Laços

Laços em Carmesim

Capítulo 10

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🟡 Em breve

O clube estava em seu ritmo habitual — um mar de vozes sussurradas, risos abafados, o tilintar constante de copos e taças se misturando à música envolvente que preenchia o ambiente com um sensualismo quase tangível. A iluminação dourada e difusa espalhava-se pelas paredes como um véu, realçando o brilho das peles expostas, dos lábios pintados e dos olhares carregados de promessas silenciosas.

Jun se movia entre os clientes e garçons com a graça de alguém que pertencia àquele lugar. Seu corpo, esguio e bem treinado, parecia flutuar a cada passo. Os cabelos longos balançavam suavemente atrás dos ombros nus, os olhos âmbar analisavam o salão com precisão contida, mesmo que sua mente estivesse em outro lugar.

Usava uma blusa de tecido fino, vinho profundo, que deixava os ombros à mostra e revelava parte do abdômen esguio. O short curto, da mesma tonalidade, ajustava-se perfeitamente às curvas de suas coxas. As meias escuras com padrões hexagonais subiam até as coxas, desaparecendo sob o cós do short. Nos pés, tênis sofisticados, elegantes em sua simplicidade. Aquela combinação oferecia a exata medida entre provocação e charme.

Em noites mais específicas — e mais lucrativas — ele se vestia de forma ainda mais ousada. Um macacão vinho, justo como uma segunda pele, exibia as pernas longas e uma porção generosa das nádegas. Tiras conectavam o traje às meias altas, e os saltos conferiam ao seu caminhar uma sensualidade felina. Uma tiara com orelhas de coelho completava a figura — e foi assim, naquele traje de tentação elaborada, que conhecera Akihiro pela primeira vez.

Mas naquela noite, a sensualidade performada mal o tocava. Por dentro, Jun estava ausente, alheio às luzes, aos olhares, aos toques. A preocupação com o irmão ainda internado pendia sobre ele como uma névoa densa. Desde aquele dia no hospital, Akihiro o procurava com insistência: mensagens constantes, algumas curtas, outras mais longas, todas carregadas de uma atenção que Jun não sabia como interpretar.

Não havia pedido nada — e ainda assim, Akihiro pagara a conta do hospital, cobrira outras despesas e sequer trouxera o assunto à tona depois. Como se fosse algo comum. Como se não fosse nada demais.

Mas era. Para Jun, era demais.

Ele não compreendia.

Desde o início, sabia que aquela relação era efêmera. Um acordo implícito, pautado em interesses mútuos — prazer, novidade, fuga. Akihiro sempre buscava estímulo, não constância. Ele não era o tipo que ficava. Não era o tipo que se importava.

Então… por quê?

Encostado ao balcão, Jun deixou escapar um suspiro curto, e foi nesse momento de vulnerabilidade que sentiu a aproximação de Eli.

— KwonJun-kun, tudo certo? — a voz de Eli veio baixa, leve, mas carregada de intenção.

Jun ergueu o olhar devagar, encontrando o colega de trabalho à sua frente. Eli era atraente, de traços delicados e expressão insinuante. Seu corpo magro escondia uma inteligência atenta, quase predatória. Jun conhecia aquele tipo.

— Estou só descansando um pouco — murmurou, desviando o olhar.

— Você está com a cabeça longe hoje…

Jun permaneceu em silêncio. Mas Eli já havia lido o bastante.

— Está pensando em Hanamura?

Jun endureceu sutilmente, irritado consigo mesmo por ser tão óbvio. Ainda assim, respondeu com uma tentativa de neutralidade:

— O quê? Por que eu estaria pensando nele?

Eli riu, apoiando-se casualmente no balcão ao lado.

— Porque ouvi dizer que você virou o favorito dele — disse com um tom entre ironia e curiosidade. — Deve ser bom, não? Ter um cliente tão… generoso.

Jun não respondeu. A garganta apertava.

— Dizem que ele anda te tratando muito bem — prosseguiu Eli, girando um copo vazio entre os dedos. — Mas todo mundo sabe como ele é. Gosta de variar. Não se apega. Já se envolveu com quase todos os ômegas que passaram por aqui.

A cada palavra, a tensão crescia. O calor das luzes parecia mais intenso. Jun apertou a bandeja com mais força.

— Hanamura-sama nunca faz nada sem um motivo — concluiu Eli, em tom quase confidencial.

