Capítulo 12
— Por que devolver a Pedra de Hanyu depois de tê-la levado? — Suiyin girava a pedra azul, que emitia um brilho suave.
Xia Shi sustentou o olhar dela com firmeza.
— Achei que… você não precisasse mais. Já que sobreviveu, devolvê-la era o certo.
— É mesmo? — Suiyin se aproximou até que seus narizes quase se tocassem, fitando os olhos negros como tinta. — Achou que eu estivesse morta? Até me enterrou em algum lugar?
Xia Shi recuou com um leve sobressalto.
— Sim.
— Escolheu meu túmulo. Trocou minhas roupas. E devolveu a pedra quando eu revivi — Suiyin avançou até ser detida pela palma de Xia Shi. — Que gentileza.
O olhar gelado de Xia Shi desceu até o minúsculo espaço entre seus corpos.
— Você sempre conversa… tão intimamente assim?
Uma proximidade perigosa para cultivadoras.
— Não sei — os olhos pálidos de Suiyin mantinham uma confusão inabalável. — Nunca nos vimos antes, mas seu olhar me dá uma dor no coração. Já nos cruzamos antes?
Xia Shi estudou os traços da jovem — uma nitidez juvenil escondida por sorrisos enganosos. Nenhum lampejo de reconhecimento surgiu em suas memórias de séculos.
— Não.
A resposta apagou a fagulha de esperança nos olhos de Suiyin.
— Tudo bem. Erro meu — ela recuou dois passos, com a cabeça levemente inclinada. — Recusou a Pedra de Hanyu e o jade vermelho também? E quanto àqueles… ah, claro, os materiais que recebeu dele.
No meio da frase, Suiyin de repente se lembrou de que a pessoa que resgatou Song Chen no Pavilhão Linglong havia entregado alguns materiais a Xia Shi.
— Aqueles materiais não eram tão bons quanto estes dois. Você estava mesmo disposta a se desfazer deles? — Suiyin tirou o jade vermelho novamente, colocando a pedra cor de sangue ao lado da Pedra de Hanyu, como uma tentação.
Uma cultivadora de espada que valorizava sua arma acima de tudo não suportaria vê-la danificada. Com dois raros materiais de reparo diante de si, quem resistiria?
Xia Shi mordeu o lábio e baixou os olhos para as pedras na palma de Suiyin.
— Só estamos nós duas aqui. Se pegar, eu não conto pra ninguém.
A voz baixa de Suiyin carregava um magnetismo hipnótico, e aquelas palavras fizeram os ouvidos de Xia Shi zumbirem. A luta interna por fim cedeu.
A mão de Xia Shi se levantou.
Os olhos de Suiyin se curvaram levemente, um brilho frio passando quando os dedos esguios se estenderam.
Os humanos nunca escapam da ganância—
…!
Quando sua bochecha bateu na parede fria, Suiyin ainda estava pensando em como ensinar boas maneiras àquela pessoa.
Seus pulsos foram imobilizados por dedos ossudos, um cotovelo pressionava seu pescoço. Suiyin se viu esmagada contra a superfície de pedra.
— Me solta! — Ela se debatia inutilmente.
Xia Shi empurrou com mais força, obrigando Suiyin a se abaixar.
— O que você usou em mim?
As pernas dobrando de dor, Suiyin cuspiu:
— Pó da Borboleta dos Sonhos!
O alucinógeno realmente perturbava a mente.
Xia Shi não afrouxou a pressão.
— Seu objetivo?
— Você me enterrou viva! Minha vingança é justa! — Suiyin se contorcia, furiosa. — Cruel! Me solta!
Talvez por um resquício de culpa, Xia Shi enfim a soltou e estendeu a palma da mão.
Esfregando os pulsos doloridos, Suiyin lançou um olhar fulminante.
— E agora?
— Entregue o pó. Cultivadoras de espada lutam com lâminas, não com truques — Xia Shi lançou um olhar para a Espada Corrente Partida presa à cintura de Suiyin. — Sua arma é essa espada.
— Não tenho nenhuma! — Suiyin retrucou teimosamente.
Por que eu escutaria sermão de uma estranha?
— Tem, sim — Xia Shi apontou. — Essa lâmina combina com você. Repare a ponta lascada com o jade vermelho—
— Não é minha! — Suiyin a interrompeu bruscamente, os olhos ardendo. — Vou recuperar minha própria espada. Até lá, não aceito substitutos.
A sinceridade feroz fez os dedos de Xia Shi apertarem com mais força o cabo de sua própria espada.
Elas seguiram em silêncio pela longa rua. O grupo de Lu Ciyou havia desaparecido. O cheiro de doces flutuava no ar, despertando o apetite.
Suiyin aspirou com avidez, lambendo os lábios ao engolir a saliva.
Um alto ronco de estômago rompeu o silêncio.
— Alguém que cruzou a barreira entre a vida e a morte ainda sente fome?
Cultivadores não são imortais. Através da cultivação, fundem a carne com a energia espiritual dos Nove Reinos. Cada avanço reformula o corpo — o Estabelecimento da Fundação purifica impurezas, o Núcleo Dourado refunde os ossos, e ultrapassar a barreira da vida e da morte os liberta das necessidades terrenas.
Xia Shi não provava os cinco sabores há quatrocentos anos, e seu interesse por desejos mundanos já se extinguira. Ver o olhar faminto e enfeitiçado de Suiyin a deixou intrigada.
— Ah… que pena. Tudo no Festival das Lanternas é ilusório. Mesmo que você coma, não tem substância de verdade — suspirou Suiyin, a empolgação murchando.
