Capítulo 11
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Lan Wen surgiu diante de si como se fosse irreal. Essa pessoa, que sequer poderia ser descrita meramente como “um homem” porque soaria como uma ofensa, o deixou sem saber como reagir.
Com movimentos graciosos e passos silenciosos, o chanceler levantou-se do lugar onde estava sentado e caminhou até Jiang Lu sem pressa alguma. Em resposta ao seu cumprimento, saudou de volta com o tom harmonioso que parecia a trilha sonora do ambiente e ele, que normalmente se atentava a todos os detalhes, não conseguiu desviar o olhar.
— O prazer é todo meu, jovem Lu. Será uma enorme satisfação gozar da sua companhia.
Jiang Lu foi incapaz de citar qualquer linha adicional do que normalmente dizia ao conhecer alguém da alta sociedade, sua língua parecia macia e inútil, apenas os seus olhos funcionavam.
O Chanceler Lan Wen parecia muito mais jovem do que imaginava, alguém na casa dos vinte, mas com traços de maturidade inegáveis em seu olhar e sua postura. Ele não era alto, alcançava até abaixo dos ombros de Jiang Lu, tinha cabelos cacheados brancos que desciam pelas costas até os quadris, olhos violeta com pupilas amarelas em formato de losangos, cujas bordas se dissolviam nas íris. Seu nariz era reto e tinha uma argola em uma das abas, e seus lábios, carnudos em formato de coração, brilhavam com bálsamo translúcido.
Trajava um robe esvoaçante de seda vermelho-rubi, que contrastava com a pele marrom e suas longas unhas pintadas de branco. Não usava muitos adereços, apenas uma pulseira, um cinto em forma de corrente ao redor da cintura e tornozeleiras elegantes acima dos pés descalços. Se sentiu um homem vitoriano quando viu os pés, tornozelos e pernas expostas na fenda do robe alheio, que não deveria, mas parecia muito revelador.
Ergueu o olhar, desconcertado, e vislumbrou uma cigarrilha entre seus dedos elegantes, que sustentava a origem da fumaça que sentiu da porta. A fragrância agridoce de canela com limão, no entanto, não vinha do cigarro ou do incenso que queimava pacificamente na janela, mas do próprio Lan Wen. Algo dentro de si afirmava que aquilo não era um perfume e ficou claro, a julgar pela mudança sutil no aroma, que eram os feromônios do chanceler.
— Você deveria sentar primeiro, para que possamos conversar comodamente — ele apontou para o sofá vazio ao lado da mesa de chá no centro do cômodo. — Espero que tenha sido uma viagem tranquila até aqui.
Ele era bonito demais. Jiang Lu não sabia muito bem como controlar suas reações, então quando ele parou diante de si e curvou o rosto para cima a fim de encará-lo, suas bochechas ruborizaram pateticamente. O Chanceler Lan parecia adorável, como uma fruta madura, fresca, pronta para ser mordida.
— Há algo que você gostaria de comer? — ele perguntou, observando a expressão alheia com curiosidade.
Jiang Lu precisou dar um chute mental na própria bunda para não dizer o que havia pensado.
— Ah, uh… Bem… — titubeou, agradecendo aos deuses por quase todo seu rosto estar escondido pela máscara. — N-nada em particular.
— E para beber?
— Apenas chá está bom.
— Irei pedir alguns lanches enquanto você se acomoda.
Ele se afastou com a mesma graciosidade no andar, seus pés descalços protegidos do contato direto com o chão pela tapeçaria de brocado que o cobria de par em par. Sentiu-se mal por não ter tirado os sapatos antes de entrar, então se limitou a sentar no lugar indicado sem fazer bagunça.
Observou ao redor enquanto aguardava seu retorno, notando que este cômodo fora projetado para ser confortável e visualmente agradável. As paredes eram de um verde claro de tom frio, quase branco, os rodapés de madeira escura e o teto boleado era todo pintado com a ilustração de uma floresta noturna, com flores arroxeadas se destacando nos tons escuros do cenário. A cor delas era semelhante a dos olhos do chanceler.
