Laços

Laços em Carmesim

Capítulo 14

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🟡 Em breve

O tempo parecia escorrer com uma lentidão deliberada, como se o mundo, por fim, tivesse cessado a pressão constante de urgência e concedesse a Jun um raro instante de fôlego. A tempestade havia passado — ou, ao menos, recuado o suficiente para que ele pudesse vislumbrar o céu. Ainda havia no ar o cheiro úmido da chuva, não mais como prenúncio, mas como memória. Persistente, mas inofensiva.

Akihiro não fez discursos. Não prometeu o impossível. E talvez tenha sido justamente essa ausência de grandiloquência que mais o confortou. Ele falou com simplicidade, como quem vê uma estrada onde outros só enxergam muros. “Não é complicado”, dissera, a voz tranquila, os olhos firmes. Mencionou documentos, endereços, estratégias de realocação. Planos, enfim. Não de fuga, mas de reconstrução.

Jun sabia — e Akihiro também — que não seria fácil. O caminho estava longe de ser reto. Mas havia naquela voz uma firmeza serena, como uma mão pousada com exatidão sobre sua cintura, oferecendo equilíbrio onde antes só havia desamparo. Não era apenas consolo: era estrutura.

A ideia de levar sua família para outro lugar existia havia muito tempo, embora nunca tivesse sido dita em voz alta. Um desejo contido, soterrado sob camadas de medo e resignação. Mas agora, ela ganhava forma — concreta, palpável. Por proteção, por respiro, por recomeço. Para que a vida pudesse ser mais do que resistência.

Akihiro falara em segurança com a naturalidade de quem não oferece promessas abstratas. Havia ali algo já em movimento, silencioso e eficaz, como uma rede invisível lançada antes mesmo que o perigo se aproximasse. Jun soube, então, que não estavam apenas reagindo: estavam se antecipando.

Quando contou à mãe, ela ouviu tudo com olhos cansados — mas atentos. Não fez muitas perguntas. Tampouco exigiu detalhes. Talvez já estivesse exausta de sobreviver em ruínas. O alívio, embora contido, era visível. Iriam. Para onde o céu não parecesse um presente esporádico. Para onde os filhos pudessem crescer longe dos resquícios de uma sombra que, por tempo demais, ocupara cada parede da casa.

Na manhã seguinte, Jun foi ao hospital. Levava consigo mais do que palavras: levava a possibilidade de liberdade. Os corredores, antes opressivos, pareciam menos hostis. O branco das paredes não sufocava tanto. E, ao ver o irmão desperto, embora ainda frágil, algo em seu peito se contraiu — não de medo, mas de ternura.

Sentou-se ao lado dele e disse o que era preciso. Contou sobre Choi, sobre Akihiro, sobre a mudança. Sem rodeios, sem dramatizações. Disse tudo como se as palavras fossem ferramentas — não para ferir, mas para abrir passagem.

O irmão o escutou em silêncio. Os olhos, fixos nos de Jun, pareciam buscar não apenas verdades, mas a confiança por trás delas. E, quando ele enfim assentiu com um leve movimento de cabeça, Jun soube que estava tudo bem. O silêncio que se seguiu não era pesado — era pleno. Um silêncio de compreensão mútua, de aceitação. Pela primeira vez em muito tempo, Jun saiu do hospital com o coração menos carregado do que ao entrar.

Os dias seguintes não foram perfeitos. Ainda havia ruídos, incertezas, lembranças que vinham sem aviso. Mas, apesar de tudo, havia uma doçura inesperada em cada gesto cotidiano. A família, mesmo fragmentada, se mantinha unida por um fio mais forte do que a dor.

Haru, curioso, fazia perguntas sobre o novo lar — o tom da voz oscilando entre expectativa e ansiedade. A mãe começara a empacotar as coisas com método quase cerimonioso, como se organizasse não apenas objetos, mas fragmentos de vida. O outro irmão, mais calado, observava tudo com olhos atentos, e embora pouco dissesse, o peso escuro de seu olhar parecia, aos poucos, se dissipar.

Jun acompanhava tudo com um misto de estranhamento e reverência. Muitas vezes não sabia onde colocar as mãos — como se o ato de não precisar conter tudo por si só fosse uma aprendizagem nova. A casa ainda se mantinha de pé, mas já não lhe pertencia. Havia algo se desprendendo — das paredes, dos móveis, dos cantos impregnados por memórias de Choi. E, estranhamente, esse desapego não doía. Ao contrário: trazia paz.

Não era mais um ciclo. Era um fim. Um ponto de encerramento. Com suas marcas, sim, mas também com seus méritos. A dor já não ditava o ritmo das horas. Já não era inevitável.

E entre caixas fechadas, roupas dobradas, despedidas silenciosas, Jun compreendeu algo que antes sempre lhe escapava: ele não precisava sustentar tudo sozinho. Não mais.

