à entrada lateral e os ajustou nas orelhas.

Enquanto a imagem carregava, a mente dele se enchia de pensamentos amargos. Aquela noite tinha sido inútil, e ele já sabia disso antes mesmo de sair. Thomas, com as maçãs do rosto marcadas e aquele sorriso sedutor, parecia a distração perfeita. Mas o sexo… fora frustrante. O charme dele não se traduziu em paixão. Nox voltara vazio, irritado, e mais tenso do que antes.

Ele não era a escolha certa — jamais seria. Ter ficado em casa e feito exatamente o que estava prestes a fazer teria dado no mesmo. Talvez até melhor.

mudou de posição na cadeira, o calor começando a subir pela pele. Abriu os botões da camisa devagar, deixando-a escorregar pelos ombros. Os dedos percorreram o próprio peitoral, explorando os músculos tensos, descendo até o abdômen até alcançarem a cintura da calça.

Na tela, o dominante segurava um chicote de couro, passando-o pela própria mão com movimentos lentos. Nox desatou o cinto, baixou as calças e as empurrou até que caíssem no chão. Recostou-se, vestindo apenas a cueca boxer.

Com um gesto contido, inclinou-se e abriu a gaveta ao lado. Retirou de lá o vibrador preto, elegante e discreto — um recurso de emergência que mantinha escondido. Por um instante, apenas o segurou, os dedos explorando a superfície fria de silicone, como se meditasse sobre o que estava prestes a fazer. A textura suave parecia lembrar-lhe, em silêncio, tudo o que lhe faltava. Inspirou fundo, soltando o ar devagar, e aproximou o objeto do corpo.

Na tela, o dominante se aproximava do submisso amarrado, vendado, traçando a ponta do chicote pela parte interna da coxa dele, num toque lento e provocante.

A respiração de Nox acelerou. Sua mão deslizou pela cueca, apertando-se. Logo, os dedos passaram pela cintura elástica, libertando o pênis. Acariciou-se num ritmo lento, mas insuficiente. Abriu mais as pernas, pressionando o vibrador contra a própria entrada. O toque gelado arrancou-lhe um arrepio involuntário.

Hesitou — não por vergonha, mas pela mistura de raiva e desejo que pulsava em seu corpo. Os olhos se estreitaram, carregados de algo impossível de traduzir em palavras. Inseriu o vibrador com lentidão e, logo em seguida, o ligou.

Um gemido grave escapou-lhe quando a vibração preencheu cada espaço com uma precisão que Thomas jamais alcançaria. A cabeça tombou para trás, os músculos se rendendo à sensação. Mordeu o lábio, conduzindo o movimento com destreza, o corpo respondendo a cada impulso certeiro.

Aos poucos, a respiração se tornou irregular. Na tela, o som seco do chicote se misturava aos gemidos do submisso no quarto vermelho. Cada estalo parecia atingir algo dentro dele.

A mão de Nox apertou mais o pênis, enquanto o vibrador ia mais fundo, arrancando-lhe um arquejo alto. A visão vacilou por um instante, o corpo inteiro tremendo.

A voz do dominante, os comandos firmes, os sons abafados — tudo se entrelaçava, prendendo-o naquela bolha de controle e submissão. Ele se agarrou às sensações, afastando qualquer pensamento intruso. Estava tão perto… tão absurdamente perto…

E então, o prazer veio.

O corpo se arqueou num espasmo involuntário, o ar escapando em ofegos ásperos enquanto ele se derramava sobre si mesmo. Ficou ali, imóvel, o peito arfando, a mão ainda apertada.

O alívio foi breve. O orgasmo deixou apenas um cansaço frio e a constatação amarga: mesmo com um parceiro, seus brinquedos eram mais eficientes. Mais confiáveis. Menos decepcionantes.

Nox desviou o olhar da tela agora escura e soltou um riso abafado, carregado de ironia.

Patético.

—–

O toque frio da penumbra persistia no quarto mesmo depois de o alarme cessar. O brilho pálido do celular repousava sobre a escrivaninha de mármore negro, projetando uma luz azulada que recortava o contorno da mão de Nox enquanto ele o alcançava com movimentos contidos, como se o gesto, denunciasse mais do que um simples despertar.

18h42 da noite.

Ainda restava tempo antes da aula, embora o corpo não denunciasse pressa. Por um instante, ele permaneceu deitado, os olhos fixos no teto esculpido em gesso, as sombras dançando entre as molduras como se zombassem de sua vigília. Os lençóis estavam desalinhados sobre a cama king-size, os vincos ainda marcando a frustração da noite anterior — uma tentativa mecânica de prazer, seguida de uma solidão crua e tão íntima que chegava a parecer ritualística.