Além da mesa de chá e do sofá onde estava, havia um divã de veludo marrom e uma poltrona de mesma cor ao redor, não havia quadros nas paredes, apenas algumas prateleiras com vasos de flores, incensários e estatuetas de bronze. Na extremidade, uma grande porta de vidro estava aberta, dando passagem para uma varanda ampla com piso e mureta de calcário, plantas diversas ao redor e trepadeiras enrolando-se na mureta de frente para o jardim. Ali também havia um conjunto de mesa com quatro cadeiras, feitas de madeira rústica.
Com o ruído de sua chegada, Jiang Lu voltou a encarar Lan Wen.
— Você mora em um lugar muito bonito, Chanceler Lan.
— Obrigado por suas palavras gentis, jovem Lu. Fico feliz de agradar os olhos de um artista.
Observou-o caminhar atravessando a sala, recostando-se no divã de frente para Jiang Lu. Parecia uma pintura viva enquanto colocava a cigarrilha entre os lábios, tragava com um murmúrio baixo e soprava a fumaça de olhos fechados.
Como seria o desafio de retratá-lo em uma pintura?
— Você deve estar se perguntando porque eu te chamei aqui — o Chanceler Lan iniciou a conversa após alguns segundos de contemplação, batendo a cigarrilha na borda do cinzeiro disposto na lateral de seu assento. — Está curioso?
— Sim… — mais atento aos seus lábios do que às suas palavras, a voz de Lu saiu trêmula, a boca secou e uma gota solitária de suor desceu por sua nuca.
— Também estou muito curioso — admitiu, seus olhos brilharam enquanto analisava Jiang Lu dos pés à cabeça descaradamente, como se não fosse nada demais avaliar cada cantinho do corpo de alguém. — Ouvi muito sobre você.
— Suponho que foram coisas boas.
— Se fossem coisas ruins, você não teria passado do portão desta casa — quando terminou o cigarro, Lan Wen deixou a cigarrilha apoiada no cinzeiro e fez um movimento simples no ar frente a si, um brilho azulado surgiu com o movimento, logo após, um pergaminho surgiu da pequena fenda de luz e caiu em sua mão. — Como pode imaginar, te chamei aqui porque gostaria de lhe oferecer um trabalho.
Impressionado com a demonstração de poder espiritual, Jiang Lu o encarou com surpresa. Não imaginou que o chanceler pudesse usar poderes mágicos. Ele era um cultivador? Isso era possível?
— Meu amigo precisa de alguém competente para a execução de um trabalho importante, pesquisei um pouco e indicaram você, jovem Lu — explicou com calma, segurando o pergaminho com cuidado. — Alguns membros do consulado me informaram que você é o artista por trás do quadro na recepção do prédio, então contatei seu empregador primeiro e ele me enviou um extenso portfólio no início do outono. Você é um artista talentoso, devo admitir.
Um sorriso singelo surgiu após o elogio, quando se tratava de ego, Jiang Lu admitia ser muito envolvido na tarefa de massagear o seu.
— Muito obrigado, é uma honra estar à altura das expectativas de um grande admirador da arte como você, Chanceler Lan. Mas, se me permite perguntar, qual seria o trabalho que seu amigo gostaria de desenvolver? Já estou engajado em um projeto e só posso aceitar uma demanda nova quando finalizá-lo.
— O Sr. Jin me informou sobre sua agenda, não há pressa. Tratando-se de uma tarefa que demandará tempo, caso você aceite, e requer-se exclusividade durante todo o tempo em que você estará trabalhando nela. Quanto ao objetivo principal, não poderei informá-lo, pois não é de meu conhecimento.
