Laços

Laços em Carmesim

Capítulo 13

  1. Home
  2. All Mangas
  3. Laços em Carmesim
  4. Capítulo 13 - Fim das Correntes
Anterior
🟡 Em breve

Jun deixou o banheiro envolto apenas por uma toalha branca que repousava sobre suas ancas, colada suavemente à pele ainda quente pelo banho. Seus cabelos loiros, encharcados, pendiam pesados sobre os ombros e gotejavam em silêncio, formando pequenas trilhas de água pelas costas, que deslizavam como dedos invisíveis até desaparecerem sob a toalha. O vapor ainda pairava no ar do quarto, tornando o ambiente indistinto e brando, como se o tempo houvesse desacelerado ali dentro, abafando qualquer som do mundo exterior.

Com passos leves, quase inaudíveis, Jun atravessou o quarto em direção ao guarda-roupa de portas entreabertas. O interior, antes exclusivamente ocupado pelas roupas de Akihiro, agora exibia uma convivência silenciosa: camisas sociais dividiam espaço com blusas delicadas de algodão fino; jeans escuros misturavam-se a peças de tons claros e tecidos macios; perfumes distintos se misturavam, o amadeirado de Akihiro fundindo-se ao aroma mais cítrico de Jun. Havia roupas íntimas dobradas com cuidado, tecidos familiares que carregavam o cheiro e o toque de quem os vestia. A intimidade entre eles se mostrava ali, não com alarde, mas com a naturalidade de algo que já se tornara hábito. Fora Akihiro quem sugerira, com sua costumeira praticidade, que Jun deixasse algumas roupas no apartamento. Afinal, já tinha uma cópia da chave. Ia e vinha com frequência.

Jun abriu uma gaveta e puxou uma peça de roupa íntima, preparando-se para vestir-se, quando algo no campo de visão o fez hesitar. Sobre a cômoda — ou talvez caída de forma descuidada sobre a beirada da cama — repousava uma camisa branca de gola V, claramente usada. O tecido estava amarrotado, denunciando o uso recente, largada como se tivesse sido retirada às pressas. Era o tipo de negligência cotidiana que Akihiro cometia sem culpa: roupas deixadas onde bem entendesse, sapatos desalinhados, acessórios esquecidos, pequenos rastros que contavam a rotina de um homem pouco preocupado com organização. Jun se acostumara a isso, reconhecia até certo encanto naquela desordem.

Mas havia algo naquela camisa em especial que prendeu seu olhar — e, mais do que isso, seu corpo. Jun a tomou entre os dedos, sentindo sob a polpa a textura macia do algodão gasto. Então o cheiro o atingiu. Não era o aroma de sabonete ou desodorante, mas algo mais profundo, essencial: o cheiro da pele de Akihiro. Um calor residual, íntimo, denso. Era como respirar a presença dele, ainda viva no tecido. E esse detalhe, pequeno mas poderoso, apertou algo em seu peito de maneira súbita e inesperada.

Quase sem se dar conta, levou a camisa até o rosto e inspirou, com um gesto silencioso, quase reverente. Uma ideia lhe ocorreu. Talvez usá-la por alguns minutos, apenas por conforto. Não havia mal nisso. Dividiam o mesmo espaço, a mesma cama, os mesmos dias e noites. Era apenas uma camisa, e ao mesmo tempo, não era.

Hesitou, mas então cedeu — como se resistir fosse mais artificial do que obedecer ao próprio impulso. Soltou a toalha com naturalidade e vestiu a camisa. Como esperado, ela ficou ampla demais. O tecido deslizou até o meio das coxas, balançando a cada pequeno movimento. A gola V, generosa, deixava à mostra a curva da clavícula, parte do peito ainda úmido, onde gotas d’água escorriam lentamente, desenhando mapas efêmeros sobre a pele morena.

As mangas cobriam parte de suas mãos, e o contraste entre o corte largo da camisa e seu corpo mais esguio, de formas suavemente arredondadas, criava uma imagem quase poética, silenciosamente carregada de beleza. Jun olhou o próprio reflexo no espelho com um sorriso contido. Os fios de cabelo ainda úmidos colavam-se à nuca e às têmporas, moldando seu rosto com uma espécie de descuido encantador. Pensou em tirar a camisa. Talvez aquilo não tivesse sido planejado. Mas, ao sentir novamente o cheiro de Akihiro impregnado na gola, vacilou. Não era apenas uma camisa — era uma extensão dele, um vestígio tangível de sua presença. E naquele instante, usá-la parecia essencial.

Sentou-se à beirada da cama, os dedos deslizando distraidamente pela barra do tecido sobre as coxas nuas. Observou-se em silêncio, respirando fundo, como se pudesse, por aquele gesto, aproximá-lo ainda mais — mesmo com Akihiro estando ali, em algum lugar da casa.

O som abafado da porta sendo fechada indicou que ele havia voltado. Passos firmes cruzaram o corredor, aproximando-se. Jun, ainda sentado, ajeitou-se levemente, sentindo a camisa escorregar preguiçosamente sobre sua pele, ajustando-se ao seu corpo como um abraço morno.

Akihiro entrou no quarto empurrando a porta com o ombro, já soltando um suspiro cansado — mas a expressão se perdeu assim que seus olhos pousaram sobre Jun. Ficou imóvel. O tempo pareceu se suspender por um segundo, como se seu corpo não soubesse reagir à visão diante de si: Jun, descalço, cabelos ainda pingando e desalinhados, pernas nuas, e aquela camisa branca, a sua camisa, vestindo-o com um desleixo intencional que lhe tirou o ar.