Havia braços que o seguravam agora — firmes, discretos, constantes. Akihiro não era alguém que falava sobre permanência. Mas ele permanecia. E era essa presença, sólida e silenciosa, que oferecia a Jun aquilo que ele jamais ousara desejar: estabilidade.

A vida, enfim, mudava. E talvez — pela primeira vez — mudasse para melhor.

 

—–

 

A televisão permanecia ligada, preenchendo o ambiente com sons indistintos — vozes que se misturavam a risos enlatados e a uma trilha sonora irrelevante, típica de um programa noturno qualquer. As imagens, em constante mutação, projetavam sombras tênues sobre os móveis da sala, como se desenhassem, sem intenção, uma coreografia silenciosa. Akihiro, porém, não lhes prestava atenção.

Estava recostado no sofá, uma perna cruzada sobre a outra, o celular equilibrado sobre o joelho, onde trocava mensagens com a irmã. A conversa, despretensiosa e quase entediante, vagava sem rumo — notas sobre o dia, uma piada qualquer, alguma lembrança partilhada por hábito. Seus olhos percorriam as palavras, mas sua mente já se afastava, absorta em pensamentos dispersos que o arrastavam para longe do presente.

Até que a notificação surgiu. Diferente. Inesperada.

Jun: “Você está em casa?”

Uma pergunta simples. E, no entanto, bastou para que toda sua atenção se deslocasse de imediato — como se aquela mensagem tivesse acendido uma lâmpada num cômodo escuro há muito ignorado.

Akihiro: “Estou.”

Jun: “Posso ir aí e passar a noite?”

Houve um instante de pausa, mínimo. Não por hesitação, mas pela surpresa de ser procurado àquela hora. Não esperava que Jun quisesse vir tão tarde da noite, especialmente agora, quando os últimos acontecimentos ainda ecoavam como murmúrios recentes.

Akihiro: “Claro.”

Foi tudo. Nenhuma exigência de explicação, nenhum pedido de contexto. As palavras de Jun vinham envoltas em uma urgência discreta — não alarmante, mas densa, como a pressão silenciosa de uma represa prestes a romper. Ao retornar os olhos à televisão, agora sem som, Akihiro já não ouvia mais nada dela. Em vez disso, passou a captar cada ruído vindo do corredor: o ranger leve do elevador, passos amortecidos no carpete, o som abafado de uma porta ao longe — tudo parecia promissor, como prenúncio da chegada que esperava.

Minutos depois, as batidas soaram na porta. Três toques curtos e ligeiros.

— Pode entrar — disse ele, elevando levemente a voz, o suficiente para ser ouvido do lado de fora.

Ouviu-se o clique metálico da chave girando na fechadura. A porta se abriu devagar, e Jun surgiu na soleira, a cabeça levemente inclinada ao tirar os sapatos com gestos mecânicos, como se obedecesse a uma sequência automática de movimentos. Entrou sem pressa, fechando a porta com um cuidado quase reverente. Não disse nada. Mas sua expressão — contida, controlada — parecia prestes a se desfazer, como um espelho trincado que insiste em manter sua forma por pura obstinação.

— Me abraça — murmurou, e essas foram as únicas palavras.

A voz veio baixa, áspera nas bordas, marcada não por lágrimas, mas por algo que tocava os limites do choro — um esgotamento profundo, tecido nos ossos, no peito, nos ombros.

Akihiro não perguntou. Apenas se aproximou. Os passos foram longos, decididos, como se soubessem para onde iam antes mesmo de ele pensar. E o abraçou. Sem qualquer cerimônia ou contenção — como se aquele gesto estivesse esperando, apenas esperando, para existir.

Jun se agarrou a ele com uma intensidade muda. Enterrou o rosto no ombro de Akihiro, os dedos trêmulos apertando o tecido da camisa com uma força que não pedia ajuda, apenas espaço. Mesmo agora, mesmo depois de tudo o que passara, ainda exalava aquele cheiro bom — lavanda azul e mel de acácia — algo suave, quase mineral, que evocava memórias límpidas. O tipo de aroma que se guardava sem esforço e, uma vez percebido, despertava o desejo de ficar.

Akihiro sentiu o tremor leve em seu corpo — não era frio, mas exaustão. Jun piscava com frequência, como se tentasse deter as lágrimas que, ainda assim, escorriam em silêncio, traçando caminhos invisíveis pelas bochechas. Aquele alívio, tão contido durante tanto tempo, agora emergia com uma força devastadora. Era demasiado para conter.

Desde o momento em que se soubera livre, Jun fora engolido por decisões, urgências, tarefas práticas. A vida havia exigido dele mais ação do que introspecção, mais estratégia do que sentimento. E agora, pela primeira vez, ele parava. Ali, naquele apartamento quieto, ao abrigo de julgamentos e cobranças, escolhia sentir. Escolhia estar vulnerável.