Uma expressão confusa passou pelo rosto de Jiang Lu. Percebendo os lábios crispados do artista, Lan Wen apaziguou.
— Veja bem, trata-se de uma tarefa sigilosa da qual apenas os envolvidos podem ter conhecimento. Esse pergaminho contém todas as informações importantes, meu amigo colocou um feitiço especial de silêncio no lacre dele, ou seja, ao abri-lo, você não poderá compartilhar seu conteúdo com mais ninguém. Você não é obrigado a aceitar, mas não pode falar sobre ele. Claro, você pode recusar a oferta sem precisar abri-lo, é um acordo que visa segurança e transparência entre os envolvidos.
Ele ponderou um pouco, olhos voltados para o pergaminho grosso nas mãos alheias. Parecia muito suspeito um acordo com tais condições iniciais, também não entendia totalmente porque o chanceler o chamou para conversar pessoalmente sobre isso, quando poderia ter passado essas informações para o Sr. Jin.
— Quanto ele está disposto a pagar pelo trabalho?
— Cinquenta mil ciclos de luz — Lan Wen não hesitou um segundo para respondê-lo, alheio à reação exagerada de Jiang Lu, que engasgou com a própria saliva.
— Cinquenta mil? — incrédulo, questionou-o. A moeda oficial de MuYin era chamada de “ciclo” e poderia ser de cobre, prata, ouro ou luz, que correspondia a um tipo específico de cristal espiritual usado principalmente entre nobres e cultivadores.
Em questões monetárias, os ciclos de luz valiam três vezes mais que um ciclo de ouro. Cinquenta dessas moedas já eram muito, cinquenta mil estava fora da sua realidade. Trabalhando o ano todo, ele havia conseguido ganhar apenas o equivalente a quinze mil ciclos de luz.
— Você pode tentar negociar a mais, caso ache que a oferta está abaixo da sua margem de preço — o chanceler permanecia tranquilo, quase indiferente, como se este fosse um valor razoável. — Meu amigo é rico, não será um problema.
— Rico…?
Fala sério, isso é eufemismo, Jiang Lu pensou, ainda chocado. Ele é o Elon Musk de MuYin!
— Ele tem bastante poder aquisitivo.
— Eu vejo.
Ele poderia me comprar, se quisesse.
— Analise a proposta com cuidado. Independente do valor ofertado, leve em consideração a complexidade da solicitação. Chen Zhanye pode ser meu amigo, mas é bem difícil de agradar. Caso não se sinta capaz de alcançar as expectativas, aconselho que não aceite.
Jiang Lu repetiu o nome em sua cabeça, para procurar mais informações sobre ele depois. Deveria ser um dos figurões do continente, provavelmente um nobre de alta posição. Seria problemático, mas igualmente benéfico ter conexões com pessoas de classe social elevada. De qual país ele seria?
Apesar do silêncio no fundo de sua mente, um desejo secreto fervilhava lá dentro.
— Sou grato pelos conselhos, vou pensar com calma sobre isso.
Jiang Lu tomou a liberdade de ir até Lan Wen e recebeu o pergaminho de suas mãos. Eles trocaram um olhar um pouco mais longo que o normal e apesar da falta de jeito do pintor, conseguiu voltar para seu assento sem demonstrar ter sido afetado por isso.
— Bem, mande um mensageiro enviar sua resposta quando tiver decidido. Em caso de dúvidas que possam ser compartilhadas, me faça saber e farei a ponte entre você e ele.
— Até quando posso dar minha resposta?
— Até o início da primavera. Ele gostaria de começar o projeto nesse período. Mas caso haja uma resposta negativa, peço que me comunique antes, assim poderei procurar outra pessoa.
Jiang Lu estava se fazendo de difícil apenas porque precisava ler primeiro antes de aceitar. Por cinquenta mil ciclos de luz, ele seria capaz de fazer quase tudo. E dentro desse “quase” tinham coisas que ele precisava considerar.
