Capítulo 12
- Home
- All Mangas
- Dragão de Prata: 不道德的修炼之路
- Capítulo 12 - Muito encanta aquele perigoso olhar vicioso
Encontre o autor no twitter/X: https://x.com/morbyul_
Também estou no wattpad: https://www.wattpad.com/user/morbyul
𖥟
O vento frio cortava a noite, coroado por uma fileira de nuvens cinzentas que cobriam o céu sem espaço para qualquer aparição ínfima da lua.
Três pessoas vestindo preto da cabeça aos pés deslocavam-se juntas, cavalgando a despeito das rajadas gélidas que se infiltravam pelas golas de seus casacos. As montarias eram anormalmente silenciosas, crinas balançando com graciosidade na escuridão, como cavaleiros da morte se dirigindo à próxima vítima. Se não fosse pelo pálido brilho metálico do olhar de seu líder, este grupo teria se mesclado à escuridão.
Wang Zhiyuan apertou as rédeas enquanto tentava conciliar a dor lancinante que atravessava seu corpo com a sensação borbulhante e desconfortável retumbando no seu peito. Ter saído sob a justificativa de procurar seu irmão foi algo que decidiu em míseros quinze segundos de contemplação, sem espaço para dúvidas ou murmurações.
Para ele, era o resultado óbvio. Embora o exército imperial contasse com inúmeros grupos que poderiam se envolver nas buscas, apenas ele estava capacitado para lidar com qualquer tipo de adversidade. As coisas sempre foram assim, pois mesmo que não existisse um vínculo mágico real entre ele e seu irmão, o karma que os unia jamais deixaria de existir.
As crenças populares diziam muitas coisas, mas não era adepto de ouvi-las. Zhiyuan confiava muito no próprio julgamento, na própria percepção e na própria forma de resolver as coisas. Por muito tempo foi criticado e julgado por isso, comportamento encarado como insubordinação que, mais tarde, foi reapresentado como “senso de liderança”.
Não fazia o menor sentido.
Porém, já não fazia diferença. Sua história havia sido escrita em linhas tortas, com uma intensa tinta preta que borrou as letras e tornou difícil compreender a mensagem por trás dela. Não era importante, porque não conhecia uma só pessoa que se importasse o suficiente para tentar compreender o significado contido em cada símbolo. E morreria dessa maneira.
Wang Zhiyuan suspirou e fechou os olhos, calando as vozes de sua cabeça que soavam assustadoramente como a sua. O som do vento foi tudo que ouviu por um instante, até ser capaz de contar as batidas do próprio coração, que estava tão acelerado que precisou fazê-lo de dois em dois.
— Existe alguma maneira de encontrarmos o Príncipe Herdeiro sem pistas? — alguém gritou sobre o som do vento, tirando-o de seus pensamentos.
Não precisava olhar para saber de quem se tratava, pois a voz de Feng Huaijin era única em todo o mundo, assim como a de Su Xuelin, que cavalgava logo atrás dele.
— Existe — Zhiyuan respondeu de maneira assertiva até demais, sem espaço para novos questionamentos.
A apreensão dos dois soldados era quase palpável para ele, que estava acostumado a tal nível de estarrecimento, mas não particularmente interessado em dar explicações profundas. Eles o seguiram por livre e espontânea vontade, afinal, o desejo inicial de Zhiyuan era seguir sozinho, mas após deparar-se com o pedido deles, seria perda de tempo tentar partir sem levá-los consigo.
De certo modo, entendia o que eles poderiam estar sentindo a seu respeito após seu encontro nada agradável com o Imperador, eram sempre os mesmos olhares fatalistas contemplando as marcas assustadoras deixadas em sua pele, testemunha de todos os horrores que acompanhavam a realidade de estar associado ao Filho do Céu de alguma maneira. Seus soldados eram pessoas comuns, com desejos, sonhos, valores e virtudes. Os entendia, mas não gostava de ser colocado como alvo de sua piedade.
A introspecção era a melhor saída na maior parte do tempo. Sozinho, Zhiyuan encontrava-se com a própria vergonha e podia manejá-la da maneira menos humilhante possível. Já era ruim o suficiente quando era apenas ele contra os seus demônios, ter uma plateia o deixava mortalmente desconfortável.
Não era indefeso ou delicado, não precisava de tamanha atenção ou preocupação mal disfarçadas de seus soldados. Haviam sido treinados juntos, sob o mesmo mestre e os mesmos dogmas, Zhiyuan tinha maior potencial do que eles por ser um cultivador ambivalente, então porque as coisas eram assim?
Considerando seu status como príncipe, descartava a possibilidade de haver alguma concepção alterado pelo título, pois nunca foi tratado como tal. Na verdade, Zhiyuan nunca experimentou tal afeto, tal regalia. Tudo que ele conhecia era o frio e indiferente peso da sua espada.