Para Akihiro, aquele instante era como remover uma pedra incômoda do caminho — um obstáculo que, enfim, podia ser esmagado para que o percurso pudesse seguir. Mas para Jun, aquela pedra era um marco. A retirada dela alterava todo o desenho da estrada.

Akihiro o manteve junto a si pelo tempo necessário — um tempo sem medida, imune à contagem. E, quando sentiu que o corpo de Jun começava a ceder, guiou-o suavemente até o sofá. Jun sentou-se devagar, o corpo aceitando o apoio com certa relutância, como se a fadiga agora se revelasse por inteiro. Manteve os olhos baixos, mas neles havia algo novo: uma centelha de paz, frágil, porém verdadeira — nascida do simples fato de estar ali, diante de alguém que não exigia explicações.

Um cobertor cinza, largado no sofá desde mais cedo, foi apanhado com uma das mãos. Akihiro o abriu devagar e o colocou sobre os ombros de Jun, com um cuidado que mais parecia um gesto ritualístico, como se aquela manta tivesse o poder não apenas de aquecê-lo, mas de protegê-lo das exigências do mundo.

Inclinou levemente a cabeça, observando-o em silêncio. Não precisava de palavras. Seu olhar vagava por cada traço do rosto de Jun, como se desejasse absorvê-lo por inteiro — não por medo da ausência, mas pelo valor do instante.

O silêncio se manteve. Era um silêncio bom, preenchido apenas pelos ruídos abafados da televisão, pelo som ocasional do vento lá fora. Até que Jun, com a respiração levemente irregular, falou:

— Seu pai… entrou em contato comigo.

Akihiro ergueu uma sobrancelha, atento, mas sem alarde.

— Por quê?

— Não sei exatamente. — Jun não desviou os olhos. — Disse que estava tudo bem… e que havia uma última coisa a ser resolvida. Quer me encontrar pessoalmente amanhã. Só isso.

O cenho de Akihiro se contraiu, breve. Não demonstrava surpresa, apenas a consciência de que algo estava, mais uma vez, se desenhando fora do campo visível.

— Ele te assustou?

Jun negou com um movimento breve da cabeça.

— Não. Só… não queria passar a noite sozinho. Ficar remoendo isso, imaginando o pior. Tentar adivinhar o que pode acontecer.

A hesitação em sua voz revelou algo mais — um pedido não dito.

Akihiro entendeu antes que fosse verbalizado. Manteve o olhar firme, acolhedor, e falou com a mesma serenidade de sempre:

— Então, avisa que você está aqui. Manda uma mensagem pra ele dizendo que vai passar a noite e que ele pode vir aqui amanhã resolver o que for.

Jun assentiu devagar. Pegou o celular com dedos ainda um pouco trêmulos e começou a digitar. Havia, em seu gesto, algo que misturava alívio e resignação. Como se aquela pequena ação fosse, em si, uma forma de reconquistar o controle — ou de reconhecer que já não precisava enfrentá-lo sozinho.

Akihiro soltou o ar pelo nariz, lento, profundo. A tensão que antes pesava em seus ombros dissipava-se aos poucos, substituída por uma vigília silenciosa. Não precisava dizer que permaneceria. Já estava ali. E ali continuaria.

— E agora? O que pretende fazer, livre de Choi?

A pergunta pairou no ar com uma suavidade que escondia seu peso real. Jun demorou a responder. Tinha os olhos fixos na tela da televisão, mas era evidente que não via nada daquilo; seu pensamento flutuava em territórios incertos, onde o presente começava a ceder espaço a um futuro que ele mal sabia como nomear. Nunca antes se permitira contemplar com seriedade o que viria depois. A presença de Choi havia sido como uma cortina espessa, obscurecendo tudo — e agora, com essa sombra finalmente dissipada, o horizonte surgia nítido, assustadoramente vasto.

— Eu… — a palavra escapou hesitante, quebrada. Ele respirou fundo, como quem tentava ancorar o próprio fôlego antes de mergulhar. — Eu não sei. Essa sensação de liberdade é estranha.

Akihiro assentiu devagar, sem interromper, como se compreendesse com exatidão o silêncio entre as palavras.

Jun ajustou melhor o cobertor ao redor do corpo, apertando-o contra o peito como se tentasse fixar-se naquele instante ainda frágil. Depois de um longo suspiro, a confissão veio baixa, quase um pensamento sussurrado ao vento.

— Mas… acho que gostaria de estudar. Talvez entrar na faculdade.

Dita em tom tímido, quase envergonhado, a ideia parecia pequena, mas carregava consigo uma potência imensa — era a primeira vez que ele ousava nomear um desejo antigo, um sonho que por muito tempo considerara impróprio, inalcançável.

Akihiro não hesitou nem por um segundo.

— Eu posso te ajudar com isso.

Jun ergueu os olhos, surpreso com a prontidão da resposta.