Jun respirou fundo, reprimindo o incômodo que se acumulava no peito.

— Talvez ele tenha um motivo — murmurou, o tom mais frio do que pretendia.

Eli sorriu, satisfeito por tê-lo provocado, e se afastou com um aceno leve. Jun permaneceu imóvel, lutando contra os próprios pensamentos. Eli dissera o que ele mesmo evitava admitir: não sabia o que Akihiro queria. E, pior ainda, não sabia o que ele próprio desejava.

Ele sentia algo — algo perigoso, algo que ameaçava dissolver o muro cuidadosamente construído entre sua vida profissional e seus sentimentos.

A súbita mudança no ambiente o alertou. A porta se abrira, e alguém diferente entrara no clube. A atmosfera, por um instante, pareceu reter o fôlego. Jun voltou os olhos para a entrada e o reconheceu no mesmo momento.

O homem que Choi havia mandado observar.

Ele caminhava com passos firmes, postura impecável. A roupa impecavelmente alinhada denunciava uma origem mais elevada, e os olhos, frios e atentos, vasculhavam o salão como quem avalia um campo de batalha.

Jun endireitou-se. O treinamento assumiu o controle. A insegurança se dissolveu sob a máscara de profissionalismo e sedução. Ele deslizou pelo salão, aproximando-se com equilíbrio impecável entre graciosidade e controle.

Parou diante do homem, seu sorriso surgindo com perfeição ensaiada.

— Bem-vindo — disse, a voz macia, melódica. — Há algo que eu possa fazer por você esta noite?

O homem respondeu com um sorriso enviesado.

— Só ver você já é suficiente.

Antes que Jun pudesse recuar, foi puxado pela cintura com uma firmeza que não deixava espaço para recusa. A mão do homem apertou seu quadril com uma possessividade que o fez prender a respiração. O polegar roçou o tecido da blusa com um gesto aparentemente casual, mas que queimava sobre a pele.

— Sente-se comigo — ordenou.

Jun hesitou por um segundo, mas assentiu. Escorregou para o assento ao lado, com movimentos precisos. O corpo estava tenso, mas a expressão permanecia inabalável.

— Então — disse o homem, inclinando-se até que sua respiração quente roçasse o ouvido de Jun — o que você tem para me contar?

A mente de Jun girava em espirais perigosas. Ele havia ensaiado aquele momento inúmeras vezes, cada detalhe minuciosamente calculado. Mas agora que se via frente a frente com o homem que aguardava suas informações, tudo lhe parecia impreciso, instável. O controle que julgava ter escorregava entre os dedos. Ainda assim, não demonstrou hesitação. Reprimiu o tumulto interior e calçou a máscara que aprendera a usar tão bem.

— O clube tem estado movimentado — disse, a voz mantendo um timbre constante, quase confidencial. Inclinou-se levemente em direção ao interlocutor, como se dividisse com ele algo exclusivo. — Há um cliente frequente, Ishikawa, com vínculos com a Yakuza. Ele tem usado este lugar como fachada para lavagem de dinheiro. É cuidadoso, sim, mas ultimamente tem deixado escapar detalhes. Ouvi menções de uma movimentação vultosa que está por vir. Não revelou quando nem onde, mas está nos planos.

O homem diante dele escutava em silêncio, a expressão impassível. Apenas assentiu com leveza, sinalizando para que continuasse.

Jun respirou fundo, e prosseguiu.

— Um grupo de empresários estrangeiros também se reúne aqui com regularidade. Investidores. Eles discutem negócios longe dos olhos da lei. Não conheço os detalhes com exatidão, mas os vi trocando envelopes, códigos, até cifras mencionadas em voz baixa. Há uma tensão constante quando eles estão por perto.

Enquanto falava, os dedos do homem deslizavam pelo quadril de Jun, traçando movimentos lentos, deliberados, que carregavam um peso dúbio — ao mesmo tempo tranquilizador e ameaçador.

— Muito bem — murmurou o homem, o tom baixo e controlado. — E quanto a Hanamura?

O nome caiu como uma pedra sobre os ombros de Jun. Um súbito aperto no peito o obrigou a engolir em seco. Ele hesitou por um instante que pareceu longo demais, então respondeu com cautela:

— Hanamura-sama é um cliente recorrente. — A escolha das palavras foi meticulosa. — Acredito que sua influência vai além da Yakuza. Ele tem conexões com figuras de alto escalão. Pessoas que não aparecem em registros públicos, mas que movimentam estruturas.