O cheiro residual de outro corpo ainda pairava no seu próprio. Não havia sido ruim — não exatamente —, mas tampouco suficiente. A satisfação tinha vindo rápido demais para Thomas, e tarde demais para Nox, como se o tempo obedecesse a vontades distintas dentro daquele quarto.

Quando o silêncio retornou, Nox se viu sozinho outra vez, entediado e excitado. Teve que se aliviar no escuro, com a respiração presa e os olhos fechados, como se estivesse se escondendo de si mesmo.

Agora, sentado na beira da cama, os pés descalços tocando o mármore gelado, Nox respirou fundo. O ar noturno era denso, limpo, carregado da umidade tênue que só as madrugadas sabiam oferecer. Puxou a camisa branca que havia jogado sobre a poltrona e a vestiu com movimentos lentos, quase cerimoniais.

Depois veio a calça de alfaiataria ajustada, o colete escuro, os sapatos de couro impecavelmente alinhados no canto do closet. O espelho antigo ao lado do armário refletia apenas o quarto ao fundo, vazio onde ele deveria estar. Nox o encarou com aquela expressão que aprendera ao longo dos anos — neutralidade contida, quase aristocrática.

Desceu o corredor amplo de sua ala da mansão com o mesmo passo comedido, sem pressa, mas firme. As janelas altas deixavam entrar a luz do jardim — faróis suaves instalados para manter a vegetação noturna viva — e o perfume dos jasmins se infiltrava como uma presença invisível. Poucos funcionários ainda circulavam naquele horário. Ele os reconhecia, mesmo sem olhar diretamente. Tinha aprendido a ler os sons — os sapatos contra o piso de pedra, os murmúrios polidos, os suspiros abafados quando passava.

O corredor o levou até a escadaria central. Lá embaixo, a entrada principal permanecia silenciosa. Ele desceu com a precisão de alguém que crescera entre degraus de mármore e paredes adornadas com tapeçarias francesas. O lar da família Veleth sempre fora mais palácio do que casa, e mesmo agora, com mais de cento e setenta anos, Nox ainda se sentia como uma extensão decorativa daquele lugar — bonito, polido, controlado.

Na copa, encontrou uma taça de cristal com sangue repousando sobre a mesa. O brilho artificial das luminárias quentes afastava a escuridão, mas mantinha-o protegido da luz que jamais poderia enfrentar. Os dedos envolveram o cristal com delicadeza. O primeiro gole trouxe um calor discreto à garganta, como uma saudação muda à sua natureza. E ainda assim, não era suficiente. Nada parecia ser.

A lembrança voltou com a naturalidade de uma respiração involuntária: o toque sem firmeza, os gemidos irregulares de Thomas, a maneira cuidadosa e até reverente com que Thomas se esforçara para agradá-lo, como se a satisfação de Nox fosse prioridade acima do próprio.

Nox suportou a performance com a mesma graça com que suportava as visitas diplomáticas da alta casta. O prazer, no fim, veio de si mesmo — e mesmo esse prazer parecia… inadequado.

Era isso que o incomodava. A inadequação. Não do sexo em si, mas da forma como ele o habitava. Como se ocupasse o próprio corpo sem realmente estar nele. Havia uma inquietação recente, um calor submerso que nem os rituais familiares, nem os encontros ocasionais conseguiam dissipar. Como se algo estivesse esperando ser nomeado — um desejo sem forma, um impulso silencioso pedindo domínio.

Dominado.

A taça tilintou levemente quando ele a pousou sobre a mesa. A palavra o incomodava e excitava ao mesmo tempo. Como um sussurro plantado em sua mente sem permissão. Algo sujo, fora dos moldes nobres. Algo que jamais ousaria dizer em voz alta.

Levou a mão ao colarinho e o afrouxou levemente. Estava quente demais.

Voltou ao corredor e atravessou a biblioteca em direção à garagem lateral. Seu carro o esperava, discreto e elegante. Enquanto os pneus cortavam o asfalto úmido em direção à universidade, Nox se permitiu pensar — não em Thomas, nem nos encontros anteriores — mas na ausência de algo que ainda não sabia nomear. Um vazio que não era solidão, mas sede.

Desejo, talvez.

E desejo, para um vampiro, era apenas o começo do caos.

