Capítulo 10
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- Capítulo 10 - Nada é mais familiar que a dor
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Suspirou pela milésima vez, com o olhar desfocado e os movimentos letárgicos de alguém que não teve mais de meia hora de sono na noite anterior.
— Estamos chegando, Vossa Alteza. Por favor, pare de suspirar.
Wang Zhiyuan ouviu a voz do Oficial Chefe do Pavilhão do Imortal Santificado de maneira ausente, como se viesse de muito longe, como o sussurro do vento. As costas largas do homem mais velho se estendiam frente a ele com ombros tensos e braços rígidos, seu uniforme cerimonial azul escuro farfalhava a cada passo, com o robe externo esvoaçando ao seu redor com o movimento. Apesar da roupa inapropriada para a batalha, a espada na cintura dele era verdadeira.
Era natural que houvesse pequenas adequações nas vestimentas após a noite conturbada que tiveram.
— Não estou suspirando — Zhiyuan disse em tom ameno, notando como o outro lhe lançava um olhar breve sobre o ombro.
— Creio que tenha sido impressão minha, então.
— Concordo.
O clima era frio apesar do sol estar alto no céu, criando contraste entre a iluminação intensa e a brisa gélida que os rodeava e se infiltrava sob suas roupas. Zhiyuan havia trocado o uniforme militar para um traje cerimonial algumas horas antes, um conjunto de três peças com calça preta, camisa de gola cruzada na cor branca e um robe de mangas longas na cor preta, com bordados dourados na bainha.
Em sua cabeça, um mian guan de oito borlas escondia seu cabelo, que fora preso em um coque. Estava sem a espada e os braceletes de prata que sempre usava nos pulsos estavam escondidos sob as mangas. Era desconfortável usar esse tipo de roupa, principalmente a coroa, pois os enfeites eram pesados e incomodavam a visão. No entanto, fazer parte da Cidade Imperial incluía se submeter aos protocolos de vestimenta.
Principalmente quando lembravam que ele também era um príncipe.
— Está sentindo algum incômodo, Vossa Alteza? — a voz de Su Xuelin encheu seus ouvidos em um tom baixo e discreto. Ao contrário do tom barítono e cortante do Oficial Chefe, Xuelin tinha um timbre suave e quase melódico, que de alguma maneira acalmava Zhiyuan.
— Apenas um pouco de frio — respondeu de maneira concisa, mantendo a postura e o olhar em frente.
Por ser seu imediato direto e guarda pessoal, Xuelin o acompanhava em todas as suas obrigações desde que subiram de patente. Huaijin também recebera essa tarefa na infância, mas ao se tornar um oficial ao invés de assumir deveres administrativos, o cargo perdeu a importância. Devido a sua genialidade, foi alocado na guarda do Ministro dos Ritos, enquanto Xuelin o seguiu para a equipe de contingência.
Era um resultado esperado, na verdade. Xuelin sempre foi chamada de sua “sombra” por algum motivo.
— Informarei às servas que renovem seu guarda roupa — informou ele, parecia um pouco irritado, talvez porque se preocupava demais com o bem estar do outro. — Estamos no final do outono, o clima vai ficar pior daqui pra frente.
Zhiyuan queria dizer que isso não era necessário, pois os soldados precisavam estar preparados para lidar com o frio, mas não quis atormentar ainda mais o coração alheio. Olhando para a própria aparência, lembrou de qual posição estava ocupando naquele momento e apenas concordou, resignado.
— Faça isso.
Continuaram caminhando, seguindo o Oficial Chefe com certa apatia. O percurso foi silencioso, pois toda a cidadela encontrava-se de luto pelas dezenas de mortos sendo cremados no pátio mortuário. Não encontraram ninguém no caminho, apenas o ruído dos pássaros que, alheios às suas questões, cantarolavam alegremente para a passagem do tempo.
Cedo naquela manhã, após passar a noite em claro pensando sobre tudo que tinha acontecido, recebeu o comunicado de um eunuco, alertando que o Imperador o aguardava para uma reunião ao meio dia. Junto ao comunicado, foi instruído sobre suas vestimentas e desencorajado a faltar ou se atrasar.
Era óbvio que o Filho do Céu não o deixaria tranquilo enquanto o mundo inteiro desabava ao redor dele.
Por esse motivo, estava sendo guiado para a Alcova do Dragão, fantasiado de príncipe, pois nunca viveu esse título desde que podia se lembrar. Eram poucas as vezes que podia colocar uma coroa na cabeça como o Príncipe Herdeiro fazia, essas ocasiões sendo decididas arbitrariamente pelo desejo do Imperador.
Tinha a sensação de que ele fazia isso para o próprio ego, a fim de humilhar e estabelecer um limite ainda mais rígido entre ele e seu filho menos amado. Zhiyuan tinha péssimas lembranças das últimas vezes que colocou um mian guan na cabeça, acompanhadas de um suor frio que desceu por sua nuca.
O medo era uma reação primitiva e inevitável, ocupava um lugar profundo dentro de alguém e se nascesse na infância, nunca morria enquanto a pessoa continuasse existindo. Era desesperador.
Controlou a vontade de suspirar novamente, porque de tanto pensar sobre tudo, estava sentindo dor de cabeça.
Sequer precisava alimentar tais preocupações, porque ser chamado para uma reunião com o Imperador logo após a longa discussão entre ele e seus ministros não poderia significar coisa boa. Já estava acostumado a esperar o pior. O Filho do Céu não era misericordioso e não agia deliberadamente por causa do sangue que compartilhavam, muito menos quando se tratava de Zhiyuan.
Um arrepio estranho atravessou sua coluna.
— Não consigo imaginar um bom motivo para Vossa Majestade Imperial ter convocado Vossa Alteza tão repentinamente — Xuelin falou novamente após alguns minutos de silêncio, em um tom bem mais baixo dessa vez. — Isso me deixa ansioso… Deveria avisar nossos outros soldados para ficarem de prontidão?
Zhiyuan ergueu uma mão com a palma para cima, em um sinal de “pare”, no entanto, apesar do gesto abrupto e olhar indiferente, suas palavras eram compassivas.
— Não se angustie, deixemos que o rio siga a corrente natural e nos leve até o nosso destino — seu tom era monótono. O Oficial Chefe poderia ouvi-los e mesmo que não estivesse suficientemente interessado para prestar atenção, preferia não expor os próprios pensamentos assim.
— As fortes chuvas têm mudado esse fluxo ultimamente, fazendo o rio transbordar e devastar as circunvizinhanças. Isso não seria motivo de preocupação? — seguindo a analogia do príncipe, Xuelin comentou com tom preocupado. Era natural para eles usarem metáforas para dialogarem assuntos sérios.