— Continue. — A voz do homem agora era cortante, como uma lâmina deslizando rente à pele. Seus olhos fixos nos de Jun exigiam mais.

— Ele é reservado — disse Jun, cuidadosamente. — Quase nunca fala sobre si, mas observa tudo ao redor com atenção. É o tipo de presença que impõe respeito sem esforço. Alguns o reverenciam, outros o evitam. Nunca o vi acompanhado de segurança, o que é… peculiar, considerando quem ele é.

O homem ergueu uma sobrancelha, curioso.

— E a irmã dele?

Um arrepio percorreu a espinha de Jun. A menção a Himeko Hanamura trazia consigo uma carga perigosa.

— Himeko-sama se mantém distante de locais como este — respondeu, mantendo o tom neutro. — Seus negócios são protegidos por uma rede bem estruturada. Mesmo ausente, seu nome ainda impõe autoridade. Ninguém se atreve a falar dela de maneira leviana.

O aperto do homem em sua cintura se intensificou, os dedos cravando-se como garras.

— É só isso? — disparou, a voz transbordando frustração. — Você está infiltrado aqui há meses. Esperava mais do que boatos e observações superficiais.

O coração de Jun batia com força descompassada, mas ele manteve o olhar fixo, os traços serenos moldando uma fachada firme.

— Os Hanamura não são comuns. São discretos. Não deixam rastros. Investigá-los… exige mais do que simples proximidade.

O homem o analisou por longos segundos. Então recostou-se, e sua expressão suavizou com uma tranquilidade ensaiada.

— Bom trabalho — disse, e sua mão escorregou da cintura de Jun para sua coxa, demorando-se ali, os dedos insinuantes. — Você está indo bem.

O estômago de Jun se revirou, mas ele não recuou. Permaneceu imóvel, sustentando o toque como parte do jogo que aceitara jogar.

Os dedos do homem subiram lentamente, roçando a curva da nádega de Jun com a desenvoltura de quem se julgava no controle.

— Vamos a um lugar mais reservado — sugeriu, a voz quase um sussurro. — Podemos… celebrar.

O coração de Jun deu um salto. Mas sua negativa foi imediata, ainda que revestida de polidez.

— Eu não posso — respondeu, suave, porém resoluto. — Ainda estou no meio do expediente. Minha ausência chamaria atenção.

A expressão do homem endureceu de imediato. Os olhos se estreitaram, e seu toque se tornou mais agressivo.

— Você não está em posição de me negar — rosnou, a voz baixa, ameaçadora.

A tensão se acumulava em cada fibra do corpo de Jun, mas ele se manteve firme.

— Qualquer desvio no meu comportamento será notado — insistiu, sem elevar a voz. — Os gerentes observam tudo. Se alguém suspeitar, a operação pode ser comprometida.

O silêncio que se seguiu foi espesso. O homem o encarava como se decidisse naquele instante se Jun ainda lhe era útil.

Por fim, ele soltou um resmungo contido e afastou a mão.

— Está bem — disse, com frieza. — Mas não se esqueça de quem é o dono da sua lealdade.

Jun assentiu com leveza, sem desviar o olhar.

— Compreendido — respondeu, e forçou um sorriso contido. — Entrarei em contato.

O homem permaneceu encarando-o por mais um instante, depois voltou sua atenção para o copo à sua frente. Um gesto displicente com a mão o dispensou, como se Jun fosse apenas mais um empregado qualquer.

Virando-se com passos lentos e calculados, Jun se afastou. Sentia o peso do olhar do homem queimando suas costas, mas não cedeu à vontade de olhar por cima do ombro.

Quando finalmente alcançou o corredor lateral, seus ombros desabaram. Encostou-se à parede fria, o peito arfando em suspiros curtos, os músculos tensos.

O que eu acabei de fazer?

A pergunta ressoou em sua mente como um eco sombrio. Revelara demais. Traíra a confiança de alguém que, até onde podia entender, não merecia aquilo. Mas a alternativa seria pior. Choi havia deixado claro o que aconteceria se falhasse.

Jun fechou os olhos por um momento, buscando fôlego. A culpa e o medo o dilaceravam por dentro, mas não podia se dar ao luxo de fraquejar.

Ajeitou-se, ergueu o queixo, e retomou o passo. Ainda tinha uma função a desempenhar. Ainda era apenas uma peça em um tabuleiro perigoso.