—–

A universidade se erguia contra o céu noturno, com sua arquitetura gótica iluminada por lâmpadas de tom âmbar, como se recusasse a envelhecer, mesmo diante dos séculos. Era um lugar de tradições rígidas, como tudo que envolvia os Veleth. Os portões de ferro forjado se abriram com um rangido discreto quando o carro da família estacionou à frente do pavilhão principal.

Nox saiu primeiro, seguido por seus irmãos. Como de costume, os olhares se voltaram imediatamente para eles — vultos impecáveis entre a multidão. Não pela extravagância, mas pela composição precisa: cada botão abotoado no lugar certo, cada dobra de tecido milimetricamente ajustada, e gestos ensaiados com uma naturalidade que só o sangue nobre permitia.

Eram quatro ao todo, contando com Nox, mas era ele quem destoava — não por aparência, mas por presença. Enquanto os outros pareciam feitos para ocupar o centro da cena, Nox flutuava nas bordas, observador, silencioso, com os olhos escondendo mais do que revelavam. Usava roupas formais, sim, mas havia sempre algo mais suave em seu modo de caminhar, como se recusasse o peso de uma performance completa. A beleza, ainda assim, era inegável. A frieza que acompanhava essa beleza, também.

Quando chegaram ao hall principal, seguiram por caminhos distintos, como engrenagens que se dispersavam para mover diferentes setores de uma mesma máquina. Um dos irmãos — Havel — caminhava ao lado de Nox, mantendo o silêncio confortável entre os dois. Havel era o mais velho depois de Nox, ou o mais próximo em idade, e tinha a estranha capacidade de não sufocar o ambiente com sua presença. Ao contrário dos demais, que falavam alto, riam de forma artificial ou lançavam olhares afiados como punhais, Havel apenas existia — sólido, discreto, observador. Era o único entre eles com quem Nox realmente conversava.

Na sala de aula, os dois se sentaram lado a lado. O professor já ocupava o centro da sala, uma figura austera de paletó antiquado e olhos cavados pelo tempo. A matéria era economia política — disciplina obrigatória para qualquer criatura associada a uma casta influente.

Nox apoiou o queixo sobre a mão e fingiu atenção. Por dentro, a mente estava longe. Não por tédio, mas por inquietação. Desde a noite anterior, havia uma tensão sob a pele, como se algo dentro dele estivesse prestes a se romper. A lembrança do evento ainda reverberava — não em frases, mas em sensações: o peso dos olhares, a elegância velada de interesses e a frieza que pairava sobre certas presenças.

Durante o intervalo, ele e Havel se afastaram até uma das varandas laterais do prédio, onde o vento noturno dispersava murmúrios e perfume alheio. Sentaram-se num dos bancos de pedra, à sombra de uma trepadeira antiga que se entrelaçava pelas colunas de mármore.

Havel retirou um cigarro da carteira prateada, acendendo-o com o velho isqueiro de herança. O gesto era lento, metódico — mais um ritual do que um vício.

— E então? — murmurou, sem desviar os olhos do horizonte. — Conseguiu marcar a entrevista?

Nox olhou para o pátio abaixo, onde estudantes se reuniam em pequenos círculos de risos comedidos, olhos atentos e sorrisos filtrados por convenções sociais.

— Ainda não. Mas… parece que estão avaliando meu perfil. Talvez esta semana.

Havel apenas assentiu. Não perguntou mais. Havia entre eles uma compreensão silenciosa que dispensava justificativas.

A tranquilidade, contudo, foi breve.

Passos ecoaram pela varanda. Ao virar o rosto, Nox avistou aquele que sabia bem como envenenar o ambiente: Vaelen, o segundo irmão mais velho. Vinha ladeado por dois estudantes — um humano e uma bruxa — que o seguiam como sombras famintas por reconhecimento. Vaelen era o que a aristocracia vampírica esperava de seus filhos: eloquente, perspicaz, teatral. E cruel, sempre que lhe era conveniente.

— Ora, ora — disse ele, com um sorriso carregado daquele deboche quase afetuoso. — O prodígio silencioso e seu escudeiro de estimação.

O olhar dele pousou sobre Nox com uma falsa doçura, tão translúcida quanto o prazer de provocar.

— Estava à sua procura, irmãozinho. Soube que anda… flertando com novos círculos.

Nox manteve o rosto impassível, os olhos firmes nos de Vaelen. Nada em sua expressão denunciava incômodo, mas o maxilar tenso deixava escapar uma fagulha da tensão interna.

— Mesmo se eu estiver, isso não diz respeito a você. — A voz saiu calma, controlada.

