Capítulo 15
Quando Jun cruzou a soleira do apartamento de Akihiro naquela noite, uma inquietação sutil imediatamente o envolveu. O ambiente parecia carregado, como se algo invisível pairasse no ar — uma densidade morna, quase palpável, que não vinha do cansaço do dia, tampouco de qualquer problema doméstico.
Era o cheiro.
Cardamomo, folha de tabaco verde e mirra. Espesso, envolvente, carregado de uma intensidade primitiva, o aroma característico de um alfa que impregnava o espaço ia muito além do almíscar discreto que costumava acompanhar Akihiro. Aquilo era visceral, uma presença olfativa que se impunha como um sussurro dentro do corpo, reverberando nas entranhas antes mesmo de ser compreendido.
Jun parou por um momento, os sentidos alertas. Um calor estranho percorreu-lhe a pele, arrepiando os braços, fazendo seus joelhos hesitarem de leve. A respiração perdeu o compasso por um segundo — curta, irregular.
— Akihiro? — chamou, a voz mais alta do que pretendia e levemente trêmula.
Nenhuma resposta.
O apartamento estava em silêncio absoluto — exceto por um som tênue, abafado. Parecia uma respiração irregular vinda do quarto. Jun sentiu o estômago revirar. Seu corpo reagia por instinto, muito antes da razão formar qualquer explicação. Apressou os passos.
Ao fechar a porta atrás de si e avançar pelo corredor, o som tornou-se mais nítido, e o pressentimento dentro dele se confirmou ao empurrar a porta entreaberta do quarto.
O que viu o fez estacar.
Akihiro estava no chão, o corpo arqueado pela respiração ofegante. A camisa semiaberta deixava à mostra parte do peito tatuado, agora úmido de suor. O rosto, sempre sóbrio, mostrava sinais de exaustão: rubor nas faces, os lábios entreabertos, os olhos cerrados numa expressão que oscilava entre dor e febre.
Jun sentiu o próprio coração tropeçar.
— Akihiro!
Ajoelhou-se ao seu lado imediatamente, a mão indo instintivamente ao peito dele. O calor que emanava através do tecido era anormal. Quente demais. Intenso demais.
A constatação surgiu como um pensamento nítido: ele estava queimando por dentro.
Akihiro gemeu baixinho, abrindo os olhos por uma fração de segundo antes de fechá-los novamente, como se o esforço de permanecer consciente fosse por demais custoso.
— Jun… — murmurou, a voz rouca, mal ultrapassando os lábios entreabertos. — Inibidor… na gaveta…
O olhar de Jun disparou para a mesinha de cabeceira. Levantou-se às pressas, os dedos trêmulos ao abrir a gaveta e vasculhar o conteúdo até encontrar o injetor automático. Sem hesitar, voltando depressa para Akihiro, ele se posicionou ao lado dele.
— Fique quieto — pediu, com uma firmeza que desmentia o desespero crescente sob a superfície da voz.
Puxou com cuidado a manga da camisa, revelando o braço tenso e úmido de febre. Posicionou o injetor contra a pele e pressionou o botão. Um estalo discreto, seguido pelo impulso do fármaco, percorreu o corpo de Akihiro. Ele estremeceu, o impacto breve como um arrepio sob a carne, e então seus músculos começaram a relaxar. A respiração, antes entrecortada, cedeu espaço a um ritmo mais constante, ainda que pesado.
Alguns minutos se arrastaram. Quando Akihiro abriu os olhos outra vez, a névoa da febre já se dissipara, substituída por um cansaço profundo — e, no fundo do olhar, uma sombra sutil, talvez de culpa, talvez de algo ainda mais silencioso.
— O que aconteceu? — a pergunta de Jun saiu mais alta do que ele pretendia. Estava assustado, e aquilo transbordava em raiva contida. — Você parecia… prestes a desmaiar. Ou pior.
Akihiro fechou os olhos por um momento, levando a mão ao rosto.
— É meu rut — disse por fim, a voz ainda áspera. — Está mais forte do que eu esperava.
Jun franziu o cenho.
— Por que não me disse?
O silêncio que se seguiu foi breve, mas significativo. Akihiro desviou o olhar.
— Não queria que você se preocupasse. Ou… sentisse que precisava lidar com isso.
