Capítulo 7
“Vocês não podem simplesmente parar de ficar todos parados aqui?!”, a garota disparou, impaciente, dispensando as pessoas ao redor.
Vários Alfas vestindo o mesmo uniforme que He Yu haviam sido designados para vigiá-la. Eles não podiam simplesmente ir embora, mas estavam sem saber o que fazer. He Yu se aproximou e sentou-se diretamente ao lado dela: “Podem ir, eu assumo daqui.”
Como se tivessem recebido um perdão divino, os outros bateram em retirada imediata.
A garota o encarou, indignada: “E quem disse que você podia sentar do meu lado?!”
“Ninguém,” He Yu apoiou um braço no encosto atrás dela enquanto, com a outra mão, pegava a bebida sobre a mesa e a estendia para ela. Ele sorria de um jeito nada santo, com aquele ar provocante que dava vontade de esmurrar. “Eu que quis sentar.”
A garota arregalou os olhos, furiosa: “Eu vou chamar o seu patrão! Fica longe de mim, eu quero ficar sozinha!”
“Sozinha?” Inexplicavelmente, a mente de He Yu deu um replay na cena daquela tarde, com Chu Yi sussurrando no seu ouvido para que ele olhasse os delinquentes. O canto de sua boca subiu involuntariamente. Inclinando-se na direção da garota, ele perguntou: “Qual seu nome? Quantos anos você tem? Você faz ideia do que as pessoas vêm fazer aqui?”
“Não é da sua conta!” Sem aguentar mais, ela deu um tapa no ombro dele para empurrá-lo. Para sua surpresa, o garoto que parecia magro nem se mexeu; era como empurrar uma muralha fina, porém sólida.
“Nossa, que força mixuruca,” He Yu disse, agindo como um Velho Esquisito[1], enquanto agarrava o pulso dela. Rindo, ele continuou: “Você se parece com uma amiga minha. Qual o seu nome? Vamos ser amigos?”
“Me solta!” A garota lutou para puxar o braço, mas não conseguiu. Finalmente percebendo a gravidade da situação, seus olhos ficaram vermelhos de pânico e ela gritou: “Eu sou menor de idade! Isso é crime, você está cometendo um crime!”
He Yu travou por um segundo, e então decidiu que aquela pirralha era perdoável. Era só uma criança que não fazia a menor ideia de onde tinha se enfiado.
“Cometendo um crime? Quem foi que viu?” He Yu simplesmente ergueu o braço dela e olhou ao redor. “Pergunta pra eles se alguém viu alguma coisa.”
A garota tentou gritar por socorro, mas às oito da noite a boate estava começando a lotar. Com o rock ensurdecedor, quem daria atenção a um cantinho isolado? O medo começou a bater de verdade e seus olhos marejaram.
He Yu soltou o pulso dela no momento certo e lhe entregou um copo de suco, suavizando o tom: “Menores não deveriam vir a lugares assim. Só tem Velho Esquisito por aqui.”
“Inclusive você!” Assim que foi solta, ela tentou correr, mas He Yu a puxou de volta.
Nessa hora, a pista e os camarotes estavam entupidos. Se alguém resolvesse passar a mão em você, você nem saberia quem foi. Se ela tentasse atravessar o salão correndo agora, chegaria na porta completamente apalpada.
“O que você quer?!” A garota não aguentou mais e explodiu no choro.
“Ei, não precisa ter medo, eu não sou um tarado, também sou Ômega,” He Yu procurou um lenço de papel, mas só encontrou um canivete, um bastão elétrico e um soco-inglês. Restou apelar para o seu trunfo: “Se não acredita, sente o cheiro.”
Um aroma fresco e doce de melancia flutuou, controlado apenas entre os dois. A garota finalmente acreditou, resmungando enquanto fungava: “Por que você parece um Beta?”
Desculpa, é que eu sou todo bugado, He Yu pensou, sentindo-se vagamente culpado.
“Só quero te dizer que aqui não é lugar pra você,” He Yu, sem achar lenços, pegou uma garrafa lacrada de refrigerante e deu a ela. “Se um cara mau tivesse te pegado agora, você estaria ferrada. É perigoso.”