— E também posso ajudar a encontrar um emprego que pague melhor que o restaurante — acrescentou Akihiro, com aquela mesma segurança calma que já se tornara tão característica nele. — Algo que te permita se sustentar e estudar ao mesmo tempo, sem abrir mão de si.

Jun piscou, digerindo aquelas palavras uma a uma, como quem experimenta um sabor novo e intenso. Ele queria acreditar. Queria se permitir esse futuro, mas ainda havia algo dentro de si — uma voz moldada por anos de resignação — que relutava em aceitar que aquilo, de fato, podia acontecer. Mesmo assim, havia em Akihiro uma convicção tão serena, tão inabalável, que era difícil duvidar.

E foi a frase seguinte que fez seu peito prender o ar, como se algo o apertasse por dentro:

— E nunca mais precisará trabalhar com algo parecido com o que costumava fazer. Agora, está livre para escolher quem pode te tocar.

As palavras, simples e diretas, caíram sobre Jun com uma clareza devastadora. Ele já sabia da própria liberdade, já a havia reconhecido com esforço e lágrimas. Mas ouvir aquilo de Akihiro — dito com tanta certeza, com tanto cuidado e respeito — fez algo ruir silenciosamente dentro de si. Como se uma trava antiga, imperceptível, finalmente cedesse.

As lágrimas vieram, não de dor, mas de alívio. Ele não tentou contê-las. Olhou para Akihiro, e por um instante, o mundo pareceu suspenso, contido apenas naquele espaço estreito entre dois olhares. Quando falou, sua voz tremia, mas havia nela uma sinceridade que nenhuma hesitação poderia ofuscar.

— Obrigado.

Não era apenas gratidão pelas palavras. Era um agradecimento por tudo — por tê-lo enxergado, por lhe oferecer um novo começo, por tratar seu futuro como algo possível e digno.

Akihiro desviou o olhar, voltando-se brevemente para a televisão, como quem tenta aliviar a densidade de um momento que poderia facilmente se tornar insustentável. Suspirou baixinho, mas Jun notou. Notou o leve relaxar dos ombros, o movimento contido dos dedos que se moveram sobre o tecido do sofá — não como um pedido, mas como uma presença discreta, firme.

E ali, naquele gesto pequeno, Jun entendeu algo que antes lhe escapava: Akihiro não o via como um fardo, nem como alguém a ser apenas protegido. Ele o via como alguém com um futuro. Alguém destinado a viver.

 

—–

 

A casa de Akihiro exalava uma serenidade incomum, mesmo diante da presença marcante de Tatsuo Hanamura. A manhã avançava com lentidão do lado de fora, e a luz suave do sol filtrava-se pelas janelas, projetando sombras delicadas sobre os móveis meticulosamente organizados. Jun estava na cozinha, encerrando o preparo de um café simples quando ouviu a porta ser aberta. Voltou-se apenas para observar. Era Tatsuo — e, ao vê-lo entrar e se acomodar na poltrona, compreendeu de imediato que aquela visita traria assuntos densos, talvez inevitáveis.

Tatsuo não era um homem de muitas palavras. Sua postura imperturbável e o olhar firme tinham a capacidade de atravessar qualquer camada de silêncio, desvelando intenções antes mesmo que fossem ditas. Jun sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha quando notou aquele olhar sobre si — não havia agressividade, apenas a força inegável de uma presença que conhecia o peso da autoridade e da verdade.

— Podemos começar — disse Tatsuo, com a voz serena, mas firme, cruzando as pernas com tranquilidade, como quem já sabia o que esperar.

Jun desligou a máquina de café, que já havia feito seu trabalho, e atravessou a curta distância até a sala. Sentou-se ao lado de Akihiro, que já estava no sofá desde que abrira a porta para o pai. O silêncio entre os três parecia denso, carregado de significados não ditos, e ainda assim havia um certo equilíbrio ali — frágil, porém presente. Jun sentiu a proximidade de Akihiro como uma âncora silenciosa; os braços cruzados do outro, a postura atenta, e o olhar cuidadoso eram um lembrete mudo de que, apesar da tensão, ele não estava só.

Tatsuo inclinou-se levemente para a frente, apoiando os antebraços nos joelhos, dispensando rodeios.

— Preciso falar com você sobre seu pai.

O coração de Jun disparou. A menção ao pai o desarmou momentaneamente. Era um nome que ele evitava, uma sombra marcada por abandono, promessas quebradas e uma dívida quase destruidora.

Observando a reação do jovem, Tatsuo prosseguiu com voz firme, porém sem agressividade.

— Seu pai deixou bens para trás. Dinheiro, propriedades, investimentos. O suficiente para que você jamais precise depender de alguém como Choi.

Jun piscou, a respiração falhando por um instante.

— O quê? — a voz saiu mais baixa do que pretendia.

— Choi sabia disso — afirmou Tatsuo, estreitando os olhos. — Escondeu de você por anos. Se soubesse da existência desse patrimônio, poderia tê-lo privado dele e forçado a sujeitar-se ainda mais.