Jun virou-se devagar, percebendo a presença do outro. O sorriso que surgiu foi natural, quase inocente, mas carregava um quê de provocação silenciosa, como se dissesse que ele sabia exatamente o que fazia. E Akihiro sabia. Sabia que Jun sabia.

— Hm? — Jun inclinou a cabeça, brincando com o tom da voz. — Chegou agora?

Akihiro esfregou a nuca, os olhos ainda fixos na gola da camisa, que cedia perigosamente ao menor movimento.

— Você… tá usando minha camisa — murmurou, num tom que oscilava entre incredulidade e rendição.

Jun fingiu surpresa, baixando o olhar para o próprio corpo, como se só naquele instante tivesse notado.

— Ah, sim. Estava jogada ali. Achei que não se importaria…

Akihiro cruzou os braços, o olhar estreitado, derrotado por sua própria encenação.

— Eu não acredito que isso realmente funcionou…

— O quê?

— Nada. Esquece.

Jun estreitou os olhos, desconfiado. Puxou a barra da camisa instintivamente, tentando cobrir mais das coxas, mas o movimento só fez a gola escorregar ainda mais, revelando o início do peito úmido. O alfa desviou o olhar, como se precisasse de um instante para recuperar a compostura.

— O que funcionou? — insistiu Jun.

— Aquela camisa que eu “deixei jogada por acaso”… — Akihiro fez aspas com os dedos, e o canto dos lábios repuxou num meio sorriso resignado. — Eu dobrei, posicionei… tipo uma “isca de afeto”. Foi minha irmã que comentou sobre isso.

Jun soltou uma risada curta, mas genuinamente divertida.

— Você tá me dizendo que isso foi uma armadilha?

— Não exatamente! — Akihiro levantou as mãos, defensivo. — Foi só… um experimento. Vai que você via, pegava, pensava em mim. Um pensamento meio idiota.

— Hm… — Jun aproximou-se com passos lentos, deixando que a camisa balançasse ao ritmo do próprio corpo, provocante sem esforço. — Então você queria que eu pensasse em você?

Akihiro bufou, desviando o olhar mais uma vez.

— Você já pensa em mim. Mas, confesso… não achei que ia dar certo. Você tá… — engoliu em seco — desarmante, pra dizer o mínimo.

Jun sorriu, divertido, os olhos brilhando.

— Isso quer dizer que posso ficar com a camisa?

— Pode ficar com o que quiser… desde que vista desse jeito — respondeu, mais sério do que pretendia, antes de suspirar e completar: — Só me dá uns segundos pra me recompor. Eu não estava preparado pra isso.

— Para me ver com sua roupa?

— Para te ver praticamente só com minha roupa. E molhado… do banho, claro.

Jun mordeu o lábio inferior, fingindo ponderar, antes de girar lentamente sobre os calcanhares em direção à cômoda.

— Então vou vestir outra coisa.

— Tá, quer dizer… só se você quiser.

Jun riu baixo, abafando o som como quem guarda um segredo só seu.

Enquanto o observava em silêncio, Akihiro manteve-se próximo, sem intervir, os olhos atentos aos pequenos gestos de Jun. Este, por sua vez, trocou a camisa leve por uma mais quente, de tecido espesso e aconchegante, que deslizou suavemente pelos braços enquanto o frio matinal ainda rondava sua pele recém-aquecida pelo banho. O quarto, banhado por uma luz suave que filtrava pelas cortinas, carregava o cheiro tênue do sabonete e o calor úmido que o vapor deixara para trás.

O toque do celular quebrou o silêncio com uma precisão cortante, como a lâmina de uma faca que atravessa o véu fino da calmaria. Jun hesitou por um instante antes de esticar o braço até a cômoda, os dedos tocando a tela que exibia um nome conhecido: Choi. A mudança em sua expressão foi sutil, quase imperceptível — mas não passou despercebida aos olhos de Akihiro. Um leve franzir da testa, o enrijecer contido do ombro que escapava pelo colarinho torto da nova camisa. Pequenos sinais que denunciavam o que as palavras ainda não ousavam dizer.

Akihiro permaneceu onde estava, sentando-se na beirada da cama com os antebraços apoiados sobre os joelhos. Seu olhar repousava no chão, mas a atenção se mantinha fixa na presença ao seu lado — atento não às palavras ditas, mas às que se escondiam nos silêncios entre elas.

A ligação durou pouco. E, quando terminou, Jun permaneceu ali, com o celular ainda nas mãos, encarando a tela escura como se esta pudesse oferecer alguma resposta, algum consolo. O peso daquela chamada parecia maior do que deveria ser.

— Choi quer se encontrar comigo. Hoje à noite. — Anunciou por fim, com uma lentidão que parecia denunciar o cuidado com que escolhia cada sílaba.

Ele não precisou especificar qual lugar era — Akihiro sabia. Desde o princípio, soubera que esse encontro aconteceria. E mesmo assim, quando Jun completou num tom quase infantil, como se tentasse se convencer:

— Isso ia acontecer de qualquer jeito, certo?

A última palavra vacilou, como um fio solto à beira de se romper.