Sentia o olhar de Huaijin queimando em sua nuca, as dúvidas de Xuelin viajando entre eles como um barco que naufraga a poucos quilômetros do porto. Era inútil tentar ver através dele.
O Segundo Príncipe não era, nem de longe, a pessoa mais aberta da Cidade Imperial. Zhiyuan aparentava estar tão alheio aos arredores, que muitos não consideravam seu caráter frio, pois sua indiferença tinha um ar morno de distanciamento e apatia. Sua figura exterior mostrava isso, como uma entidade sóbria que assistia os mortais sem interesse em seus assuntos; ou como um leitor que passava os olhos distraidamente sobre as páginas de seu livro menos favorito.
Por outro lado, por trás da máscara rígida firmemente presa à sua pele, Zhiyuan tinha uma mente barulhenta e um mundo interior muito difícil de administrar. Pagando o preço de ter aprendido cedo demais a suprimir seus sentimentos, desejos e ambições, cresceu como um cachorro de grande porte que foi adestrado preso a uma corrente.
A corrente, por sua vez, após constante exposição à fúria do fogo, estava danificada em tantas partes que sequer poderia contar com os dedos de ambas as mãos.
Faltava pouco para o primeiro elo ser rompido.
— Para onde deveríamos ir agora? — Xuelin perguntou assim que chegaram em uma bifurcação na estrada que os distanciava da capital de Weiqi. Os três pararam por alguns instantes, com os soldados um em cada lado do Segundo Príncipe, esperando pelo que ele iria decidir.
A resposta não veio imediatamente.
— Poderíamos considerar onde seria mais auspicioso para um cultivador demoníaco se esconder — Huaijin sugeriu após alguns segundos desconfortáveis de silêncio. — À esquerda seguiremos para vilas rurais que tem muitos campos abertos, não seria a melhor região para escapar, mas há bosques de mata densa que poderiam servir como esconderijo.
— À direita fica Junling, é uma cidade grande e populosa. Mesmo que seja menor que a capital, o fluxo de pessoas pode ter sido considerado como fator importante na rota de fuga, mas seria difícil se esconder na região porque há muitos guardas imperiais patrulhando — Xuelin contrapôs.
— Então o que você sugere? Que procuremos nos bosques?
— Seria meio inútil, não acha? Tenho certeza que outros grupos de soldados já foram procurar nos bosques, o melhor mesmo seria voltarmos e esperar alguma informação.
— Eu concordo com a ideia de voltarmos, mas ao invés de irmos para a Cidade Imperial, podemos nos hospedar em uma pousada da capital.
A conversa era tão estúpida que Zhiyuan parou de prestar atenção.
— Você até que tem ideias muito boas às vezes, Feng-Shixiong! — Xuelin sorriu.
— Às vezes? Humpf… — Huaijin ignorou o tom condescendente de Xuelin e se voltou para o príncipe. — A-Yuan, o que você acha?
Zhiyuan, que apenas existiu silenciosamente entre eles nesse meio tempo, os encarou com uma expressão séria que fez ambos retornarem a postura respeitosa que um soldado deveria ter.
— Vamos para Junling — decretou, estalando as rédeas para conduzir o cavalo naquela direção.
Expressões surpresas dividiram os rostos de Huaijin e Xuelin, que como sempre foram deixados para trás com as palavras na boca. Tentar convencê-lo a voltar para a capital e deixar as buscas para os soldados designados era uma batalha perdida, mas os dois não podiam deixar de tentar. Portanto, resignados com a própria insignificância, apressaram-se para segui-lo antes que o perdessem de vista.
Huaijin costumava dizer que a diferença entre eles era como o céu e a terra. Zhiyuan claramente havia nascido para um propósito muito maior, agraciado pelos deuses com a beleza de sua mãe e a inteligência de seu pai, o coração austero da lua e o caráter vibrante do sol, o Segundo Príncipe possuía o karma de quem escreveria uma história fantástica com os próprios dedos.
Ele se destacava por meramente existir, sua aparência exótica, sua personalidade única, seus poderes mágico e espirituais que desafiavam a sabedoria de seus mestres. Zhiyuan tinha dois caminhos de cultivo, conseguiu domar o cavalo mais rápido e feroz, possuía força sobrenatural e uma percepção sobre humana. Ele era um gênio que pessoas comuns como Huaijin e Xuelin só podiam admirar de longe.
Não podiam perdê-lo de vista.
O caminho até Junling era curto partindo daquele ponto, a cidade ficava a poucos quilômetros da capital e compartilhava o mesmo rio, mas tinha uma densidade populacional mais significativa se considerasse o fluxo de pessoas que entravam e saíam da cidade todos os dias.
