Dragão de Prata

Dragão de Prata: 不道德的修炼之路

Capítulo 09

  1. Home
  2. All Mangas
  3. Dragão de Prata: 不道德的修炼之路
  4. Capítulo 09 - Infinito entre nós dois
Anterior
🟡 Em breve

Encontre o autor no twitter/X: https://x.com/morbyul_

A história também está no wattpad: https://www.wattpad.com/user/morbyul


 

Desde o momento em que foi notificado sobre a reunião com Lan Wen, o chanceler ermitão que, como uma fera mitológica, só aparecia publicamente de três em três anos, Jiang Lu ficou inquieto.

Não conseguiu dormir nada naquela madrugada, andando de um lado para o outro enquanto tentava escolher sua melhor roupa para a ocasião. A dúvida e a curiosidade o corroíam por dentro, mas com Lin Qingshu meio morto em sua cama, não tinha a quem recorrer para sanar suas questões. Para ocupar as mãos e a mente, revirou o guarda roupa em busca de algo elegante, mas começou a se sentir desanimado quando não achou nada interessante. O que era curioso, já que grande parte do seu dinheiro era destinado a cosméticos e vestuário e havia uma infinidade de itens à disposição.

Quando o sol começou a despontar no horizonte, haviam peças de roupa, sapatos, meias e acessórios espalhados por todo lugar, mas já tinha conseguido separar algo decente para vestir e pendurou as peças em uma cadeira para não amassar. Optou por um terno tang¹ azul petróleo com botões de jade, calças esvoaçantes na cor verde floresta e um robe longo de mesma cor, cujo interior era de um tecido macio na cor ametista, com mangas largas, enfeitado com bordados dourados nas lapelas. Separou um par de botas escuras e alguns acessórios dourados para combinar com os detalhes do robe.

Tomou banho com água fria para espantar o cansaço do dia anterior, lavou e secou os cabelos com cuidado, prendendo metade dos fios em um coque no topo da cabeça com a presilha que ganhou de Xuan Yehao. Quando se olhou no espelho, ficou insatisfeito com o próprio cabelo e cortou algumas mechas na frente para criar camadas ao redor do rosto. Arrumar-se antes de um evento importante era sempre muito estressante.

Ling Qingshu acordou no momento em que Lu estava se perfumando, o soldado espirrou pela nuvem de fragrância cítrica e se revirou na cama até ficar de peito para cima. Seus olhos estavam inchados, as pálpebras semicerradas, tentando se situar à iluminação propiciada pelo sol que já mostrava um pouquinho de seu resplendor através da janela.

Esfregando os olhos, vislumbrava a silhueta de Lu frente a um espelho de corpo inteiro tentando assimilar a cena. Ignorando a bagunça ao redor dele, assobiou com admiração enquanto se sentava no colchão. Se sentiu totalmente acordado de repente.

— É a semana de moda de Chaosheng Tai e ninguém me avisou? — sua voz saiu desgastada pelo sono, mais grave que o normal, trazendo um ar cômico para a risadinha que soltou logo depois. — Por que está se arrumando tanto? Parece que estou te levando para o seu casamento, não para uma mera reunião.

Lu, que estava guardando um vidro de perfume, fez um sinal de mão obsceno para ele, como um “vai se foder”. Qingshu gargalhou, de bom humor após uma excelente noite de sono.

— E você por acaso entende alguma coisa de moda, Ling-Ge? — Lu não fez questão de encará-lo enquanto conversava, mais ocupado tentando enfiar os montes de roupa de volta no armário. 

— Nah — estalou a língua, se espreguiçando. — Só entendo de olhar e admirar o que me parece bonito, mas não gasto mais de dois segundos escolhendo o que vou vestir antes de sair.

— Mas você sempre está de uniforme.

— Exatamente. O uniforme militar sempre estará na moda.

Lu bufou, mas pareceu ficar mais à vontade a julgar pela forma como seus ombros relaxaram.

— Do que está falando? Esses trapos tem um design tão sem graça — provocou, virando-se para encará-lo enquanto colocava seus acessórios cuidadosamente.

— O importante não está no tecido, mas no que há por baixo dele.

Qingshu pulou da cama e ficou de pé, fez uma pose flexionando os braços para evidenciar os músculos sobre a camisa justa do uniforme preto. Jiang Lu o encarou sem emoção.

— Você é ridículo.

— Como? As mulheres me amam.

Qingshu deu um sorriso brilhante e lhe lançou uma piscadela, fazendo o rapaz sorrir com vontade como se, de fato, ele fosse ridículo. Estava acostumado com os maneirismos desse artista, então não levava seus comentários ácidos para o coração, pois sabia que ele estava brincando. Afinal, apenas um severo problema de vista faria alguém considerar que Ling Qingshu não era estupidamente atraente – e modesto.

— Que horas são? — perguntou retoricamente, olhando para o relógio de parede que havia no estúdio. — Hum, ainda está cedo, mas seria bom chegar um pouco antes para causar boa impressão, não?

Sentindo-se em casa, Qingshu tomou a liberdade de se dirigir até o banheiro para tomar um banho. Normalmente, quando inventava uma desculpa para dormir na cama macia de Lu, já que a de seu dormitório era mais dura que o chão, levava um par de roupas extras, mas tinha esquecido, então apenas se lavou para se livrar do suor e enxaguou a boca para tirar o mau hálito. Saiu após se livrar da cara de recém acordado, deparando-se com um espaço um pouco menos bagunçado do que antes.