— Lidar com isso? — Jun repetiu, a incredulidade se misturando à mágoa. — Akihiro, eu sou seu ômega. Isso não deveria ser algo a se carregar sozinho.
— Não é tão simples assim — retrucou ele, a voz baixa, sem agressividade. — O rut de um alfa não é como o heat de um ômega. É mais… intenso. Imprevisível. Perigoso. — Seus olhos voltaram a encontrar os de Jun. — Eu não queria que você passasse por isso. Não queria te colocar em risco.
Jun sentiu algo apertar dentro do peito. Akihiro estava tentando protegê-lo. Sempre estava. E, no entanto, aquilo o fazia sentir-se ainda mais afastado — como se houvesse um limite invisível, intransponível, entre eles.
— Você pensou em me proteger, mas não em como isso me afetaria — sua voz agora era baixa, trêmula. — Entrar aqui, te ver assim… saber que escondeu algo tão importante… — O maxilar de Akihiro se contraiu, mas ele não respondeu de imediato. Jun respirou fundo, buscando equilíbrio. — Há quanto tempo você está usando inibidores?
— Uns três meses — confessou, o olhar fixo em algum ponto indefinido.
A revelação caiu como um golpe surdo. Três meses. Um trimestre inteiro lidando com aquilo em silêncio, escondendo tudo de quem mais merecia saber.
— Somos parceiros, Akihiro… Você não precisa suportar isso sozinho. — disse Jun, com a voz embargada.
Akihiro ergueu a mão, os dedos tocando de leve a lateral do rosto de Jun. O gesto era cálido, íntimo, mas carregado de contenção.
— Eu não queria assustar você — disse, num sussurro. — Nem fazê-lo sentir que precisava cuidar de mim.
— Mas eu quero cuidar de você — retrucou Jun, com uma firmeza que o surpreendeu. Seus olhos brilhavam, não de raiva, mas de convicção. — Isso faz parte de estar ao seu lado. Isso é ser seu ômega.
Akihiro suspirou e deixou a mão escorregar para o colchão, a expressão carregada de uma dor resignada.
— Não se trata apenas de cuidado, Jun… — disse, com dificuldade. — Durante o rut, eu não sou exatamente… eu. E se eu te machucar?
Jun conteve a respiração por um segundo. Nunca havia pensado nessa possibilidade. Mas mesmo assim, não hesitou:
— Eu confio em você — disse, sem vacilar.
Os olhos de Akihiro suavizaram, mas a preocupação permanecia como uma sombra em sua expressão.
— Mas eu não consigo em mim mesmo. — respondeu, com uma honestidade dura.
Jun sustentou o olhar por longos segundos.
— Agora é tarde, eu vou ficar com você durante seu rut.
Akihiro o observou em silêncio. Havia algo naqueles olhos que oscilava entre incredulidade e rendição. Por fim, ele assentiu, com relutância.
— Tudo bem… — murmurou, a voz fraca, quase hesitante. — Mas se ficar difícil… se eu perder o controle, você precisa me afastar. Custe o que custar. Prometa isso.
— Eu prometo.
Akihiro ergueu a mão mais uma vez, tocando o rosto de Jun com uma ternura contida. Jun se inclinou levemente, acolhendo o gesto; os olhos se fecharam por um breve instante, como se quisesse guardar aquele toque na memória.
— Obrigado… — sussurrou Akihiro, num sopro.
Jun abriu os olhos e o encarou, com uma doçura serena e silenciosa.
—–
Os dias haviam se passado com uma tranquilidade incomum, como se o mundo os concedesse um breve suspiro antes da tempestade. A presença de Jun ao lado de Akihiro trouxera uma calma que ele mal percebera que ansiava. Dormiam juntos com frequência, entrelaçados num silêncio confortável, como se o simples fato de estarem ali fosse suficiente.
Naquela noite, a casa repousava em penumbra. O quarto estava morno, abafado pelas cortinas pesadas e pela brisa rarefeita do verão. Akihiro dormia ao lado de Jun, os corpos próximos sob os lençóis desalinhados, o calor dos corpos se misturando ao ritmo calmo da respiração. Mas havia algo diferente naquela madrugada.