Enquanto a capital tinha templos, teatros, praças e museus que propiciavam o turismo, Junling possuía complexos mercantis que ofereciam uma variedade de produtos e serviços que sustentavam toda a economia da região. Xuelin estava certa sobre a existência de muitos guardas do exército imperial resguardando a cidade, que recepcionava muitos andarilhos, comerciantes e turistas todos os dias. Essa quantidade de guardas visava garantir que não entrariam seres mal intencionados que poderiam colocar a paz e a ordem em risco.
Huaijin parecia estar com esse pensamento bem cimentado em sua cabeça.
— Com todo respeito, A-Yuan — ele disse mais tarde, após conseguir se aproximar um pouco de seu líder. — Se o cultivador demoníaco tiver seguido para Junling, ele não seria um idiota? Que sequestrador iria fugir pela rota mais movimentada do país?!
— Feng-Shixiong pode ser estúpido na maior parte do tempo, Vossa Alteza. Mas vou ter que concordar com ele dessa vez — Xuelin suspirou de maneira ofegante, como se fosse ela correndo e não o cavalo.
— Obviamente, eu… Ei, você me chamou de quê?!
Zhiyuan se compadeceu deles e desacelerou um pouco.
— Aprecio a colaboração de ambos e não discordo de sua linha de raciocínio. Para um sequestrador seguir a rota mais movimentada com sua vítima, seria completamente inviável se não considerarmos outros fatores — conversar naquelas circunstâncias era bem desconfortável. Os dois soldados se esforçavam para falar mais alto e serem ouvidos de maneira plena, mas Zhiyuan não alterou o tom de voz.
— Como assim? — Com muito sacrifício, Xuelin alinhou-se ao lado do príncipe e cavalgou junto a ele. — Por favor, Vossa Alteza, clareie nossos pensamentos.
Zhiyuan ponderou um pouco antes de responder, até hesitou, mas nada disso foi percebido pelos soldados. Para eles, o príncipe continuava com seu personagem pulcro de sempre. Ele escolheu o argumento mais coerente naquela situação.
— Vocês esqueceram que meu irmão, o Príncipe Herdeiro, nunca foi treinado para lutar. Se um cultivador demoníaco o ameaçasse, o que ele poderia fazer?
— Vossa Alteza não acha que o Príncipe Herdeiro tentaria pedir socorro se tivesse a chance? — Xuelin perguntou da maneira mais respeitosa possível. No entanto, quando Huaijin os alcançou para cavalgar no lado oposto, à esquerda de Zhiyuan, seu tom era bem diferente.
— Ele seria burro se não tentasse escapar ou pedir ajuda assim que fosse possível. Vossa Alteza, o Príncipe Herdeiro, pode não ter sido treinado para lutar, mas foi bem instruído sobre como escapar! Na verdade, até agora estou surpreso por ele ter sido levado após sofrer várias tentativas de sequestro e sempre sair ileso de todas elas.
Xuelin o repreendeu imediatamente por seu tom desrespeitoso para com um membro importante da família imperial, porém, Zhiyuan não se importou muito com isso. Não era uma perspectiva errônea, a depender do ponto de vista.
Nascido para se tornar o próximo imperador, Wang Yiran foi treinado em tudo que lhe competia como futuro Filho do Céu. Além de ritos, leis e ordens, ele precisava aprender sobre como garantir a própria segurança. Afinal, ser membro da família imperial o tornava propriedade nacional, mais do que uma pessoa, era um ente importante para a manutenção do país.
Weiqi poderia lidar bem com uma semana sem um soldado, um cultivador, um artesão, ou um ministro. No entanto, uma semana sem um governante poderia propiciar a queda do império e a desgraça de todas as pessoas que pertenciam a ele. Era uma responsabilidade enorme, que exigia sangue frio e muitos sacrifícios.
Nesse caso, Yiran deveria ser aquele a sacrificar os outros pelo próprio bem, pois até no xadrez o rei era o último a cair. Esse era o esperado.
O Imperador fazia isso – na verdade, fazia muito pior –, mas Zhiyuan sabia que seu irmão não conseguia ser igual. Ninguém conseguiria.
— O Príncipe Herdeiro nunca enfrentou um cultivador demoníaco — Xuelin retrucou logo depois, com mais ímpeto do que o normal. — Também foi algo novo para nós, ao ponto de dezenas de soldados terem sido abatidos! Você acha mesmo que ele gritaria por ajuda se tivesse uma espada no pescoço?
— Você mudou de ideia muito rápido, não? Agora há pouco estava dizendo que ele poderia escapar! — Huaijin apontou para ela como se estivesse se sentindo traído. — Isso é hora de ser puxa saco?!