Apesar de ser metódico com a própria aparência, esse pintor era muito desorganizado com seu espaço pessoal. Por ter dividido quarto com ele várias vezes nas viagens que fizeram à trabalho, já tinha observado seus péssimos hábitos e achava o contraste muito engraçado. Para pessoas de fora, Lu parecia uma espécie de ás etéreo e sobrenatural, mas ao conviver com ele, era possível notar o quão mundano ele era.

Por isso Qingshu conseguia se dar tão bem com ele, pois estava farto de tanta gente esnobe ao seu redor.

— Podemos passar na casa do Xuan-Ge no caminho? Preciso pegar meu relógio — o rapaz perguntou assim que ouviu seus passos, ainda lutando contra as roupas que não queriam parar dentro do guarda roupa.

— Sim, desde que seja rápido. Ele tem o hábito de ficar puxando assunto, isso pode nos atrasar.

Se aproximou do pintor para bisbilhotar seus objetos pessoais. Na penteadeira havia uma infinidade de vidros de cosméticos que sequer poderia nomear à primeira vista, escovas em diferentes formatos e um mostruário com uma diversidade de bijuterias e enfeites de cabelo. Viu um pouco do guarda roupa entreaberto, que tinha muito tecido de cores variadas e um conjunto surpreendente de máscaras estilizadas.

— Você tem certeza que trabalha com desenhos e não com tecelaria? — perguntou em tom brincalhão, tocando em algumas fitas de cabelo penduradas nas laterais do espelho. Eram macias.

— Não mexa nas minhas coisas — Lu deu um tapa na mão dele e o empurrou para longe daquela parte do quarto. Qingshu fingiu não poder lutar contra ele. — E para sua informação, a tecelaria foi meu primeiro emprego!

— Então você faz as próprias roupas?

— Apenas desenho algumas peças que não consigo encontrar do meu gosto e, quando necessário, faço alguns ajustes.

— Uau! Isso é bem impressionante. Essas que você está vestindo, foi você que desenhou?

— O robe e a calça sim. O que você acha? — ele deu uma voltinha, mostrando suas roupas como uma criança que se vestiu sozinha pela primeira vez. Qingshu adorava provocá-lo, mas apesar de ter um conhecimento quase nulo sobre moda, fez um comentário gentil e sincero.

— Está muito bonito. Gostei dos detalhes dourados.

— Obrigado — ele sorriu brilhantemente, juntando as mãos à frente do peito e se curvando levemente.

Qingshu o encarou pensativo, fitando seu rosto. Ele já tinha colocado uma máscara, como normalmente fazia perto de outras pessoas. Notara que ele só saía sem a máscara quando ia assistir o pôr do sol no farol, como um ritual, mas usá-las em outras situações se tornou um hábito que todos haviam se acostumado, mas ainda causava estranheza nele.

Lu era um rapaz jovem e bonito, nunca compreenderia porque ele fazia tanta questão de se esconder atrás de alegorias. A máscara da vez, por exemplo, imitava a face de uma raposa elemental, com cores em tons de laranja e marrom, deixando em descoberto apenas do maxilar para baixo.

— Se maquiar não é um desperdício quando você está sempre com metade do rosto coberto?

O pintor o encarou com certa curiosidade por trás da máscara, as íris escuras atentas aos seus movimentos. Era meio desconcertante não ser capaz de ver as mudanças na expressão dele.

— Só passei um pouco de rouge² na boca, não é nada demais — ele tocou distraidamente sobre o sinal que havia no canto de sua boca, arrastou a unha do indicador sobre ele antes de deixar a mão cair ao lado do corpo. — Queria estar impecável para conhecer o Chanceler Lan.

— Não é necessário se preocupar tanto — Qingshu tentou apaziguar, mas assim que notou o ar distraído do rapaz, não pôde evitar provocá-lo. — Independente do quão bem você se vista, ele vai te achar inferior do mesmo jeito.

— Como é que é?!

Plantando a semente da dúvida, Qingshu caminhou até a porta e ignorou a pergunta dele.

— Se vamos parar na casa do professor Xuan, precisamos sair agora.

Saiu primeiro, direcionando-se até as escadas enquanto escutava os ruídos inconformados daquele pintor. Os passos apressados o seguiram logo depois e, apesar disso, ele parecia estar tomando cuidado para não bagunçar suas roupas ou cabelo. Isso o fez rir, divertido, esquivando-se dele.

— O que isso quer dizer? Chanceler Lan tem uma personalidade ruim? Você acha que ele me despreza? Isso é porque eu sou um ger sem herança familiar? Ling-Ge! Pare de me ignorar!

Quase podia ver as engrenagens na cabeça dele funcionando a todo vapor, barulhentas e desgastadas, tentando pescar qualquer significado oculto por trás de suas palavras. Era bem comum para ele pensar demais sobre tudo, Qingshu já tinha visto esse crânio genial em ação para ter se acostumado, embora, se fosse sincero, essa inteligência social não passava da essência in natura da paranoia.

— Me diga tudo que sabe sobre ele, por favor! Preciso me preparar para qualquer circunstância! — Lu andou ao redor dele como um pavão assustado, os braços agitando as mangas esvoaçantes exatamente como a cauda do pássaro.

— Saber demais tira toda a graça da experiência — continuou desviando o olhar cada vez que ele tentava atrapalhar o seu campo de visão. Era bem cedo e tinham poucas pessoas na rua, mas essa pequena interação era suficiente para chamar a atenção dos transeuntes.

Mesmo que, naquelas roupas, Lu jamais fosse passar despercebido.

Era engraçado, já que ele usava máscaras para ser discreto sobre sua beleza sobrenatural, mas ainda era cheio de manias que o impediam de ser mais discreto que um pássaro macho em época de acasalamento. Observá-lo sempre fazia Qingshu rir, pois encontrava nele o alívio cômico de sua rotina tediosa como soldado.