— Certo, irei manter isso em mente.
Lan Wen acenou e com o tópico fechado, ele se esticou para pegar um sino ao lado do cinzeiro e o sacudiu brevemente.
— Agora que acabamos de falar sobre negócios, vamos para a parte interessante.
Lu o encarou com curiosidade, enquanto alguns servos adentraram a sala para organizar a mesa de chá com lanches e bebidas. O cheiro de chá de alecrim subiu com o vapor quando serviram duas xícaras, entregando uma para cada um deles. Apenas quando os servos terminaram de organizar tudo e se retiraram, Jiang Lu perguntou:
— Sobre o que gostaria de falar, Chanceler Lan?
Bebendo de sua xícara com pálpebras semicerradas e expressão distante dos assuntos mundanos, o chanceler voltou a oferecer o silêncio desconcertante antes de falar alguma coisa. Lu esperou e ao notar que ele ainda não falaria nada, sorveu um pouco do chá. A bebida quente e refrescante tirou a tensão de seus músculos e clareou suas sensações após alguns goles.
— Acho que é bastante claro que eu estava curioso sobre você — Lan Wen disse logo depois, como se estivesse esperando que o rapaz relaxasse antes de prosseguir com a conversa. Seu olhar felino o analisou dos pés à cabeça como um lince avaliando um filhote estranho na ninhada.
Jiang Lu engoliu em seco diante do escrutínio.
— Não há nada especial sobre mim — comentou com humildade, por educação.
— Isso é verdade — a sinceridade do chanceler fez o mundo de Jiang Lu desabar. — Para um ger, você é bem comum, claro, sem poder ver seu rosto não consigo avaliar muito. Você usa máscaras por razões estéticas?
— Por estilo. Gosto de fazer combinações com as minhas roupas.
— É perceptível, você se veste como uma Dama de Nanquim.
— Desculpe a ignorância, mas o que isso significa?
Lan Wen sorriu de canto e acendeu outro fumo da cigarrilha.
— As “Damas de Nanquim” são mulheres que se vestem de maneira tradicional e extravagante, normalmente são atrizes ou filhas de famílias ricas que exibem suas posses através do vestuário. A principal característica delas é o uso de maquiagem bem marcada com linhas pretas bem definidas ao redor dos olhos, ou o uso de máscaras de porcelana que imitam essas maquiagens.
— Eu nunca tinha ouvido falar sobre isso — só conhecia as histórias de sua vida passada, uma delas¹ sendo um espinho em seu coração.
— Não é algo popular em Chaosheng Tai, já que é uma tradição de Lixue. Se você se interessar um pouco mais sobre moda, arte e cultura, vai conhecer outros aspectos interessantes do continente.
Notou o tom passivo-agressivo na voz dele, como se o chamasse de ignorante. Jiang Lu se considerava bem engajado, só lhe faltava um pouco mais de repertório cultural. De repente o fascínio por Lan Wen se tornou antipatia.
— Há poucos gers livres em MuYin e no Além-Mar, sabia? — o chanceler continuou, encarando-o com aquele par de olhos felinos. — Porque não somos muitos, nos conhecemos e tentamos manter contato, por mais mínimo que seja, na tentativa de evitar que nossa espécie desapareça para sempre. Afinal, já estamos quase extintos. Então, isso me fez ficar muito chocado quando soube que um ger veio para Chaosheng Tai.
Não conseguia prever aonde essa conversa ia chegar, mas teve um mal pressentimento sobre isso.
— Por pensar que se tratava de um amigo, pensei em procurá-lo imediatamente para recebê-lo como faria com qualquer outro da minha espécie. Até saí nas ruas para vê-lo, tão curioso estava, porém…
— Hum…? — Jiang Lu instigou, ansioso, querendo saber imediatamente o que ele estava querendo dizer.