— É diferente quando você já está preparado para isso — Zhiyuan voltou a colocar ambas as mãos para trás, em uma postura perfeita. — Se souber nadar, pode se salvar.
— A correnteza é forte demais, Vossa Alteza. Qualquer pessoa seria arrastada e destruída por ela!
O Oficial Chefe parou de caminhar, fazendo-os parar o passo também.
— Com calma, em momentos de crise, mesmo que o rio transborde e a correnteza te arraste, é possível resistir se, ao invés de lutar contra ela, você siga pelo mesmo caminho — ele disse de maneira grave e meio afetada. Isso os surpreendeu, pois o conheciam, sabiam que ele não era um homem de dar conselhos levianamente.
— Então é impossível lutar contra ela? — Xuelin perguntou de maneira ousada, mas mantendo o respeito na voz.
O Oficial Chefe encarou os dois por alguns instantes, então desviou o olhar.
— Se você é mais fraco que a correnteza, lutar contra ela é estupidez. Aceite o seu destino ou fique mais forte.
Ele voltou a caminhar, encerrando a conversa unilateralmente.
Zhiyuan observou-o com um ar reflexivo, analisando suas palavras. Conhecia o caráter desse homem, afinal, conviveu mais com ele do que com o próprio pai, então sabia muito bem que caminho seguir para interpretar esse conselho. O Oficial Chefe era um líder exímio, um homem sábio e uma figura de poder entre os cultivadores que serviam à coroa. No Pavilhão do Imortal Santificado, o que ele dizia era lei absoluta, pois refletia a sabedoria taoísta frente a luz da vontade do Filho do Céu.
O admirava muito e apesar de vê-lo como alguém tão preso quanto a si mesmo, Zhiyuan tomou essa reflexão de maneira positiva.
Lembraria disso no futuro.
— Chegamos — o Oficial Chefe anunciou mais tarde, quando pararam diante dos portões que circundavam o estúdio pessoal do Imperador. Frente a eles, muros de pedra se erguiam ao redor de um portão de madeira, cujo centro possuía um dragão talhado em alto relevo, e seus olhos brilhavam com duas pedras de rubi.
Zhiyuan deu um passo à frente e tocou sobre os detalhes do mesmo.
Um nó apertou em seu estômago.
— Irei esperá-lo aqui fora, Vossa Alteza — Xuelin mantinha o olhar alto, mas uma ruga de preocupação distorcia suas feições.
Zhiyuan o encarou por alguns instantes, ele tinha um rosto de feições suaves, olhos grandes e brilhantes, íris esverdeadas com raias azuis e lábios pequenos. Seus cabelos estavam trançados para conter o volume, a pele oliva ruborizada pelo frio e os dedos calejados da mão direita, apoiados firmemente contra o cabo de sua espada. Por um instante, sentiu-se insatisfeito com o que via.
Olhou-o da cabeça aos pés, vestindo o uniforme preto que parecia folgado em seu corpo magro, e virou-se para frente novamente, empurrando a porta.
— Não se faz necessário — sua voz soou um pouco mais alta que o normal, embora ainda carregasse a tensão de sempre em cada palavra. — Você deveria retornar e vestir algo mais adequado.
Ele sumiu de vista antes que pudesse ver a expressão estatelada do soldado, que olhou para sua vestimenta com muito nervosismo.
— O que há de errado com as minhas roupas? — quase choramingou, batendo sobre o tecido em seu peito. O Oficial Chefe o encarou com um olhar sabido, porém se absteve de fazer comentários e apenas se retirou em silêncio, com os pensamentos zumbindo acima de sua cabeça.
Atrás dos portões, dois guardas cumprimentaram Zhiyuan com uma mesura ensaiada, segurando lanças maiores que seus corpos. Eles fecharam a entrada após recepcioná-lo e um deles indicou:
— Vossa Majestade Imperial lhe aguarda, Vossa Alteza, o Segundo Príncipe, herdeiro da família Sinkai.
Zhiyuan demorou um pouco para reagir, observando a cena com os olhos prateados brilhando levemente antes de apagarem, como as cinzas de um incêndio. Ele cerrou os punhos às suas costas, sem demonstrar externamente seu descontentamento. Naquele momento, ele entendeu as nuances do que estava por vir.
O Imperador não o esperava como o Oficial Wang, responsável pela equipe de contingência e um dos envolvidos no cenário de desaparecimento do Príncipe Herdeiro. A princípio, pensou que seria chamado para relatar o que viu em sua patrulha e contribuir de alguma maneira para a resolução do problema, entretanto, isso definitivamente seria pedir demais, pois o Imperador o convocara como seu filho.
Wang Zhiyuan, Príncipe de Primeira Ordem, filho legítimo e herdeiro da família Sinkai.
Isso era péssimo.
Ele se virou para frente após desviar o olhar dos dois guardas, dando passos vacilantes pelo caminho que o separava da Alcova do Dragão. Uma trilha de cascalho se estendia diante de si, ladeada por canteiros de ervas mágicas variadas e plantas ornamentais com propriedades especiais. A paisagem era bela, mas não havia qualquer sinal de fascínio e empolgação em seu rosto ou em seu coração.
Foi um percurso curto, mas estranhamente sombrio, com apenas o som de seus passos como companhia. A tensão era tão grande que quase podia senti-la mudando o clima, como se as nuvens cinzentas no céu fossem criadas por ela – o que não era impossível. A cultura local acreditava que o Imperador transmitia as vontades dos deuses para o mundo, não era à toa que o chamavam de Filho do Céu. Se este homem que representava o desejo divino estava enfurecido, era de se esperar que o mundo inteiro fosse afetado por isso.
Após passar pelo jardim, chegou na entrada do salão e subiu os degraus até o pátio dianteiro, desconsiderando os detalhes. Parou diante da porta dupla e respirou fundo, só então, lembrou-se da última recomendação que o eunuco lhe deu pela manhã, quando foi convocá-lo.
“A ordem do Imperador diz: Quando passar pela porta, é proibido pensar.”
Não era algo novo. Era uma ordem familiar, repetitiva, sempre presente nesse tipo de encontro. Em seu subconsciente, podia ouvir a voz masculina dizer: “Não pense muito, Zhiyuan. Quando você pensa demais, é estúpido”.
Com rosto vazio, Zhiyuan lembrou vagamente da última vez que esteve nesse lugar. Não foi um encontro agradável, o sentimento que preenchera seu peito naquela época tinha o mesmo sabor insosso naquele momento. Como tomar mingau gelado ou mastigar carne envelhecida, digeriu o momento e deixou sua racionalidade para trás.
Não pense, Zhiyuan. É inútil.
Ele entrou no local com a mente vazia e o coração silencioso.