Sendo um homem maduro, com sua própria carga de experiências, não estava particularmente apaixonado por nada em específico, vivendo um dia por vez como o sol que repetidamente desponta no horizonte apesar do clima que cubra a terra. Seu futuro fora decidido no ventre; ao invés de pincéis, foi educado com espadas. Não conhecia outra finalidade para a própria existência além de cumprir seu dever e não ser uma vergonha para sua família.

Os Ling eram uma linhagem tradicionalmente militar há gerações, se uma criança desta casa fosse homem, apenas o exército a aguardava. Apenas mulheres tinham a opção de escolher outro destino, contudo, não conhecia uma só parente que tenha escolhido outra carreira. Fosse em altas patentes ou cargos administrativos, reuniam-se em torno dessa profissão quase obsessivamente.

Qingshu não se sentia especial ou menos digno por tal herança familiar, na verdade era bem conveniente já que  suas conexões facilitavam sua vida na guarda. Era um trabalho estressante, mas era quase confortável na maior parte do tempo. Não precisava fazer muito, já que suas obrigações tornaram-se naturais para si, apenas os protocolos rígidos podiam ser encarados como desafios de verdade. Vez ou outra tinha a oportunidade de atender algum chamado especial, escutar fofocas enquanto esperava seu empregador, flertar com as servas para ganhar alguns sorrisos e comer na cozinha dos nobres enquanto eles decidiam o futuro da nação na mesa de chá.

Muito tranquilo. Tão tranquilo que o fazia ter dor de cabeça.

Ao ser convocado para fazer a proteção de Lu, o ger recém chegado em Chaosheng Tai, a primeira coisa que lhe fez aceitar o trabalho foi a curiosidade. Assim como qualquer outra pessoa, tinha interesse em saber mais sobre essa espécie extraordinária, que ao contrário de outros híbridos que habitavam a ilha, eram tão raros e misteriosos. 

Lan Wen, o Chanceler, era o único ger que Chaosheng Tai recebeu nos últimos duzentos anos e por ser extremamente reservado e antissocial, pouco se sabia sobre ele. A chegada de Lu trouxe expectativas, pois acreditava-se que através dele seria possível conhecer um pouco mais sobre essa espécie, mas o tempo mostrou que, objetivamente, não havia nada de surpreendente nele. Com exceção de sua personalidade extravagante, ele aparentava ser bem comum, mas apenas à primeira vista.

Trabalhar como sua babá, num primeiro momento, foi bem tedioso. Ao perceber que ele era apenas um garoto qualquer, perdeu o interesse rapidamente. Acompanhando-o todos os dias, no entanto, começou a observar certos aspectos que poderiam passar despercebidos em outras circunstâncias.

Qingshu era filho de Chaosheng Tai e nunca passou muito tempo longe da ilha, entretanto, como um soldado, ele sabia claramente diferenciar nobres, espécies extraordinárias e o povo comum, como ele. Isso não estava relacionado apenas à aparência física ou às posses, mas aos comportamentos, a forma de se comunicar e de se relacionar com as pessoas. 

Lu sustentou uma narrativa de que não tinha família e, por isso, nunca ganhou um sobrenome. Foi um morador de rua e sobreviveu à base de pequenos trabalhos feitos nas docas de Haiji Guan. Quando alcançou a puberdade e começou a liberar feromônios, foi atacado por um cultivador e isso foi o evento que o fez procurar a ilha para se proteger. Qingshu havia feito algumas perguntas para o povo de Haiji Guan nas vezes que viajaram para o continente e comprovou que Lu realmente viveu nas ruas por um tempo, mas nem um único morador local tinha lembranças mais antigas acerca de sua existência.

Isso chamou muito sua atenção, pois percebeu que havia uma enorme lacuna no passado desse pintor.

Qingshu sabia que seu trabalho era apenas afastar os curiosos e garantir que Lu não fosse sequestrado por algum maníaco, mas não conseguia parar de pensar sobre as coisas não ditas que pairavam ao seu redor.

Talvez pela raiz de seu trabalho, tornou-se muito bom em ler as pessoas e podia ver através dele com facilidade. Uma pessoa que chegou há pouco tempo em Chaosheng Tai; um ger sem sobrenome com um passado oculto e habilidades artísticas incomparáveis; um rapaz jovem que insistia em esconder o próprio rosto apesar de estar na cidade mais segura do continente e além… 

Com tanta habilidade e inteligência, era difícil acreditar que esse rapaz tratava-se apenas de um indigente sem estudo prévio ou cultura. Alguém que saiu das ruas diretamente para trabalhos de manufatura, mas que de alguma maneira tinha um talento fantástico para as artes.

Qingshu riu soprado, cruzando os braços enquanto caminhava pelas calçadas da sua cidade natal.

— Estou com fome — o objeto de seus pensamentos soou resmungão ao seu lado, as mãos elegantes de dedos esguios tocaram o abdômen plano, o movimento fez suas joias tilintarem ao se chocarem umas nas outras. Como um presságio.

— Não temos muito tempo. Compre alguma coisa e coma enquanto andamos.

— Não vou comer andando — crispou os lábios com desgosto. — Até os animais param para comer.

— As baleias se alimentam em movimento.

— Eu não sou um animal marinho!

— De fato — lhe lançou um olhar enviesado e um sorriso de canto, tocando no queixo distraidamente. — Você é um animal aéreo. Um quetzal-resplandecente³.

— Por acaso você está falando daquele passarinho verde vibrante? — apenas encarando o sorriso contido do soldado, o pintor soube a resposta. Ele era muito sagaz. — Você é ridículo…

Qingshu riu com vontade, jogando um braço sobre os ombros dele.