A revelação era uma lâmina afiada que rasgava o pouco que Jun acreditava conhecer sobre sua própria existência. Um misto de raiva e incredulidade inflamava-lhe o peito. Como Choi fora capaz de manipular sua vida com tal crueldade? Negar-lhe a liberdade que sempre estivera ao alcance das mãos?

Fechou os punhos firmemente sobre os joelhos.

— Isso é verdade? — a voz agora carregava um tom quase suplicante, como se temesse a resposta.

Tatsuo assentiu.

— Sim. Há um processo a ser cumprido. Documentos que precisam ser recuperados, questões legais a resolver. Mas é real.

A mente de Jun girava tentando assimilar. Emoções conflitantes se agigantavam: alívio, fúria, descrença. Queria gritar, exigir justiça de Choi, reaver os anos roubados, mas sabia que o passado permanecia imutável.

O futuro, contudo, lhe pertencia.

Ergueu o olhar para Tatsuo, ainda hesitante.

— Eu… não sei como proceder.

— Por isso estou aqui — declarou Tatsuo, com a firmeza que transmitia uma certeza que Jun não conseguia alcançar sozinho. — Vou ajudá-lo a recuperar o que é seu.

Jun desviou o olhar, os olhos ardendo, recusando-se a ceder às lágrimas. Soltou um suspiro trêmulo e assentiu, aceitando — ainda que com hesitação — o auxílio que lhe era oferecido.

Akihiro, até então calado, finalmente falou, a voz grave carregada de um orgulho silencioso.

— Choi achava que podia decidir o que era seu ou não. Agora, perdeu esse poder.

Jun soltou um riso breve e quase sem vida, passando as mãos pelo rosto.

— Mal consigo acreditar…

Tatsuo o observou por um instante, recostando-se no sofá e relaxando minimamente a rigidez da postura.

— Você tem uma escolha, Jun. Diferente do passado, agora pode decidir o rumo da sua própria vida.

Aquelas palavras ressoaram na mente de Jun. Pela primeira vez, a sombra de Choi parecia verdadeiramente dissipada. Ele não era mais prisioneiro.

Jun e Tatsuo adentraram o escritório, espaço amplo e meticulosamente organizado, com estantes de madeira escura abarrotadas de livros e documentos. A luz tênue do abajur projetava sombras discretas nas paredes, conferindo ao ambiente um ar austero e controlado. Jun sentiu-se pequeno ali, como se tivesse aberto uma porta para um mundo inteiramente distinto daquele que conhecia. Tatsuo, por sua vez, movia-se com a naturalidade de quem já dominava cada passo antes mesmo da conversa começar.

Sentando-se na cadeira diante da mesa imponente, Jun esforçava-se para manter a postura, embora a tensão evidente em seus ombros traísse sua inquietação. Tatsuo, sempre firme e direto, apresentou-lhe os documentos que conseguira reunir. Registros bancários, certidões, contratos — tudo apontava para um fato até então desconhecido: seu pai havia deixado bens e recursos financeiros suficientes para assegurar uma vida digna à sua família. Contudo, Choi ocultara tudo isso, manipulando as circunstâncias para manter a todos sob seu domínio.

A revelação atingiu Jun como um soco no estômago. Engoliu em seco, sentindo uma mistura de revolta e alívio. Se aquilo era verdade — e ele não duvidava — sua mãe e irmãos jamais precisariam ter dependido de Choi. Todos aqueles anos submetidos a um homem que fingia protegê-los não passavam de um jogo cruel de manipulação.

Tatsuo explicou que, embora algumas pendências legais exigissem a presença da mãe de Jun, outras poderiam ser conduzidas por ele mesmo. Para isso, seria necessário tempo e paciência. O processo não se resolveria em um único dia, mas Tatsuo assegurou que estaria ao lado do jovem, zelando para que tudo transcorresse corretamente. Jun assentiu, absorvendo as palavras e sentindo, pela primeira vez, que havia uma possibilidade concreta de assumir o controle da própria vida.

Após longa conversa e com o compromisso de dar continuidade ao processo, Jun deixou o escritório. Sua mente ainda processava cada detalhe, os papéis e números rodopiando em seus pensamentos, quando seu olhar pousou sobre Akihiro, adormecido no sofá.

A imagem o desarmou instantaneamente.

Akihiro repousava de lado, o rosto parcialmente enterrado no próprio braço, a respiração profunda e regular. O peso da exaustão era palpável em sua postura; os músculos relaxados, os traços do rosto suavizados, distantes da severidade costumeira. Jun hesitou por um instante, depois aproximou-se em silêncio, abaixando-se ao lado do sofá. Não queria despertá-lo, mas ao vê-lo vulnerável, sereno, não resistiu ao impulso de erguer a mão e deslizar os dedos pelos fios ondulados de seu cabelo.