Jun se remexeu levemente, ainda submerso no torpor do sono, até que um toque suave e repetido em sua cintura o fez franzir o cenho. Em seguida, sentiu o peso do corpo de Akihiro parcialmente sobre o seu, os lábios dele roçando sua pele exposta — uma sequência de beijos lentos, desordenados, como se seguissem um instinto que Akihiro não conseguia mais conter.
Um arrepio subiu por sua espinha, seguido por uma risada baixa e ensonada escapando de seus lábios.
— Faz cócegas… — murmurou, ainda com os olhos semicerrados.
Demorou apenas alguns segundos para que a lucidez tomasse forma em sua mente: a temperatura do corpo de Akihiro estava mais alta do que o habitual, a respiração mais irregular, a inquietação crescente. Um cheiro denso preenchia o ar — cardamomo, folha de tabaco verde e mirra — pungente e inebriante, como um campo em chamas sob a neblina.
Jun não precisou de mais que isso para entender. O rut havia finalmente chegado.
Akihiro começou devagar. Enlaçou o corpo de Jun pela cintura, forçando-o a se arquear em seus braços, os lábios traçando um caminho lento por sua pele: da curva do rosto ao canto da boca, até enfim tomá-lo em um beijo. Era profundo, abrasador, repleto de um desejo que beirava o devocional.
Jun se derreteu, sentindo os músculos firmes de Akihiro contra si, suas mãos deslizando pelas costas dele para puxá-lo para mais perto.
Os dedos de Akihiro acariciaram a linha de sua mandíbula, gentis em contraste à voracidade do beijo. Ele não disse uma palavra, mas seus olhos semicerrados e a maneira como sua boca se movia, marcando o pescoço de Jun com beijos e mordidas suaves, diziam mais que qualquer fala. Jun levou uma das mãos até seus cabelos, afagando os fios com ternura, como se o ancorasse ali — como se dissesse “estou aqui”.
Jun sabia que isso viria — e havia prometido que estaria ali quando acontecesse.
Akihiro deixou as mãos vagarem por baixo do pijama quente de mangas longas que Jun ainda usava. Seus toques mapeavam o corpo dele com fome contida, traçando a cintura estreita, os quadris suaves. Quando tentou tirar a parte de cima da roupa, Jun apenas ergueu os braços em silêncio, permitindo que a peça fosse retirada e deixada de lado. O frio não teve chance: o calor entre os dois era mais que suficiente.
Os dentes do alfa roçaram a clavícula de Jun. A pressão foi quase dolorosa, mas trouxe um prazer agudo, primal. Não havia contenção ali, mas também não havia violência — só uma força crua, ainda assim embalada numa ternura silenciosa. Quando suas mãos desceram, firmando-se sob a calça de Jun e apertando suas nádegas com uma força que arrancou um suspiro, Jun não se afastou. Rendeu-se.
Akihiro desceu com o corpo, os lábios arrastando-se por sua pele, enquanto suas mãos habilidosas removiam as últimas peças de roupa — calça e roupa íntima — de uma vez só. Jun se arrepiou com o contraste entre o ar fresco do quarto e o calor do corpo de Akihiro.
Os dedos do alfa ergueram seus quadris, abrindo suas coxas com firmeza. E então os dentes se cravaram na carne macia de sua coxa interna, deixando várias mordidas. Foi forte o bastante para deixar marca, e Jun gemeu, o corpo se arqueando em resposta.
— Akihiro… não me morde, por favor — murmurou ele, a voz embargada de surpresa. — Dói…
Akihiro recuou de imediato, os olhos ampliados pelo susto. Curvou-se e lambeu as marcas com cuidado, quase com culpa.
— Desculpe… — murmurou, a voz baixa e sincera.
Jun mordeu o lábio, tentando não sorrir.
— Tudo bem. Só… vai com mais cuidado — disse, incapaz de ignorar o quão parecida com um cão arrependido era aquela expressão no rosto de Akihiro.
O sopro morno dele roçou a pele de sua bunda. As mãos firmes afastaram a carne sensível, expondo-o sem pressa. E, em seguida, veio a língua. O primeiro toque foi como uma corrente elétrica. Jun arqueou o corpo, um gemido preso na garganta, as coxas tremendo debaixo do domínio firme do alfa.
Nunca havia sentido nada parecido. A língua de Akihiro era impiedosa — e exata. Provocava, sondava, mergulhava com precisão, explorando cada dobra e sensibilidade. Os dedos de Jun se fecharam no lençol, as unhas cravadas no tecido, os olhos cerrados como se quisesse conter algo que o transbordava por dentro.