— Eu sabia que isso ia acontecer… Mas ainda assim… estou com medo.

As palavras saíram num sussurro cru, exposto, jogado contra o quarto silencioso como uma confissão sem defesa. Akihiro se aproximou devagar. O silêncio que carregava já não era cautela, mas uma escolha: ele sabia que Jun precisava de presença, não de promessas.

Sem dizer nada, pousou a mão sobre o ombro dele — firme, mas comedida. Um gesto discreto que falava mais do que qualquer frase ensaiada.

Havia algo na expressão do ômega que continuava instável. Os dedos entrelaçados com insistência, denunciando o tremor que o restante do corpo tentava esconder.

— Como estão seus irmãos? — perguntou Akihiro, desviando o rumo da conversa com naturalidade calculada, como quem lança uma âncora para conter a deriva.

Jun piscou, surpreendido pela mudança, mas não recuou. Seus olhos suavizaram-se ao trazer à tona as memórias recentes.

— Estão bem. Yuu pediu pra dormir comigo, e Jin fez chá de erva-doce. Mamãe ficou feliz em me ver… até disse que meu rosto parece menos cansado. — Sorriu, pequeno, com uma ternura que parecia guardada para aqueles momentos frágeis. — Foi bom estar com eles.

— E você comeu alguma coisa?

— Tomei café antes de sair da casa deles, sim.

— Ótimo. Assim não tem desculpa pra desmaiar aqui.

Akihiro lançou um olhar de canto, o tom levemente sarcástico, mas envolto por uma ternura camuflada. Jun soltou uma risada abafada e empurrou-o de leve pelo ombro.

— Você é péssimo em acalmar alguém, sabia?

— Eu sou péssimo em fingir que nada disso me incomoda. — Rebateu o alfa, direto, sem rodeios. Sustentou o olhar de Jun por um breve momento, antes de desviá-lo outra vez.

O silêncio retornou, espesso e cheio de significados não ditos. Parecia que qualquer palavra a mais poderia romper algo delicado demais.

— Não vá ao restaurante hoje. — Disse Akihiro, a voz baixa, mas firme. — Fique aqui. Só por hoje. Se isso te mantiver seguro…

Jun o observou em silêncio, avaliando não apenas as palavras, mas o que se escondia por trás delas. Aquilo não era um pedido. Era um abrigo oferecido sem alarde — um gesto de cuidado envolto na liberdade que ele sempre se esforçava por preservar.

— Tudo bem — murmurou enfim —, mas só porque a cama daqui esquenta mais.

Akihiro sorriu com um canto dos lábios, empurrando o cabelo para trás com um gesto distraído, disfarçando o alívio sob um suspiro arrastado.

— Só não mexe nas minhas camisetas de novo. Isso deu certo até demais.

— Eu não mexi — retrucou Jun, o sorriso brincando nos lábios. — Você deixou ali de propósito. Uma armadilha, lembra?

E, por um breve instante, a proximidade do fim do dia deixou de parecer uma ameaça. A presença silenciosa entre eles preenchia o espaço com algo que nenhuma ligação ou medo poderia apagar.

—–

O local escolhido para o encontro era um antigo salão de reuniões, afastado do centro da cidade, oculto entre muros altos e árvores de copas espessas que abafavam o ruído do mundo exterior. A estrutura, feita de concreto escuro e madeira envernizada, exalava uma sobriedade que beirava o indiferente — como se tivesse sido erguida não para acolher, mas para testemunhar acordos firmados entre homens que evitam os olhos uns dos outros, preferindo o peso das palavras cuidadosamente escolhidas. O ar ali dentro era denso, saturado de silêncio e expectativa, como se até o tempo hesitasse em avançar.

Do lado de fora, os homens de Choi ocupavam posições estratégicas, embora mantivessem uma postura contida. A presença dos subordinados dos Hanamura, imóveis e alinhados como estátuas, os deixava visivelmente desconfortáveis. Havia algo na compostura dos homens de Akihiro que ultrapassava a mera formalidade — um aviso velado de que nenhuma hostilidade seria tolerada.

Jun caminhava ao lado de Akihiro, o olhar voltado para o chão, mas a respiração contida denunciava a tensão que lhe percorria o corpo. Seu braço roçava o do alfa a cada passo, um gesto sutil, quase inconsciente, como quem busca equilíbrio num terreno instável. Sabia que não havia mais espaço para hesitações — não agora que havia uma nova vida crescendo dentro de si, silenciosa e frágil, mas já exigente em sua existência.

Quando adentraram o salão, encontraram Choi já à espera, posicionado entre colunas robustas sob a luz rarefeita que escorria pelas venezianas verticais. Vestia-se com a elegância de quem pretende parecer imperturbável, mas o franzir contido entre as sobrancelhas traiu a surpresa que não conseguiu ocultar ao ver Akihiro ao lado de Jun. Seus olhos se estreitaram, e por um instante ele pareceu procurar, em vão, recuperar a compostura.

— Imaginei que viria sozinho — disse, a voz mergulhada numa falsa cordialidade que mal escondia o incômodo. Seus olhos, no entanto, estavam fixos em Jun, perscrutando-o como se tentasse atravessar a carapaça da sua vontade.

Akihiro não sorriu, tampouco alterou o tom. A neutralidade em sua postura era tão firme que chegava a intimidar. Falava com a precisão de quem não precisava levantar a voz para ser ouvido.

