Capítulo 11
Akihiro passou a noite mergulhado em informações, imerso em uma espiral de descobertas que não lhe ofereciam nenhum alívio. Sentado em seu escritório, a única luz vinha do brilho frio do monitor, que projetava reflexos pálidos sobre seus traços tensos. Documentos, relatórios policiais, fotos e fragmentos de registros escavados por fontes discretas se acumulavam diante de seus olhos atentos. A cada linha lida, a figura de Choi se tornava mais clara — e mais repulsiva.
Miyagawa não havia mentido.
Kenji Choi era um nome conhecido nos bastidores da extorsão e do tráfico humano, um homem de métodos vulgares que construíra seu império à força, coagindo os mais vulneráveis e se alimentando do medo que semeava. Diferente dos chefes de organização que atuavam com sutileza e disfarce, Choi era brutal e direto. Não era um estrategista — era um predador.
Akihiro exalou lentamente, inclinando-se para trás na cadeira enquanto esfregava o rosto com ambas as mãos. Aquilo explicava muitas coisas. Explicava o receio nos olhos de Jun, sua constante vigilância, a forma como parecia carregar o mundo sobre os ombros frágeis. Jun não estava apenas com medo de se entregar a alguém — estava com medo de perder tudo o que amava.
O alfa fechou os olhos, pressionando os dedos contra as têmporas. Deveria ter percebido antes. Tinha informações suficientes, poder suficiente, e ainda assim… havia deixado que Jun suportasse aquilo sozinho.
Ele tamborilou os dedos sobre a madeira da mesa, reorganizando seus pensamentos. Precisava ser cuidadoso. Não podia confrontá-lo de forma agressiva, não podia encurralá-lo. Jun já vivia encurralado.
Precisava trazê-lo para perto.
Precisava fazê-lo entender que não estava ali para julgá-lo — estava ali para libertá-lo.
Seu olhar voltou à tela. Uma das fotos mostrava o rosto de Choi, parcialmente borrado por uma sombra, mas o suficiente para reconhecê-lo. Havia algo de vulgar em sua expressão, uma confiança adquirida à custa de sofrimento alheio. Akihiro fixou o olhar na imagem por um longo momento, o maxilar apertado.
Aquilo não ficaria assim.
—–
A noite caiu fria, como se o céu carregasse o peso de tudo o que estava prestes a ser dito. Encostado à lateral de sua moto, Akihiro observava os arredores com a atenção de quem esperava algo importante. Os braços cruzados, o casaco escuro recoberto de finas partículas de sereno, o deixavam com uma postura quase monástica — mas era apenas a aparência. Por dentro, ele estava em guerra.
Quando finalmente viu Jun se aproximar, descruzou os braços lentamente, empurrando-se para frente. Os olhos âmbar do ômega o encontraram com uma mistura de surpresa e cautela, que logo se dissolveu em um alívio silencioso.
— Você não me avisou que viria — comentou Jun, parando a poucos passos.
— Achei que seria melhor assim — respondeu Akihiro, sua voz firme, mas sem dureza.
Por um momento, ficaram apenas se olhando, a tensão tênue entre eles pairando como uma linha prestes a ser cortada. Akihiro então estendeu a mão, o gesto calmo, os dedos relaxados, oferecendo um contato que não exigia nada — apenas presença.
Jun hesitou, o olhar pousando sobre a mão oferecida. Era um gesto simples, mas carregava muito mais do que parecia. Após um segundo de silêncio, ele aceitou. Seus dedos tocaram os de Akihiro, e aquele contato, por mais breve, foi suficiente para desfazer parte da rigidez que o consumia.
Akihiro não perdeu tempo com rodeios.
— Jun… eu sei sobre Kenji Choi.
O corpo de Jun enrijeceu como se tivesse levado um golpe. Os olhos se desviaram imediatamente, e a tensão que antes era apenas latente agora tomou cada fibra de seu corpo.
— Eu sei quem ele é — continuou Akihiro, com a voz baixa e firme. — A organização de Choi tem raízes sul-coreanas. Eles atraem estrangeiros em situação vulnerável, e os transformam em servos do medo. Seu pai, um italiano, fazia parte desse esquema. Quando Choi descobriu que ele havia formado uma família sem sua permissão, mandou matá-lo. Depois disso, ele trouxe sua mãe, você e seus irmãos para o Japão e garantiu que todos permanecessem sob seu controle. Ele não é nada no nosso mundo. Mas para você… ele é tudo o que ameaça.