E neste jogo, qualquer erro podia ser fatal.

—–

Jun ajustou a gravata diante do espelho, os dedos trêmulos traindo a serenidade que se esforçava para manter. Quando empurrou a porta e entrou na sala, não esperava encontrar aquele olhar à sua espera. O funcionário dissera apenas que havia alguém o aguardando — não mencionara nomes, e talvez por isso o impacto tenha sido ainda maior.

Akihiro estava ali, reclinado no sofá de veludo cor vinho, seu corpo largo ocupando o espaço com uma naturalidade quase autoritária. O cabelo preto, ondulado até os ombros, caía em mechas desalinhadas, refletindo a luz tênue do teto. Os olhos castanhos, levemente dourados, encontraram os de Jun no instante em que ele entrou, e o prenderam como se soubessem de tudo.

— Você me chamou? — perguntou Jun, a voz firme, apesar do leve estremecimento que não passou despercebido nem por si mesmo.

Akihiro recostou-se ainda mais, pendurando um dos braços no encosto do sofá. A camisa de botões entreaberta revelava parcialmente o peito tatuado, como um descuido calculado. Ele emanava perigo. Mas havia algo nos olhos dele — uma suavidade discreta, quase melancólica — que fez o estômago de Jun se apertar com desconforto e, ao mesmo tempo, com um calor estranho.

— Sim. Você tem ignorado minhas mensagens. Foi o único jeito que encontrei para conseguir falar com você.

Jun permaneceu junto à porta, os dedos ainda tocando a madeira como se aquilo pudesse lhe oferecer algum equilíbrio.

— Eu disse que, se deixasse de responder, era porque estaria ocupado. Você aceitou isso.

Akihiro arqueou uma sobrancelha, os lábios se curvando num sorriso pequeno, quase indulgente.

— Eu sei. E não estou zangado — disse com naturalidade, fazendo um gesto com a mão em direção ao espaço ao seu lado. — Sente-se, por favor.

A palavra pairou no ar com um peso sutil, uma delicadeza incomum vinda dele. Jun hesitou, então fechou a porta atrás de si com suavidade e caminhou até o sofá. Sentou-se com certo cuidado, deixando entre os dois uma distância medida — suficiente para manter a compostura, embora o ar parecesse carregado por algo que se acumulava entre olhares e silêncios.

— Achei que poderíamos ter um encontro — disse Akihiro como quem comenta o clima, casual, mas proposital.

Jun franziu o cenho, surpreso.

— Um… encontro? Aqui?

— Um jantar reservado, dentro do seu ambiente de trabalho. Assim, não preciso arrancá-lo do expediente. Parece o compromisso ideal, não acha?

Jun acompanhou o olhar dele até a pequena mesa diante do sofá. Potes organizados de sushi estavam dispostos com capricho. O aroma suave do arroz temperado e do peixe fresco chegou até ele, e seu estômago respondeu com um leve ronco. Um sorriso involuntário escapou.

— Você é inacreditável, Akihiro.

O outro sorriu em resposta, satisfeito com a reação.

“Mas você está sorrindo. Isso é tudo que eu queria.” — pensou, em silêncio.

— Vou tomar isso como um elogio. Então… aceita?

Jun voltou a encarar a mesa, mas o que realmente sentia era o peso do olhar de Akihiro, aguardando, firme e paciente. Havia algo naquele gesto — ridiculamente sincero, fora de lugar naquele ambiente — que dissolvia suas defesas.

— Está bem — respondeu, por fim.

Akihiro se moveu, afastando-se ligeiramente para dar mais espaço. Serviu vinho em sua taça e, num gesto atencioso, ofereceu a Jun a bebida não alcoólica. O vidro tilintou suavemente ao ser colocado à frente dele.

— Como você está? — perguntou, agora em um tom mais contido.

Jun segurou o copo com as duas mãos, deslizando os dedos ao redor da superfície fria. Pegou um pedaço de sushi, levando-o à boca. O sabor familiar o acolheu, e ele soltou um pequeno suspiro, quase imperceptível.

— Estou tentando — respondeu, num tom que dizia mais do que as palavras.

Akihiro assentiu, o olhar fixo. Ele sabia o que aquele “tentando” significava. Sabia o que Jun suportava em silêncio, todos os dias.

— E seu irmão? — questionou, após alguns segundos.

A expressão de Jun vacilou. Colocou o sushi de volta no prato.