A Alcova do Dragão era o escritório pessoal do Imperador, onde ele executava a maior parte de suas obrigações e o lugar em que passava a maior parte de seu tempo. Assim como a riqueza de detalhes do portão, toda a estrutura interna era rica em simbologia e esbanjava sua posição como soberano da nação. Ao redor do enorme salão havia estátuas de mármore nos quatro cantos, quadros nas paredes, painéis pintados à mão abaixo das janelas, rodapés enfeitados com ladrilhos e móveis de madeira importada.
Era um ambiente bem iluminado, com os raios de sol atravessando as enormes janelas e trazendo, com a brisa, o aroma das plantas do jardim. Pendurado no caixilho de uma das janelas, um sino dos ventos feito de jade índigo pendia suavemente, ressoando de maneira constante. O som ficou se repetindo na cabeça dele.
No centro do salão, haviam assentos dispostos em semicírculo frente à parte posterior, onde havia, sobre uma elevação de dois degraus, uma mesa de escritório diante da versão simplificada do trono imperial. Nesse lugar, o Imperador Wang sentava-se como uma estátua, o rosto familiar e envelhecido encontrava-se rígido, com olhar severo.
Zhiyuan atravessou o salão devagar, como se testasse o piso com a sensação de que ele despencaria sob seus pés a qualquer momento. Por outro lado, apesar da desconfiança interior, manteve a postura ereta e o queixo erguido, seu olhar metálico fitava o Filho do Céu como dois felinos se encontrando em margens diferentes do mesmo rio. Assistiu-o semicerrar as pálpebras, mas apesar do arrepio desconfortável que surgiu em sua nuca, não se curvou, não recuou, não saudou primeiro.
Só parou quando estava a uma distância adequada do Imperador, diminuto sob o olhar dele, porém recusando-se a demonstrar qualquer fraqueza. Mantiveram essa guerra de olhares por pouco tempo, mas soou como uma eternidade.
Nunca entenderia como um homem de porte mediano conseguia parecer tão grande. Talvez fosse por sua estrutura física, que lhe dava ombros largos que pareciam ainda maiores sob as camadas de roupas que o cobriam. Contudo, o segredo deveria estar no olhar, naquele par de olhos escuros desprovidos de qualquer emoção. Suas linhas de expressão eram duras, e nem as borlas de seu mian guan escondiam o ar de desprezo que enfeitava suas feições.
— Cumprimentando Vossa Majestade Imperial — quando notou uma pequena contração na mandíbula alheia, Zhiyuan falou primeiro e baixou a cabeça solenemente. Prostrou-se com apenas um dos joelhos no chão e ergueu as duas mãos à frente do corpo, com um punho sendo segurado pela outra palma, como todos os oficiais cultivadores faziam. — Este humilde eu¹ agradece a honra da presença de Da Tianzi!
— Levante-se — a voz grave tinha um tom cortante e foi dita um segundo após pontuar seus cumprimentos. Algo pesado pairou entre eles e sem escapatória, Zhiyuan obedeceu, arrumando a postura, mas com o olhar baixo que manda o protocolo. Ele ouviu um ranger de dentes logo depois. — Erga o olhar, filho e herdeiro da Imperatriz Sinkai.
Zhiyuan o fez, voltando a encará-lo e deparando-se com a expressão torcida no rosto envelhecido.
Sentiu-se brevemente satisfeito com tal reação.
Não havia nada nele que lhe fosse familiar; o nariz triangular, a boca fina, as sobrancelhas grossas e o queixo quadrado, assim como os olhos pretos e os cabelos grisalhos que, no passado, eram castanhos. Nada disso era semelhante à sua própria aparência. Às vezes se perguntava quanto sangue do Imperador corria em suas veias, porque parecia que sua mãe havia feito todo o trabalho sozinha. Se julgasse apenas pelas aparências, mesmo sem conhecer o rosto dela, tinha certeza de que era como uma cópia da mulher.
E talvez esse fosse um dos motivos que fizeram o Imperador odiá-lo tanto assim.
— Não foste convocado como um Oficial — o Imperador quase cuspiu as palavras, como se a lembrança de ter um filho fora da posição de herdeiro o perturbasse. — Refaça a apresentação!
Desta vez, Zhiyuan não o obedeceu imediatamente. Ao invés disso, permaneceu imóvel, encarando-o com a mente completamente vazia, tal qual foi ordenado. E por não pensar, fez o que fez.
Podia ouvir o badalar suave e etéreo do sino dos ventos, o som distante da brisa agitando as flores e a mudança abrupta no ritmo das batidas do coração alheio.
Ser um cultivador lhe propiciava sentidos sobre humanos, uma visão de mundo singular e uma percepção de sentidos particular. Não era idiota, sabia o que lhe aguardava no momento em que se apresentasse como o Imperador queria, afinal, não era a primeira vez que isso acontecia.
Porém, mesmo naquele momento, ainda encontrou uma forma distorcida de se divertir.
A mente vazia fez seu corpo agir como bem entendesse.
Zhiyuan relaxou a postura, ergueu as mãos até a cabeça e tirou o mian guan, soltando seus cabelos do coque apertado. Ouviu um ruído de desaprovação, uma cadeira arrastando contra o piso e o farfalhar da seda contra o algodão das roupas cerimoniais do soberano.
Os fios longos de seus cabelos caíram ao redor dos ombros, cascateando como ondas agitadas em uma tempestade, no mesmo ritmo que o toque do sino dos ventos. Uma rajada de vento entrou na janela e fez o som se tornar mais alto, como um alerta, o prelúdio de algo a mais.
Um brilho de emoção atravessou os olhos do Imperador e Zhiyuan, que queria um pouco mais de reação, fez algo proibido. As memórias lutavam para se fazerem ouvir, os pensamentos e a racionalidade gritando sem voz em sua cabeça, mas sua mente estava vazia como a tela de um artista sem criatividade.
O garoto que nunca demonstrava sentimentos, cujo rosto não tinha linhas de expressão porque não as usava, torceu os cantos dos lábios e, sob o olhar raivoso do homem que o gerou, sorriu sem mostrar os dentes. O movimento foi singelo, porém significativo o suficiente para iluminar seu rosto outrora frio e fazer seus olhos brilharem entre as pálpebras semicerradas. As íris cinzentas acenderam como alumínio sob o sol e para coroar o momento, um par de covinhas surgiu nas bordas do sorriso. A expressão perturbada do Imperador desmoronou nesse momento, por esse detalhe específico.
— Cumprimentando o Pai Imperial, Vossa Majestade, Da Tianzi — Zhiyuan refez o cumprimento, desta vez não se ajoelhou, apenas se curvou levemente para a frente com as mãos em concha. — Saúda este Príncipe de Primeira Ordem, filho e herdeiro da Fênix Eterna, a Imperatriz Sinkai; Wang Zhi-
Um tapa em seu rosto o fez engolir as palavras, o som ressoando alto dentro do salão, ecoando nos cantos escuros do lugar.