— Por quê? Vocês até vestem a mesma paleta de cores!

Gargalhou alto, escutando os resmungos alheios que escondiam o quanto ele queria rir também, mas se recusava a dar o braço a torcer.

Enquanto se divertia, notou irreflexivamente que apesar de terem a mesma altura, suas estruturas físicas eram muito diferentes. Ele nem se referia ao tom de pele, já que sua família vinha de uma linhagem retinta de olhos oblíquos, mas às dimensões corporais. Os ombros de Jiang Lu eram estreitos, seus músculos naturais eram cobertos por uma pequena camada de gordura que lhe dava volume nos braços e pernas.

Às vezes até esquecia que ele era um ger, porém rapidamente se recordava ao visualizar a proporção do quadril – que era largo – e da cintura – que era fina. Também havia o contraste entre suas mãos, a textura da pele, a forma de caminhar e até o tom de voz. Mesmo quando estava agressivo, o pintor parecia silencioso e elegante como uma cobra, enquanto Qingshu parecia um urso faminto.

Olhar para o Lu ao seu lado e pensar que ele viveu nas ruas batendo carteiras era inacreditável.

Qingshu sabia melhor do que ninguém a diferença que existia entre as diversas classes sociais de MuYin. Espécies extraordinárias tinham características sobre humanas, os nobres possuíam a polidez de um diamante real, os camponeses possuíam um olhar rude, e o povo comum desenvolvia feições eternamente cansadas.

Camponeses não se tornavam nobres mesmo que conseguissem comprar um título. Porque não nasciam e eram criados como um, não tinham os mesmos conhecimentos, não frequentavam os mesmos lugares, não comiam a mesma comida, não enxergavam o mundo através dos mesmos olhos.

Um pintor com ar nobre e etéreo não podia ser criado em míseros três anos de dedicação, força de vontade e alguns livros. Essas pessoas nasciam assim, cresciam assim e, mesmo que se perdessem em algum momento, encontrariam o caminho de volta aos seus lugares de direito.

— Você jura que engana alguém, Xiao Lu — Qingshu o soltou após parar de rir, satisfeito com sua autorreflexão. Bem, o tempo de descanso acabou, era hora de assumir seu posto como soldado e, com isso, trazer de volta sua característica expressão entediada.

Lu o encarou com curiosidade.

— Do que exatamente você está falando?

— Esse seu ar exótico e meio louco pode enganar outras pessoas, mas não a mim. Sei que por trás da sua falta de lucidez, existe uma mente cruel e sorrateira.

Não precisou esperar mais de dois segundos para começar um novo rompante.

— Exótico é o seu rabo! Quem você está chamando de louco? Teste minha paciência novamente e colocarei larvas nos seus ouvidos quando estiver dormindo! Quanta falta de respeito!

Não prestou atenção em mais nada do que ele disse, e ele falou muitas coisas durante todo o trajeto que faltava até a casa de Xuan Yehao.

Qingshu odiava trabalhar, mas se divertia muito trabalhando.


𖥟


 

 

Caminharam até a casa de Xuan Yehao como planejado, não demorando muito para chegarem frente a uma casa de madeira de dois pisos perto do centro estudantil, cuja fachada exibia uma varanda cheia de plantas no segundo andar. Xuan Yehao os recebeu assim que bateram na porta, acenando para Qingshu e dando um beijinho superficial nos lábios de Jiang Lu. De canto de olho, notou seu guarda revirando os olhos e fingindo vomitar.

Só podia ser inveja.

— Entrem. Estou me arrumando para o trabalho, mas vocês podem ficar à vontade — Xuan-Ge abriu espaço para ele, mas apenas Lu atravessou a soleira.

— Preciso ir no dormitório buscar minha espada e direcionar a carruagem que nos levará ao nosso destino, então vou recusar sua hospitalidade, Lao Xuan — Qingshu se curvou suavemente com a mão direita sobre o peito, desculpando-se.

— Ah, sem problemas! Mas se me permite perguntar, para onde vocês vão que se faz necessária uma carruagem?

— Vamos ver o-

— Reunião de rotina com o Sr. Jin — Qingshu interrompeu Jiang Lu sem muita brusquidão, como se não tivesse sido de propósito. Jin era o empregador de Jiang Lu, aquele que fazia o contato entre ele e os responsáveis pelos projetos artísticos que pegava. Eles tinham reuniões regulares, mas nada marcado para aquela semana. Então rapidamente entendeu que precisava manter a natureza do seu encontro com Lan Wen em segredo. — Perdoe-me interrompê-lo, Xiao Lu. Você dizia…?

Os dois o encararam, Xuan Yehao parecia curioso, um pouco desconfiado do corte que o soldado fez em suas palavras. Lu sentou no sofá da sala dando de ombros.

— Só ia comentar sobre o Sr. Jin. Ele sabe que projetos artísticos demoram, mas insiste em ficar me chamando em curtos intervalos de tempo para saber do progresso.

— Ele é um gerente financeiro, não entende nada sobre processo criativo — aparentemente satisfeito com a explicação, Xuan Yehao deixou Qingshu ir sem mais perguntas, fechando a porta da frente. Ele voltou a andar pela sala, organizando alguns livros e objetos pessoais em uma bolsa de couro. — Está tendo algum problema com o trabalho? Você parece cansado.

— Não consegui dormir direito esta noite, estava tendo algumas ideias, mas me falta inspiração para desenhar.

— Mas são apenas pedras, qual a dificuldade em desenhá-las? Você já ilustrou coisas muito mais difíceis.