— Mudança de planos. Achei que seria útil que ele estivesse presente… só por alguns minutos.

Choi respondeu com um sorriso tenso, um traço de ironia pendendo em seus lábios.

— Ainda o deixa falar por você, Jun?

O olhar que Akihiro lançou foi seco, cortante, como o estalo de um galho seco ao vento. Não disse nada de imediato — não precisava. Sua mão pousou brevemente nas costas de Jun, um gesto contido, mas repleto de significado. Era uma ordem silenciosa, sem imposição. E Jun entendeu. Quando ergueu os olhos, encontrou apenas firmeza no rosto do alfa. Não havia covardia ali — apenas estratégia. Saber quando não lutar também era uma forma de poder.

— Vá para o carro. Eu resolvo isso. — A voz de Akihiro soou baixa, mas inegociável, como rocha repousando sobre correnteza.

Ele virou-se ligeiramente para um de seus homens, que aguardava junto à porta, e sinalizou com um leve movimento de queixo. O homem avançou com discrição.

Choi se apressou em intervir.

— Não há necessidade. Ele já está envolvido, não está?

— Isso não envolve ele. Não mais. — Akihiro o interrompeu antes que concluísse, com um tom que, embora ainda sereno, carregava o peso de uma sentença. — O único motivo de ele ter vindo foi para evitar que sangue fosse derramado na entrada.

Jun não respondeu. Apenas obedeceu. Ao atravessar a porta, sentiu o olhar de Choi em sua nuca — um incômodo persistente, como a lâmina cega de uma faca enferrujada. Mas já não doía. Estava protegido. Não apenas por Akihiro, mas por algo maior e mais definitivo que crescia silenciosamente dentro de si.

Com sua saída, o salão mergulhou num silêncio denso, como se o ar houvesse se tornado mais espesso. E então, uma nova presença se fez notar. Tatsuo Hanamura.

O impacto foi imediato. Choi não disfarçou o espanto. O pai de Akihiro entrou com a tranquilidade própria de quem não precisa apressar-se para ser temido. Seus olhos, frios e calculistas, examinaram Choi com a mesma expressão com que se avalia um inseto incômodo. Havia algo irrevogável em sua presença, como se aquele encontro não fosse mais uma reunião… mas um julgamento.

— Eu não esperava que fosse necessário, mas aqui estou. — A voz de Tatsuo era grave, deliberada, vibrando com autoridade. — Vamos esclarecer algumas coisas, senhor Choi.

Akihiro cruzou os braços, voltando-se a Choi com firmeza contida.

— Você nunca mais terá acesso a Jun. Nem à família dele. E muito menos a qualquer informação que envolva os Hanamura. Esse ciclo terminou.

Choi ergueu uma sobrancelha, num gesto que pretendia desdém, mas o leve tremor no canto de sua boca denunciava inquietação.

— A essa altura… imagino que você já saiba de tudo. — disse, tentando recuperar o controle — Mas por que eu aceitaria isso? O que me impediria de…

— Você não está entendendo. — Akihiro avançou um passo. Seu olhar era um abismo, e por um instante, Choi recuou — não fisicamente, mas em intenção. — Eu não estou pedindo. Eu poderia acabar com você agora, e sua facção se desaparecia com você. Jun estaria livre de qualquer maneira. Mas eu sei que homens como você não se importam com nada além da própria sobrevivência. E fariam qualquer coisa para continuar respirando.

O silêncio que se seguiu foi tão espesso quanto as paredes que os cercavam. Os homens dos Hanamura não precisavam de ordens. Eles já sabiam. Cada um ali compreendia que aquela era uma linha que, se cruzada, não permitiria retorno.

— Iniciar uma guerra que não pode vencer seria um erro. — Completou Tatsuo, com a frieza que apenas um Hanamura saberia sustentar.

Choi sustentou o olhar, tentando desesperadamente manter a dignidade. Os lábios entreabriram-se, talvez para protestar, mas Tatsuo prosseguiu, imperturbável.

— Mas não estamos aqui para guerra. Ainda há margem para negociação… se for inteligente o suficiente para reconhecê-la.

Diante daquelas palavras, algo mudou. O rosto de Choi se contraiu. Pela primeira vez, ele parecia realmente perceber onde estava — não em terreno neutro, mas dentro de uma teia de poder que o engolira antes mesmo de notar.

Akihiro permaneceu calado. Seus olhos cravados em Choi não expressavam ódio ou vingança — apenas o fim de uma longa espera. O fim de uma ameaça que, agora, revelava-se menor do que a sombra que projetava.

Tatsuo se aproximou do centro da sala, como um general diante de um mapa já conquistado.

— Negociaremos os termos. Mas há algo que precisa ficar muito claro: qualquer desvio… e nem o nome da sua linhagem restará para contar a história.

E, naquele instante, mesmo que nada mais fosse dito, tornou-se evidente que o mundo de Choi já havia se esvaziado — e ele, ali, era apenas um homem diante de seu próprio fim.

—–

O céu, aberto e amplo acima de suas cabeças, parecia demasiado indiferente ao que acabara de ocorrer. O concreto sob os pés de Akihiro, porém, tinha uma firmeza quase simbólica — como se o mundo, por um instante, tivesse deixado de vacilar. A cada passo em direção ao carro onde Jun o aguardava, um senso de solenidade discreta o acompanhava, como se atravessasse uma fronteira invisível. A ansiedade não se pronunciava em gestos, mas vibrava sob a pele como eletricidade latente.