O som do sino dos ventos parou por um instante.
— Nunca sorria — o Imperador, que se pôs de pé diante dele como se tivesse o tamanho do mundo, disse essas palavras em um tom sombrio, enquanto recolhia as mãos às suas costas, de volta à postura altiva. — É nojento.
Com o rosto virado para o lado após o golpe, o corpo inteiro de Zhiyuan estremeceu. Ele contou até cinco antes de desfazer a expressão congelada, arrumando a postura para encará-lo novamente.
O sorriso fora desfeito, no entanto, existia um brilho de satisfação em seu olhar metálico.
Com o queixo erguido e metade do rosto inchada pelo tapa, murmurou em tom ameno:
— Como desejar, Pai Imperial.
Apesar de não ser um cultivador ou soldado, o Imperador ainda era um homem com uma força física inexplicável, mesmo em seu nível de cultivo, o segundo príncipe podia ser facilmente machucado por ele. Porém, não podia evitar o prazer doentio de saber que apenas aquela pequena ação foi suficiente para perturbar a mente alheia.
O Imperador não era tão inalcançável quanto parecia.
Zhiyuan o imitou, com o rosto indiferente e inexpressivo, acompanhando o movimento dele com os olhos.
O Imperador retornou à sua mesa após se certificar da postura de Zhiyuan, parou atrás dela, abriu uma gaveta e pegou um objeto ao qual o príncipe estava familiarizado. Aparentemente ele não queria perder tempo dessa vez.
— Seu irmão deve retornar até o final do dia — ele disse enquanto desenrolava o enorme chicote de couro trançado, retornando para perto de Zhiyuan. — Caso ele não retorne, quem deve ser responsabilizado?
Zhiyuan permaneceu como estava, como um boneco de cera sem razão ou emoção.
— Você sabe o que estou tentando dizer, herdeiro da família Sinkai — ao não receber resposta, o homem continuou falando. — Quando nasceu, seu propósito foi definido, para compensar os defeitos do seu irmão.
Ele estalou o chicote em sua direção, pequenas faíscas foram criadas com o movimento, mas desapareceram quando a ponta se enrolou nos pulsos do segundo príncipe. O elemento fogo no couro embebido por magia queimou o tecido das roupas cerimoniais, exibindo os braceletes de prata que Zhiyuan usava o tempo todo e, sobre eles, fagulhas de eletricidade surgiam com o contato.
— Tire-os — o Imperador ordenou em voz rude. — Como ousa entrar armado em minha alcova?!
Em qualquer outro momento, Zhiyuan informaria que os braceletes não eram armas, pois não tinham propriedades hostis, no entanto, sua boca não funcionava como normalmente fazia. Então, ele tocou sobre as jóias e ambas se soltaram com facilidade, caindo pesadamente ao seu redor. Sem a proteção do metal, seu pulso começou a queimar em contato direto com o chicote.
— Assuma a culpa — imperativamente, o homem apertou o couro em seu pulso, fazendo com que o cheiro de carne queimando inundasse suas narinas. — Caso o Príncipe Herdeiro não retorne, quem deve ser responsabilizado?
Zhiyuan não baixou a cabeça, mas fez o que ele queria.
— Este príncipe assume a responsabilidade sobre o desaparecimento de Vossa Alteza Imperial, filho e herdeiro da família Wang.
O chicote soltou-se de seu pulso e estalou no ar novamente, antes de ser lançado contra suas costas em um estalo alto e um crepitar característico de tecido sendo queimado. O impacto fazendo-o ranger os dentes e cerrar os punhos.
No local atingido, suas roupas foram consumidas pelo fogo.
— Bem — a ver a micro expressão de dor em sua mandíbula, o Imperador deu um sorriso enviesado. — Agora estou mais satisfeito.
Sem mais delongas, ele o atingiu novamente.
De novo e de novo.
O som dos golpes ecoou no salão como um inimigo natural da melodia lírica do sino dos ventos, cuja ressonância se tornava mais intensa à medida que as queimaduras criadas pelos golpes aumentavam, misturando sangue com fuligem.
Zhiyuan ficou parado e aceitou, encarando o espaço vazio no salão diante de si enquanto a dor atravessava seu corpo com uma queimação cruel. Alheio à passagem do tempo, com os ouvidos abafados pelo som das batidas de seu coração, não notou o sorriso satisfeito do Imperador. Exibindo uma expressão de prazer que não costumava mostrar, despertada apenas naquele momento, enquanto o castigava para calar a própria raiva.
A mente de Zhiyuan continuava vazia, ele não podia pensar.
Quando você pensa, é estúpido. E se você sorri, tenho vontade de vomitar.
— Vocês me pertencem — o Imperador disse mais tarde, a testa suada pelo esforço, encarando o estado deplorável de seu filho menos amado. — Estão presos comigo para sempre. Nunca conseguirão fugir, entendeu? Nunca!
O sol deslocou-se vagarosamente até alcançar o horizonte e o som do sino dos ventos continuava ressoando até nos momentos em que não havia brisa para balançar as peças de jade. Foi um cântico melancólico e desesperador, como se pedisse para que aquela cena cruel parasse de uma vez.
Isso não impediu que o chicote continuasse estalando, que a terra continuasse girando ou que o tempo continuasse passando. Ninguém impediu que a cena se arrastasse até esse homem – esse monstro – ficar satisfeito.
Zhiyuan nunca conseguiria abrir mão da própria humanidade como o Imperador havia feito, e era isso que o tornava mais fraco do que ele.
Quando tudo acabou, Zhiyuan sequer percebeu, só retornou a si quando sentiu um robe sendo jogado sobre seu corpo para esconder as inúmeras feridas, embora não fosse o suficiente para disfarçar o odor desagradável de sangue e carne queimada.
O Filho do Céu parecia satisfeito, extasiado, apesar da capa de suor que cobria seu rosto, o ódio de outrora foi substituído pela paz.
Enquanto saía daquele lugar tão silenciosamente quanto havia entrado, Zhiyuan ignorou o olhar desesperado de Su Xuelin, que o esperou diligentemente com um robe extra para protegê-lo do frio. O soldado fez perguntas, sua voz parecia embargada, e seus dedos hesitaram em pelo menos arrumar os cabelos bagunçados do príncipe.
Ele estava coberto de suor e sangue vivo, que escorria de suas costas e braços sem parar e manchava o robe que o cobria, seu cabelo estava chamuscado nas pontas, e suas mãos trêmulas tateavam os braceletes na tentativa de colocá-los de volta no lugar.