Os cabelos eram espessos, levemente rebeldes sob seu toque. Jun permitiu-se deslizar os dedos entre eles, movimentos suaves, quase inconscientes. Um gesto singelo, porém carregado de um sentimento profundo — uma gratidão silenciosa por tudo o que Akihiro fizera por ele e sua família. O calor que crescia dentro dele era estranho, ao mesmo tempo reconfortante e intenso.

Akihiro moveu-se levemente, um murmúrio rouco escapando de seus lábios antes que seus olhos se abrissem. O olhar sonolento demorou segundos para focar em Jun e, ao fazê-lo, uma sobrancelha arqueou em leve questionamento.

— O que está fazendo? — a voz ainda arrastada pelo sono.

Jun sorriu discretamente, sem interromper os movimentos delicados no cabelo.

— Seu pai nos chamou para jantar — disse, a voz baixa e hesitante.

O rosto de Akihiro se contorceu numa careta de desagrado absoluto. Soltou um suspiro longo, cobrindo o rosto com uma mão, como se tentasse afastar a ideia.

— Preferia me lançar de um penhasco — murmurou, a frustração evidente na voz.

Jun soltou uma risada abafada, balançando a cabeça. Apesar do tom brincalhão, sabia que Akihiro não exagerava. A relação entre ele e seu pai era complexa, permeada por formalidades e expectativas que o alfa evitava sempre que possível. Mas, naquela noite, não haveria escapatória.

O jantar era inevitável.

 

—–

 

A entrada da residência dos pais de Akihiro impunha uma presença que imediatamente ressaltava a gravidade do momento. Jun, ao cruzar o portal, sentiu o peso daquele instante apertar seu peito, o coração acelerado e as mãos frias ocultas nos bolsos do casaco. Era a primeira vez que pisava naquele espaço — nunca antes fora formalmente apresentado à família do jovem — e agora encontrava-se diante de um evento cuja magnitude superava qualquer expectativa. Seu corpo permanecia tenso, os pés hesitando no batente, ao ponto de nem perceber o instante em que uma mão quente repousou em sua nuca.

Akihiro inclinou-se suavemente, sussurrando com um tom leve e divertido ao ouvido de Jun:

— Você está lindo.

O jovem piscou algumas vezes, o rosto corando inesperadamente diante da espontaneidade da frase. Palavras assim, proferidas com naturalidade e sinceridade por alguém como Akihiro, possuíam um peso inusitado que Jun não podia ignorar. Por um breve momento, desejou acreditar nelas.

Antes que pudesse reagir, Akihiro já o puxava pelo pulso, conduzindo-o para dentro da casa. O silêncio que os envolvia era excessivo, um alerta que acendeu uma apreensão sutil dentro de Jun. Esperava uma recepção simples; encontrara, contudo, um cenário meticulosamente preparado.

Todos já os aguardavam.

A sala principal irradiava luz, e a longa mesa de jantar ostentava uma decoração impecável: louças refinadas, arranjos florais discretos, tudo indicando que não se tratava de um convite casual, mas de um evento planejado. Akihiro permaneceu ao seu lado, observando a cena com uma expressão difícil de decifrar, embora fosse claro que aquilo não o surpreendia.

À sua frente, o pai de Akihiro surgiu com um sorriso cuidadosamente ensaiado, a postura firme e inabalável.

— Bem-vindos — saudou, a voz firme, porém menos ríspida que o habitual. — Entrem, todos já estão esperando.

Akihiro soltou um suspiro, reunindo paciência para seguir adiante. Jun sentiu, à medida que avançavam, todos os olhares convergirem para ele. Reconheceu as figuras que compunham aquele círculo: Naomi, mãe de Akihiro, uma mulher de presença elegante e olhar perspicaz, que o observava com um leve sorriso enigmático; ao lado dela, Himeko, irmã de Akihiro, mantinha os braços cruzados, o rosto impassível como de costume, mas os olhos afiados examinavam Jun, como se tentassem ler suas intenções.

Rurihito, ao lado de Himeko, ostentava uma expressão mais gentil. Seus olhos curiosos encontraram os de Jun, transmitindo uma mistura de interesse e simpatia. No colo de Rurihito repousava um bebê tranquilo, alheio à tensão silenciosa que permeava o ambiente.

Foi então que Jun percebeu: estava sob um escrutínio minucioso.

Cada gesto seu era avaliado pela família de Akihiro.

Percebendo o desconforto de Jun, Akihiro resmungou baixinho, passando a mão pelos cabelos, como se a qualquer momento pudesse explodir.

— Não precisam olhar para ele como se fosse carne no açougue — disparou, a impaciência transparecendo em sua voz.

Himeko ergueu a sobrancelha, divertindo-se com a irritação do irmão.

— Não se preocupe, querido irmão — respondeu, apoiando o queixo na mão. — Estamos apenas tentando entender o que exatamente o levou a trazê-lo aqui. Afinal, não é comum que você apresente alguém à família.