— Ele está estável. Mas não tem sido fácil.

— Você não precisa continuar aqui, sabia? Não enquanto ele estiver no hospital.

Jun desviou o olhar, os dedos mexendo na bainha da camisa como se procurassem uma distração.

— Eu preciso do dinheiro.

— Você já tem a minha proposta — lembrou Akihiro, gentilmente. — Poderia trabalhar comigo.

Jun hesitou. A ideia o atraía e o assustava em igual medida. Confiar em Akihiro significava baixar a guarda. Estaria disposto?

— Isso seria pedir demais.

Akihiro inclinou-se, sua mão tocando com naturalidade o joelho de Jun.

— Não seria.

O silêncio que se seguiu foi carregado de coisas não ditas. Jun sabia que Akihiro falava com sinceridade, mas aceitar ajuda nunca foi fácil para ele.

— Pense nisso. Eu não vou a lugar nenhum. Mas, se insiste em trabalhar… tenho outra ideia.

— Qual?

— Pode ser meu secretário.

Jun ergueu as sobrancelhas antes de rir, a tensão nos ombros suavizada.

— Você não precisa de um secretário.

— Talvez não. Mas seria interessante ver você caminhando pelo escritório — disse, com um brilho brincalhão no olhar. — O problema é que eu provavelmente não conseguiria manter minhas mãos longe de você.

Jun riu novamente, empurrando-o levemente pelo ombro.

— Isso não soa muito profissional.

— Definitivamente não é — respondeu Akihiro, com um sorriso largo e genuíno.

O silêncio entre eles voltou, mas era outro — mais denso, mais íntimo. Akihiro observou o rosto de Jun com atenção, o olhar demorando nos lábios.

— Está usando maquiagem — notou, com a voz baixa.

Jun corou, instintivamente tocando os próprios lábios.

— Sim. Preciso parecer apresentável para os clientes.

— Você está lindo — disse Akihiro, num tom que não buscava seduzir, mas afirmar. — Você mesmo faz?

— Sim, sempre antes do trabalho.

Akihiro o observou com mais atenção: os lábios levemente coloridos em um tom de cereja, o traço fino delineando os olhos, conferindo-lhes uma intensidade cativante. Jun ergueu o olhar e o encontrou. A intensidade nos olhos de Akihiro era quase hipnótica.

Quando se deram conta, estavam próximos demais. O movimento foi natural. Os lábios de Akihiro roçaram os de Jun com uma suavidade que beirava a reverência. O beijo foi lento, contido, sem pressa. Os lábios de Jun eram macios, e o sabor do gloss adocicado persistiu na boca de Akihiro mesmo depois que se afastaram.

— Gloss de morango? — murmurou Akihiro, os lábios se curvando em um sorriso contido. Jun ergueu uma sobrancelha com discrição.

— Isso é ruim?

— De jeito nenhum — respondeu Akihiro, a voz baixa, os dedos roçando de leve a bochecha de Jun com uma ternura que contrastava com sua aparência dominante. — É perfeito.

O coração de Jun acelerou dentro do peito, pulsando com força incômoda. Ele não conseguia evitar o sorriso tênue que lhe escapava, involuntário. Havia algo em Akihiro — algo que desarmava seus instintos de autopreservação, algo que o fazia se sentir protegido, mesmo quando ele sabia, no fundo, que não deveria.

Estendeu a mão, os dedos se enredando nas mechas loiras que pendiam ao redor do rosto de Akihiro, puxando-o para mais perto. Os lábios de ambos se encontraram novamente, dessa vez com mais desejo, mais calor. O beijo se aprofundou, lento, ardente e ainda assim envolto numa estranha delicadeza.

As mãos de Akihiro deslizaram pelas laterais do corpo de Jun com a precisão de alguém que conhecia o desejo, mas também respeitava os limites do outro. Jun se entregou ao toque, o corpo relaxando conforme a tensão se diluía em prazer, enquanto seus sentidos se perdiam na intensidade daquele momento.

— Akihiro… — sussurrou, quase sem ar.

— É o suficiente. Não vou além disso — respondeu Akihiro, encostando a testa à de Jun. Sua respiração se misturava com a dele, e as mãos descansavam suavemente sobre suas roupas, sem pressa, sem insistência. — Pode comer o quanto quiser. Eu trouxe para você.