O corpo inteiro vibrava, os sentidos sobrecarregados. Era demais, intenso demais, e, ao mesmo tempo, ele não queria que parasse.
— Akihiro… — sussurrou entre os dentes, a voz falhando. A língua de Akihiro mergulhou mais fundo, como se o nome dito em súplica fosse um incentivo. As mãos do alfa apertaram ainda mais suas coxas, mantendo-o aberto, vulnerável, à mercê de cada investida lenta e molhada.
O cheiro do rut estava impregnado no ar, nos lençóis, na pele. Jun sentia-o nos poros, como uma força invisível que dominava o quarto e seus sentidos. A energia que irradiava de Akihiro era crua, densa, impossível de ignorar.
— Eu quero provar você — rosnou Akihiro, sua voz rouca e baixa, mais desejo que fala. Não foi um pedido. Foi uma afirmação, uma sentença que não admitia recusa.
A boca do alfa deslizou para as bolas de Jun, chupando com suavidade, depois com mais intensidade. Jun arfou, os músculos da barriga retesando. Akihiro então subiu até a base de seu pênis, os lábios provocando com beijos e lambidas. Quando ergueu o olhar, Jun se viu cativo naquele par de olhos âmbar, brilhando sob a luz fraca como brasas prestes a devorá-lo inteiro.
As mãos de Akihiro deslizaram para baixo, e a respiração de Jun prendeu quando um dedo único pressionou sua entrada, provocando-o com firmeza e precisão. O toque do alfa era decidido, abrindo-o com movimentos lentos, cuidadosos — e inevitáveis.
O corpo de Jun enrijeceu, o prazer se enrolando quente em suas entranhas, vibrando sob sua pele. Tremia quando os lábios de Akihiro envolveram a cabeça de seu pênis, ao mesmo tempo em que um segundo dedo se juntava ao primeiro, depois um terceiro. O calor úmido de sua boca, aliado à pressão dos dedos, era quase insuportável. Jun soltou um gemido abafado, os quadris sacudindo-se involuntariamente em resposta.
A mão de Akihiro subiu pela coxa dele, explorando a pele com toques lentos, até se firmar ali — guiando-o ainda mais fundo em sua boca. Chupava com um ritmo calculado, constante, fazendo os dedos dos pés de Jun se dobrarem em espasmos involuntários. Ele arfou, a cabeça caindo para trás contra o travesseiro, os lábios entreabertos, olhos semicerrados de puro torpor.
A boca de Akihiro era puro pecado — calor, pressão e perícia se misturando numa dança infernal. Jun já não conseguia pensar. Não conseguia sequer formular um pensamento coerente. Apenas sentir. A língua girava ao redor da ponta, provocando a parte mais sensível, e seu corpo reagia, tenso e vulnerável, como um arco prestes a disparar.
Akihiro cantarolou contra ele, e a vibração percorreu a espinha de Jun como uma corrente elétrica, deixando-lhe os músculos trêmulos. As mãos de Jun buscaram os cabelos do alfa, entrelaçando-se nos fios escuros como se isso pudesse ancorá-lo. Tentava conter-se, mas era inútil. Akihiro era implacável, com um foco que o deixava desnorteado.
— Eu vou… — murmurou Jun, a voz quebrada, os olhos marejados. Estava no limite.
Akihiro ergueu os olhos, fixando os dele. Escuros, intensos, famintos. E sugou com mais força, quase como se o chamasse. Jun cedeu. O orgasmo veio como uma explosão, arrancando-lhe um grito surdo. Akihiro não se afastou. Engoliu tudo, saboreando cada espasmo, a boca ainda provocando-o mesmo após o clímax, até que Jun se desfizesse por completo debaixo dele — trêmulo, mole, exausto.
Os dedos do alfa deixaram seu interior, e Jun gemeu com a perda, ainda ofegante, o peito subindo e descendo em arfar errático. Seu corpo estava sensível, vulnerável, mas ainda faminto.
Akihiro se afastou por um momento, mas apenas o suficiente para agarrar sua cintura, mordiscando o pescoço de Jun com urgência enquanto se posicionava entre suas pernas. Seus quadris se moviam, inquietos, como se a qualquer instante fosse perder o controle.