Apesar da boa intenção do outro, o comentário fez uma veia de irritação saltar em seu pescoço. Entendia que Xuan Yehao só estava tentando animá-lo fazendo o problema parecer menor, mas falar assim parecia falta de respeito com seu trabalho. Esse não era o motivo real da sua insônia, porém ainda se sentia indignado com o descaso.

— Não são apenas “pedras” — fez aspas com os dedos. — Os cristais espirituais têm cores, formatos e tamanhos variados. Cada um desses aspectos conta um pouco sobre as propriedades mágicas que eles possuem. Não posso encarar isso levianamente, principalmente quando esses desenhos vão para um guia ilustrado.

Xuan-Ge lhe lançou um olhar de canto, sua expressão era estranha enquanto arrumava os botões do seu terno tang azul escuro.

— O que é? — ficou desconfortável com o silêncio dele, então questionou com um suspiro. — Conheço esse olhar, você quer me dizer alguma coisa.

Ele colocou a mochila nas costas e caminhou até Lu, abaixando-se para lhe dar outro beijo nos lábios. Jiang Lu o recebeu bem, mas não retribuiu com entusiasmo demais porque não queria dar brecha para a mudança de assunto. Xuan Yehao notou isso e se afastou com um bufar irritado.

— Você se leva a sério demais, A-Lu. Tente relaxar, é um trabalho tranquilo, não precisa se cobrar tanto.

Os dedos alheios tocaram seus cabelos com cuidado para não bagunçar, acariciando os fios. Com a proximidade, notou o perfume que vinha dele, alguma fragrância floral com notas refrescantes. Ele cheirava bem, seu olhar mudou para algo mais suave e amável, e seu toque era familiar como sempre.

Um sentimento desconfortável surgiu ao lado de seu coração, mas o ignorou. Suas mãos tocaram na cintura macia dele, apertando a carne farta com pouca força. Encarou-o em silêncio por alguns instantes, feliz de que sua expressão não podia ser lida por trás da máscara. Inclinou-se para cima e buscou seus lábios, beijando-o com parcimônia. Seus lábios deslizaram um sobre o outro com calma, tinha gosto de menta do creme dental de Lu e alecrim do chá que Xuan-Ge tomou ao acordar.

Acabou na mesma quietude em que começou e, como sempre, Xuan Yehao sorria de forma boba ao se separarem, com as bochechas coradas e a respiração ofegante. Ele lhe deu outro selinho antes de se afastar de vez, com um humor renovado.

— Agora você parece um pouco mais consigo mesmo, sabia? — ele disse em tom manso, parado a alguns passos de distância. — Quando você fica muito sério sobre algo, é meio… Não você, eu acho.

— Como assim?

— É diferente.

— Diferente como?

Ele hesitou, mas respondeu com honestidade.

— Meio desconfortável. Quando está sério demais ou envolvido demais, é muito difícil ficar perto de você. Prefiro quando você é brincalhão, me irrita um pouco, mas soa melhor.

Diante dessa explosão de sinceridade, Jiang Lu ficou até sem saber o que dizer. Sorriu de maneira afetada, com um monte de palavras na boca, porém sem conseguir montar frases com elas.

— Tente não dar ouvidos ao que Ling Qingshu diz, ele não é uma boa influência — Xuan Yehao caminhou em direção à porta. — Preciso ir agora, mas você pode ficar à vontade, só não esqueça de fechar a porta quando sair.

— Eu vim buscar meu relógio… — disse com certa hesitação, encarando-o enquanto este calçava os sapatos.

— Huh, isso… É verdade. Está em cima do meu criado mudo, lá no quarto. Pode pegar — já pronto, Xuan Yehao abriu a porta, mas acenou antes de partir. — A propósito, adorei seu novo corte, se deixar o cabelo crescer mais atrás, vai ficar lindo. Agora tchau! Boa sorte com o Sr. Jin.

Ele bateu a porta antes que Lu pudesse responder, deixando aquele ar estranho para trás, para que o rapaz lidasse com isso sozinho. Sentia-se meio desnorteado, como se a conversa tivesse sido uma avaliação não solicitada da sua personalidade – e ele ganhou três estrelas no máximo.

Recostou-se no sofá e encarou o teto, lembrando com clareza das críticas despretensiosas do outro. Xuan Yehao era uma pessoa muito metódica. Por ser um erudito, era bem exigente e tinha uma visão muito pragmática do mundo. Jiang Lu constantemente o admirava por sua inteligência e desenvoltura, não por educação, mas porque realmente se sentia assim. Contudo, como sempre foi um artista e veio de um mundo onde a arte é desvalorizada em todas as suas nuances, ainda se sentia indignado quando qualquer menção à diminuição de seu valor era feita.

Independente do teor de seu trabalho ou do destino de suas obras, a pintura era sobre transmissão de ideias, conhecimento, simplificação de conceitos complexos, mas principalmente sobre emoção. Se ele desenhava uma pedra ou uma raposa de nove caudas cuspindo fogo, era irrelevante, era o processo e a intenção por trás dela que faziam o seu trabalho ser mágico e inspirador.

Tentou não pensar sobre isso, porque não era a primeira vez e dificilmente seria a última vez que isso aconteceria. Se fosse discutir cada coisinha, nunca teria paz. Realmente apreciava a companhia de Xuan Yehao e não queria perder os bons momentos por eventos insignificantes. Preferia acreditar que o conflito só existia na própria cabeça, já que ele era aquele que pensava demais.

— Que seja.