— Vossa Alteza, eu sinto muito — Xuelin pediu isso várias vezes, andando como um animal assustado perto de si, mas incapaz de deixá-lo sozinho. — Eu deveria ter ido junto, eu deveria tê-lo protegido, eu deveria…
Ao se virar para ele, a expressão distante do príncipe calou o soldado que, com os olhos úmidos e postura hesitante, o encarava como se estivesse em profundo sofrimento. Zhiyuan encarou sua figura e estendeu a mão ensanguentada para tocar em seu ombro, mas a parou no ar ao notar que o sujaria com seu toque.
— Essa roupa fica melhor em você.
Xuelin arregalou os olhos, meio envergonhado, pois tinha cumprido a ordem de trocar suas vestimentas por um hanfu de linho cuja roupa interna era cor de rosa, sob um robe branco com bordados em formato de flores. Era um traje cerimonial que Zhiyuan encomendou para ele na primavera, para que usasse quando o acompanhasse em eventos oficiais.
Tinha achado o conjunto acima de seu status, mas o usava de bom grado. No entanto, naquele momento, parecia inadequado como uma verruga no rosto de uma concubina.
De que vale isso agora?
— Isso não é importante! Olhe para o seu estado, Vossa Alteza! — antes que o príncipe abaixasse a mão estendida, Xuelin segurou a palma úmida e a apertou, tremendo. — Eu deveria ter ido no seu lugar! Erramos juntos! Se alguém deveria ser punido pelo desaparecimento do Príncipe Herdeiro, então…
Lágrimas escaparam dos olhos de Xuelin, sua voz abafada pelo choro e pela infinidade de emoções que atravessavam os seus olhos. Olhos verde-esmeralda que, diferente dos seus, carregavam sentimentos puros e desejo verdadeiro, felicidade genuína, honra e fidelidade sem medidas.
Zhiyuan se sentiu fraco e inútil, então se limitou a apertar a mão alheia de volta, em um toque cúmplice, antes de se afastar novamente e voltar a caminhar de volta ao seu dormitório. Encolhido na própria insignificância.
Seu rosto voltou a estar impassível, seus olhos eram opacos como metal empoeirado e sua postura austera como sempre. Xuelin chamou seu nome várias vezes, preocupado, mas o príncipe não o encarou de volta dessa vez.
Não podia. Não agora.
Uma vez fora daquele lugar, era inevitável que sua mente voltasse a fazer barulho, que seus pensamentos surgissem um após o outro como cavalos selvagens.
Em desafio a todas as vezes que considerou a ausência de semelhanças entre si e o Imperador como fato consumado, percebeu que haviam coisas muito mais complexas provando que o sangue que corria em suas veias vinha dele. Pensando nisso, seu corpo inteiro estremeceu, consciente de que não existia nada mais familiar que a dor, que os conectava como uma maldição de impossível dissolução e eterno tormento.
Por isso, a mente de Zhiyuan podia ficar vazia. Porém, lá no fundo, como o sussurro de um fantasma, a melodia triste daquele sino dos ventos ainda ressoava.
𖥟
Assim que a noite caiu, junto a ela, uma tempestade se assomou sobre a capital de Weiqi, também afetando a Cidade Imperial, que ficava no monte acima dela. O volume de água era intenso, provando que a precipitação vinha de Da Yüer e com ele, uma sequência de raios caiu em lugares distintos do território, assustando os moradores.
Através da janela, era possível notar o clarão causado pelos relâmpagos que pressagiavam trovões assustadores, perturbando a paz daqueles que conseguiam nutrir tal sentimento. Um clima tão ruim, que se arrastou pela Cidade Imperial e tempestuou os corações de dois soldados outrora pragmáticos.
— Da Guanchan, eu suplico que a sabedoria do dao me corrija e me ilumine — uma oração soou no cômodo compacto, um sussurro que se perdeu no ruído causado pela tempestade que batia forte contra as paredes e janelas.
Su Xuelin olhou para o lado com o rosto lívido, encontrando o olhar sombrio de seu companheiro, Feng Huaijin. O outro guarda, usando um uniforme preto com detalhes arroxeados, tinha uma mão sobre o coração e outra sobre o cabo da espada, enquanto rezava para Guanchan, deus da sabedoria taoísta.
Xuelin nunca o tinha visto rezar.
— Que os meus caminhos sejam justos e honestos — Huaijin continuou, com a expressão estranha e o olhar fixo no outro lado do quarto. — E que meu coração não se renda aos próprios desejos.
Havia um ar pesado em suas palavras, como se cada fonema criasse um nó na rede de tensão que cobria aquele espaço. Xuelin se sentiu desconcertada, então desviou o olhar para o teto, encarando a pequena mancha de umidade acima deles.
— Nunca o vi tão devoto, Shixiong — a voz opaca de Wang Zhiyuan ressoou como um eco fantasmagórico, acompanhada da fricção do tecido que se arrastava de maneira ausente sobre as feridas em seus braços. Com certo saudosismo, ele perguntou: — Guanchan o ouviria quando nunca o conheceu?
— Não é trabalho dos deuses conhecer todas as coisas? — Huaijin retrucou de maneira rígida, quase ríspida. A raiva que tentava conter escapava pelas fissuras, como os fios soltos de uma camisa velha e desgastada.
Zhiyuan murmurou alguma coisa, mergulhou o pedaço de pano que tinha em mãos, uma tira de algodão manchada de vermelho, dentro de um pote com unguento e o arrastou ao redor da ferida exposta em seu ombro. Xuelin, que lhe lançara um olhar preocupado, virou o rosto novamente quando sentiu a visão embaçar. A imagem da carne vermelho-vivo aparecendo através da abertura grotesca na pele, piscava atrás de suas pálpebras dolorosamente.
— Os deuses não devem estar particularmente interessados nos assuntos mundanos, Feng Shixiong. Há um céu inteiro para governar. — Zhiyuan jogou o pano ensanguentado em uma bacia aos seus pés e pegou uma nova tira de tecido, esticando o braço para tentar alcançar as novas feridas em suas costas.
Seu dormitório ficou silencioso por alguns instantes, apenas o som da água caindo do lado de fora podia ser ouvido. Reunidos naquele espaço que parecia pequeno demais, os três representavam pilares de diferentes estados emocionais. Zhiyuan parecia sereno, com seu olhar apagado e ar indiferente; Huaijin estava tenso, punhos cerrados e cenho franzido, ódio borbulhando em seu olhar; Xuelin, cujo coração parecia ter descido para o estômago, tinha olhos marejados e nariz vermelho pelo choro reprimido.
— Então por que diabos eles existem?! — Huaijin se exasperou, uma espécie de rosnado preso no fundo da garganta. — Que existência é essa tão inútil?!
— Você não deveria falar assim — Xuelin sussurrou, de cabeça baixa. — Tenha mais respeito…
Huaijin deu uma risada sem humor.