O pênis roçou a entrada de Jun, e sua respiração falhou. O corpo inteiro se retesou em resposta instintiva.
Jun agarrou os ombros de Akihiro, o corpo trêmulo, as pernas se enroscando ao redor dele numa súplica muda.
Com um só movimento deliberado, Akihiro penetrou-o. Jun soltou um gemido rouco, o corpo se arqueando na cama.
— Tão apertado — rosnou Akihiro, a voz tensa e rouca. — Mas você me recebe tão bem.
Os quadris se moviam num ritmo firme, cada vez mais fundo, cada investida fazendo Jun ofegar com mais força. Suas mãos agarravam os ombros do alfa como se fossem seu único alicerce. A sensação de ser preenchido era profunda, devastadora. Cada nervo ardia sob o toque, e o atrito constante o mantinha no limite.
O ritmo se intensificou. Akihiro movia-se com mais velocidade, o som de seus corpos se encontrando preenchendo o quarto abafado pela intensidade do rut. A respiração de Jun vinha em arfadas curtas, sem fôlego, o corpo reagindo sem controle.
— Você fica lindo assim — murmurou Akihiro, a voz falhando entre investidas. — se desfazendo pra mim.
Jun ergueu os olhos, verdes e brilhantes, fixando os dele. Sentia o corpo de Akihiro tenso sobre o seu, o calor pulsando entre os dois. O clímax se formava de novo, crescente, quase doloroso, e quando veio, foi violento. Gozou com um gemido estrangulado, o corpo se curvando, convulsionando sob o peso do prazer.
Os quadris de Akihiro fraquejaram, a respiração dele vinha em arfadas erráticas. Segundos depois, ele também atingiu o ápice, enterrando-se fundo com um rosnado abafado. Desabou sobre Jun, os corpos colados, as respirações misturadas, quentes, intensas.
Por um instante, tudo ficou em silêncio. Apenas os dois. Entrelaçados, saciados e ainda pulsando um no outro.
—–
O corpo de Jun parecia incendiar-se, cada nervo aceso sob a força bruta do rut de Akihiro. Os movimentos do alfa haviam perdido qualquer vestígio de controle — urgentes, dominados por um instinto cru, primitivo. A respiração de Jun se tornava cada vez mais curta, suas mãos afundando nos lençóis enquanto os quadris de Akihiro se chocavam contra os seus, fortes o bastante para fazer sua visão vacilar.
— Ah… Akihiro…! — a voz de Jun falhou, o nome escapando num gemido que se dissolveu quando algo diferente o atingiu. Mais profundo. Mais intenso. Era como se Akihiro tivesse alcançado uma parte dele que ninguém jamais tocara, e a sensação o despedaçou por dentro. Seu corpo estremeceu; suas pernas se apertaram ao redor da cintura do alfa, como se quisessem retê-lo ali, prendê-lo dentro de si.
“Será que isso…” — sua mente lutava para acompanhar enquanto o prazer o atravessava em ondas cruas — “ele está… me atando?”
Não tinha certeza, mas a pressão, o preenchimento, eram diferentes de tudo o que já sentira. Era como se Akihiro tivesse tocado um ponto destinado a ser ocupado, e agora, tomado, Jun não conseguia sequer imaginar o vazio novamente. A respiração quente de Akihiro roçava seu pescoço, seus lábios percorrendo a pele sensível enquanto um rosnado grave, quase animal, vibrava entre eles.
— Você sente, não sente? — a voz de Akihiro era rouca, áspera, tomada por uma possessividade primitiva. — Sente o quanto estou fundo dentro de você.
Jun fechou os olhos, a cabeça caindo para trás, e assentiu com um suspiro entrecortado.
— Eu… sinto. Está tão fundo… — conseguiu dizer, a voz trêmula e embargada.
A mão do alfa deslizou por seu corpo até o ventre, os dedos pressionando levemente a protuberância sutil que se formava ali — a evidência inegável de quão profundamente Akihiro havia chegado. Ele está me atando, concluiu Jun, o pensamento tingido de medo, mas também de uma alegria silenciosa. Está me reivindicando.
— Ainda não é o suficiente — murmurou Akihiro, sua voz baixa provocando um arrepio gelado na espinha de Jun. — Quero ir mais fundo. Quero preenchê-lo inteiro.