Levantou-se do sofá e foi explorar a casa, como normalmente fazia quando estava ali. Parecia uma biblioteca, com livros em toda parte, iluminação baixa e incensários espalhados estrategicamente ao longo dos cômodos e corredores. Subiu as escadas para o segundo andar e seguiu direto até o quarto para pegar seu relógio e deixar o dele no lugar. Deveriam ter trocado na última vez que dormiram juntos, o que tentava evitar porque apesar de ser íntimo de Xuan-Ge, não se sentia confortável de dividir seus objetos pessoais com ele e nem com ninguém.

Eles tinham esse tipo de relação onde a amizade virou algo íntimo demais que não podia ser nomeado. Ainda assim, entre eles, Jiang Lu era o menos engajado na ideia de evoluir para algo a mais. Xuan-Ge dava pistas o tempo todo de que queria dar mais um passo, contudo, não parecia correto. Era bom do jeito que estava, para que mudar?

Por isso, não gostava de trocar roupas, acessórios ou bolsas. Vestiam números diferentes, para começar, sendo bem mais alto que ele e possuindo um estilo totalmente diferente. Além disso, estava a questão de que não gostava de ficar tempo demais na casa dele, porque sentia que estava dando um passo maior que a própria perna no instante em que se percebia acordando ao seu lado.

Lu sentia que dançava dentro dessa relação, dando um passo para frente e dois passos para trás a fim de manter o equilíbrio.

Na tentativa de fugir dos próprios pensamentos, decidiu pegar alguns livros emprestados e começou a procurar algo interessante nas dezenas de prateleiras e estantes daquele lugar. Passou direto pelos livros da Lao Hu, pois já havia lido todos os verdadeiramente bons e não estava mais interessado em fantasia erótica. Seu interesse na mitologia local estava maior ultimamente, então procurou por títulos relacionados ao tema. Por conhecer a maneira como Xuan Yehao organizava as estantes, rapidamente encontrou a seção que queria no primeiro andar, na prateleira perto da escada.

Leu as palavras nas lombadas até encontrar um exemplar que, apesar de parecer desgastado pelo tempo, não tinha muitos sinais de uso. Puxou-o para verificar o título e, após abrir, logo na primeira página, deparou-se com a figura de um dragão chinês escondido entre nuvens preto e branco.

— “Almanaque de contos do Além-Mar” — murmurou o título, curioso. O autor se chamava Zhuo Shan, ou apenas Lao Zhu. Tinha lido uma obra dele quando pesquisou referências surrealistas das paisagens continentais, ele escrevia narrativas complexas sobre o folclore local e algumas das principais lendas da mitologia de MuYin. Tinham versões mais simples desses contos, voltados para o público infanto juvenil, mas Jiang Lu gostava da densidade na escrita desse autor em específico.

Na expectativa de ler um pouco mais das obras dele, pegou outro livro da estante que levava seu nome, notando que ela também não tinha marcas de uso.

— Acho que ele não faz muito o estilo de Xuan-Ge — segurou os livros com cuidado e voltou para a sala, observando os detalhes da capa. — “Coletânea de sonhos ultramarinos”. As ilustrações são tão bonitas… Caramba…

Ele passou os dedos sobre o relevo da capa do segundo livro, notando que era uma versão cheia de detalhes especiais na diagramação. Haviam muitas ilustrações com cenas complexas e criaturas místicas representadas em diversos tons de aquarela. Ao contrário do primeiro livro, que tinha apenas algumas ilustrações em preto e branco no interior, este definitivamente era uma edição especial de colecionador. Manteve em mente que precisava ter cuidado redobrado com ele.

Duas batidas na porta o fizeram correr até ela. Ling Qingshu surgiu diante de si com o uniforme militar cerimonial completo, com expressão estoica e cabelo penteado para trás com gel. A espada na cintura dele, no entanto, não parecia ser de enfeite.

— Vamos, estamos quase atrasados.

Jiang Lu saiu da casa e trancou a porta, empurrando a chave reserva de volta para dentro por baixo dela.

— Você falou que me arrumei demais, mas você está com um traje cerimonial. Tem algo a dizer sobre isso?

— Sou hipócrita.

O soldado abriu a porta da carruagem com uma mesura, para que Jiang Lu entrasse, sorrindo do contraste entre seu comportamento polido e palavras sarcásticas. 

— Chegaremos em dez minutos — avisou antes de fechar a porta.

— Muito bem.

Por protocolo, Lu foi sozinho no interior do veículo e Qingshu foi na frente, ao lado do cocheiro, então não puderam conversar mais no caminho. Provavelmente, só conversariam novamente quando retornassem, pois para onde iriam, existiam inúmeras regras a serem seguidas para manter as aparências e só pensar sobre isso o deixava estressado.

De repente, todos os seus problemas com Xuan Yehao pareceram insignificantes. Difícil mesmo era o que estava por vir.


𖥟


O Chanceler Lan Wen o convidou para se encontrarem, a despeito de todas as expectativas, em sua mansão nos arredores da cidade.

A julgar pela fama que esse homem tinha, Jiang Lu se surpreendeu bastante com isso, pois a princípio parecia impossível vê-lo aceitando um desconhecido na própria casa. Contudo, após lembrar do conteúdo de true crime que consumiu na sua vida passada, ponderou que esse era o arranjo correto, pois ele estaria em seu domínio e se sentiria mais à vontade para fazer o que bem entendesse com ele.

Um arrepio atravessou sua coluna.

Chaosheng Tai era uma ilha de grande expansão territorial, com a área dos portos no lado oeste, seguido da cidade do centro ao sul, um abismo rochoso no lado norte e um grande condomínio residencial em meio aos campos do lado leste, para onde estavam indo. Esse condomínio ficava afastado da grande metrópole, subindo um morro pela estrada de chão que o atravessava. Era uma área arborizada, cujo trajeto era ladeado por uma floresta de árvores altas e vegetação rasteira.