— Meu sangue não te reconheceu. Na verdade, não reconhece até agora. Então, me diga, o que eu deveria pensar sobre isso?
— Não sei o que significa…
Interrompeu a si mesmo, confuso. Tentou absorver as palavras e seus significados, porque não sabia que gers podiam se reconhecer e não entendia de que maneira esse reconhecimento poderia ser feito “pelo sangue”. Não sentiu nada além de fascínio ao conhecer Lan Wen pessoalmente, então como poderia ser verdade? Não fazia sentido.
— Então… — tentando recuperar sua habilidade social, Lu pigarreou baixinho e se dirigiu ao chanceler, apertando a xícara entre os dedos. — O real motivo de Chanceler Lan me chamar foi a minha espécie? A nossa espécie.
Novamente, Lan Wen demorou para responder, com um silêncio desconcertante para tragar e batucar a cigarrilha no braço do divã.
— Acho que podemos dizer isso — comentou de maneira ambígua. — Queria vê-lo pessoalmente para tirar minhas próprias conclusões.
— Mas por que agora?
Era uma pergunta válida. Já faziam três anos que chegou em Chaosheng Tai, se o chanceler estava curioso, não deveria tê-lo procurado antes?
— Porque eu queria ter certeza, jovem Lu. Queria ver com meus próprios olhos, ouvir com meus próprios ouvidos, sentir com meu próprio nariz.
Jiang Lu sentiu um aperto na parte de trás da cabeça, como se uma barreira o impedisse de compreender o que era dito na conversa. Estava cada vez mais difícil de entender.
Inclinando a cabeça para o lado e com o olhar virado para os próprios cachos de seu longo cabelo, o Chanceler Lan ponderou um pouco sobre as próprias palavras, considerando.
— Somos diferentes como as águas de Da Yu e Da Yüer se encontrando no abismo do norte.
— Perdão, creio que não entendo o que você está tentando dizer — pousou sua xícara, agora vazia, na mesa de chá. Colocou as mãos sobre as coxas e suspirou, semicerrando os olhos para ele. — Se isso é por causa da nossa aparência física, é normal que as pessoas sejam diferentes, não?
O chanceler soltou uma risada soprada, involuntária. Ele parou seus movimentos e contemplou um ponto imaginário por alguns instantes antes de erguer o olhar para encontrar com o dele.
— Você realmente não sabe nada sobre a própria espécie, não é? Chega a ser adorável.
Isso pegou Jiang Lu de surpresa, porque de certo modo, ele não sabia muita coisa. Não tinha conhecimento prévio porque “Príncipe Sombrio” quase não os descrevia e o conhecimento adicional vinha do que ouvia por aí e do que percebia em si mesmo. Contudo, frente a um ger mais velho, que nasceu e viveu como um ser extraordinário por décadas, se sentiu tolo e ignorante.
E se os gers tivessem características semelhantes entre si? Se todos eram parentes, como mencionado pelo chanceler, isso era o mais coerente, mas até parentes têm diferenças físicas distintas, o que os torna únicos. E se realmente conseguiam se reconhecer apenas estando no mesmo ambiente, por que ele não podia fazer o mesmo? Isso era devido a ser um transmigrado?
Ele soltou um barulho estranho de entre os dentes quando um pensamento passou em lampejo por sua mente.
Esse é o ponto.
— Oh, acho que você finalmente percebeu — Lan Wen, que estava atento aos seus movimentos mesmo que sutis, esperou ansiosamente pelo fim de seu monólogo interno como se pudesse ouvi-lo. Sentou-se com os pés para fora do divã e cruzou as pernas. — Entendeu o motivo da minha curiosidade?
Jiang Lu titubeou, nervoso. Seu coração acelerou e seus ouvidos começaram a zumbir. De olhos arregalados, contemplou o verdadeiro sentido por trás das palavras do Chanceler Lan com vontade de dar meia volta e escapar de tamanha saia justa.