Zhiyuan não precisava olhar para saber que Xuelin tinha uma vermelhidão intensa cobrindo todo seu rosto, mesmo que a escuridão estivesse ali para ocultá-la.
— Quem você está chamando de puxa saco? Fale isso novamente se for homem! — A voz soou estridente e o som de uma espada foi ouvido, mas a arma não havia sido desembainhada ainda.
Huajin rugiu com a forte ventania que passou por eles.
— Está me ameaçando?! Como ousa…?! Eu, seu shixiong, a quem você deve respeito…! Vai tão longe apenas para defender o Príncipe Herdeiro?
Zhiyuan pôs os olhos em branco.
Inacreditável…
— Você é o único ofendendo alguém aqui, denegrindo a imagem do príncipe! Já não é o suficiente ser totalmente desrespeitoso todos os dias com o Segundo Príncipe, e também age estupidamente contra o Príncipe Herdeiro?! Que exemplo eu poderia ter de um shixiong como você?!
— E você seria o que, ministra das pequenas causas da Cidade Imperial?!
O cavalo de Zhiyuan, que tinha diminuído o ritmo para seguir junto aos seus companheiros, apressou o passo e voltou a se distanciar.
Era por isso que não cavalgava perto deles.
Enquanto as palavras ríspidas e impacientes eram proferidas às suas costas, Zhiyuan foi grato por não precisar explicar mais do que aquilo para convencê-los de que Junling era o destino mais óbvio, mesmo que precisasse testemunhar uma cena de ciúmes como pedágio. Só queria que eles o seguissem em silêncio, sem perguntar demais e exigir a exposição de algo que não podia ser dito em voz alta.
Podia ter perdido a proximidade com Wang Yiran há muitos anos, distância esta que ele mesmo estabeleceu quando percebeu que os dois pertenciam a mundos totalmente diferentes. Contudo, existiam acordos silenciosos entre irmãos que não podiam ser quebrados, a não ser em situações extremas de vida ou morte.
Para alguns, poderia tratar-se de algo trivial, mas era importante que houvesse coisas que apenas Wang Zhiyuan soubesse sobre Wang Yiran, porque era isso que o colocava em vantagem sobre ele.
Wang Yiran tinha a própria benção divina. Assim como Zhiyuan recebeu o cultivo ambivalente e o poder elétrico que vibrava em seu corpo, Yiran foi agraciado com boa sorte e bom julgamento. Ele era o filho favorito do acaso, imune a qualquer infortúnio que acometia as pessoas normais. Como quando um copeiro tropeçou e derramou vinho sobre ele, coincidentemente, um servo passou à sua frente e tomou toda a chuva do líquido em seu lugar.
Ao caminhar pela Cidade Imperial durante as chuvas de outono, um dos cães de guarda pulou em uma poça de lama perto do Príncipe Herdeiro, mas por coincidência, este estava passando por uma pilastra que cobriu-o da sujeira. Ou quando Yiran sofreu a primeira tentativa de sequestro, quando o sequestrador teve um mal súbito e morreu antes mesmo de conseguir amarrar uma corda em seus pulsos.
Apenas um acontecimento quebrou o fluxo de sorte de Wang Yiran, naquela fatídica noite no palácio da Imperatriz Falecida, quando ele apanhou até a inconsciência por tentar defender seu irmão gêmeo.
Zhiyuan nunca imaginou que isso fosse possível. Às vezes, olhava para o Yiran de agora, cuja pele não tinha uma mancha ou cicatriz, e pensava se aquele evento havia sido real ou fruto de sua imaginação. Depois disso, o Príncipe Herdeiro nunca mais enfrentou dificuldades, então Zhiyuan só pôde concluir que aquilo aconteceu por sua culpa.
Talvez ele de fato fosse um empecilho para a existência dourada do Príncipe Herdeiro, como diziam os mitos.
Considerando tudo isso, o caráter genuíno de seu irmão gêmeo e todas as coisas silenciosas que compartilhava com ele, Zhiyuan chegou a uma conclusão.
Apenas um fator tornava possível que o sequestrador fizesse o trajeto entre a capital e Junling facilmente. O motivo era claro e disso Zhiyuan tinha certeza.
Wang Yiran nunca tentaria fugir.
Ele não queria fugir.
𖥟
Uma batida suave na porta despertou seus sentidos, deixando o bocal do narguilé de lado, concentrou-se na fragrância tênue de bergamota e tabaco que encheu suas narinas, acompanhada da silhueta difusa de alguém que não via há muito tempo. Se fosse sincero, assumiria que preferia manter as coisas assim. Tê-lo diante de si era sempre desconfortável, inquietante, pesado de certa forma.
Sua existência por si só pressagiava o mau agouro, mas havia algo inevitavelmente doce, atraente, sádico em mantê-lo por perto.