Jun cambaleou sob o peso daquelas palavras. Sua respiração tornou-se irregular, a visão turva, como se um pânico antigo estivesse pronto para aflorar. Seus lábios tremiam, o olhar ainda fugindo de Akihiro. Os ombros caíram, vencidos. E o silêncio, novamente, se fez — um silêncio espesso, quase cruel.
Quando enfim falou, sua voz era apenas um sussurro quebrado.
— Você… sabe tudo…
— Sei. Mas eu quero ouvir de você — disse Akihiro, com uma calma que contrastava com o furacão que sentia por dentro.
Jun fechou os olhos com força, como se isso pudesse conter as lágrimas que já ardiam.
— Eu tentei me afastar dele. Eu queria ser independente, queria tirar minha família das mãos dele. Mas ele… ele usa minha mãe, meu irmão. Sempre que eu tento sair, ele ameaça machucar alguém. Eu… eu não tinha escolha.
Sua voz falhava a cada palavra, mas ele continuou, como se finalmente derramasse algo que guardava há anos.
— Choi ajudou minha mãe quando chegamos ao Japão. Prometeu uma vida melhor. E de certa forma… cumpriu. Mas tudo tinha um preço. Ele… ele ficou obcecado comigo. Cuidou das despesas do hospital da minha mãe, das contas… mas em troca, eu tinha que ser dele.
Akihiro ouviu, sem interromper. Seu olhar estava fixo, frio por fora, fervente por dentro.
— Você tem uma dívida registrada com ele?
Jun balançou a cabeça com lentidão.
— Não… nunca houve um contrato. Ele só… queria me possuir. Eu queria pagar tudo sozinho. Comecei a trabalhar, me afastei, mas ele não deixou. Sempre arruma um jeito de me puxar de volta. Ele ameaça minha mãe, meu irmão… e eu… — sua voz se desfez. As lágrimas, finalmente, romperam a barreira de contenção e rolaram por suas bochechas sardentas.
Akihiro se aproximou, um passo apenas. Sua presença era firme, inabalável, mas ele não tentou tocá-lo. Não ainda.
A mandíbula contraída, os olhos duros como pedra. Mas seu silêncio falava por ele: ele tinha ouvido. Ele tinha entendido. E agora, aquilo era pessoal.
Jun continuava tremendo. Vulnerável. Mas mesmo naquele estado, havia algo de admirável na maneira como não se permitia desabar completamente. Ele estava exausto — mas ainda estava de pé.
— O que mais, Jun? O que ele fez com você?
A pergunta pairou no ar como uma lâmina afiada. Jun hesitou, os olhos fixos em algum ponto indefinido entre eles, como se não conseguisse encarar a realidade. Quando falou, sua voz era pouco mais que um fiapo quebradiço de som.
— Ele… me ensinou a agradar alfas.
As palavras o feriram mais do que qualquer golpe físico poderia. Sua voz trêmula se desdobrou em confissão:
— Ele era exigente. Não aceitava erros. Usava cordas e brinquedos… — Jun engoliu em seco, os olhos marejando. — Ele me vestia, me exibia para os amigos. Fazia com que eu os servisse. Às vezes um… às vezes… mais de um.
A última frase veio entrecortada, carregada de uma dor que não precisava de adjetivos. Akihiro sentiu o estômago revirar. A náusea se confundia com a fúria. Aquilo não era apenas crueldade. Era uma perversão sistemática, planejada para destruir a identidade de alguém.
— Ele me obrigou a espionar vocês — Jun confessou, e sua voz finalmente cedeu à angústia. — Disse que, se eu me recusasse, me mandaria para um lugar pior do que o clube.
O silêncio que se seguiu foi denso, quase material. Jun baixou a cabeça, as lágrimas escorrendo sem qualquer contenção.
— Eu sinto muito… — disse, quase sem voz. — Eu queria contar, eu queria parar… mas eu tive medo.
Quando enfim ergueu os olhos, o que procurava era punição. Esperava desprezo, raiva, um olhar de repulsa que correspondesse à vergonha que sentia. Mas Akihiro apenas inspirou fundo, passando a mão pelos cabelos, os olhos fixos nele, sem julgamento.
— Eu preciso saber exatamente o que você disse a Choi — disse, a voz firme. — O que ele sabe sobre mim e minha família?
Jun hesitou, o olhar desviando-se para o chão, como se as palavras pesassem demais.