Todos os gers são parentes, Lan Wen disse. Todos os gers de MuYin e do Além-Mar são conhecidos ou parentes, mesmo distantes. Isso implicava um senso estranho de comunidade, mas principalmente de proximidade. Devido ao enorme paradigma sobre a existência desses seres extraordinários, estes viviam no limite da exploração ou da introspecção.
Logo, a origem de Jiang Lu não podia ser desconhecida, pois não haviam muitas opções de quem poderiam ser seus pais, uma vez que ele precisava ter sido gerado por um ger para nascer como ele.
Mas Lan Wen mencionou “gers livres”, o que implicaria na possibilidade de ter nascido de um prisioneiro. Poderia usar isso como…
— Gers só conseguem gerar crianças se estiverem felizes e satisfeitos — Jiang Lu quase chorou ao notar que sua linha de pensamento foi esmagada antes mesmo de chegar a uma resolução para sua mentira. Lan Wen respondeu a isso como se o rapaz tivesse expressado suas considerações em voz alta. Sua atitude era muito paciente. — É impossível que um ger gere um bebê em cárcere, pois apesar da alta taxa de fertilidade, nossa espécie é extremamente emocional, qualquer alteração anímica intensa pode provocar um aborto.
Lu suspirou, derrotado.
— Não tente mentir para mim, jovem Lu. Há um arranjo ao redor desta casa, se você mentir, eu saberei. Ao invés de tentar lutar contra mim, que só estou curioso sobre sua origem, que tal colaborar comigo?
— Você me colocou em uma posição difícil, Chanceler Lan.
— Não pode haver segredo tão difícil assim…
— O meu com certeza é.
A conclusão era simples: Jiang Lu não era filho de nenhum ger de MuYin ou do Além-Mar, por isso Lan Wen não o reconhecia. Isso era óbvio, porque ele não pertencia a esse lugar. Porém, isso não era algo que pudesse ser dito levianamente.
Antes de tudo, ninguém acreditaria nele se dissesse que veio de outro mundo, que na verdade essas pessoas são apenas personagens dentro de uma história e que, em algum lugar do continente, o protagonista está se tornando um vilão.
Até mesmo pensar sobre isso parecia loucura, contudo, a curiosidade flamejante nos olhos do chanceler continuava acesa como a explosão de uma bomba termonuclear.
Encurralado, Lu sentiu um gosto amargo na boca. Sempre via esse tipo de situação em livros com transmigração na sua vida passada e, dentro da narrativa, eventualmente alguém desconfiava do transmigrado e percebia inconsistências em sua existência. No entanto, não pensou que isso aconteceria com ele tão cedo! Estava vivendo tranquilamente, tinha uma rotina, amigos, estabilidade e dinheiro. Não chamava atenção desnecessária, não brigava com ninguém, então como tinha chegado nesse ponto?
Ficou preocupado com a possibilidade de tudo isso desmoronar.
— Me diga o que você quer — interiormente, Jiang Lu desistiu. Não podia lutar sem armas frente a alguém que tinha se preparado antecipadamente para a batalha. Incapaz de mentir e sabendo da perspicácia do chanceler, que podia lê-lo mesmo por trás da máscara, estava encurralado. — Sabendo de todas essas coisas, só posso supor que você me chamou porque queria algo de mim.
Chantagear era uma palavra muito forte, embora fosse exatamente no que estivesse pensando. Isso o irritou, porque não previu que algo assim poderia acontecer. Claro que não pensou que suas mentiras fossem durar para sempre, mas tinha um conjunto gigantesco de respostas prontas – mais mentiras – que poderiam corroborar com a anterior ou substituí-la caso fosse necessário.