Sentir isso novamente fez um sorriso surgir em seus lábios no instante em que seus olhares se encontraram.
— Ora, ora, ora… — cantarolou sedutoramente. — A que devo a honra da visita de Vossa Alteza Imperial, Herdeiro da Família Sinkai?
Um grunhido baixo foi ouvido atrás do recém chegado, um homem alto e musculoso encontrava-se parado ao seu lado, com uma mão sobre o cabo da espada e uma expressão desgostosa torcendo os traços juvenis que não se escondiam em suas feições.
— Vossa Alteza, isso é um engano — uma voz suave seguiu ao ruído ameaçador, vindo de uma terceira pessoa que encarava o príncipe com um par de enormes olhos esmeralda. Parecia genuíno, dócil, mas mudou de mel para vinagre quando desviou para si. — Não precisamos da ajuda dessa pessoa, vamos embora!
— Se eu soubesse que viríamos para esse lugar, jamais teria permitido essa viagem! — o homem alto vociferou, totalmente arisco, prestes a cortar algumas cabeças se recebesse a ordem para tal.
— Vejo que seus cachorrinhos cresceram tão bem quanto você — suspirou com admiração, o sorriso pétreo em seu rosto, encarando-os de cima a baixo. — E estão cheios de atitude, hum? Eu gosto muito disso… Qual de vocês já é maior de idade?
O ruído da espada meio desembainhada fez uma risadinha escapar de seus lábios, euforia borbulhando em seu coração.
— Não há motivos para causar uma cena — o príncipe disse isso em um tom de voz grave, mas melódico, como o canto de uma sereia de Da Yüer, que sussurraria cantigas de amor até arrastar seu alvo para as águas escuras de seu leito. — Guarde sua espada e comporte-se com honraria.
Houve uma pausa anticlimática entre eles, os acompanhantes do príncipe pareciam ter muitas coisas a dizer, mas suprimiram todas elas para mostrar respeito. Para o nível de agressividade demonstrado segundos antes, eles eram absurdamente obedientes, mudando suas posturas rapidamente para a apatia habitual de qualquer guarda imperial. Agora eles faziam jus ao brasão que carregavam no peito.
— Vim para discutir assuntos urgentes, peço que não provoque meus guardas — ele continuou, imperiosamente, com uma atitude altiva inerente à sua figura que, desde tenra idade, demonstrava dominância.
Sob seu encanto, seu sorriso se transformou em uma boba expressão de fascínio.
— Por favor, Vossa Alteza, acomode-se e deixe-me saber no que alguém tão humilde quanto eu pode ajudar — apontou para o assento vazio diante de si. — Perdoe-me não poder oferecer um lugar mais apropriado à sua persona.
Ele entrou silenciosamente, seguindo até a cadeira apontada pelo anfitrião que, quando viu os dois soldados caminhando para dentro, pediu em um sussurro amigável:
— Seria possível ordenar que seus guardas aguardem lá fora? Eles me dão medo e isso pode atrapalhar meu raciocínio.
O príncipe não podia ver as expressões furiosas dos soldados, então não testemunhou os olhares mortíferos que eles lhe lançaram quando expressou seu pedido. Para sua felicidade e horror deles, o príncipe ergueu uma mão para dispensá-los.
— Terminaremos em dez minutos — ele anunciou sem adições, o que bastou para que os guardas saíssem e fechassem a porta à contragosto.
— Dez minutos podem não ser o suficientes para mim ~
— Dez minutos são mais do que eu deveria te oferecer, Yi Han.
Yi Han fez uma expressão condoída, com a mão sobre o coração, como se tivesse acabado de receber um golpe.
— Onde está o “Ge”¹? Vai me tratar como um desconhecido depois de tudo que vivemos juntos?
Uma expressão vazia o encarou de volta, com um olhar vítreo que ele deveria usar para encarar qualquer inseto que pousasse perto dele. Esse desprezo fez seu coração disparar.
Yi Han gostava quando lhe davam momentos difíceis.
— Você vai gastar seus dez minutos falando bobagens? — o príncipe perguntou, queixo erguido, postura ereta.
Não parecia que o príncipe havia lhe procurado primeiro, mas como se Yi Han fosse aquele que deveria se esforçar para conseguir alguma coisa dele. Claro, não era muito distante da realidade. Sempre o viu como um inalcançável objeto de estímulo, alguém que movia seu interior quando estava ao seu redor, que o fazia desejar assistir às dores do mundo mais de perto para se deliciar com o sofrimento humano.
— Quantos anos você tem agora? — perguntou, mordendo o lábio para analisá-lo com cuidado. Estava bem maior que da última vez, mas suas feições ainda demonstravam falta de desenvolvimento. Parecia magro, embora sua presença não ocultasse a força que possuía.