Akihiro revirou os olhos, pegando um copo de água da mesa e bebendo um gole profundo, como se buscasse desesperadamente serenidade.

Naomi então interveio, sua voz suave, mas carregada da autoridade maternal.

— O rapaz parece nervoso o suficiente sem esse interrogatório silencioso — comentou, dirigindo o olhar para Himeko.

Com um sorriso gentil, Naomi levantou-se e deslizou com a graça natural de quem lidera sem precisar erguer a voz. Seus passos eram silenciosos sobre o carpete, e Jun percebeu nela uma autoridade implícita, uma presença dominante que despertava respeito mesmo naqueles que não desejavam demonstrá-lo.

Ela deteve-se diante dele, os olhos percorrendo seu rosto com atenção cuidadosa, porém desprovida da severidade inquisitiva dos demais.

— Você deve ser Jun — afirmou, a voz firme e suave. — Sou Naomi Hanamura, mãe de Akihiro.

Jun endireitou-se, sentindo a necessidade de demonstrar respeito formal. Contudo, antes que pudesse formular palavras hesitantes, Naomi inclinou levemente a cabeça, transmitindo uma recepção calorosa. O gesto, embora sutil, aliviou parte da tensão que o oprimia.

— É um prazer conhecê-la, senhora Hanamura — respondeu, controlando a compostura.

Naomi sorriu satisfeita com a resposta. Voltando-se à mesa, fez um gesto discreto com a mão.

— Acho justo que conheça todos. Afinal, é raro termos um convidado especial por aqui.

Jun sentiu o peso daquela frase, enquanto Akihiro soltava um suspiro resignado ao seu lado, como se já antecipasse o desdobrar daquela noite.

— Você já deve ter percebido que esta é minha filha, Himeko — continuou Naomi, apontando para a mulher de expressão impassível, que ainda o fitava com intensidade quase desconfortável.

Himeko inclinou a cabeça em reconhecimento, os olhos astutos atentos a cada detalhe da postura de Jun.

— Ao lado dela está seu marido, Rurihito — acrescentou Naomi, enquanto o homem gentilmente sorria para Jun, sem a rigidez dos demais, mais cordial do que avaliador.

— É um prazer conhecê-lo, Jun — disse Rurihito, com voz tranquila e acolhedora.

No entanto, os olhos de Jun foram imediatamente atraídos para o bebê em seu colo. O rosto delicado e adormecido capturava sua atenção, as feições serenas, os pequenos dedos cerrados em punho sobre a manta macia que o envolvia.

— Quem é esse? — a pergunta veio de Rurihito, os olhos fixos em Jun.

— Este é meu filho — respondeu o homem com serenidade, notando o olhar curioso de Jun. — Se chama Hikari.

Jun piscou algumas vezes, assimilando a cena diante de si. Estar ali, inserido naquele núcleo familiar, sendo formalmente apresentado não apenas a todos, mas inclusive ao bebê que, de maneira inocente, era o único naquela sala alheio a qualquer julgamento acerca de sua presença, carregava uma estranha intensidade. Um calor sutil aquecia seu peito ao observar a delicadeza com que Rurihito segurava Hikari, seus gestos cuidadosos e protetores. Jun sempre tivera apreço por crianças, e a presença do pequeno irradiava uma pureza reconfortante, que suavizava as tensões invisíveis do ambiente.

Um sorriso contido surgiu em seus lábios.

— Ele é adorável — murmurou, a voz baixa e quase reverente.

Hikari, com sua respiração ritmada e tranquila, parecia um anjo sereno, um contraste vívido diante da formalidade e das expectativas não ditas que permeavam aquele ambiente.

Foi então que Himeko, até então silenciosa, inclinou-se ligeiramente, apoiando o queixo na mão enquanto contemplava a interação.

— Surpreendente — comentou, o tom carregado de um leve sarcasmo divertido.

Jun desviou o olhar para ela, intrigado. Himeko ergueu a sobrancelha, divertindo-se com sua confusão.

— Como um desajeitado e sem noção como meu irmão conseguiu um anjo como você? — disse, os olhos cintilando com astúcia. — Se estiver aqui contra a sua vontade, é só piscar algumas vezes.

Jun riu, negando.

— Não é necessário. Vim por vontade própria esta noite.

— Mesmo depois de todos os avisos dele? — Ela apontou para Akihiro com um sorriso malicioso. — Então você é mais ingênuo do que aparenta.

Rurihito balançou a cabeça em negação, rindo baixo.

Jun permaneceu em silêncio, ainda digerindo o leve confronto entre os irmãos. Mal percebera que sua expressão havia suavizado até aquele instante.

Antes que pudesse intervir, Akihiro aproximou-se, cruzando os braços ao lado de Jun, o semblante visivelmente entediado.