—–

Pouco depois, Jun deixou a sala reservada com o coração disparado, sentindo como se os batimentos estivessem martelando contra suas costelas. Havia dito que iria ao banheiro e voltaria em seguida, e sua postura ao atravessar o corredor mantinha a compostura de sempre — ombros retos, passos silenciosos, uma leve inclinação de cabeça aos que cruzavam seu caminho. Mas por dentro, o caos era absoluto.

Ao empurrar a porta do banheiro e se ver sozinho, soltou um suspiro trêmulo, como se finalmente pudesse respirar de verdade. Apoiou ambas as mãos na pia de mármore e inclinou-se, encarando o próprio reflexo. As luzes brancas e frias acentuavam sua palidez, realçando a maquiagem nos olhos, e os lábios — manchados, avermelhados — ainda carregavam os vestígios do beijo.

Passou os dedos pelos lábios, sentindo o gosto de cereja misturado à lembrança quente de Akihiro.

A culpa o consumia por dentro, queimando silenciosamente.

Ele queria acreditar que não tinha escolha. Que aquilo tudo era inevitável. Choi não era alguém que se abandonava com facilidade. O acordo entre eles não era um simples contrato rompível. Estava impregnado de obrigações, ameaças veladas, e riscos reais demais para serem ignorados.

Mas naquela noite — naquela sala onde Akihiro preparara um jantar ridiculamente atencioso, onde o riso era sincero e o toque carregava significado — Jun se viu vulnerável de um modo que não sabia que ainda era capaz de ser. Ali, a culpa se instalou com mais força, esmagadora.

Akihiro não era como Choi. Não era como os alfas que passavam pelo clube, colecionando conquistas como objetos, sem se importar com as marcas que deixavam. Não havia frieza em seu toque. Nem crueldade disfarçada de carinho.

Jun riu brevemente, um som seco e amargo que ressoou no banheiro vazio. Que droga ele estava fazendo?

Queria sair dessa. Precisava sair. Mas como?

Respirou fundo, passou os dedos pelos cabelos em um gesto automático, tentando domar os pensamentos. Não podia se desesperar agora. Precisava ser inteligente. Precavido.

Empurrou a porta de volta para o corredor e deu apenas dois passos antes que uma voz familiar o fizesse parar.

— Ora, ora… faz tempo que não vejo você por aqui.

A voz grave, rouca, arrastada. Jun reconheceu-a no mesmo instante. Ao erguer os olhos, deparou-se com Takahide Miyagawa. Um antigo cliente. Um daqueles encontros que deixavam uma marca imperceptível à vista, mas difícil de apagar.

O homem vestia um terno escuro perfeitamente ajustado. Seu perfume amadeirado impregnava o ar ao redor, como uma assinatura. Caminhava com confiança, exibindo o tipo de sorriso que insinuava posse.

Jun forçou um sorriso cortês.

— Boa noite.

Miyagawa inclinou levemente a cabeça, os olhos percorrendo Jun com aquele velho olhar de avaliação.

— Você tem andado ocupado, hein? Tive que arranjar outro garoto para me fazer companhia ultimamente.

Jun manteve a postura impecável, como aprendera.

— Sinto muito por isso.

— Ah, mas não estou bravo — respondeu ele, balançando a cabeça com falsa leveza, as mãos nos bolsos do paletó. — Só queria saber se há alguma chance de tê-lo de volta.

Jun hesitou por um instante, os olhos focando em um ponto fixo atrás dele.

— Talvez eu não possa mais fazer isso, Miyagawa-sama.

Os olhos do homem brilharam, como se a recusa fosse um desafio. Mas ele apenas sorriu de canto, calculista.

— Bom… e que tal um pouco mais de agora em diante?

Retirou o celular do bolso. Digitou algo, e girou a tela na direção de Jun. Um valor alto piscava em números limpos, sem adornos. Mas não houve transferência. Não houve confirmação.

Apenas o valor. Um número que, antes, teria bastado.

Dessa vez, porém, causava-lhe náusea.

Antes, teria sido fácil. Antes, teria sido apenas mais uma noite, mais uma entrega emocionalmente vazia.

Mas agora… agora ele via o rosto de Akihiro.

Via o olhar terno, os gestos atenciosos, o cuidado sutil até mesmo na escolha dos pratos.

Jun manteve o sorriso cortês, porém deu um passo para trás.

— Não, senhor.

— Mesmo? — a voz do homem tinha um tom mais baixo, ligeiramente desconfiado.

— Mesmo.