E seus olhos… Yi Han amava os olhos do príncipe, perdendo-se sempre na cor exótica do cinza metálico, que tinha um brilho próprio como a lâmina de uma espada sob a luz do luar.
— Quinze — ele disse de forma seca, surpreendendo-o no ato.
— Oh, parece bom, embora ainda falte alguns anos para… — cortou a frase com um sopro, mordendo o lábio inferior. — Prometa procurar-me primeiro quando atingir a maturidade, irei… te ensinar todas as coisas boas que podem ser feitas entre pares.
O nariz arrebitado torceu-se com desgosto, uma sutil mudança de expressão que fez Yi Han se encher de alegria. Sentiu vontade de estender as mãos e agarrar o rosto frio pelas bochechas, inspirar o cheiro de sua pele de perto; moê-lo, decoccioná-lo² e bebê-lo todos os dias antes de dormir.
— Peço que não me faça vomitar tão cedo pela manhã — a voz dele era imutável, embora houvesse sentimento no ar de repulsa que o rodeava.
— Sua crueldade é adorável, jovem príncipe.
Wang Zhiyuan sempre foi fascinante.
Yi Han tinha origens desconhecidas, tinha feições jovens, mas sua idade real era um mistério que não revelava para ninguém. Quando se instalou em Junling, abriu um negócio de venda de ervas mágicas que, no conto popular, existia há mais tempo que o próprio império. Claramente não era humano, porém sua espécie nunca fora revelada para terceiros.
Além do trabalho com ervas mágicas, Yi Han era um cultivador do caminho mágico e oráculo não oficial de Weiqi.
A cultura do oráculo mudava em cada país. Weiqi possuía os conselheiros do Imperador que dispunham de poderes de previsão, mas existiam os “Oráculos do Povo”, pessoas comuns que tinham esses poderes e tornavam essa informação acessível. Dentre essas pessoas, poderiam haver aqueles com habilidades meramente intuitivas e aqueles com poderes reais de previsão, que eram mais raros. Além dos conselheiros do imperador, existiam apenas dois desses em toda Weiqi.
Yi Han não atendia a população comum, mas aceitava a demanda de nobres e famílias abastadas que estivessem dispostos a pagar por seus serviços superfaturados.
Wang Zhiyuan entrou no caminho desse homem antes de ser capaz de compreender o que tudo isso significava.
Após a morte da Imperatriz Sinkai, os príncipes ficaram temporariamente sob o cuidado da Família Feng, os pais de Huaijin, e nesse período, a Sra. Feng, que era muito conectada com a cultura remanescente das feras mágicas, levou as crianças para consultar um oráculo que lesse a sorte de cada um deles.
O primeiro contato com Yi Han aconteceu naquele dia, quando os dois príncipes e Huaijin tiveram o futuro lido por ele. Cada um recebeu um pergaminho selado que descrevia em detalhes o futuro de cada um. Antes de morrer, a Sra. Feng entregou-lhes os pergaminhos, e aos sete anos de idade, Wang Zhiyuan procurou o pequeno escritório nas vielas de Junling por conta própria, para conhecer o homem que escreveu “Me procure quando puder” no final de seu pergaminho.
Haviam coisas boas naquele papel, mas havia muito mais coisas ruins. O que era perturbador, no entanto, era o tom alegre do oráculo enquanto descrevia todas essas coisas. Na infância, Zhiyuan não poderia medir o nível de loucura que uma pessoa dessas poderia ter, mas naquela época, ter alguém verdadeiramente interessado nele soou bem.
Se arrependia de ter deixado o coração falar mais alto que a razão, porque de certo modo, apesar de saber que não era bom estar ao redor de alguém assim, Zhiyuan sempre acabava voltando para ele.
— Meu irmão foi sequestrado — o príncipe disse após alguns segundos de contemplação. Yi Han tinha os olhos fixos nele, no movimento de seus lábios.
— Vossa Alteza quer ajuda para encontrá-lo?
— Minha pergunta é diferente.
— Oh… E qual seria?
Yi Han observou como seus dedos esguios, cobertos por cicatrizes, batucavam nos próprios joelhos por alguns instantes.
— Quando ele vai voltar?
Yi Han ficou um pouco em silêncio, sua língua coçando para perguntar a profundidade disso tudo. O príncipe não era o tipo de pessoa que fazia perguntas sem uma dose de significados ocultos, nada era simples e objetivo quando se tratava dele, mas sentiu que o deixaria ainda mais arisco, se vasculhasse demais.
Precisava soltá-lo um pouco antes de poder apertar.