O chanceler derrubou seu plano pelo simples fato de conhecer os gers melhor que ele e, novamente, que o conhecimento se mostrou como a base da sobrevivência pacífica nesse mundo. Não podia continuar ignorante ou poderia ser pego de surpresa novamente, então decidiu que este era um ponto de virada para o fim dessa vida confortável. Pois se Lan Wen, que nunca interagiu pessoalmente com ele, percebeu a sujeira debaixo de seu tapete, qualquer pessoa que chegasse um pouco mais perto também perceberia.
O cheiro de canela com limão ficou mais intenso, mais doce do que cítrico, evidenciando a animação do chanceler.
— Eu só quero saber… — disse ele com simplicidade e certo desapego — …como uma criatura extraordinária como eu pode ser tão diferente.
Jiang Lu batucou sobre as coxas com os dedos, pensativo. Seu orgulho estava ferido por se sentir encurralado, ameaçado, quase exposto pelo outro. Recusava-se a se entregar de bandeja, então pensou severamente sobre a melhor forma de lidar com a situação.
— Façamos um acordo — ele propôs, após torrar alguns neurônios.
Por algum motivo, Lan Wen parecia satisfeito.
— Claro! Que acordo seria esse?
— Eu respondo às suas perguntas, mas a cada resposta, você precisará me dar algo em troca.
— O que você quer? Dinheiro?
— Não, favores — mordeu o lábio inferior por alguns segundos, cerrou os punhos e manteve a postura resoluta. — Eu irei informar o que quero e você decidirá se é razoável ou não. A complexidade dos favores será equivalente à seriedade da resposta.
O Chanceler Lan parecia pensativo, porém, não demorou muito para oferecer uma resposta.
— Você é muito bom negociando, devo admitir — ele disse com um sorriso pequeno e o olhar enviesado. — É justo que eu precise pagar o preço pela minha curiosidade, uma vez que é uma intenção totalmente individual e fútil querer saber sobre suas intimidades. Bem, eu aceito.
— Certo. Qual seria sua primeira pergunta?
— Obviamente a minha questão de maior interesse — fez uma pausa, observando o que era visível do rosto alheio para buscar qualquer sinal de emoção que fosse, mas não encontrou. — De onde você veio?
Uma espécie de gongo tocou na cabeça de Jiang Lu, seus olhos se arregalaram e seu queixo caiu. Caramba, ele foi para uma questão bem difícil de responder, justamente aquela que, momentos atrás, ele considerou impossível de ser dita em voz alta.
Para dizer que ele veio de outro mundo e revelar o seu maior segredo, Jiang Lu não podia pedir qualquer coisa. Ele encarou o outro em silêncio, este que esperava sua condição para dar a resposta. Ele pensou muito antes de lhe vir à cabeça uma ideia tão absurda quanto a frase “eu vim de outro mundo”.
— E então, o que você quer em troca de me dar essa resposta? — Lan Wen instigou após notar o ar conflituoso ao redor do rapaz.
Respirando fundo, Jiang Lu puxou o ar para encher o pulmão de coragem. Seus lábios tremeram e suas bochechas arderam, mas conseguiu falar da maneira mais digna possível:
— Eu quero que você pose para mim, para que eu faça uma pintura sua — ele disse, assistindo um sorriso malicioso surgir no rosto alheio, como se esta fosse a batalha mais fácil da sua vida. Porém, antes que ele falasse, Jiang Lu estava disposto a arrancar o sorriso do rosto dele: — Nu.
O único som na sala foi o barulho estridente que a xícara de Lan Wen emitiu ao se chocar contra o chão.
[1] Nesta passagem, o personagem se refere ao “Massacre de Nanquim”, episódio durante a Segunda Guerra Mundial, onde o Japão Imperial invadiu a cidade de Nanquim e brutalizou seus moradores, principalmente as mulheres.
Capítulo 11
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Dragão de Prata: 不道德的修炼之路
Jiang Lu era um adolescente viciado em histórias xianxia, sempre procurando um novo livro para ler e devorando quase todas as narrativas de seu site favorito. Quando conheceu a novel...