— Respeito, você diz? Minha dúvida é genuína, pois se esses caras servissem para alguma coisa, seríamos poupados de todas essas adversidades — soou sarcástico, de tal modo que sequer parecia o mesmo que, na madrugada daquele dia, riu ao redor do príncipe de maneira despreocupada e jovial. Naquele instante, estava tão sombrio, que dava medo.
— Controle o sangue que corre em suas veias…
— Por ter sangue em minhas veias é que me enfureço, se água houvesse em seu lugar, não sentiria meu corpo queimar em revolta!
— Talvez os deuses apenas não se importem, afinal. É a resposta mais lógica — Zhiyuan comentou em tom ameno, interrompendo a discussão. — Quem se importaria?
Foi como se uma flecha atravessasse o peito de Xuelin, que abriu a boca para protestar, mas as palavras se perderam na garganta. Encarando o príncipe a quem jurou servir e proteger, sentado placidamente na beira de sua cama, com um balde cheio de panos ensanguentados enquanto limpava as próprias feridas, fez um peso invisível encher seu estômago e pressioná-lo para baixo.
Quando ele sugeriu que ninguém se importaria com o seu estado, Xuelin reflexivamente pensou “E nós?”, enquanto observava Huaijin de canto de olho. Porém, em seu coração, outra pergunta se formou.
E eu?
Sua existência pareceu tão diminuta naquele momento, como um inseto rodeando uma chama prestes a apagar. Ainda assim, forte o suficiente para queimá-la até a morte.
— Palavras autodepreciativas não combinam com você — Huaijin interveio ao notar o silêncio atípico do outro guarda, que em situações normais sempre tinha algo a dizer. — Nunca mais sugira algo assim, Zhiyuan. Acaso não estamos servindo-o corretamente?
— Não entendo onde você quer chegar, Feng Shixiong — Zhiyuan parou seus movimentos e o encarou fixamente. — Em momento algum os culpei por qualquer coisa.
— Eu sei! Você senta aí e aguenta tudo como um mártir! Preferiria que você nos culpasse por tudo, que nos colocasse na frente como escudo humano, que apontasse a espada contra nós. Qualquer coisa além dessa indiferença desconcertante! — Havia urgência em seu tom e, a cada palavra, Huaijin se aproximou dele.
Xuelin assistiu-o de maneira aérea. Huaijin era um jovem adulto agora, bem maior que eles, tão alto que mal passava pela porta sem se abaixar, ombros largos, músculos proeminentes e feições bem marcadas. A pele dourada de tom quente agora parecia pálida e seus olhos, de um castanho avermelhado exótico, estavam acesos como se sangue vivo enchesse as íris. Ele era imponente, mais proeminente que outros soldados de sua geração, então era natural que fosse o mais respeitado entre os três. Até Zhiyuan, que estava mais propenso a seguir as próprias vontades, dava atenção ao que ele dizia.
Então, assisti-lo ajoelhar-se frente ao príncipe em posição de prece pegou ambos de surpresa, embora Zhiyuan não tenha demonstrado explicitamente, era possível observar a leve contração ao redor dos olhos. Um relâmpago clareou os traços finos de seu rosto, suscitando o surgimento de finas estrias elétricas, que desapareceram mais rápido que um piscar de olhos.
— Vossa Alteza — Huaijin chamou, prostrado, com a voz séria, mas quase suplicante.
— Diga, Oficial Feng.
Xuelin prendeu a respiração.
— Existem guardas mais inúteis que nós neste palácio?
Não houve resposta, então ele continuou:
— Não conseguimos protegê-lo em nenhuma das vezes que precisou de nós. Isso não os torna tão omissos quanto os mesmos deuses que criticamos?
A mão de Zhiyuan se ergueu entre eles, ato corriqueiro, se não fosse pela pequena torção no canto de seus lábios. Não era um sorriso, estava bem longe disso, mas parecia com um.
— O que vocês poderiam ter feito? — ele sussurrou, colocando uma mão sobre o ombro alheio, olhos nos olhos, ele se curvou para mais perto. — Não era isso que você queria que eu fizesse? Aceitasse pacificamente o meu destino?
— Vossa Alteza, eu não…!
Uma expressão de dor atravessou o rosto de Huaijin enquanto a mão de Zhiyuan deslizava por seu braço asperamente, antes de se afastar. Xuelin viu como o príncipe desviou o olhar, voltando para a janela, para a chuva lá fora. Em contraste com o clima pesado que os cercava, ele parecia de bom humor ao assistir o clarão causado pelos raios.
Huaijin abriu e fechou a boca várias vezes, incapaz de articular qualquer pensamento racional, como se o vínculo entre o cérebro e a boca tivesse se rompido. Após soltar um suspiro derrotado, ele se levantou com dificuldade, desnorteado, e tropeçou em direção à saída sem olhar para qualquer um deles ou se despedir. Se foi com um baque na porta, deixando apenas uma sensação amarga para trás.
Desconfortável por não entender as nuances daquela situação, Xuelin apertou as mãos juntas e torceu os dedos. Não sabia o que dizer, sua garganta secou de tal maneira que até a respiração causava dor. Não era novidade, pois diferente de Huaijin, que expressava seus sentimentos a despeito das mudanças bruscas de humor, ela tinha muita dificuldade em organizar tudo que acontecia dentro de si.
Na verdade, era essa característica que tornava Zhiyuan e ela tão parecidos; o hábito de viver tudo dentro da própria cabeça, incapazes de externalizar suas dores corretamente, ao ponto de absorverem cada pedacinho dela até se fundir com corpo, mente, alma e coração. Por esse motivo ela ainda estava presa ao seu karma, desde o nascimento.
Os grilhões que a prendiam estavam em seu sobrenome, seu juramento, seu trabalho e principalmente no seu corpo, do qual ela não poderia se livrar apesar de toda inadequação que sentia. Isso não a colocava em um inferno vizinho ao que o príncipe enfrentava? Destinados a engolir as próprias dores para não incomodar pessoas que não se importavam com eles?
Pensar nisso a fez coçar os próprios braços em agonia.
— Não fique assim, ele só precisa colocar os pensamentos no lugar — a voz do príncipe a despertou do ensimesmamento, mas se assustou ao notar o tom compassivo que a acompanhava. Ele parecia achar que sua angústia vinha do comportamento ambíguo de Huaijin, mas como não queria envergonhar a si mesma ainda mais, não o corrigiu.
Perturbar o príncipe com tais miudezas era inconcebível.
— Desculpe incomodar Vossa Alteza com meu estado de espírito — forçou a língua a funcionar, mas o som saiu estranho, como se estivesse sendo estrangulada. Ela tossiu um pouco, tentando afastar o mal estar.
Zhiyuan não parecia se importar com sua indelicadeza.
— Fique de bom humor, então. Isso me deixaria confortável.