— A pergunta seria simples, se não fosse sobre seu irmão, o Príncipe Herdeiro — murmurou de maneira dócil, inclinando-se para frente e abaixando o tom de voz. — Vossa Alteza conhece a fortuna de seu querido gêmeo. Olhar para o futuro dele sempre causa muito karma, é muito penoso para mim.
O príncipe olhou para o lado, para um ponto aleatório da parede de madeira à sua esquerda, o pomo de adão subindo e descendo quando ele engoliu antes de lamber os lábios com a ponta da língua.
— O que você quer?
Yi Han quase ronronou.
— Nada é mais precioso do que a graça da sua companhia, Vossa Alteza — uma satisfação inconcebível encheu seu peito e fez seu coração ficar macio como seda, viver parecia mais fácil naquele momento, principalmente quando o brilho do olhar alheio se apagou para um tom nublado de apatia. Era prazeroso ser desprezado por ele.
— Seja claro com os seus desejos — ele desafiou, encarando-o diretamente como se esperasse qualquer erro para romper o fio tênue que os unia. Yi Han não viveu tantos anos para perder o controle dessa maneira, então mesmo que sua garganta vibrasse por sinceridade, ele cultivou a paciência de um monge.
— Faremos como da última vez — quase cantarolou. Pegou o narguilé e caminhou silenciosamente até estar ajoelhado aos pés do príncipe, encarando-o de baixo para cima. — Deixe-me servi-lo novamente.
A aura pesada do outro fez Yi Han engolir em seco, um arrepio de medo atravessando sua coluna ao contemplar o vazio gélido no rosto desse príncipe. Tão sombrio, que desejou encolher-se até desaparecer, porém acompanhado de algo confuso que se enrolou dolorosamente em seu estômago.
A bota do príncipe chocou-se contra seu rosto de repente, com força o suficiente para fazê-lo cambalear para o lado, mas não o bastante para derrubá-lo. Doeu, uma marca vermelho-vibrante surgiu na bochecha atingida e um fio de sangue escorreu de seus lábios.
— Ah… Perdão, Vossa Alteza — ele disse, oferecendo o narguilé. Com o olhar vidrado, atrás de uma fina camada de lágrimas não derramadas, assistiu-o levar o bocal até seus lábios marrons, sobre o local onde Yi Han fumara antes de sua chegada, puxando a fumaça para soltá-la pouco depois em uma nuvem adocicada. — Espero que esteja de seu agrado…
O príncipe não disse nada, mas se recostou no lugar e tragou novamente, seu corpo relaxando visivelmente pelo contato com o tabaco. Yi Han segurou uma das pernas dele e apoiou o corpo contra ela, a cabeça deitada sobre a coxa alheia. Inspirou profundamente o cheiro dele, a fragrância de bergamota com tabaco, agora misturada com o aroma de jasmim com açúcar mascavo da fumaça.
Era inebriante.
Yi Han fechou os olhos, sentindo-se entorpecido, como se sua mente estivesse nublada e seu corpo fosse flutuar a qualquer momento. Era o bastante.
— Sua Alteza, o Príncipe Herdeiro, retorna na noite do quinto dia após o seu desaparecimento — Yi Han murmurou sem pressa, em um tom que era claro o suficiente para ser entendido pelo outro.
— Isso é bom — o príncipe respondeu em um tom anormalmente gentil, diferente de tudo que ele usava fora daquele quarto, e isso sempre fazia o corpo inteiro de Yi Han tremer de satisfação. Sua pele inteira arrepiou com a voz grave sussurrada daquela maneira.
— Você vai procurá-lo, Vossa Alteza? — perguntou, abrindo os olhos para encará-lo. Aquele par de discos metálicos já o observava, com um ar ambíguo, entorpecido, completamente drogado. Ele sempre consumia muito em altas doses, ansioso para mergulhar na única coisa que o distanciava da cruel realidade a qual era submetido.
E Yi Han era a causa disso.
Isso o fez sorrir.
— Sem muito afinco… — ele tragou de novo, e de novo, até que seu corpo inteiro pereceu o bastante para que não houvessem amarras em seu interior. Aqueles olhos o examinavam profundamente, vendo através dele. — Ou eu deveria…?
Yi Han ergueu a mão despretensiosamente, tocando no braço dele. Ao não ser rechaçado, soltou a respiração que nem sabia que havia prendido.
— Vossa Alteza sempre tem o melhor julgamento — elogiou, seus dedos acariciando o braço escondido sobre as roupas. Desejou ser capaz de colocar as mãos sob suas mangas para encontrar a pele.
Uma covinha surgiu no canto dos lábios elegantes do príncipe. Yi Han prendeu a respiração e desejou ser capaz de registrar essa imagem, escarificando³ cada detalhe dela em sua memória. Não saberia explicar de maneira lúcida as sensações que esse sorriso lhe causava, como cair em uma ilusão no meio do deserto, talvez. Ou rastejar até o túmulo de um fantasma que assombrou todos e cada um dos seus sonhos.