“Hunf, tem segurança em todo canto, quem ia me pegar?!” Ela ainda tentava ser marrenta apesar do medo. Quando ia pegar a bebida, He Yu a puxou de volta num reflexo.
“O que foi agora?! Tá de brincadeira comigo?”
“Tem droga aí dentro. Se beber, vai entrar em Cio Induzido[2].” He Yu a encarou com uma expressão inocente.
A garota congelou. Ao olhar para a garrafa novamente, parecia estar vendo uma cobra venenosa.
“Beber qualquer coisa em bar é pedir pra se ferrar,” He Yu deu mais uma lição. “No Cio Induzido, se você não tiver um parceiro, corre risco de vida. Qualquer Alfa aqui poderia usar a desculpa de ‘ajudar a passar pela crise’ para te estuprar. Olha em volta: quem aqui tem cara de gente boa?”
A palavra “estupro” era vergonhosa demais para uma Ômega menor de idade. Jiang Yue Nan corou violentamente e, após pensar um pouco, olhou ao redor.
As luzes baixas e os feixes coloridos revelavam vislumbres da podridão humana nos cantos: corpos se retorcendo, gemidos abafados… aquilo estava destruindo a visão de mundo dela.
He Yu cobriu os olhos dela no momento certo, alertando: “Você não deveria ter vindo. E agora que veio, não confie em ninguém. Nem em mim com este uniforme.”
“Qual seu nome?” Ele suavizou o tom, recolhendo a mão.
“Jiang Yue Nan.” Ela olhou para o rapaz bonito à sua frente. Ele não parecia muito mais velho que ela, mas falava com a autoridade de quem entende o mundo.
“Jiang Yue Nan,” He Yu não conhecia a elite de Tongyan, então o nome não lhe soou familiar. “Veio pro bar escondida… levou um fora, né?”
Ela o olhou com desconfiança imediata.
“Acertei,” disse He Yu, fazendo-se de experiente. Ele abriu uma água mineral e tomou um gole. Ao ver a menina encarando sua água, ele riu e balançou a garrafa: “Eu sou funcionário, tenho experiência. Você não pode beber qualquer coisa, eu posso.”
“Quantos anos você tem?” Ela murchou, perdendo a postura de rebelde e sentando-se comportadamente. “Não parece ser muito mais velho que eu.”
“O papai aqui já tem vinte e cinco,” mentiu He Yu na maior cara de pau. “E você? Quinze? Dezesseis?”
“Quinze,” disse ela. “Você se conserva bem.”
“É, todo mundo diz que sou novinho.” He Yu passou a mão no rosto.
“Se o nosso gerente não tivesse te reconhecido, você ia perder metade da sua vida hoje.” He Yu sentiu que precisava dar um choque de realidade nela, não por maldade, mas porque foi com a cara dela.
“Eu sei que aqui é ruim, mas eu levei um fora,” ela começou a soluçar. “Ele disse que eu sou certinha demais, que eu não ia pro bar com ele… aí terminou comigo… buáaaa…”
He Yu: Quê? Quê? Quê?
“Criança demais,” He Yu afagou a cabeça dela. “Claro que era migué dele. Aprende comigo, relaxa.”
“Você também levou um fora?” Ela limpou as lágrimas, com os ombros ainda soluçando.
He Yu percebeu, pelo canto do olho, um olhar malicioso de algum pervertido focado no decote da menina. Ele se posicionou na frente dela e deu um tapinha no ombro da garota: “Vem, vamos conversar em outro lugar.”
Ela o seguiu obedientemente. He Yu suspirou. Se eu não estivesse de plantão hoje…
O que os funcionários mais odiavam eram esses “herdeiros colher de ouro” que vinham “experienciar a vida” sem saber de nada. Fumavam um cigarro caro[3] e já se achavam os adultos melancólicos, teimosos como mulas.
Jiang Yue Nan até que era fácil de lidar. Provavelmente por ter só quinze anos… apesar do RG falso dizer dezoito. Feng-ge era um monstro, reconheceu a menina de longe. Ele já tinha ligado para os pais, e eles disseram para deixá-la brincar — devia ser algum figurão com o cérebro furado para deixar uma Ômega solta assim.