— Contei sobre o clube, os clientes. Ele queria saber com quem você falava, quem você encontrava, quem eram seus aliados…
Akihiro apertou os lábios. Havia raiva ali, mas ainda controlada.
— Isso não é suficiente para me derrubar — disse, após um breve silêncio —, mas por que você não veio até mim? Por que não pediu ajuda?
— Porque eu achei que você me odiaria. — Jun chorava abertamente agora. — Eu traí você. Achei que você me puniria por isso.
Akihiro sentiu o coração apertar com aquele medo cru na voz dele, com a forma como tremia, como se todo o seu corpo fosse feito de vidro prestes a se estilhaçar. Mas então percebeu algo mais.
Jun não estava apenas emocionado. Ele estava à beira do colapso.
Seus ombros estremeciam, a respiração se tornava rasa e irregular. Havia suor em sua testa, os olhos dilatados. E, principalmente, havia o descontrole dos feromônios — um cheiro agridoce de pânico, um rastro instável que saturava o ar ao redor.
— Jun — chamou Akihiro, suavemente, aproximando-se com cuidado.
Mas Jun não ouvia mais. Estava submerso em um ataque de pânico completo, agarrado à mão de Akihiro com força desesperada. Sem pensar duas vezes, Akihiro o envolveu nos braços, firme mas gentil, sentindo o corpo dele se debater fraco contra o toque. Não havia tempo a perder.
Levou-o até o carro, dirigindo com rapidez e controle até o hospital.
Na emergência, bastou um olhar dos enfermeiros para compreenderem a gravidade. Jun foi levado para um leito isolado, longe de outros alfas e ômegas, enquanto Akihiro seguia junto, sem soltar sua mão.
— Ele já teve episódios assim antes? — perguntou o médico, avaliando os sinais.
— Não que eu saiba. Acredito que não. — A resposta de Akihiro foi rápida, mas embargada pela preocupação.
O médico assentiu e começou a anotar. A tensão hormonal de Jun era evidente.
— Os níveis de feromônios dele indicam um pico severo de estresse. Vamos aplicar um inibidor temporário para estabilizá-lo. Isso evitará danos físicos e trará o sistema endócrino de volta ao equilíbrio.
Enquanto uma enfermeira preparava a seringa, outro profissional amarrou uma faixa no braço de Jun, buscando a veia. Ele ainda tremia, as mãos apertadas contra o peito, tentando respirar.
— Vai causar um leve formigamento, mas será eficaz — avisou a enfermeira antes de introduzir a agulha.
A medicação começou a agir em poucos minutos. O cheiro no ar mudou. Os feromônios, antes caóticos, aos poucos se acalmaram, e a respiração de Jun se estabilizou.
O médico, observando a interação silenciosa entre os dois, comentou casualmente:
— Você deve ser o alfa dele.
Akihiro franziu a testa, surpreso.
— Não sou.
A afirmação ficou no ar, mas o médico apenas assentiu. Após um período de observação, ele retornou com as instruções.
— Ele deve evitar qualquer situação de estresse intenso nos próximos dias. O sistema nervoso ainda está sensível, e o organismo precisa de tempo para se recuperar.
Akihiro ouviu tudo com atenção. Quando se virou para Jun, ele já estava mais calmo, os olhos ainda úmidos, mas mais serenos.
— Podemos ir?
— Sim — respondeu o médico. — Mas fiquem atentos. Se houver qualquer novo episódio, voltem imediatamente.
Akihiro agradeceu, ajudando Jun a levantar-se. Ainda atordoado, Jun não protestou quando sua mão foi envolvida pela dele. O toque quente e firme o ancorava.
No carro, o silêncio voltou. Jun mantinha o olhar baixo, os ombros curvados.
— Desculpa por isso… — murmurou. — Eu nunca… nunca tinha tido um ataque de pânico antes.
— Agora já teve — respondeu Akihiro, sem tom de crítica, apenas constatação. — Você passou por muita coisa. Vou te levar para casa.
— Você não está com raiva?
— Estou furioso — respondeu com sinceridade. — Mas não com você.
Jun ergueu os olhos, surpreso.
— Então de quem?
— De Choi — disse Akihiro, com a voz baixa, tensa. — Ele acha que ainda te controla. Que pode te usar contra mim, contra minha família. Que pode te moldar ao que ele quiser. — Um arrepio percorreu a espinha de Jun. — Mas ele não pode. — completou Akihiro, os olhos fixos na estrada, mas com a mão ainda entrelaçada à dele, como uma promessa silenciosa de que nada daquilo passaria impune.