Sua mão ergueu por impulso na direção do rosto dele, mas um toque quente em seu pescoço o fez despertar do estado hipnótico.
Ele ainda estava sorrindo, ambas as covinhas aparecendo enquanto seus olhos brilhavam como a lua em todo seu esplendor. Yi Han seria um dos muitos marinheiros que seria encantado por ela, como nos contos de Além-Mar, em que a deusa lua, quando refletida no oceano, forçava os navegantes a saltar na água em busca dessa imagem, apenas para serem engolidos por ela.
— Eu gostaria de matá-lo agora mesmo — o príncipe disse sedutoramente, como uma serpente personificada que cantarola amavelmente os desejos ambiciosos de seu coração. — Deveria fazê-lo?
— O faria feliz? — perguntou com voz trêmula, percebendo que o que tocava seu pescoço era a mão áspera do príncipe, o toque ficando mais pesado a cada instante.
— Muito feliz.
Yi Han xingou mentalmente.
Por todos os deuses imortais e todas as feras mágicas lendárias, esse era o homem mais perigoso já criado sobre as terras de MuYin. Era impossível permanecer o mesmo diante desse sorriso, sob esse olhar, e Yi Han, que nutria todo tipo de sentimento complexo sobre ele, não podia escapar disso.
Era tão lindo, que Yi Han perdeu o fôlego.
— Faça isso — ele disse, quase sem vontade, com o corpo todo mole, como se não houvesse ossos sob a pele.
O príncipe se curvou para ele, pequenas faíscas douradas nascendo nas pupilas dilatadas, até um halo de ouro engolir a parte negra de seus olhos. O aperto ficou mais firme, a via respiratória de Yi Han foi bloqueada. Sua visão começou a escurecer pouco depois.
— Isso é bom — o príncipe parecia estar ronronando, algo estranho, talvez Yi Han estivesse alucinando pela falta de ar em seu cérebro. — Eu gosto dessa sensação.
Contudo, pelo que pôde ver naqueles instantes de consciência, vislumbrou um príncipe que nunca tinha visto antes, nem em seus encontros anteriores. Alguém que ele morria para conhecer, para ter, para possuir.
Oh… Muito lhe encantava aquele perigoso olhar vicioso… O olhar de quem o mataria sem remorso, sem hesitação, e que experimentaria o auge do prazer enquanto isso.
Quando as bordas de sua visão desapareceram e apenas as fagulhas douradas que escapavam dos olhos do príncipe permaneceram, Yi Han sentiu medo pela primeira vez. Sentiu que havia algo mais, algo verdadeiramente sombrio atrás de todo esse brilho, então tentou lutar para fugir, mas era tarde demais. Não conseguia se mexer.
Ah, merda… O que estou fazendo..?
Em seu lapso de consciência, Yi Han desejou ter sido menos imprudente.
— Não se assuste, você não vai desaparecer — ele disse, mas parecia um som vindo de muito, muito longe. Irreal. — Vou guardá-lo adequadamente aqui dentro. Sua existência…
Yi Han chorou, engasgou, então a consciência esvaiu no instante em que os dez minutos do encontro passaram. Ele não viu como os guardas do príncipe invadiram a sala, mortificados ao ver a cena, assombrados quando foram encarados por esse lado estranho de seu mestre.
Ele também não viu como os dois lutaram para resgatá-lo antes que fosse tarde, enquanto o brilho dourado sumia e dava lugar à apatia de sempre nos olhos do outro, perceberam que a indiferença era mais do que uma máscara vestida pelo príncipe.
Wang Zhiyuan era, essencialmente, louco.
E Yi Han o amava por isso.
𖥟
[1] “Ge” 哥 ou “Gege” (哥哥), termo honorífico que significa “irmão mais velho”, usado para se referir a homens não muito mais velhos que o interlocutor. Normalmente com certo grau de proximidade/intimidade. Em certos contextos, é usado entre parceiros românticos como um termo carinhoso.
[2] Decocção — Maneira de preparar chá fervendo as raízes, caules, sementes ou cascas da planta junto com a água, para extrair os príncipios ativos.
[3] Escarificação — Em algumas culturas, a pele da pessoa era cortada em padrões específicos para serem colocados pigmentos coloridos, que eram introduzidos na ferida para criar marcas permanentes/tatuagens.
Capítulo 12
Fonts
Text size
Background
Dragão de Prata: 不道德的修炼之路
Jiang Lu era um adolescente viciado em histórias xianxia, sempre procurando um novo livro para ler e devorando quase todas as narrativas de seu site favorito. Quando conheceu a novel...