— Receio não poder atender os seus desejos, Vossa Alteza.
— É uma pena.
Quando ergueu o olhar, ao contrário do que esperava encontrar, Xuelin deparou-se com as costas de Zhiyuan voltadas para ela. Este permanecia observando através da janela.
— Eu gosto quando chove, sabia? — ele disse um pouco depois, tocando levemente sobre os braceletes em seus pulsos.
— Claro que sei, Vossa Alteza.
— Ah, é mesmo?
— Sim, senhor. Devo saber tudo sobre você, para lhe garantir tudo de bom que eu puder oferecer.
— Eu vejo…
Suas mãos estavam pousadas sobre as coxas, mostrando que ele tinha parado de limpar as feridas, mas Xuelin notou que a maioria delas ainda estava com uma crosta de sujeira.
— Deixe-me ajudá-lo, Vossa Alteza — apressou-se, atravessando o quarto em passos longos, parando às costas dele. — Há muitas feridas abertas…
Sua voz se perdeu novamente, atormentada ao ver de perto as queimaduras horríveis, sentindo-se meio tonta em testemunhar o nível de crueldade do Imperador. Como um homem era capaz de imputar tal castigo ao próprio filho? Certo que Zhiyuan era um cultivador e esses golpes iriam curar, mas por terem sido causadas com magia, deixariam cicatrizes irreversíveis – mais do que já haviam.
Não era a primeira vez que Zhiyuan apanhava tanto, provavelmente não seria a última também, contudo, Xuelin jamais se acostumaria a esse nível desumano de tortura e humilhação.
Engolindo em seco, pegou um pano limpo da pilha que havia em cima da cama e untou com unguento.
— Com a sua licença, Vossa Alteza.
Apesar da ausência de resposta, ela começou a tarefa com as mãos tremendo como varas de bambu. Passava o tecido embebido com cuidado ao redor das feridas expostas, sentindo o cheiro acre de queimado misturado ao odor pungente de sangue, embora o fluxo tivesse parado de escorrer. Teve vontade de vomitar, mas respirou fundo e continuou valentemente.
Perdeu as contas de quantas vezes matou pessoas em missões externas, quantas batalhas se envolveu e quantas vezes enfaixou os próprios ferimentos sangrentos. No entanto, ver o príncipe em tal estado a perturbava em sobremaneira sempre que acontecia.
— Conte-me o porquê, então — ele solicitou um pouco depois, pegando Xuelin de surpresa.
Ela se sobressaltou, evidenciando o quanto estava tensa.
— O… o que? — gaguejou.
— Conte-me porque eu gosto de chuva.
Ah… Um suspiro desamparado escapou de seus lábios, acompanhado do clarão do raio que caía em algum lugar além dos muros da Cidade Imperial.
— Acho que…
Ele a interrompeu.
— Acha?
— Oh… Hum… Na verdade, é porque a chuva traz a memória antiga da Fênix Eterna, a Imperatriz Sinkai Annchi e mãe de Vossa Alteza.
Havia hesitação em sua voz, mas tentou conciliar o fluxo da conversa com a imagem perturbadora da carne sangrenta do segundo príncipe diante de si. Seus dedos apertaram o pano em suas mãos.
— Muito bem. Sabe por que isso ocorre?
— Porque o som dos raios te faz sentir falta dela.
— Você realmente sabe muito.
Seu rosto enrubesceu.
— Há mais, Vossa Alteza.
— É mesmo? Me conte.
— O som dos raios lembra sua Mãe Imperial, pois remete ao seu poder elemental, o elemento raio, que foi herdado da família Sinkai. Apesar de não tê-la conhecido, todos de gerações anteriores afirmam o quanto Vossa Alteza se parece com ela, principalmente o sorriso. Diziam que, quando sorria, a Imperatriz Eterna encantava todos ao seu redor. O sangue que corre em suas veias pertence ao povo do Além-Mar, que vive e respira magia. Por isso, crê-se que Vossa Alteza e seu irmão, o Príncipe Herdeiro, foram fortemente agraciados pelos deuses. De alguma maneira, a memória da Imperatriz Eterna os acompanha e, quando há tempestades elétricas, Vossa Alteza se sente ainda mais conectado com a Mãe Imperial.
Houve um momento de silêncio tranquilo entre eles, a tempestade reduzia pouco a pouco para uma garoa fina, mas os relâmpagos continuavam clareando a noite. Se não estivesse de cabeça baixa, em verborreia sobre as intimidades do coração alheio, Su Xuelin teria visto a enorme tristeza no rosto do segundo príncipe. Contudo, quando ela ergueu o olhar, ela já tinha desaparecido.
— Você disse tudo muito bem — ele elogiou em tom tranquilo, sem sentimentos específicos escondidos nas palavras, como alguém evidenciando um fato. — Fico feliz de ter ao meu lado alguém tão dedicada quanto você, Xuelin-Jie.
As mãos que limpavam as feridas pararam abruptamente, sua respiração travou e seu coração acelerou de maneira vergonhosa. Sua expressão congelou, seus olhos arregalados encararam o perfil do outro, que lhe encarava sobre o ombro de maneira transparente. Titubeou, sem saber como agir naquele momento.
Dentro de sua cabeça, o termo honorífico “jie” se repetia como um eco interminável nas paredes de uma caverna, cujas sombras que outrora escondiam sua vergonha, foram dissipadas por uma lanterna de raios.
— Continue me servindo e eu não a decepcionarei.
Não apenas o termo honorífico, mas a proximidade que ele sugeria, a deixaram desconcertada.
Olhou para o próprio corpo dolorosamente masculino, o peito plano, as mãos ásperas, a roupa folgada e destoante. Sabia que tinha pelos faciais desagradáveis e uma voz que não mentia suas origens. Então, por que?
— Creio que Vossa Alteza não…
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, a porta abriu. Feng Huaijin adentrou o cômodo sem pedir licença, em passos apressados e com um olhar determinado. Ele ergueu uma bolsa mágica preta na direção do príncipe, sem se incomodar com a bagunça que estava fazendo no piso, já que ele estava completamente encharcado.
— É uma pílula mágica de regeneração imediata. Tome.
Zhiyuan o encarou com curiosidade, demorou um pouco, mas pegou a bolsinha e a abriu, tirando um frasco minúsculo de dentro, onde uma solitária pílula esverdeada se encontrava. O forte aroma medicinal encheu o ar quando o príncipe destampou o frasco, a fragrância refrescante e levemente mentolada enchendo suas narinas.
O príncipe analisou a pílula entre os dedos. Esse tipo de medicação era rara, pois existiam poucos artistas mágicos no continente dispostos a vendê-las, uma vez que se tratavam de resultados de técnicas complexas de refino e preparo de ervas mágicas que, por sua vez, eram muito difíceis de cultivar e manipular. Quanto mais especial fosse seu efeito, mais rara ela se tornava e esta, com certeza, não era uma medicina comum.