Num camarote mais escondido, He Yu a ouviu choramingar por duas horas. “Eu gostava tanto dele… ele era um Alfa fortão, muito, muito gato…”
“Essa é a trigésima sétima vez que você diz que ele é gato,” He Yu entregou um suco natural. Olhou para a foto no celular dela; era só um moleque fazendo pose. “Nem é tudo isso. Você é mais bonita que ele.”
“É que eu não aceito!” Ela se animou, virando o suco de uma vez. “Eu sou linda e ele gosta de outra! Ele é cego?!”
“É,” concordou He Yu.
“E você? Disse que levou um fora, conta aí.”
He Yu não tinha vontade de se abrir, mas ouvir o diário amoroso de uma pirralha era tortura demais. Ele precisava mudar o disco.
“A gente se conheceu num jogo,” começou ele, encostando-se no sofá e lembrando do passado. “Não lembro como viramos amigos, mas jogávamos bem. Conversamos sobre a vida, sonhos… aí eu me declarei, ele quitou do jogo e fim da história.”
“Só isso?” Ela franziu a testa. “Não pareceu um grande amor.”
“E não foi,” He Yu virou sua água mineral. “Sou jovem, não tenho tanto amor profundo pra sair dando por aí. Você também devia se amar mais. Amar os outros é prejuízo.”
“Papo furado!” Jiang Yue Nan rebateu. “É porque você nunca viu ninguém realmente gato.”
“Opa, aí eu não aceito,” He Yu começou a gabar-se. “Você não tem ideia do nível de beleza do meu colega de mesa.”
“Pode ser o que for, nunca vai ser mais gato que o meu irmão[4],” ela bufou. “Se você visse ele, esqueceria esse seu namoradinho virtual na hora!”
“Cai na real,” He Yu riu, dando um tapinha na cabeça dela. “Esquece de mim. Só não volta mais aqui. Se quiser vir, pede pro seu irmão bonitão te trazer.”
“Não volto nunca mais! Lugar horrível!”
Por ser uma Ômega recém-diferenciada, o excesso de feromônios de Alfas no ar começou a deixá-la mal. He Yu a levou para os fundos e passou um Inibidor[5] que pegou com o Feng-ge.
“Que cheiro ruim,” reclamou a patricinha.
“Em casa tem do bom, agora vai.” He Yu olhou o relógio. Estava na hora de despachá-la.
Como estava frio, ele pegou seu próprio casaco de lã e colocou nos ombros dela. A menina entrou no carro da família e acenou pela janela: “Vou mandar devolver o casaco!”
“Não precisa,” He Yu acenou de volta, com um cigarro entre os dedos, mantendo a distância. “Não volta mais, pequena. Esse lugar come gente viva.”
“Língua pra você!” Ela fechou o vidro e o carro partiu.
He Yu massageou as têmporas e olhou o celular. 23h. Se desse uma cama pra ele agora, ele só acordaria no apocalipse.
[1] Velho Esquisito (Guai shushu): Gíria chinesa para homens mais velhos com comportamentos suspeitos ou “creepy”. He Yu se autodenomina assim ironicamente para assustar a menina.
[2] Cio Induzido: No Omegaverse, é o uso de substâncias para forçar o período fértil, o que é ilegal e extremamente perigoso sem supervisão médica.
[3] Zhonghua (Cigarro de Luxo): Marca chinesa caríssima que os jovens usam para ostentar status social.
[4] Gege (Irmão Mais Velho): Termo usado tanto para irmãos de sangue quanto para rapazes mais velhos por quem se tem afeto ou respeito. Aqui, Jiang Yue Nan o usa para exaltar o status e a beleza de seu irmão biológico, estabelecendo um padrão de comparação para o “bom gosto” dela.
[5] Inibidor (Zuge ji): Spray ou injeção que neutraliza o cheiro dos feromônios, protegendo Ômegas de Alfas em locais públicos.
Capítulo 7
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Eu, com Muitas Identidades, Passei Vergonha na Frente do Garoto Mais Popular da Escola
【Completo + Extras】
Sinopse:
He Yu sofre de um distúrbio de feromônios Omega.
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