—–
Quando chegaram à casa de Jun, Akihiro desligou o motor do carro, mas permaneceu em silêncio, com as mãos ainda firmes no volante. Por um instante, limitou-se a observá-lo, notando como o peito do ômega ainda subia e descia em um ritmo irregular. A tensão já não se estampava em seu rosto com o mesmo desespero de antes, mas algo ali continuava trêmulo — instável, à beira de colapso.
Sem uma palavra, Akihiro saiu do veículo e contornou a lateral, abrindo a porta do carona. Jun hesitou ao encará-lo, como se não soubesse se deveria agradecer ou temer aquela gentileza, mas acabou por sair do carro. Seguiu em silêncio até a porta da pequena casa, com Akihiro logo atrás. Quando começou a procurar as chaves no bolso do casaco, a voz dele se fez ouvir — firme, definitiva.
— Você não vai mais trabalhar no clube.
Jun parou. A chave, suspensa no ar, não chegou à fechadura. Ele se virou, confuso, os olhos arregalados.
— O quê? Mas…
— Eu vou cobrir o que você ganha lá — cortou Akihiro, direto, sem sequer considerar a possibilidade de contestação. — E não quero que continue usando aquele aplicativo também.
O aperto no peito de Jun se intensificou. Aquilo não era uma sugestão.
— Akihiro… e se o Choi perguntar? Ele vai perceber que eu sumi…
— Vai dizer que os encontros com os subordinados dele estão chamando atenção — respondeu com frieza calculada. — Diga que começaram a desconfiar. Ele vai querer evitar qualquer exposição. Vai aceitar mudar os encontros.
Jun abaixou os olhos, as chaves agora presas entre os dedos, envoltas por um leve tremor.
— E se ele não acreditar?
— Eu vou te dar informações para passar a ele. Nada verdadeiro — mas o olhar de Akihiro era imperturbável — só o bastante para manter o interesse dele, sem que suspeite de você. Assim você não será punido.
Jun o fitou em silêncio. A precisão com que Akihiro articulava cada detalhe era desconcertante. Tudo parecia pensado, ensaiado — e não por paranoia, mas por hábito. Era como se ele vivesse em estado constante de antecipação, sempre preparado para as falhas dos outros. E Jun começava a perceber que talvez nunca tivesse realmente conhecido o homem à sua frente.
Akihiro desviou os olhos, um suspiro discreto escapando dos lábios.
— Você consegue fazer isso, Jun?
A pergunta pareceu inesperada. Não era uma ordem. Era quase… uma concessão.
Jun mordeu o lábio inferior. Estava exausto. O corpo ainda carregava os resquícios de uma tensão amarga, e sua mente, cheia de ruídos, mal conseguia se organizar. Mas, mesmo com o medo, mesmo com a confusão, sabia que não havia outra alternativa.
— Consigo… — murmurou, sem firmeza, mas com sinceridade.
— Pode continuar no restaurante, se quiser — disse Akihiro, como se esse pequeno gesto de liberdade fosse algo relevante. — Mas não quero que se encontre com outros homens.
O calor que invadiu o peito de Jun foi inesperado, incômodo até. Não era afeição — ainda não. Era algo mais primitivo: o estranho alívio de ser visto, de ser cuidado. Pela primeira vez, alguém impunha limites em seu lugar, não para explorá-lo, mas para protegê-lo.
— Eu entendo — respondeu em voz baixa, desviando o olhar.
— Ótimo — disse Akihiro, recuando um passo, dando-lhe espaço. — Vá descansar.
Jun hesitou antes de destrancar a porta. Ao lançar um último olhar por sobre o ombro, viu que Akihiro permanecia onde estava, os olhos cravados em suas costas. Não parecia que esperava um agradecimento. Parecia apenas querer se certificar de que ele entraria.
Jun não saberia nomear o que sentia naquele instante. A confusão ainda era densa, como névoa que não se dissipa. Mas, ao fechar a porta atrás de si, algo se instalou no silêncio da casa. Algo tênue, mas presente. Pela primeira vez em muito tempo, a solidão não parecia mais absoluta.
—–
A casa dos Hanamura exalava sofisticação. Ampla, austera, cercada por um jardim meticulosamente cuidado, era o reflexo vivo da tradição e do prestígio acumulado por gerações. No quintal dos fundos, a grama estava aparada com rigor quase cerimonial, e lanternas de pedra espalhadas entre os arbustos emanavam uma luz amarelada e suave, contrastando com o céu em tons azul-escuro.