Abrindo a janela que separava o interior da carruagem dos assentos do condutor, Ling Qingshu fez alguns comentários para apresentar as espécies locais durante a viagem. Ele sempre fazia isso, o que Jiang Lu gostava bastante, pois além de ter várias informações novas e interessantes sobre a natureza, conseguia ouvir a animação rara na voz de Qingshu, que parecia uma espécie de biólogo reprimido.

A floresta de araucária, segundo ele, tinha árvores com mais de cem anos, por isso eram tão grandes. Os animais nativos eram principalmente roedores, pequenos pássaros, raposas e o animal emblemático da cidade: o cervo. Haviam outras espécies, mas em menor quantidade, pois teriam sido trazidas do continente para a ilha no passado.

Como ainda não conhecia aquela área da cidade, ouviu tudo com paciência.

Passaram por algumas plantações de trigo e soja antes de chegarem à uma bifurcação, quando Qingshu fechou a divisória e silenciou a viagem novamente. Dobraram para a esquerda e pouco depois chegaram numa pequena praça de visual bucólico com uma estátua de um guerreiro em seu cavalo talhado em mármore, ladeada por pequenas casas de pedra e algumas tendas com verduras e frutas para venda. Havia um fluxo muito baixo de pessoas por ali e a julgar pelas suas vestimentas, eram trabalhadores dos campos ou das mansões da região.

Se deslocaram por mais algum tempo através da rua de chão batido que se distanciava do pequeno vilarejo, até pararem frente a um grande portão branco com arabescos nas extremidades, criando um aspecto fantasioso ao combinarem com as flores brancas da cerca viva que circundava a propriedade. Observou pela janela com curiosidade e certo fascínio quando, ao adentrarem os portões, seguiram em direção a mansão do chanceler.

O caminho de ladrilhos era rodeado por canteiros de flores e arbustos podados em formatos de animais. Mais adiante, à sua esquerda, havia um lago de água cristalina cheio de peixes coloridos que quase brilhavam sob a luz do sol. Mais à frente, próxima à entrada da grande construção que coroava a propriedade, uma fonte jorrava continuamente, criando um arco-íris iridescente no jardim.

Quando estacionaram e a porta da carruagem se abriu, Jiang Lu desceu quase imediatamente, controlando a vontade de ir observar as flores mais de perto. Além da vegetação que ele já conhecia, havia muitas espécies de plantas e animais específicos de Chaosheng Tai que não eram vistos na cidade, principalmente aqueles que tinham alguma propriedade mágica ou característica diferente do mundo de onde veio. Era uma pena não poder parar para apreciar mais um pouco.

— Seja bem vindo, nobre convidado. Sou Cai Xing, mordomo da família Lan, a quem vossa senhoria pode se dirigir ante qualquer necessidade — um senhor aproximou-se deles, trajando um terno de três peças, com tecido escuro de linho e um broche laranja vibrante sobre o lenço em seu colarinho. Ele os cumprimentou com ar tranquilo, como a brisa fresca que os rodeava. 

Aproximaram-se da entrada, ouvindo a carruagem afastar-se para o outro lado da mansão.

— É uma honra conhecer o Chanceler Lan e sua família — Jiang Lu usou seu tom profissional e amigável, sorrindo discretamente para o mordomo. — Agradeço desde já pela hospitalidade, Sr. Cai.

O Mordomo Cai curvou-se educadamente para ele.

— Meu mestre o aguarda, Sr. Lu — com um floreio, o homem se ergueu novamente e abriu a porta. — Por favor, me acompanhe.

Por ser um guarda, a existência de Ling Qingshu foi ignorada nesse primeiro momento, mas estavam acostumados a esse tipo de formalidades. Já conhecera muitos membros da alta sociedade de Chaosheng Tai, então aprendeu a lidar com isso. Era algo com o que estava familiarizado desde sua vida anterior, essas regras sociais estúpidas que só serviam para complicar as relações humanas. Apesar de não gostar disso, a verdade era que esse aspecto do mundo era a coisa mais familiar para Jiang Lu.

Seguindo as orientações do mordomo, Jiang Lu atravessou a soleira e caminhou pelo vestíbulo em direção ao salão principal, observando com discrição os elementos que compunham a arquitetura daquele lugar. Analisando como uma pessoa chinesa, esta mansão tinha mais características européias do que asiáticas, com colunas de gesso, tetos altos boleados, vitrais coloridos em alguns pontos estratégicos do salão e piso polido. As paredes tinham uma cor branca fosca e o piso era marrom avermelhado.

A arquitetura em si era simples, mas foi fácil notar qual era o foco principal daquele lugar: a arte. Haviam quadros dos mais variados tamanhos dispostos em pontos estratégicos das paredes apáticas, cujas pinturas complexas exibiam paisagens diversas, uma arte conceitual que usava tons sóbrios em sua composição principal e adicionava efeito de luz resplandecente em detalhes específicos da tela.

Jiang Lu ficou maravilhado, incapaz de esconder sua surpresa ao contemplar a técnica de algumas obras, que dispensava contornos delimitados e fazia com que o cenário parecesse borrado, encarado através de um vidro embaçado. Por ter sido inicialmente um pintor de arte conceitual antes de transmigrar, fez notas mentais para tentar técnicas semelhantes no futuro e resgatar essa paixão.

Ficou tão imerso em suas divagações, que seguiu todo o percurso indicado pelo mordomo sem prestar atenção onde estava pisando. Havia atravessado o salão e subido a escadaria principal encarando apenas as artes dispostas em todo lugar e apesar de haverem muitas, a decoração não parecia opressiva de jeito nenhum. Era o paraíso.

