Capítulo 9
“Um passo em falso e a vida toda se perdeu~
Dançarina de boate apenas para sobreviver~
Dançarinas também são gente~
A quem contar a dor no coração~”[1]
He Yu foi arrancado do sono pelo toque do celular. Tateando a cabeceira, levou o aparelho ao ouvido, respondendo com a voz rouca e pesada de sono: “Alô? Oi?”
“Ainda não levantou?” A voz do outro lado era grave, mas sem impaciência. “A que horas você foi dormir ontem?”
“Hã???” He Yu olhou para o identificador de chamadas e travou por dois segundos. “Mano! Meu Deus, eu esqueci! Eu… eu já estou levantando, tô quase pronto! Você já chegou? Me dá cinco… não, três minutos!”
“Não precisa de pressa, eu ainda não cheguei. Me liga quando terminar de se arrumar,” disse Chu Yi.
“Beleza, beleza!” He Yu saltou da cama em pânico e caiu de joelhos com um baque surdo.
Puta merda! Que lição dolorosa!
Desligando o telefone, Chu Yi encarou calmamente Tang Bolang, que o observava pelo retrovisor. A Pressão Dominante Alfa se formou silenciosamente; Tang Bolang empalideceu e preferiu não dizer nada.
O imponente G-Class[2] estava parado há uma hora em frente ao Bloco A do Condomínio Felicidade. Como o Jovem Mestre avisou que o “morador” gostava de dormir até tarde, o motorista teria que continuar esperando.
Lá dentro, o caos reinava. He Yu só teve tempo de socar tudo para dentro do armário, vestiu o casaco mais largo e encardido que encontrou para parecer mais baixo e desajeitado, e tentou ajeitar o cabelo bagunçado com um pouco de água. A franja cobria metade dos olhos. Olhando-se no espelho, ele era a própria definição de um figurante comum[3].
O “Figurante He” enfiou uma garrafa de isotônico na mochila, um rolo de papel higiênico e alguns pirulitos. Desceu as escadas ligando para Chu Yi.
“Mano, tô pronto.”
“Hm, pode descer. Acabei de chegar.”
He Yu apareceu espreitando o carrão preto. Os vidros eram tão escuros que ele hesitou se era o carro certo. Quando ia confirmar a placa, a porta traseira se abriu revelando o rosto de Chu Yi — o tipo de visão que melhora o humor de qualquer um.
“Mano, chegou agora?” He Yu entrou de qualquer jeito; quando sua cabeça ia bater no teto, Chu Yi colocou a mão para protegê-lo.
“Acabei de chegar,” Chu Yi pegou a mochila dele, colocando-a de lado, e envolveu a cintura do Ômega com naturalidade. Ele não parecia se importar com as roupas cafonas ou a aparência comum de He Yu. Com um olhar de quem realmente via beleza ali, acariciou a orelha do garoto: “Durma mais cedo da próxima vez.”
“Tá,” He Yu encolheu o pescoço. A pele de um Ômega é sensível, e as orelhas são um ponto crítico; um toque leve e elas já queimam de vermelho.
“Senhor, nós vamos—” Tang Bolang começou, mas foi cortado.
“Vamos,” disse Chu Yi, com um sorriso gélido. “Algum problema em olhar tanto para o meu Ômega? Está interessado?”
Tang Bolang sentiu um calafrio na espinha e desviou o olhar imediatamente. Embora aquele Ômega não parecesse nada especial, instintos Alfa não seguem a lógica. Ficar encarando o parceiro alheio desperta uma agressividade territorial incontrolável. Além disso, a lei está sempre do lado dos casais oficiais. Se Chu Yi o fizesse vomitar sangue ali mesmo com feromônios, Tang Bolang ainda teria que pedir desculpas depois de sair do hospital.
Entre cumprir as ordens da Madame e continuar vivo, ele escolheu a vida.
O Primeiro Hospital Privado de Tongyan é referência internacional em fisiologia. He Yu sempre ouviu falar, mas os preços eram tão altos quanto a fama. Agora, ele estava sentado de mãos dadas com Chu Yi diante de uma médica Beta, passando pelo “Teste de Compatibilidade Racional”.
“Eu sou Beta, pode relaxar,” a médica tranquilizou Chu Yi antes de começar.
Alfas Super S apaixonados, especialmente na adolescência, são irracionais e possessivos ao extremo. Chu Yi deu um resmungo e apertou a mão de He Yu, que retribuiu o aperto para manter a fachada.
“Onde se conheceram?” perguntou a médica suavemente.
He Yu agiu como se fosse tímido, encolhendo-se perto de Chu Yi. O Alfa o abraçou pelos ombros, parecendo irritado: “Ele é retraído, não faça esse tipo de pergunta.”
“Entendo, peço desculpas,” a médica sorriu, evitando olhar diretamente para He Yu por mais de dois segundos. “Agora, preencham estes formulários de costas um para o outro—”
“Não vou deixar que ele saia da minha vista em um lugar estranho,” Chu Yi rosnou, o olhar escurecendo.
“Sem problemas,” a médica cedeu rápido; ela assumiu que ele estava no Período de Sensibilidade. “Posso fazer as perguntas oralmente.”
Chu Yi franziu a testa com força. Ao sentir a privacidade de seu “parceiro” ameaçada, sua Aura Dominante explodiu como uma geleira antiga se partindo. A frieza inundou a sala.
A médica, sendo Beta, não sentia a pressão biológica, mas o detector de feromônios na parede disparou uma luz vermelha e um alarme estridente. Isso significava que o Alfa estava em estado de ataque iminente. Ela apertou o botão de emergência.