Jun estava no banco do passageiro. As mãos repousavam sobre o colo, unidas, mas inquietas. Os olhos, fixos em algum ponto indefinido além da janela, pareciam presos em algo que ia muito além da paisagem. Dentro do carro, o silêncio era denso — não incômodo, mas expectante, como se o próprio tempo contivesse o fôlego à espera de um veredito.

A rigidez em seus ombros denunciava mais do que postura: era defesa. Mas quando a porta se abriu, e Akihiro acomodou-se ao seu lado enquanto Tatsuo fechava a outra com cuidado, Jun virou o rosto, um pequeno sobressalto suavizando sua expressão por um instante. Akihiro soltou um suspiro — longo, exausto, não de alívio, mas de algo próximo disso, como se seu corpo começasse a ceder à realidade de que, enfim, havia um depois.

— E então…? — murmurou Jun, a pergunta incompleta, suspensa no ar, como se temesse moldar em palavras algo ainda frágil demais para o concreto.

Os olhos dele estavam úmidos. Não por lágrimas — ainda —, mas pelo peso do que carregavam.

— Está feito. Você está livre dele, Jun. De verdade.

O impacto daquelas palavras se manifestou de forma silenciosa. Jun apenas piscou, a respiração retida por um momento que pareceu maior do que deveria. O olhar buscou refúgio no chão do carro antes de se erguer novamente.

— O que aconteceu lá? — sua voz era baixa, como se temesse que a resposta trouxesse consigo um novo peso. — Ele…?

— Choi se entregou — respondeu Akihiro, sem desviar o olhar. — Ele aceitou um acordo. Teremos tudo o que precisamos para mantê-lo distante. No fim, ele é só um covarde tentando sobreviver ao próprio orgulho.

Jun inclinou levemente a cabeça, os olhos caindo sobre as próprias mãos. Seus dedos se moveram de novo, inquietos, como se buscassem sentido no atrito silencioso entre a pele.

— Então quer dizer… que eu só fui fraco demais pra enfrentá-lo esse tempo todo?

Akihiro sequer teve tempo de abrir a boca. Foi Tatsuo quem falou, a voz vinda do banco traseiro como algo que já estava pronto para ser dito — não com dureza, mas com precisão.

— Não. Você sobreviveu.

Jun ergueu os olhos, surpreso. O olhar do homem mais velho era sereno, mas sem suavidade desnecessária — apenas verdade, crua e clara.

— Sobreviver quando alguém como ele controla sua vida não é fraqueza. Não se trata de ser forte o suficiente para enfrentá-lo, mas de ter resistido sem se deixar destruir.

Por um instante, a expressão de Jun vacilou. Algo em seus traços se partiu, não em dor, mas em alívio contido. Como se uma parte sua, que há muito tempo lutava em silêncio, enfim tivesse sido reconhecida.

Akihiro observava em silêncio. Sabia como Jun absorvia palavras — não como afirmações passageiras, mas como selos que guardava com o cuidado de quem lê cartas escondidas em noites longas demais.

— Obrigado por ter feito isso por mim… — disse ele, num tom que parecia frágil apenas à primeira escuta, pois havia ali mais do que gratidão: havia reparação.

Tatsuo apenas assentiu. O rosto marcado pelo tempo não carregava orgulho, nem glória. Apenas a consciência de quem chegou tarde — mas chegou.

— Onde você quer ir agora? — perguntou Akihiro, a voz já voltada para o presente.

Jun respirou fundo. Recostou-se lentamente, como se enfim pudesse fazê-lo sem medo. O olhar buscou o horizonte além do vidro, entre os contornos da cidade, procurando por algo que talvez ainda não soubesse nomear.

— Quero ver minha família. Quero… contar tudo. A verdade inteira. — A voz falhou de leve. Então seus olhos encontraram os de Akihiro. — E quero que você esteja comigo quando eu fizer isso.

O pedido não soou como súplica, mas como confiança — um gesto estendido no escuro.

Akihiro não precisou pensar. Apenas assentiu, com a firmeza de quem compreende não só o que está sendo pedido, mas tudo o que aquilo representa.

— Estarei.

Os olhos de Jun permaneceram nos dele. E naquele silêncio breve, entre respirações que já não precisavam se esconder, havia algo mais sólido que qualquer promessa dita em voz alta. Um elo. Não firmado em juras, mas em sobrevivência. Reconstrução. Confiança.

—–

O trajeto até a casa de Jun transcorreu envolto por um silêncio que não exigia explicações. Não havia desconforto entre os três — pelo contrário, uma leveza quase imperceptível preenchia o carro, como se os elos que antes os mantinham presos a algo opressivo tivessem, enfim, se desfeito.

Jun observava a cidade desfilar pelas janelas como um borrão de luzes e estruturas indistintas. A cabeça repousava suavemente sobre o ombro de Akihiro, e, em alguns momentos, seus olhos se fechavam brevemente — não para dormir, mas para respirar. A paz que se insinuava era tênue, ainda frágil, mas real. E, apesar da quietude do corpo, a mente não cessava: pensamentos e imagens se atropelavam, todos convergindo em um único anseio. Queria chegar logo. Havia urgência em revelar a verdade à mãe, aos irmãos — e no desejo íntimo de ver, nos rostos deles, o mesmo alívio que agora pulsava incontrolável dentro de si.