Ali, entre as sombras difusas do crepúsculo, Akihiro e Himeko estavam lado a lado, silenciosos. A conversa abafada de Ruri com o patriarca da família podia ser ouvida à distância, enquanto a mãe embalava o neto nos braços com um movimento ritmado, quase hipnótico.
Himeko quebrou o silêncio primeiro. Cruzou os braços, com um olhar enviesado para o irmão.
— Está mais calado do que o normal — comentou, soltando uma primeira lufada de fumaça que se dissipou no ar frio.
Akihiro passou a mão pelos cabelos, que caíam desalinhados sobre a testa. Não era de confidências, muito menos de vulnerabilidades expostas. Ainda assim, algo naquela noite parecia exigir sinceridade.
— Conheci alguém.
Himeko arqueou uma sobrancelha, e a fumaça saiu de seus lábios com um sopro cínico.
— “Conheci alguém”? Desde quando você me avisa sobre as suas aventuras sexuais?
Akihiro manteve o olhar no céu, como se as palavras precisassem ser buscadas entre as estrelas.
— Não é uma aventura. Eu gosto dele.
Por um instante, houve silêncio. Himeko o encarou, surpresa. O sorriso malicioso que se formou em seus lábios carregava ironia, mas não desprezo.
— Então o grande Akihiro Hanamura finalmente caiu na armadilha. Não posso acreditar que esteja cogitando um relacionamento. Você, que sempre foi uma lenda… Fazia o que queria, quando queria, com quem queria. E sem jamais prestar contas a ninguém.
Ela deu uma tragada lenta, o olhar ainda cravado nele.
— Tenha cuidado, irmão. Quanto mais fundo você for nisso… maior será a queda, quando der errado.
Akihiro bufou, desviando o olhar.
— Vingança é uma coisa feia, irmã — retrucou com uma leveza amarga.
Himeko sorriu, saboreando o momento.
— Eu esperei tanto tempo para jogar tudo isso na sua cara.
— Imagino que tenha sido satisfatório.
— Extremamente.
— Eu mereço.
Ela riu, jogando as cinzas no chão do jardim.
— E quem é o sortudo?
Akihiro hesitou. Não era fácil explicar. Não sabia sequer por onde começar. Resolveu dizer apenas o necessário.
— O nome dele é KwonJun. Ele trabalhava no meu clube.
Himeko o estudou com atenção. O brilho zombeteiro de seu olhar cedeu lugar a uma curiosidade mais sóbria.
— Claro… Não podia ser alguém que você conheceu na fila da farmácia, não é? — Ela riu sozinha. — Por favor, não me diga que você está se envolvendo com um garoto de programa que ainda se deita com outros homens e acha que isso é amor verdadeiro.
— Claro que não, sua lunática.
— Você nunca fez questão sequer de lembrar o nome dos rapazes com quem transava. O fato de saber o nome desse já diz muita coisa. — Akihiro franziu o cenho, mas não disse nada.
Akihiro manteve-se em silêncio por um momento, como se estivesse medindo as palavras. Então, tirou o celular do bolso. Desbloqueou a tela com um gesto rápido e buscou algo na galeria, os olhos fixos no brilho frio da tela antes de a virar para a irmã.
— Aqui.
Himeko arqueou a sobrancelha ao ver a imagem. Na foto, Jun aparecia abraçando um buquê de flores artificiais em tons quentes contra o peito. O olhar dele era suave, quase tímido, e havia um brilho natural nos olhos que contrastava com a luz estourada do flash.
— Nossa… — ela olhou mais uma vez para a tela e soltou um assobio baixo. — Tenho que admitir: ele é gato.
— Você é casada. Não tem que achar nada.
— Ah, cala a boca. Não sou cega. — Ela sorriu, ainda encantada com a própria descoberta. — E olha essa cara, Akihiro… se você não casar com ele, vai ser a maior burrada da sua vida.
— Você o flagrou em um encontro? Espiou ele recebendo flores de outro?
Akihiro estreitou os olhos, cruzando os braços.
— Não.
— Ah, não me diga que foi você que deu isso a ele?
O silêncio que se seguiu foi pesado apenas por dois segundos. Depois, Himeko explodiu em uma gargalhada sonora, tragando o cigarro com tanta força que quase engasgou.