He Yu, que não era afetado por feromônios de outros Alfas, só conseguia admirar a potência de Chu Yi. Se a médica fosse Alfa, já era, pensou. Ele decidiu que era hora de brilhar também.
Quando os enfermeiros invadiram a sala, He Yu se jogou nos braços de Chu Yi, esfregando o rosto no pescoço dele com uma voz manhosa que lhe deu arrepios de vergonha: “Mano, mano… você me assustou… para com isso…”
Imediatamente, o feromônio agressivo recuou, tornando-se uma brisa suave. Chu Yi o apertou com carinho e beijou o topo de sua cabeça: “Desculpa, pequeno. Ela estava te encarando demais, eu não gostei…”
Médica: … Eu sou invisível, por favor.
He Yu acariciou o cabelo de Chu Yi, que era macio e sedoso. Ele olhou para o Alfa com olhos de coelho indefeso: “Ela não estava, juro.”
“Hm, se você diz…” Chu Yi murmurou com um tom manhoso que nenhum Ômega resistiria.
He Yu sentiu o coração amolecer. Esse trabalho é ótimo: ganho dinheiro e ainda tiro uma casquinha.
Os enfermeiros que entraram para conter o “monstro” saíram sentindo-se como quem está sobrando em encontro de casal. No fim, o laudo foi: “Dependência mútua extrema; separação não recomendada.”
Seguiram para os exames de sangue. Chu Yi ficou o tempo todo soprando o braço de He Yu: “Já vai passar, herói. O papai sopra pra sarar.”
He Yu fingia choramingar, fazendo a enfermeira tremer de medo de que o Alfa explodisse a sala de coleta.
Imperadores do Cinema[4] trabalhando juntos: médicos, enfermeiros e Tang Bolang estavam convencidos.
Esperando os resultados, He Yu pediu para tomar um ar. Do lado de fora, a clínica parecia um resort de luxo. He Yu checou os arredores e, vendo que não havia testemunhas, relaxou.
“Mano, fomos bem?”
“Foi bom,” Chu Yi o avaliou como um professor rigoroso. “Mas dá pra colocar mais emoção no próximo. Meu rosto não te inspira a ser mais convincente?”
“Que isso, mano! Você é um espetáculo,” He Yu brincou, embora por dentro estivesse exausto de tanto “mimimi”. “É que eu nunca fui de fazer manha.”
“Continue treinando,” recomendou o “Mestre Chu”.
O vento soprou frio, e He Yu estremeceu, voltando ao personagem de “flor de estufa”.
“Vai pra aula de tarde?” perguntou He Yu.
“Não,” Chu Yi respondeu. De repente, he o prensou contra uma árvore, nariz com nariz. “Tang Bolang está na janela lá em cima.”
He Yu assentiu, colando-se a ele. Ele lembrou que Alfas apaixonados têm a percepção triplicada. Chu Yi estava sentindo o vigia a centenas de metros de distância.
Se ele faz isso sem estar apaixonado, imagina quando for de verdade, pensou He Yu, assustado com o poder do cara.
Os resultados finais saíram. O Diretor do hospital os atendeu pessoalmente.
“Compatibilidade de 98%,” anunciou o médico. “Chu Yi sofre de ‘Síndrome do Apaixonamento Alfa’. Sem remédios, apenas muito contato físico com o parceiro.”
He Yu aplaudiu mentalmente a habilidade de Chu Yi de enganar até as máquinas.
“Já o He Yu…” O médico ajeitou os óculos. “Síndrome de Desordem de Feromônios. A causa é o Chu Yi.”
“Hã?” He Yu se assustou.
“Existe um fenômeno raro onde um casal nasce com as marcas um do outro nos genes. O Ômega é imune a qualquer Alfa que não seja o dele. E o Alfa rejeita qualquer um que não seja seu Ômega. Se nunca se encontrarem, o Ômega acaba definhando sozinho. A medicina chama isso de ‘A Corrente Mais Romântica’[5].”
Os dois se olharam.
Corrente Romântica? He Yu pensou: Corrente de ouro que dá dinheiro, isso sim.
Chu Yi pensou: Uma corrente que só prende o Ômega… o “romance” ideal para um Alfa escroto.
Ambos sorriram para o médico. Um pensando no lucro, o outro pensando em como usaria isso para calar a boca da mãe.
[1] Dançarina de Boate (Wunü): A música do toque do celular de He Yu é um clássico de karaokê sobre as tristezas das mulheres que trabalham na noite.
[2] G-Class (Da G): Apelido chinês para o Mercedes-Benz Classe G. É o carro ostentação favorito da elite rica de Pequim e Xangai, simbolizando poder e “brutalidade”.
[3] Figurante (Luren ding): Gíria para “Passante D”. Na cultura pop chinesa, as pessoas usam as letras A, B, C e D para designar figurantes.
[4] Imperadores do Cinema (Yingdi): Título dado aos melhores atores da China. Usei para descrever como a atuação dos dois foi convincente o suficiente para enganar médicos e sensores.
[5] A Corrente Mais Romântica: Tropo clássico do gênero Omegaverse conhecido como Soulmates (Almas Gêmeas genéticas). É o nível máximo de compatibilidade, onde os dois são biologicamente destinados.
Capítulo 9
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Eu, com Muitas Identidades, Passei Vergonha na Frente do Garoto Mais Popular da Escola
【Completo + Extras】
Sinopse:
He Yu sofre de um distúrbio de feromônios Omega.
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