Akihiro permanecia no banco do meio, entre Jun e Tatsuo. Não era ele quem dirigia — essa tarefa cabia a um dos homens de confiança dos Hanamura, em quem Tatsuo delegara a condução com naturalidade. Ainda assim, Akihiro mantinha os olhos atentos, desviando-os para Jun em intervalos discretos. Não havia aleatoriedade nesse gesto: procurava, talvez inconscientemente, por fissuras na calma aparente. Alguma hesitação, alguma sombra. Mas tudo o que via era a serenidade contida de Jun, sustentada por uma chama que começava a arder por dentro — uma centelha de euforia só agora despontando, lenta e firme, como algo que se permite existir.

Quando o carro enfim estacionou diante da casa, Jun e Akihiro se despediram de Tatsuo ali mesmo, com um olhar breve e denso, mais eficaz que qualquer frase. Era o tipo de despedida que não precisava de palavras: o que havia sido dito — ou suportado — entre eles já estava resolvido.

Ao atravessar a porta, Jun foi imediatamente envolvido por um aroma quente e reconfortante. Era o cheiro de arroz fresco, de missô no fogo baixo, de madeira antiga absorvendo o tempo. Era lar — intacto apesar de tudo.

E então, sem hesitação, os braços da mãe o cercaram.

Akihiro parou à soleira, os olhos fixos naquela cena. Observava com discrição — não como um estranho, mas como alguém que reconhecia ali um gesto ao qual não estava habituado. A maneira como Jun se encaixava no abraço da mãe, como os irmãos se aproximavam num misto de hesitação e afeto silencioso, trazia algo cru e genuíno. Era um afeto sem defesas, oferecido sem barganha, algo raro demais para ser ignorado.

Jun começou a falar, as palavras tropeçando umas nas outras no início, como se ainda procurasse sentido para tudo o que queria dizer. Mas aos poucos, a narrativa tomava forma. Contou o que havia acontecido. E quando enfim afirmou que Choi não voltaria a cruzar seus caminhos, a mãe silenciou.

Ficou ali, imóvel, como se a compreensão ainda não coubesse no momento.

Seus olhos, úmidos, pareciam resistir ao piscar, temendo dissipar a realidade com um único movimento. Em seguida, ela se voltou para Akihiro. Aproximou-se com passos lentos, solenes em sua simplicidade, e segurou as mãos dele entre as suas.

Não disse nada de imediato — o gesto falou por ela.

Mas, quando enfim encontrou palavras, vieram trêmulas, entrecortadas pela gratidão que parecia antiga demais para ser contida.

Akihiro respondeu com a sobriedade que lhe era habitual, embora os olhos deixassem escapar o respeito que sentia.

— Ainda há pendências a serem resolvidas — disse, a voz baixa, sem pressa —, mas farei o possível para que tudo se encerre logo.

Jun o observava de soslaio, sem surpresa. Já intuía que o fim real ainda exigiria mais do que aquela noite. Mas sabia, com a clareza de quem já não teme, que estava livre. A sombra de Choi já não o tocava.

O sorriso da mãe foi um reflexo dessa nova realidade — doce, silencioso, como um sopro morno atravessando os cômodos da casa. E então ela insistiu para que Akihiro ficasse para o jantar.

Foi um convite simples, mas impregnado de significado.

Akihiro raramente se curvava a insistências — não por orgulho, mas por costume. E, no entanto, ali, naquele lugar que não era seu, cercado por vozes que ainda aprendia a reconhecer, não encontrou razão para recusar. Talvez fosse o calor invisível que pairava entre aquelas paredes, ou o pressentimento — difuso, mas crescente — de que algo nele já começava a pertencer.

E por isso, ele ficou.

A mesa era modesta, porém plena. Havia fartura no sabor, no cheiro, e sobretudo na presença dos que partilhavam o espaço. Os irmãos de Jun lançavam olhares discretos a Akihiro, mesclando respeito e curiosidade; a mãe o tratava com uma naturalidade que dispensava explicações, como se aquele lugar já o aguardasse antes mesmo de sua chegada.

Akihiro não era homem de se render a sentimentalismos. Mas naquela noite, enquanto partilhava do mesmo arroz, da mesma tigela de sopa, da mesma luz pendendo suavemente do teto, percebeu algo que não podia mais negar:

Não era apenas um jantar. Era o princípio de algo.

A noite deslizava com lentidão sobre os móveis, os pratos vazios ainda sobre a mesa, o cheiro de missô pairando no ar, agora misturado ao leve aroma de chá recém-preparado. As vozes diminuíram aos poucos, dando lugar a um silêncio confortável — aquele que só as famílias íntimas, de fato unidas, sabiam habitar.

Akihiro ergueu-se com a mesma lentidão com que as noites se instalam sobre as casas antigas — respeitando o ritmo brando daquele lar que, por breves horas, o acolhera. Curvou-se em uma reverência contida diante da mãe de Jun, sem exagero, mas com a solenidade que seus gestos sempre carregavam, mesmo os mais simples.

— Agradeço pela refeição. Estava excelente — disse, com sinceridade genuína, o tom baixo e firme. — Mas eu preciso ir.