Quando se percebeu, estava parado diante de portas duplas na cor verde água, feitas de cristal e enroladas em um metal dourado que dava sustentação. Suspirando com surpresa, notou como o mordomo, parado ao seu lado, tinha o canto dos lábios para cima discretamente, como se estivesse satisfeito com sua reação.

— O Mestre Lan o aguarda em seu estúdio, Sr. Lu — ele disse de maneira polida, com o olhar inclinado. Por ser mais alto que ele, Lu não conseguia ver muito de suas expressões.

— Ah, sim… — piscou algumas vezes, confuso, olhou ao redor e notou que só estavam eles dois ali. — Onde está meu guarda?

— O guarda pessoal do Sr. Lu está acomodado na área adequada para aguardá-lo, caso alguma emergência surja, ele aparecerá imediatamente. Porém, não há motivos para se preocupar, esta mansão é totalmente segura.

— Hum… Entendi.

Apaziguando suas preocupações, o Mordomo Cai acenou para ele e empurrou a porta suavemente, parando no batente com metade do corpo para fora. Ele encarou para dentro do cômodo, mais especificamente para um ponto que Jiang Lu não conseguia ver de onde estava.

— Mestre Lan, seu convidado, o Sr. Lu, está aqui.

Após ser anunciado, houve uma pequena pausa nas ações do mordomo, um breve silêncio que trouxe consigo o cheiro agridoce de canela com notas cítricas de limão. Era estranhamente refrescante e envolvente, mas causava uma coceira fantasma na ponta do nariz, por estar misturado ao cheiro acre de fumaça no final.

Isso fez um certo incômodo surgir em seu peito, mas respirou fundo e se acalmou antes de tirar qualquer conclusão. Já estava nervoso o suficiente.

— Convide-o para dentro, Sr. Cai — um tom grave e aveludado soou pouco depois e, por algum motivo, isso fez os pelos do corpo de Jiang Lu arrepiarem. Era como a primeira nota de uma música, a introdução para uma melodia sentimental e melancólica.

Quando o mordomo lhe deu espaço para entrar, curvando-se respeitosamente outra vez, Jiang Lu conteve a curiosidade para não entrar afobado e passar vergonha. Antes mesmo de olhar para frente, inclinou-se de olhos fechados para cumprimentá-lo, com um gesto premeditado e protocolar.

— Muito prazer em conhecê-lo, Chanceler Lan. Meu nome é Lu. Gostaria de agradecê-lo pelo convite, sua residência é deveras agradável aos olhos. Estou encantado… — ergueu o olhar enquanto falava, deparando-se com o misterioso anfitrião. Sua voz se perdeu no mesmo instante — … com a sua beleza.

Um sorriso discreto coroou os cantos dos lábios alheios, o movimento foi hipnotizante e não conseguiu desviar os olhos dele. O Chanceler ermitão não era o que Jiang Lu esperava, era muito mais.

Era fato que os gers eram conhecidos, para além dos feromônios, por sua beleza sobrenatural, mas essa pessoa estava acima de qualquer expectativa. Considerando suas existências, Jiang Lu pensou que, como um ger, havia um infinito entre ele e Lan Wen.

Ele não era apenas lindo, era idílico como um sonho materializado.

Lhe roubou o fôlego.

Então, esse é um ger de verdade…

 


 

[1] Terno tang — Uma jaqueta de gola mandarim com botões na frente.

[2] Rouge — Pigmento vermelho que pode ser usado nas bochechas para dar aspecto corado e, por vezes, nos lábios.

[3] Quetzal-resplandecente — Pássaro pequeno nativo de florestas tropicas. Tem plumas verdes iridescentes, peito e barriga vermelhos, asa interior preta e cauda branca. *vide google imagens.

Capítulo 09
Fonts
Text size
AA
Background

Dragão de Prata: 不道德的修炼之路

2.7K Views 9 Subscribers

Jiang Lu era um adolescente viciado em histórias xianxia, sempre procurando um novo livro para ler e devorando quase todas as narrativas de seu site favorito. Quando conheceu a novel...

Chapters

  • Corrente oceânica do coração
      • Dragão de Prata
        Capítulo 12 Muito encanta aquele perigoso olhar vicioso
      • Dragão de Prata
        Capítulo 11 O preço da curiosidade
      • Dragão de Prata
        Capítulo 10 Nada é mais familiar que a dor
      • Dragão de Prata
        Capítulo 09 Infinito entre nós dois
      • Dragão de Prata
        Capítulo 08 Teia do destino
      • Dragão de Prata
        Capítulo 07 Aquele que encara o horizonte
      • Dragão de Prata
        Capítulo 06 Escute as batidas e conte até dez
  • Com a lua como testemunha...
      • Dragão de Prata
        Capítulo 05 A fragância do luar
      • Dragão de Prata
        Capítulo 04 A arrogância mancha o coração puro
      • Dragão de Prata
        Capítulo 03 Sob a luz de um novo mundo
      • Dragão de Prata
        Capítulo 02 As águas do Rio Estígio criam o orvalho da manhã
      • Dragão de Prata
        Capítulo 01 Nunca zombe de um ventríloquo

Login

Perdeu sua senha?

← Voltar BL Novels

Assinar

Registre-Se Para Este Site.

Leave the field below empty!

De registo em | Perdeu sua senha?

← Voltar BL Novels

Perdeu sua senha?

Por favor, digite seu nome de usuário ou endereço de e-mail. Você receberá um link para criar uma nova senha via e-mail.

← VoltarBL Novels