Onde ele conseguiu isso em tão pouco tempo?
Zhiyuan a jogou na boca primeiro, mastigou e engoliu.
— Você roubou isso? — ele perguntou calmamente, alheio à expressão abismada de Xuelin.
Mas o que a deixou horrorizada de verdade, foi a resposta curta de Huaijin.
— Sim.
Ele se sentou no chão com as mãos para trás e deu de ombros.
— Vossa Alteza precisa mais do que qualquer outro.
— Talvez o Príncipe Herdeiro precise de algo assim ao retornar.
— O Príncipe Herdeiro pode contar com o apoio do Filho do Céu para isso.
Em qualquer outra situação, Huaijin poderia ser acusado de traição por tratar a saúde do Príncipe Herdeiro como algo secundário, mas Zhiyuan não o repreendeu por isso, ao contrário, lhe deu um pequeno aceno.
Xuelin olhou entre os dois com as mãos atadas, sentindo-se deslocada no silêncio que se seguiu, então Zhiyuan se levantou da cama e a fez encarar seus movimentos. Ele enrolou faixas em seu tronco para conter as feridas enquanto o remédio fizesse efeito, depois vestiu uma camisa preta e um colete justo da mesma cor, abotoando-o. Ajustou os braceletes e pegou sua espada no aparador.
Huaijin rapidamente ficou em pé.
— Onde você vai?!
— Procurar meu irmão.
Huaijin e Xuelin engasgaram ao mesmo tempo, tossiram, e andaram ao redor do príncipe como gaivotas ao redor de barcos pesqueiros.
— Vossa Alteza, muitas pessoas já estão envolvidas nas buscas — Xuelin finalmente falou alguma coisa, parando na frente dele com os braços abertos. — Não pode sair assim, abruptamente.
— Por que não?
Pega de surpresa pela pergunta, ela lançou um olhar aflito para Huaijin, que gaguejou em busca de uma réplica.
— Não se tem pistas, como procurar assim?
— Só eu posso encontrá-lo sem pistas. Somos gêmeos.
— Isso não faz o menor sentido! Não há magia que os una e possibilite isso!
— Os deuses me dirão o caminho.
Huaijin também se colocou à frente dele quando este deu outro passo.
— Vossa Alteza, o seu irmão foi levado para cárcere e não sabemos a real intenção do sequestrador — Xuelin tentou racionalizar. — Pode ser arriscado sair e acabar se tornando prisioneiro também, afinal, já sabemos que ele é mais forte que nós.
— Não vamos lutar.
— A-Yuan, não é esse o maldito ponto! — Huaijin o segurou pelos ombros. — Você ainda nem se recuperou de todos os golpes que levou!
Zhiyuan torceu o nariz levemente.
— Os dois fatos não estão correlacionados. Me solte.
Exasperado, o soldado se afastou passando as mãos nos cabelos.
— Então vamos juntos! — Xuelin interveio antes que ele passasse pela porta. Isso o fez parar. — Só permita que nos preparemos antes de sair.
Ele ergueu dois dedos no ar.
— Vocês têm vinte minutos.
Huaijin correu para fora com o mesmo ímpeto que entrou minutos atrás, resmungando palavrões e algo sobre “incompreensível teimosia imperial”. Xuelin seguiu o mesmo caminho, mas antes de deixar o quarto, virou-se para o príncipe, que sentara na cadeira da mesa de estudos para revisar mapas.
— Vossa Alteza… — ela chamou. Zhiyuan não olhou em sua direção, mas de alguma maneira sabia que tinha sua atenção, então continuou: — Sobre o que me disse antes, gostaria de retificar que…
— Apenas continue fazendo um bom trabalho — interrompeu, olhos fixos no pergaminho que estava em suas mãos. — Não estou aqui para te convencer ou ser convencido de nada. As coisas são como são e eu aceito isso. Você também deveria aceitar.
Foi uma sensação agridoce compreender todas as entrelinhas de suas palavras, seu coração dividido entre a vergonha e o alívio, sem saber qual dos dois era o mais apropriado de se sentir. Sentia-se desprotegida de certa maneira, como alguém que se desarmava diante do inimigo e guiava a espada alheia para o próprio peito, esperando, implorando pelo golpe final. No entanto, sob o frio gélido do metal, o golpe nunca veio, apenas o reflexo pálido e cinzento dos olhos de seu oponente.
Xuelin se sentiu mal por meramente existir. Não era digna disso.
— Perdão, Vossa Alteza… Não o incomodarei mais com minhas murmurações — curvou-se em respeito ao príncipe, ao seu mestre, só então girou nos calcanhares e partiu para o próprio dormitório a fim de se preparar para o futuro incerto que os aguardava.
Era loucura segui-lo, Xuelin sabia disso. Era loucura se agarrar tão firmemente a um voto que, para todos os outros, não fazia mais sentido. Sua família devia muito à família Sinkai e para isso Xuelin existia, para pagar essa dívida. Não teve irmãos, porque seus pais não queriam um filho, queriam um sacrifício, e isso decretou qual seria seu destino até o dia de sua morte.
Existia por e para Zhiyuan. Sua primeira lembrança era sobre ele, a pessoa que ela via era ele, o objetivo de sua existência era servi-lo. O segundo príncipe era o epicentro do seu universo interior, o nome que perturbava seu coração e o adoecia de preocupação.
Deveria haver uma carga difícil em servi-lo, pois era uma sina, um karma, um castigo. No entanto, vestia esse dever como uma luva moldada em suas mãos, delineando-se perfeitamente às curvas de seus dedos. Era seguindo-o que sua vida fazia sentido, que encontrava razões para encarar o horizonte com esperança ao invés de dor.
E era naquele frio olhar que encontrava a calmaria do furacão que existia dentro de si.
Ele sabia.
Ele sabia seu maior segredo, seu maior pecado.
Nada poderia ser mais significativo do que isso. Pois em um mundo onde ninguém mais aceitaria de braços abertos uma mulher nascida no corpo de um homem, Wang Zhiyuan aceitou essa verdade sem dolo.
Diferente da própria Xuelin.
[1] Como forma de demosntrar submissão e respeito, as pessoas podem referirem-se a si mesmas em terceira pessoa.
N/A: “Shixiong” é um termo honorífico que significa “irmão cultivador mais velho”, comumente usado entre discípulos do mesmo mestre. Termo já fora explicado no capítulo 6.
Capítulo 10
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Dragão de Prata: 不道德的修炼之路
Jiang Lu era um adolescente viciado em histórias xianxia, sempre procurando um novo livro para ler e devorando quase todas as narrativas de seu site favorito. Quando conheceu a novel...