A mãe de Jun apenas assentiu, o olhar escurecido por uma tristeza discreta, daquelas que não se expressam com palavras, mas com a pausa sutil entre um gesto e outro. Havia algo em Akihiro — ainda que reservado, ainda que pouco dado a afagos — que inspirava uma confiança difícil de recusar.

Jun se levantou pouco depois. Acompanhou-o até a entrada, e os dois caminharam lado a lado, os passos cadenciados por um silêncio que não era desconfortável, mas denso demais para ser rompido com pressa.

No genkan, sob a luz amarelada da varanda que desenhava sombras suaves sobre a madeira antiga, Jun o encarou por um instante. Os olhos, escurecidos pela penumbra da noite, refletiam algo mais profundo do que palavras: uma vulnerabilidade que não era fragilidade, mas uma forma rara de transparência — daquelas que só se revelam quando se confia.

Ele não iria com Akihiro. Não porque não quisesse, mas porque ali, naquela casa onde os ecos de medo começavam a se dissipar, sua presença ainda era necessária. Havia vínculos a serem reparados, raízes a serem fortalecidas.

Akihiro não precisou ouvir para compreender. Inclinou levemente a cabeça, aceitando a decisão silenciosa. Seu olhar percorreu o rosto de Jun com atenção serena, como quem grava uma imagem — não por medo da ausência, mas por respeito ao instante.

— Vou esperar sua mensagem… ou sua visita. Quando quiser — murmurou, a voz grave e macia. — E quando estiver pronto… para sentir, por inteiro, o alívio de ser livre.

Jun sorriu. E não havia ironia, nem defesa no gesto — apenas uma suavidade que emergia de um lugar profundo, conquistado a duras penas.

O momento foi interrompido por passos apressados no corredor. Em seguida, um par de bracinhos finos agarrou-se à perna de Akihiro com uma força desproporcional ao tamanho do corpo. Era Yuu, o mais novo, os olhos grandes ainda úmidos pelas lembranças do choro, fitando-o com a intensidade de quem deposita o mundo em um único pedido.

— Não vai embora, niisan… Dorme aqui. Pode dormir no meu quarto. Eu deixo.

Jun pareceu hesitar por um breve instante, surpreso. Inclinou-se, buscando encontrar os olhos do irmão.

— Yuu… ele precisa ir. Tem coisas a resolver. — A voz de Jun era branda, mas havia nela uma incerteza que o impedia de ser convincente.

O garoto apenas balançou a cabeça, firme. O olhar permanecia preso em Akihiro, como se aquele instante definisse algo irreversível.

Akihiro abaixou-se até alcançar a altura do menino. Passou a mão pelos fios escuros, desalinhados, com um gesto que carregava mais ternura do que ele próprio parecia disposto a admitir.

— Posso ficar… se isso não for um problema — disse, erguendo os olhos em direção a Jun.

O ômega franziu levemente o cenho, os lábios entreabertos por uma dúvida que se dissolvia tão rápido quanto surgia.

— Tem certeza?

Akihiro se ergueu devagar, arqueando uma sobrancelha, um meio sorriso brincando nos cantos da boca — um gesto raro, carregado de ironia leve, mas sem desdém.

— Está tentando me expulsar?

Jun soltou um riso contido, baixo, como se tentasse esconder o calor que subia pelas faces.

— Não… na verdade, estou apenas feliz por ele ter dito o que eu não consegui.

O silêncio que veio a seguir foi breve, mas denso. Ao fundo, ouviu-se o som dos talheres sendo recolhidos, como se a casa, consciente de sua própria intimidade, respirasse ao ritmo da cena. E então, a voz da mãe de Jun surgiu, distante, como quem fala sem querer interferir no instante.

— Se ele quiser ficar, tudo bem querido.

As palavras pairaram no ar por um segundo mais longo do que o habitual, exigindo tempo para serem absorvidas. Akihiro inclinou levemente a cabeça em resposta — discreto, mas plenamente presente. Por dentro, algo nele cedeu. Não era o tipo de aceitação que se negocia. Era total, incondicional. E ele soube, com uma clareza incômoda, que nem mesmo o nome Hanamura era capaz de comprar algo assim.

— Nesse caso… acho que não tenho escolha — murmurou, o tom quase íntimo, como se falasse apenas consigo mesmo.

Jun apenas assentiu, os olhos marejados por uma emoção que se recusava a se nomear. Ao seu lado, Yuu não continha a alegria. Segurava a mão de Akihiro com força, como se quisesse garantir que nenhum segundo de hesitação pudesse desfazê-lo.

E ali, naquela noite onde o silêncio era cheio de significados, no coração de uma casa que aprendera a resistir com silêncio e dignidade, Akihiro Hanamura permaneceu.

Não por estratégia. Não por obrigação.
Mas porque, pela primeira vez, alguém lhe pedira — e ele quis ficar.

—–

O quarto de Jun era pequeno, estreito como o silêncio que o habitava. Cada móvel ocupava o mínimo necessário, disposto com parcimônia, como se respeitasse os limites impostos por um espaço que nunca fora projetado para acolher mais do que o essencial. Sobre a cama de solteiro, a colcha cuidadosamente dobrada exalava um perfume antigo de lavanda, discreto, quase esquecido, como uma lembrança que insiste em permanecer. A estante baixa, abarrotada de livros empilhados de forma desigual, dividia espaço com objetos miúdos — pedaços de rotina que diziam mais do que a casa jamais diria em voz alta.