— Você está de brincadeira comigo, Akihiro! — ela ergueu o celular mais perto do rosto, como se não acreditasse no que via. — Um buquê de flores? É sério?
Akihiro bufou, recostando-se no banco do jardim, os braços cruzados.
— Foi uma piada… ou quase isso. Ele disse que eu não sabia ser romântico. Resolvi provar o contrário.
— E você fez questão de registrar a prova. — Himeko o encarou com um riso malicioso.
Ele revirou os olhos, tentando manter a seriedade.
— Alguém precisava de evidências. Caso contrário, diriam que eu inventei a história.
— Não, não, espera… — Himeko limpou uma lágrima de riso no canto do olho. — O grande Hanamura, aquele que já partiu mais corações do que conseguiu contar, guardando uma foto de um garoto abraçado a flores? Akihiro, você está acabado.
Ele bufou, impaciente, mas o canto dos lábios ameaçava um sorriso contido.
— Devolve o celular.
— Nem morta. Vou imprimir isso e emoldurar. Melhor: vou mandar fazer camisetas com essa foto.
— Himeko, devolve. — O tom dele soava ameaçador, mas o canto dos lábios denunciava um riso contido.
— Não acredito nisso. Você realmente gosta dele. — Ela ainda olhava para a tela, o cigarro esquecendo-se de queimar entre os dedos. — Nunca pensei que veria o dia.
Akihiro suspirou, estendendo novamente a mão.
— Já se divertiu bastante.
Ela relutou mais alguns segundos, saboreando a humilhação fraterna, até finalmente devolver o aparelho. Antes, porém, lançou-lhe um último olhar zombeteiro.
— Vou te dizer uma coisa, irmão. Se esse garoto conseguiu te fazer comprar flores, ele não só vale a pena… como já ganhou.
Akihiro guardou o celular no bolso, desviando o olhar como se não quisesse admitir o peso daquelas palavras. Ainda assim, um sorriso quase imperceptível lhe escapou, discreto e contido — exatamente como a lembrança daquela noite que, mesmo em silêncio, ele guardava com mais zelo do que deixaria transparecer.
— Ele vale a pena.
Himeko manteve o cigarro entre os dedos, a expressão agora mais branda.
— Então… quando vou conhecer esse tal de KwonJun?
Akihiro sorriu com o canto dos lábios, um riso curto escapando pelo nariz.
— Um dia. Mas não contaria com isso tão cedo.
— Tudo bem. Mas fique sabendo: se ele partir o seu coração, eu mesma vou garantir que nunca mais consiga andar.
Akihiro riu com gosto e Himeko o encarou com seriedade, por um breve instante.
Não precisavam de mais palavras. Havia, entre os dois, um entendimento silencioso — e, ainda que ele jamais admitisse em voz alta, sentiu, pela primeira vez em muito tempo, que talvez estivesse no caminho certo.
—–
Quando retornaram ao interior da casa, o ambiente havia mudado sutilmente. Algo na disposição dos olhares, no silêncio entre as falas, indicava que sua ausência havia sido notada — e comentada.
O pai deles, homem de presença imponente e voz sempre comedida, estava sentado com os braços cruzados, o olhar fixo nos dois que acabavam de entrar. A mãe, ainda segurando o bebê de Ruri, mantinha um sorriso discreto, mas seus olhos estavam atentos demais para que fosse apenas uma coincidência. Rurihito, do outro lado do sofá, parecia deslocado, como se tivesse acabado de ouvir algo que preferiria ignorar.
Antes que Akihiro pudesse sequer se acomodar, o pai pigarreou.
— Akihiro, por que não nos conta mais sobre KwonJun?
A mãe sorriu e Akihiro congelou no meio do caminho.
— O quê?
— Sobre o rapaz. Estamos curiosos — repetiu a mãe, com doçura quase teatral.
Himeko, já servindo-se de um prato com a calma de quem se diverte com o caos iminente, não conteve o riso.
— Se quiser guardar segredos, aprenda a fechar as portas direito — provocou o pai, com naturalidade.
— Vocês não pensaram em, sei lá, respeitar minha privacidade?
— Ah, por favor — disse o pai, retirando de uma gaveta um papel dobrado e o abrindo sobre a mesa.
Akihiro reconheceu o documento antes mesmo que o conteúdo fosse lido. Não teve tempo de impedir.
— Nome completo: KwonJun Olivine. Vinte e quatro anos. Trabalhos anteriores: barista, garçom e acompanhante de luxo. — recitou o pai, com a impassibilidade de um burocrata.