— Claro que não — retrucou Vaelen, aproximando-se até que o cheiro de vinho e sangue ficasse evidente —, mas não deixa de ser curioso. Sempre tão seletivo com suas companhias, agora se interessando por… outros ambientes.

A bruxa riu de maneira contida, quase automática.

— Será que está apenas ampliando horizontes? — continuou Vaelen, com aquele sorriso que sempre beirava o insulto. — Vampiros jovens adoram… experimentar. E há lugares, círculos, digamos… muito receptivos à descoberta.

O subtexto era ácido, afiado como uma navalha. O tipo de comentário projetado para ferir sem tocar.

Havel se levantou, apagando o cigarro com a ponta do sapato.

— Vaelen, você não tem nada útil pra fazer? Porque nós temos. E não envolve ficar ouvindo as suas piadinhas.

— Sempre tão bravo. — Provocou Vaelen, franzindo levemente o cenho com teatralidade. — Ele virou-se novamente para Nox, o tom se tornando ainda mais insinuante. — Vai ver que é o sangue. Ou a idade. Todo jovem tem sua fase de fascínio pelo proibido. Nossos pais sabem que você anda pegando cada homem que trabalha na mansão?

Nox ergueu uma sobrancelha, sem se abalar. O olhar pousou sobre Vaelen como um espelho limpo, devolvendo o veneno com frieza controlada.

— Poderia perguntar o mesmo de você — disse, com suavidade cortante. — Ou será que já esqueceram do pequeno escândalo com a conselheira da Casa Malvoir? Ou da assistente do embaixador d’Ourobael, que mal sabia assinar o próprio nome, mas sabia exatamente como agradar um Veleth?

O sorriso de Vaelen murchou por um breve instante — não o suficiente para parecer atingido, mas o bastante para denunciar que a ferida ainda existia.

— Ah… esses detalhes — ele murmurou, forçando uma risada displicente. — Tão propensos à distorção, não acha?

— E à suspensão — completou Nox, seco. — Mas suponho que isso também tenha sido mal interpretado.

O silêncio que se seguiu teve o peso de uma lâmina.

Vaelen riu, um som mais curto e ríspido que o habitual, e disse algo aos acompanhantes antes de se afastar, os passos reverberando pela pedra como um rastro de veneno.

Havel soltou um suspiro.

— Ele vive disso. Provocar. E você sabe.

— Eu sei. — Nox desviou o olhar. — Mas às vezes… ele não está tão errado.

E o que não disse — jamais confessaria em voz alta — era o que mais lhe pesava no peito.

Talvez Vaelen tivesse mesmo farejado algo. Não com clareza, mas com instinto. Porque o que Nox sentia — seja pelo ambiente, pelo desejo de sair do lugar ou por algo mais tênue e incômodo — já não podia ser chamado apenas de curiosidade.

—–

1O elevador deslizou em silêncio até o andar designado, e o leve tilintar metálico de sua abertura foi a única nota audível naquele corredor asséptico de vidro e linhas limpas. A recepcionista — uma jovem de aparência quase artificial, com os olhos duros demais para um sorriso tão delicado — fez um gesto com a cabeça, indicando a porta à esquerda.

— O senhor Daultrey irá recebê-lo.

Nox apenas assentiu, o movimento contido, como se cada gesto fosse previamente pesado em uma balança invisível. Vestia-se com a sobriedade elegante que lhe era natural: camisa cinza de linho, colarinho fechado, um casaco preto de corte ajustado. Nenhum adereço. Nenhum exagero. O sangue nobre estava em seus ossos, e ele não precisava proclamá-lo com ouro ou ostentação. O espelho do elevador devolveu apenas um contorno vago, quase uma sombra onde deveria estar seu rosto — e ainda assim, a impressão era de algo irretocável.

A sala era ampla e fria, dominada por uma grande mesa de carvalho fosco. Do outro lado, o entrevistador: Gregory Daultrey, diretor de uma das divisões administrativas da empresa, alguém que sabia onde se posicionar na hierarquia — e mais importante, como manter distância do poder que realmente governava aquele edifício.

Gregory era um homem seco, magro e bem penteado. O tipo que não se perdia em gentilezas. Apenas ergueu os olhos do tablet à sua frente quando Nox entrou.

— Senhor Veleth. Pode se sentar.

A voz era neutra, mas carregava uma formalidade antiga, talvez excessiva. Como se soubesse quem era Nox — ou pensasse que sabia.