— Jiang Xinian e Liu Sheng parecem estar aproveitando. Deve haver algum sabor — comentou Xia Shi. — Por que não tenta?
Suiyin de repente sacudiu a cabeça e riu. Inclinando-a de lado, examinou a mulher ao seu lado dos pés à cabeça.
Xia Shi:
— …O quê?
— Tenho uma pergunta — o riso de Suiyin ainda pendia em sua voz.
Xia Shi:
— Sim?
— Quantos anos você tem?
Xia Shi:
— …
Como não veio resposta, Suiyin insistiu:
— Você parece ter a idade do Lu Ciyou… vinte e poucos. Mas fala como uma anciã. É alguma cultivadora de alto nível disfarçada?
Xia Shi:
— …
— É mesmo? — Suiyin piscou os olhos.
— …Não — o número travou na garganta de Xia Shi. Mantendo o olhar à frente, ela declarou, em tom neutro: — Vinte e seis. Faço vinte e sete no mês que vem.
Essa havia sido sua idade na tribulação. Quatrocentos anos haviam passado desde então, sem que percebesse.
Xia Shi soltou um leve suspiro, incontáveis memórias aflorando.
—Por que o suspiro? —Suiyin deu um tapinha no ombro dela e deixou a mão ali.— Sua idade é perfeita! Os vinte anos de um cultivador são como a primeira luz da alvorada. Quem sabe de quem será o brilho que iluminará os Nove Reinos amanhã?
Xia Shi a observou — não exatamente vendo-a, mas sim o fantasma de seu eu mais jovem nos traços da garota.
A semelhança a atingiu profundamente. O fervor da juventude sempre ardia com tanta intensidade.
— Aqui. É para você.
Xia Shi baixou o olhar, um brilho azul cintilando em seus olhos.
Aninhado na palma da mão da garota estava o grampo de cabelo de Pedra Hanyu, idêntico à forma como Xia Shi o devolvera da última vez.
As sombras do crepúsculo não conseguiam apagar a determinação no olhar de Suiyin enquanto ela oferecia seu tesouro arduamente conquistado com sincera generosidade.
Xia Shi hesitou.
— Por que me dar isso?
Ela já havia recebido inúmeros presentes valiosos — até mesmo seu Selo Tai Chi fora um presente. Mas aquilo eram transações entre iguais. Ela e Suiyin compartilhavam apenas o vínculo efêmero de um reino secreto. Era improvável que se encontrassem novamente. E ela não tinha nada a oferecer em troca.
— Porque eu quero. — Quando Xia Shi não fez menção de aceitar, Suiyin acrescentou: — Embora não seja totalmente altruísta.
— O que você quer?
— Que me leve a algum lugar quando sairmos daqui.
— Aonde?
— Eu digo quando escaparmos.
— Combinado.
Elas permaneceram imóveis. Suiyin piscava rapidamente, os olhos indo de Xia Shi para sua própria mão ainda estendida.
Pegue.
Xia Shi escondeu a mão vazia atrás das costas, as mangas soltas e livres.
— Conversamos quando chegarmos.
— Tudo bem. — Suiyin não disse mais nada. Retirou o palito de madeira do cabelo e colocou em seu lugar um grampo de jade ornamentado.
Embora fosse apenas a troca de um enfeite, isso lhe conferiu um ar de graça refinada.
— Combinou com você — comentou Xia Shi.
Suiyin ergueu o queixo, sem nenhuma humildade.
— Naturalmente. Até a tia Yan já elogiou minha aparência.
Logo depois, franziu o cenho, puxando a bainha da túnica desbotada.
— Mas essa túnica é horrenda. Branco puro não tem paixão nenhuma.
Xia Shi riu.
— Paixão? É só um pano. Que sentimento uma cor pode carregar?
Suiyin balançou o dedo, os cabelos oscilando junto com o movimento da cabeça.
— Vestidos vermelhos ardem de sentimento. Branco é frio e sem vida. Eu não gosto.
De repente, ela se lembrou da origem da túnica.
Observando o rosto impassível de Xia Shi, Suiyin perguntou:
— Era sua, não era?
Xia Shi quase assentiu, mas se conteve — aquela era uma túnica de discípulo do Reino Sanqing. Sua identidade atual era a de uma cultivadora errante, sem afiliação.
— Não. Encontrei no anel de armazenamento de um morto.
Sem mais o que perguntar, Suiyin apenas murmurou em concordância.
Fogos de artifício explodiram no céu, pintando a noite com flores de luz. A multidão aplaudia, os rostos voltados para cima.
Xia Shi observava as lanternas subirem aos céus, cada uma carregando os desejos dos mortais.
Suiyin havia escapado sem ser notada e retornado com duas lanternas em branco.
— Escreva uma — disse, estendendo uma lanterna.
Xia Shi a pegou e se afastou, de costas.
Dois desejos ocupavam seu coração: consertar sua espada e descobrir a verdade sobre o local da sua tribulação.
Respeitando sua privacidade, Suiyin também virou de costas e escreveu o próprio desejo.
As lanternas subiram juntas.
Suiyin sorriu, os olhos em forma de lua crescente.
— Que seu desejo ganhe asas.
O polegar de Xia Shi roçou o pano que envolvia a espada.
— E que o seu alce voo — murmurou, suave, mas nítida.
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Capítulo 12
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I Have a Sword to Ask the Heavens
Na grande competição do Reino Sanqing, Suiyin conquistou o primeiro lugar em esgrima, recebendo a rara oportunidade de escolher seu mestre. Selecionar um mestre digno significava...