Akihiro cobriu o rosto com uma das mãos.
— Meu Deus…
— Ele é estrangeiro. Veio ao país com a mãe e dois irmãos mais novos. Dupla cidadania. Nenhum bem significativo registrado em nome da família.
— Ah — murmurou Ruri, surpreso.
— Não, não “ah” — retrucou Akihiro, apontando para Ruri e depois para Himeko. — Você contou para eles, não foi?
— Como eu poderia, idiota? Eu acabei de saber!
— Trabalhos atuais: performer ocasional, acompanhante de luxo no clube ou através de um aplicativo de encontros. Nenhum registro criminal. — continuou o pai, imperturbável.
— Já chega! — exclamou Akihiro, arrancando o papel das mãos do pai e o amassando sem cerimônia.
— Francamente — suspirou o patriarca. — Vocês são todos muito sensíveis.
— Espionar Rurihito quando a Himeko mencionou ele pela primeira vez não te dá licença para fazer o mesmo comigo.
— O quê? — exclamou Ruri. — Isso aconteceu?
— Não vem ao caso — atalhou Himeko, dando um tapinha nas costas do marido.
Akihiro afundou-se na poltrona.
— Eu odeio esta família.
A mãe sorriu, serena.
— Você nunca nos apresentou ninguém. Se agora está disposto a conversar com sua irmã, então deve ser importante.
— Você realmente gosta dele, não é? — perguntou o pai, com o tom inquisidor de sempre.
— Vocês são insuportáveis — resmungou Himeko.
A mãe inclinou a cabeça, sorrindo.
— Se ele for um ninguém, não há problema em conhecê-lo, certo?
Akihiro massageou as têmporas, exausto.
— Eu não vou deixar que vocês o assustem.
— Ele é do tipo que se assusta fácil? — indagou a mãe, com genuína curiosidade.
— Isso é preocupante, Akihiro — refletiu o pai. — Você carrega o nome Hanamura. Seu parceiro precisa ter estrutura para lidar com isso.
— Ele tem. — A resposta veio imediata, e firme.
— Então traga-o para jantar — sugeriu a mãe, animada.
Akihiro soltou um suspiro longo.
— Isso foi um erro. Eu não devia ter vindo hoje.
Himeko soltou uma gargalhada leve.
— Bem-vindo ao inferno, irmão.
— Está decidido — concluiu o pai. — Queremos conhecê-lo.
Akihiro fechou os olhos por um instante, já prevendo o caos que seria apresentar Jun à família. Mas, no fundo, sabia que seria inevitável.
—–
A noite caía com suavidade sobre a cidade, e a casa de Akihiro, imersa em uma penumbra acolhedora, exalava um silêncio quase reverente. Quando Jun atravessou a porta, trazia consigo uma pequena bolsa, discreta, contendo apenas o necessário para passar a noite. Por mais que já estivesse familiarizado com o espaço e com a presença de Akihiro, aquela era a primeira vez que passaria tanto tempo ali — um gesto sutil, mas de grande significado, e que carregava consigo uma ansiedade discreta.
Assim que a porta se fechou atrás dele, Akihiro espreguiçou-se com uma naturalidade que contrastava com sua habitual postura contida.
— Estava pensando em pedir alguma coisa mais tarde. Sushi, talvez — disse, a voz relaxada, o olhar vagando distraidamente pela sala.
Jun assentiu, deixando a bolsa em um canto próximo da entrada.
— Parece uma boa ideia.
Dirigiram-se à sala de estar, e Jun afundou no sofá com um suspiro contido. O cansaço acumulado do dia parecia se dissipar aos poucos, amolecido pelo ambiente calmo. Enquanto ele se acomodava, Akihiro girava preguiçosamente um copo vazio entre os dedos, os olhos semicerrados.
— Você já falou com Choi? — indagou, o tom brando, mas com uma atenção latente.
Jun levou uma caneca aos lábios, demorando-se um instante antes de responder:
— Sim. Ele aceitou mudar o local do encontro. Disse que era uma decisão sensata, considerando que o clube não é exatamente discreto para esse tipo de conversa. Mas deixou claro que não aprecia alterações de última hora.
Akihiro soltou um som gutural, um murmúrio de aprovação. Sua postura, antes tensa, suavizou-se levemente.