Por um breve instante, o olhar dele se tornou mais afiado. Mas então ele recuou, rindo baixo, como se aceitasse uma derrota passageira. Guardou o celular e ajeitou o paletó.

— Interessante… Você nunca recusou antes. Algum motivo?

Jun sustentou o olhar com firmeza, sem desviar, sem tremer.

Antes que pudesse responder, uma presença se fez sentir ao seu lado. Densa. Silenciosa. Como uma sombra que não ameaçava, mas marcava território.

— Você demorou.

A voz de Akihiro soou calma, quase despreocupada. Mas a tensão sob suas palavras era nítida para quem soubesse ouvir. Ele já havia escutado. Já havia visto. E o modo como seus olhos fitaram Miyagawa deixava claro que cada detalhe estava registrado.

O homem mais velho pareceu se divertir. Observou Akihiro com a mesma curiosidade que se dedica a um animal exótico — belo, letal, indomável.

Akihiro não desviou. Um rosnado grave, instintivo, vibrou discretamente em seu peito.

Inclinou-se ligeiramente em direção a Jun, a voz se tornando um murmúrio baixo, quase íntimo.

— Volte para a sala. Eu cuido disso.

Jun piscou, surpreso, mas não havia ameaça na postura de Akihiro. Nenhuma rigidez violenta. Sua presença era sólida, protetora, mas controlada.

Confiando no que sentia, Jun assentiu. E sem dizer mais uma palavra, virou-se para voltar a sala.

Sabia que o olhar de Miyagawa o seguia, talvez confuso, talvez intrigado. Mas ele não olhou para trás.

Assim que Jun desapareceu no corredor, a risada baixa de Miyagawa cortou o silêncio como uma lâmina fina.

— Que interessante… Você veio buscá-lo pessoalmente? Isso não combina muito com o seu tipo.

Akihiro inclinou a cabeça levemente, seus olhos semicerrados reluzindo com frieza sob a penumbra do corredor.

— Eu conheço você?

O tom era displicente, mas a pergunta carregava uma tensão velada. Na verdade, Akihiro sabia muito bem quem era o homem à sua frente. Após ter seguido Jun certa noite e presenciado de longe sua interação com um homem desconhecido, agora ele finalmente podia identificar a peça ausente no quebra-cabeça.

Takahide Miyagawa.

Empresário respeitado no ramo imobiliário, conhecido não apenas por sua fortuna, mas também por sua presença constante em jantares de gala, cerimônias políticas e colunas de fofoca. Casado havia mais de duas décadas com a filha de uma família tradicional, o vínculo matrimonial não passava de um pacto silencioso de conveniência. O casamento, arquitetado entre duas linhagens influentes, não envolveu sentimentos — apenas poder e controle. A sogra de Miyagawa, mulher altiva e inflexível, jamais o tolerou verdadeiramente, e o desprezo entre eles era mútuo.

Contudo, por mais desgastada que fosse aquela união, o divórcio era uma impossibilidade. A esposa, criada sob dogmas severos, temia manchar o nome de sua família. Sabendo disso, Miyagawa explorou os limites da infidelidade com uma liberdade perversa, tornando seus casos extraconjugais públicos o suficiente para causar incômodo, mas nunca escandalosos a ponto de levarem a uma ruptura. Ômegas, betas, amantes de ocasião — ele desfilava com eles sob as lentes dos fotógrafos, como se estivesse sempre lançando um desafio silencioso à família de sua esposa, desfrutando da sua posição intocável.

— Perdão, eu sou Takahide Miyagawa. É um prazer conhecê-lo, Hanamura-san.

— Porque está aqui oferecendo dinheiro para alguém que claramente não está interessado? Parece… patético.

Miyagawa soltou uma nova risada, desta vez mais contida, e um brilho cortante cruzou seu olhar.

— Pode me insultar o quanto quiser, Hanamura-sama. Mas admito que estou intrigado com seu pequeno ômega. Ele é um… espécime fascinante.

A mandíbula de Akihiro se contraiu sutilmente. O impulso de esmagar o queixo daquele homem contra a parede foi intenso, mas ele conteve o ímpeto. Sua voz, no entanto, era afiada como gelo.

— Ele não está à venda.

O sorriso que Miyagawa ofereceu em resposta era tão falso quanto polido.

— Tudo tem um preço, Akihiro-san. Até mesmo alguém tão… delicado quanto ele. Não me culpe por tentar.