Quando entraram, Yuu veio logo atrás. Seus passos, decididos e firmes, contrastavam com o silêncio respeitoso dos adultos. Sem pedir permissão, sem hesitação, foi direto ao guarda-roupas. Abriu gavetas com familiaridade, retirou um edredom mais espesso, um travesseiro fino, e começou a preparar o futon em um canto do quarto, com a segurança de quem já repetira aquele ritual vezes demais para precisar de orientação.

Jun adiantou-se, levemente constrangido, como se pedisse desculpas por uma intimidade que expunha mais do que queria revelar.

— Ele costuma dormir aqui quando estou fora… ou quando preciso dividir o quarto com Jin… — disse, a voz baixa, arrastada, quase um pedido de desculpas.

Akihiro observava a cena com a serenidade de quem compreendia o valor dos gestos não ditos. Apenas balançou a cabeça, uma recusa suave ao pedido de desculpas, e respondeu com simplicidade:

— Está tudo bem, Jun.

Sem que lhe fosse solicitado, Jun se abaixou para ajudar o irmão. Estendeu o edredom com cuidado, ajeitou o travesseiro, verificou com as mãos se Yuu tinha algo suficientemente quente para vestir durante a noite. Cada gesto era meticuloso, impregnado de uma delicadeza antiga — não a de quem faz por obrigação, mas a de quem aprendeu a cuidar mesmo quando não havia ninguém para retribuir.

Yuu, por sua vez, não disse palavra. Deitou-se com naturalidade, cobrindo-se até o nariz, os cabelos escuros espalhados pelo travesseiro como um véu fino. Virou-se para a parede sem protestos, como se aquele silêncio entre os três fosse mais reconfortante do que qualquer palavra.

Jun sentou-se ao lado dele por um instante. Encolheu os joelhos contra o peito, abraçando as pernas, os olhos fixos em algum ponto indefinido da parede — entre a vigília e o cansaço, entre o presente e o que ainda doía. A luz do abajur lançava sobre ele um brilho alaranjado, quente, traçando sombras suaves sobre as paredes pálidas do quarto.

— A cama é pequena… — murmurou, sem desviar o olhar, como quem hesita em se permitir. — Mas cabemos os dois.

Akihiro, que já se acomodava no colchão, virou-se de lado. Estendeu o braço devagar, um convite sem urgência, mas inequívoco.

— Não vai vir dormir comigo, amor?

O riso de Jun escapou quase involuntariamente — abafado pela mão que levou aos lábios, como se tentasse conter a ternura de um momento íntimo demais para ser nomeado. Inclinou-se sobre Yuu e murmurou-lhe um “boa noite” quase inaudível, afetuoso, como quem se despede de algo precioso.

Levantou-se com cuidado, os pés descalços encontrando o chão frio. Cruzou o quarto em passos leves, hesitantes, e se esgueirou até a cama estreita. Ao deitar-se, Akihiro o envolveu sem palavras — o braço forte pousando sobre sua cintura com a precisão de quem já conhecia o lugar exato onde deveria estar.

O calor do corpo de Akihiro contrastava com o ar ainda impregnado pelo frio da noite. Jun se encostou a ele, buscando aquele abrigo silencioso como quem encontra, finalmente, o próprio ritmo. O coração, antes em sobressalto, desacelerou devagar. Nenhuma palavra foi dita depois disso. Nenhuma era necessária.

O silêncio entre os dois não era ausência — era matéria. Espesso, vivo, pulsando como o som abafado de um coração sob camadas de cobertores. Jun fechou os olhos, sentindo a respiração de Akihiro contra sua nuca, e adormeceu com lentidão. Não era apenas o corpo do outro que o aquecia, mas a certeza — tênue, quase imperceptível, e ainda assim presente — de que, por aquela noite, ele não estava sozinho.

Capítulo 13
Fonts
Text size
AA
Background

Laços em Carmesim

2K Views 0 Subscribers

Akihiro Hanamura sempre acreditou que laços afetivos não passavam de ilusões passageiras – convenções sociais frágeis que encobriam a inevitável falência das relações humanas. Como...

Chapters

  • Capítulo 16 FINAL O eterno no cotidiano
  • Capítulo 15 A Vulnerabilidade de um Alfa
  • Capítulo 14 Segredos de Sangue
  • Capítulo 13 Fim das Correntes
  • Capítulo 12 Um lar e o cheiro de comida
  • Capítulo 11 Rastros de Medo
  • Capítulo 10 Mesa para Dois na Sala Reservada
  • Capítulo 9 Rachaduras na muralha
  • Capítulo 8 A Voz de Jun
  • Capítulo 7 O coração exausto de Jun
  • Capítulo 6 O Gosto da Ternura
  • Capítulo 5 Junhos Possíveis
  • Capítulo 4 Proposta Intrigante e Tentadora
  • Capítulo 3 Sedução no Palco, Verdades no Encontro
  • Capítulo 2 - A primeira intersecção
  • Capítulo 1 - Uma Noite ao Acaso

Login

Perdeu sua senha?

← Voltar BL Novels

Assinar

Registre-Se Para Este Site.

Leave the field below empty!

De registo em | Perdeu sua senha?

← Voltar BL Novels

Perdeu sua senha?

Por favor, digite seu nome de usuário ou endereço de e-mail. Você receberá um link para criar uma nova senha via e-mail.

← VoltarBL Novels