— Obrigado — respondeu ele, a voz aveludada e clara, baixa o suficiente para exigir atenção.

A cadeira era desconfortável — deliberadamente, talvez. O tipo de desconforto que obrigava o corpo a manter a postura impecável, como uma prova contínua de disciplina.

Gregory digitou algo antes de continuar.

— Faculdade noturna de Ciências Políticas, com ênfase em relações interespécies. Segundo semestre. Dois idiomas arcaicos fluentes, cinco modernos. Algumas atividades extracurriculares… — ele deslizou os olhos pela ficha. — A maioria relacionadas a diplomacia ou mediação. Você parece ter um interesse especial na forma como estruturas de poder são negociadas entre raças distintas.

Nox inclinou levemente a cabeça, os dedos entrelaçados sobre o colo. Era como se absorvesse a leitura do outro como se lê uma peça mediana — sem emoção, mas com atenção.

— É uma área que exige uma compreensão cuidadosa de linguagem, comportamento e motivação. Achei… relevante.

Gregory ergueu uma sobrancelha.

— Relevante para quê?

Nox hesitou. Não porque não soubesse o que dizer, mas porque ponderava o quanto deveria dizer. Ainda assim, a resposta veio com naturalidade:

— Para entender o tipo de mundo que estamos construindo. A coexistência entre espécies sempre dependeu mais de simulações de harmonia do que da harmonia real. Compreender essas simulações pode ser… vantajoso.

Daultrey olhou para ele por mais tempo do que o necessário. Não havia admiração no olhar, apenas avaliação. Como se estivesse medindo o quanto daquilo era ensaiado.

— E por que se candidatar a um estágio aqui? Com seu nome, você não precisaria disso. Poderia estudar em tempo integral, ou abrir sua própria firma de mediação, se quisesse. Imagino que tenha conexões.

A pergunta estava longe de ser inocente. Tinha o tom de um teste — ou de uma provocação. Nox não desviou o olhar.

— Justamente por isso.

— Como?

— Eu poderia ter tudo… sem esforço. Sem mérito. Sem experiência real. — A voz dele era suave, mas firme. — Mas não quero depender de sobrenome. Quero entender como funcionam as engrenagens, não apenas girar com elas.

Gregory fitou-o por alguns segundos. Por fim, assentiu, como se aquilo fosse aceitável, ainda que inusitado.

— E por que escolheu nossa empresa?

— Pela reputação. Pela diversidade de contratos e relações interespécies. Pela estrutura organizacional e pela maneira como lida com seus próprios executivos. — Um leve brilho atravessou seus olhos. — E também… por curiosidade.

— Curiosidade?

— O CEO. Lucian Crowne. É uma figura interessante. Não concede entrevistas, raramente aparece em eventos públicos. Muitos na minha área teorizam sobre o modo como ele conduz a organização. Gosto de entender os sistemas por trás das máscaras.

Gregory deu um leve sorriso, breve e afiado.

— E não teme se aproximar demais desse tipo de sistema?

— Apenas os tolos temem o que podem estudar.

O silêncio que se seguiu foi denso, mas não hostil. Gregory digitou algo rapidamente no tablet, como se quisesse registrar a resposta antes que ela evaporasse.

— Muito bem. Temos alguns processos ainda pela frente. Os selecionados devem ser chamados para uma segunda entrevista até o fim da semana.

— Agradeço o tempo — disse Nox, inclinando levemente a cabeça em um gesto preciso, respeitoso. Ele se levantou com fluidez e saiu sem urgência, os passos leves no piso de madeira. O porte calmo de alguém que sabia o que podia provocar apenas com a ausência de reações.

Gregory o observou até a porta se fechar.

Por alguns instantes, permaneceu imóvel. Depois, digitou uma pequena observação final no campo de anotações da ficha:

“Instável com elegância. Frio, mas articulado. Ambição camuflada em curiosidade.”

Ele salvou o documento, clicou em um botão que enviava todas as fichas para o setor executivo. O nome de Lucian apareceria como destinatário.

E quando o CEO, mais tarde naquela noite, abrisse as fichas dos candidatos… encontraria aquele nome.

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Doce Rendição

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Nox sempre viveu cercado de privilégios — herdeiro de uma família nobre, bonito, desejado e com o mundo a seus pés. Mas sob a superfície impecável, havia um...

Chapters

  • Vol 1
      • Doce Rendição
        Prólogo
      • Doce Rendição
        Capítulo 2 Olhar de Predador
      • Doce Rendição
        Capítulo 1 Desejo Incompleto

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