— Bem, ele não está mais disponível. Então eu sugiro que recue.

Miyagawa ajeitou o punho do terno com elegância teatral, como se estivesse apenas limpando a poeira de uma situação irrelevante.

— Você realmente não muda, Hanamura — comentou com desdém velado. — Vocês sempre são tão protetores com suas… propriedades.

Akihiro nada respondeu. O silêncio dele, contudo, era mais ameaçador do que qualquer palavra.

Então, como se jogasse uma carta escondida na manga, Miyagawa pronunciou um nome que imediatamente fez o ar no corredor pesar.

— Eu sei para quem Jun realmente trabalha — disse, inclinando-se para frente com o tom conspiratório de quem entrega um segredo perigoso. — Kenji Choi, ele tem um interesse especial na sua família. Eu diria que você já suspeitava, mas agora tem certeza, não é?

O nome reverberou dentro de Akihiro como um alerta. Seus olhos estreitaram-se imperceptivelmente, e Miyagawa percebeu.

Akihiro manteve-se imóvel, mas sua mente fervilhava. Jun sempre tivera segredos, isso era inegável, e Akihiro já suspeitava de que seu envolvimento no clube não era tão superficial quanto parecia. Mas ouvir o nome de Choi mudava tudo.

— E o que você quer em troca por mais informações?

A voz de Akihiro era baixa, contida. Ele não daria ao homem o prazer de saber o quanto aquela revelação o havia atingido.

Miyagawa saboreou o momento, passando a língua pelos dentes como quem experimenta um vinho raro.

— Você já sabe, Hanamura.

O olhar de Akihiro tornou-se glacial.

— Não.

Miyagawa soltou um suspiro preguiçoso, erguendo as mãos em rendição encenada.

— Ora, não precisa me olhar assim. Era apenas uma oferta. Reconheço minha derrota. — Ele ajeitou a lapela do paletó com um leve sorriso. — Jun… Bem, ele está no meio de algo maior do que você imagina.

Akihiro nada respondeu. Apenas observou em silêncio enquanto Miyagawa se afastava pelo corredor, deixando atrás de si a sensação incômoda de uma armadilha invisível.

Ele agora tinha um nome. Sabia quem estava puxando as cordas por trás das atitudes de Jun. E isso não era algo que podia ignorar.

Passando uma mão pelos cabelos com gesto contido, Akihiro retornou à sala privada. Encontrou Jun sentado no sofá, com o olhar perdido, os dedos entrelaçados no colo. Quando Akihiro entrou, ele ergueu os olhos, parecendo tenso, como se esperasse repreensão ou julgamento.

Mas Akihiro apenas atravessou o espaço com tranquilidade e se jogou ao seu lado no sofá. Pegou um pedaço de sushi com a mesma calma com que se faria algo corriqueiro, quase entediado.

— Resolvido? — Jun perguntou em voz baixa, receoso.

— Ele não vai mais te incomodar — respondeu Akihiro simplesmente, mastigando com lentidão.

Jun desviou o olhar, o alívio desenhando-se em seu semblante.

Akihiro observou seus ombros relaxarem e, por um breve instante, permitiu-se um pequeno sorriso, ainda que seus pensamentos estivessem muito longe dali, projetando-se para os perigos que ainda viriam.

Capítulo 10
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Laços em Carmesim

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Akihiro Hanamura sempre acreditou que laços afetivos não passavam de ilusões passageiras – convenções sociais frágeis que encobriam a inevitável falência das relações humanas. Como...

Chapters

  • Capítulo 16 FINAL O eterno no cotidiano
  • Capítulo 15 A Vulnerabilidade de um Alfa
  • Capítulo 14 Segredos de Sangue
  • Capítulo 13 Fim das Correntes
  • Capítulo 12 Um lar e o cheiro de comida
  • Capítulo 11 Rastros de Medo
  • Capítulo 10 Mesa para Dois na Sala Reservada
  • Capítulo 9 Rachaduras na muralha
  • Capítulo 8 A Voz de Jun
  • Capítulo 7 O coração exausto de Jun
  • Capítulo 6 O Gosto da Ternura
  • Capítulo 5 Junhos Possíveis
  • Capítulo 4 Proposta Intrigante e Tentadora
  • Capítulo 3 Sedução no Palco, Verdades no Encontro
  • Capítulo 2 - A primeira intersecção
  • Capítulo 1 - Uma Noite ao Acaso

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