— Ótimo. Mas há outro ponto… — Ele voltou o olhar para Jun, e havia uma gravidade implícita em suas palavras. — Se você continuar vindo aqui com frequência, Choi vai perceber.
Jun refletiu por um momento, inclinando-se um pouco para frente.
— E o que eu deveria dizer, caso ele pergunte?
— Diga que esta casa pertence a um cliente habitual. Alguém que prefere encontros mais privados — respondeu Akihiro, direto, quase frio. — Isso deve bastar para afastar qualquer desconfiança.
Jun estreitou os olhos, o cenho franzido com uma pontada de inquietação.
— E se ele quiser mais detalhes?
Akihiro deu de ombros, os lábios curvando-se num sorriso que misturava ironia e familiaridade.
— Use sua criatividade. Você sabe como desviar perguntas inconvenientes melhor do que ninguém.
Jun revirou os olhos, mas não conseguiu conter o sorriso que lhe escapava.
— E imagino que nós também não possamos ser vistos juntos em público — comentou, com um suspiro resignado.
— Não é o ideal — confirmou Akihiro. — Tudo isso é para evitar que ele use você contra mim. Mas… também é para sua segurança.
Jun piscou, surpreso com a franqueza repentina. As palavras do outro homem o pegaram de surpresa, não por duvidar da sinceridade de Akihiro, mas porque não esperava que ele as verbalizasse com tamanha clareza. Aquele cuidado disfarçado sob camadas de estratégia e contenção, revelava mais do que Akihiro gostaria de admitir.
O silêncio pairou brevemente, até que Akihiro se jogou ao lado de Jun no sofá e pegou o controle remoto.
— Tem algo que você esteja com vontade de assistir?
Jun inclinou-se ligeiramente, observando o catálogo exibido na tela.
— Tem uma série que me chamou atenção, mas nunca tive tempo para começar.
— Então hoje é o momento certo. Qual o nome?
Jun digitou com rapidez. Era uma produção sombria, ambientada num universo de fantasia cheio de intrigas políticas, magia oculta e traições. Akihiro arqueou uma sobrancelha ao ler a sinopse.
— Parece promissora.
— Espero que seja. Mas, se for ruim, trocamos.
— Feito.
Durante a rolagem preguiçosa pelo catálogo, Jun notou algo curioso.
— Você conhece a maioria dessas séries.
Akihiro esboçou um sorriso.
— Passo mais tempo diante da televisão do que parece.
Jun virou-se para encará-lo, genuinamente surpreso.
— Sério? Você não parece o tipo que passa horas largado assistindo série.
— Às vezes, depois de um dia cheio, tudo o que quero é não pensar em nada. Só me distrair.
— Não consigo imaginar você de moletom, comendo pipoca e vendo TV.
— Quem disse que uso moletom?
— E o que você veste, então?
— Um roupão… ou nada.
Jun corou, desviando o olhar ao imaginar a cena.
O zumbido discreto da televisão preenchia o ambiente, como um pano de fundo confortável. Akihiro repousava de maneira despretensiosa, um dos braços apoiado no encosto do sofá, seus dedos roçando com suavidade o ombro de Jun. O outro, por sua vez, estava recolhido em si, com as pernas dobradas e o corpo ligeiramente encostado no dele. Na mesa de centro, uma tigela com os últimos pedaços de sushi completava o cenário quase doméstico — uma intimidade rara, quase estrangeira à rotina de ambos.
— Tem certeza de que não quer mais nada? — Akihiro perguntou, com um tom sugestivo e um gesto em direção ao sushi.
— Estou bem, obrigado. Já comi o suficiente por hoje.
— “Suficiente” é uma palavra que não combina com você.
Jun riu, sem conseguir disfarçar o calor nas bochechas.
— Não sabia que você prestava atenção nos meus hábitos alimentares.
— Eu observo tudo sobre você.
Jun desviou o olhar, tomado por aquela intensidade desconcertante. Era nesse tipo de momento, quando a máscara fria de Akihiro se desfazia, que Jun se via completamente desarmado.
O programa seguia na tela, mas os olhos de Akihiro vagaram até o rosto de Jun. Sua mão, antes repousada no encosto, desceu com suavidade até os fios dourados do cabelo do rapaz, brincando com eles com uma ternura quase imperceptível.
Capítulo 11
Fonts
Text size
Background
Laços em Carmesim
Akihiro Hanamura sempre acreditou que laços afetivos não passavam de ilusões passageiras – convenções sociais frágeis que encobriam a inevitável falência das relações humanas. Como...