Himeko voltou-se para o irmão e, em tom confidencial, sussurrou:

— Imagino que você nunca tenha pensado em ter filhos, não é, Akihiro? — o canto dos lábios curvando-se em sorriso malicioso. — Mas, pelo visto, talvez seja hora de começar a considerar a ideia.

— Cala a boca, mana — resmungou Akihiro, sem sequer olhá-la.

Jun desviou o olhar para Hikari, depois para os dois irmãos, com a sensação de ter perdido alguma coisa. Himeko apenas sorriu de canto, claramente desfrutando da irritação de Akihiro.

— Akihiro mencionou algo sobre uma… traição? — Ele hesitou, a palavra soando pesada, mas a expressão abatida do irmão justificava sua escolha. — Sobre você ter se casado e formado uma família.

Himeko arregalou os olhos por um breve instante, soltando uma gargalhada que ecoou pela sala. Até Rurihito, aparentemente acostumado, sorriu de leve. Akihiro, por sua vez, suspirou profundamente, revirando os olhos, como se já previsse a cena de palhaçada que se desenrolava.

— Ah, sim! A grande traição! — exclamou ela com teatralidade, envolvendo Rurihito pela cintura. — Veja bem, Jun, meu querido irmão tinha uma concepção bastante equivocada de como as coisas funcionam.

Jun piscou, aguardando a explicação.

— O que exatamente ele pensava?

Himeko sorriu, lançando um olhar provocativo para Akihiro.

— Akihiro achava que eu jamais me casaria. — Fez uma pausa para enfatizar o absurdo da ideia. — Ou melhor, que eu jamais teria tempo para um relacionamento. Então, quando finalmente disse “sim” para este homem maravilhoso aqui…

Rurihito revirou os olhos, resignado, aceitando o abraço caloroso.

— Akihiro se sentiu traído, como se eu tivesse cometido um crime imperdoável.

Jun olhou para Akihiro, que cruzou os braços e resmungou algo inaudível.

— Você está exagerando — murmurou, claramente incomodado.

Himeko ignorou a tentativa de protesto, inclinando-se levemente como se revelasse um segredo.

— Ele apareceu no casamento com aquela cara de enterro — disse, apontando para Akihiro. — Bebeu mais do que deveria e passou metade da noite se martirizando.

— Um dia você simplesmente apareceu e disse “vou casar”, como se fosse algo trivial! — explodiu Akihiro, incapaz de conter a irritação.

— Bem, não era. — Himeko rebateu, rindo. — Mas, para você, pelo visto, sim!

Jun cobriu a boca para esconder a risada que ameaçava escapar. A interação entre os irmãos, curiosamente cômica, despertava sua curiosidade sobre o motivo daquela reação no passado.

— E como ele superou isso? — perguntou, a voz carregada de divertimento.

Himeko sorriu presunçosa.

— Nunca superou — respondeu, lançando um olhar sugestivo a Akihiro, que bufou impaciente. — Mas, com o tempo, percebeu que o mundo não gira ao redor dos seus caprichos.

— Vai se ferrar, Himeko — murmurou Akihiro, desviando o olhar, cansado da conversa.

Rurihito riu baixinho, apertando a mão dela com afeto.

— Para ser justo, todos achávamos que ela nunca se casaria — interveio Naomi, a mãe, com um sorriso discreto.

Himeko arqueou a sobrancelha, fingindo indignação.

— Como ousam!

Rurihito sorriu indulgente, ocultando a satisfação. Akihiro passou a mão pelo rosto, como se buscasse forças para suportar a situação.

Não se tratava apenas de um jantar formal, planejado e repleto de propósitos ocultos. Por trás daquela atmosfera imponente, havia um calor genuíno, capaz de tornar tudo um pouco menos ameaçador.

Capítulo 14
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Laços em Carmesim

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Akihiro Hanamura sempre acreditou que laços afetivos não passavam de ilusões passageiras – convenções sociais frágeis que encobriam a inevitável falência das relações humanas. Como...

Chapters

  • Capítulo 16 FINAL O eterno no cotidiano
  • Capítulo 15 A Vulnerabilidade de um Alfa
  • Capítulo 14 Segredos de Sangue
  • Capítulo 13 Fim das Correntes
  • Capítulo 12 Um lar e o cheiro de comida
  • Capítulo 11 Rastros de Medo
  • Capítulo 10 Mesa para Dois na Sala Reservada
  • Capítulo 9 Rachaduras na muralha
  • Capítulo 8 A Voz de Jun
  • Capítulo 7 O coração exausto de Jun
  • Capítulo 6 O Gosto da Ternura
  • Capítulo 5 Junhos Possíveis
  • Capítulo 4 Proposta Intrigante e Tentadora
  • Capítulo 3 Sedução no Palco, Verdades no Encontro
  • Capítulo 2 - A primeira intersecção
  • Capítulo 1 - Uma Noite ao Acaso

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