Jun arregalou os olhos, o coração batendo descompassado.
— Aki… Hiro… — sussurrou, estremecendo quando os lábios de Akihiro desceram por seu peito, os dentes roçando a pele logo acima do quadril. — Desta vez… sem camisinha… Se você… gozar dentro de mim, eu posso…
Akihiro o silenciou com um beijo profundo e impaciente, a língua invadindo sua boca com uma fome que embaralhou seus sentidos.
— Eu preciso de você… de tudo em você — murmurou contra seus lábios, com a voz rouca e carregada de urgência.
O coração de Jun martelava em seu peito, seu corpo implorava por rendição, mas algo dentro dele ainda resistia — uma última dúvida, um resquício de racionalidade.
— Akihiro… eu posso engravidar — sua voz saiu baixa, quase um sussurro, enquanto as mãos do alfa deslizavam por suas laterais, puxando-o para mais perto.
O silêncio que se seguiu foi denso. Apenas as respirações irregulares preenchiam o espaço entre os dois.
Então Akihiro sorriu — um sorriso lento, quase predatório.
— Então engravide — rosnou, a voz grave e imersa em uma certeza inabalável.
A respiração de Jun travou na garganta. Um bebê. A ideia deveria tê-lo alarmado, deveria tê-lo feito recuar… mas, em vez disso, uma ternura suave se espalhou por seu peito. Ele queria aquilo. Um filho de Akihiro. Um laço definitivo, mais forte que qualquer nó.
Mas ele não disse. Não conseguia. Apenas olhou para Akihiro, olhos arregalados e vulneráveis, e sussurrou:
— E se você não quiser?… Se um dia se arrepender… isso me destruiria.
Os olhos de Akihiro brilharam com uma intensidade feroz. Seu olhar se fixou no de Jun com uma clareza que o fez esquecer do mundo ao redor.
— Eu gosto de você, KwonJun. E, por mim, tudo bem ter um filho. Se você quiser uma família… eu te darei uma. Se quiser engravidar, eu vou te engravidar. Vou enchê-lo com minha semente, e você carregará o meu filho.
Jun gemeu, o som escapando de seus lábios antes que pudesse sequer pensar. O movimento dos quadris de Akihiro se aprofundou de forma instintiva, tocando em lugares dentro dele que o fizeram se arquear.
A pressão era brutal — um prazer insuportavelmente delicioso — e, mesmo assim, ele não queria que parasse. Queria mais. Precisava de mais.
— Ah… Akihiro, por favor… — implorou, a voz entrecortada, os dedos cravando nas costas do alfa. O nó dentro dele estava se formando, inchando, puxando-os um para o outro como se seus corpos fossem feitos para se fundirem. — É… é demais…
— Não — rosnou Akihiro, a voz rasgando no peito, crua de desejo. — Não é o bastante.
Jun estremeceu. Aquelas palavras, ditas com tanta convicção, o rasgaram por dentro de um jeito obscenamente bom. O nó de Akihiro pressionava um ponto profundo e escondido em seu interior, e ele sabia — o alfa ia se prender ali. Ia se enraizar. Ia preenchê-lo por completo.
— Akihiro… — gemeu, o corpo trêmulo enquanto sentia o ritmo de Akihiro tornar-se errático, a urgência atingindo o limite.
— Sim — respondeu ele, ofegante, a voz carregada de desejo bruto. — Eu vou gozar dentro de você. Vou colocar um bebê nessa barriga linda.
O mundo de Jun se partiu em ondas de prazer quando o nó de Akihiro inchou, travando-os. Ele sentiu o calor se derramar dentro de si, intenso, íntimo — e, por um instante, tudo desapareceu, restando apenas a sensação de ser completamente tomado.
— Ah… Akihiro! — Jun gritou, a voz embargada quando seu próprio orgasmo o atingiu com uma força que o deixou ofegante.
Podia sentir a semente do alfa enchendo-o, quente e espessa. Sentia o nó pressionando fundo dentro dele, selando aquele momento — talvez o instante exato da concepção — e o prazer foi tanto que quase doeu.
— Meu — Akihiro rosnou contra sua pele, com a voz rouca e possessiva, antes de deixar o corpo cair sobre o de Jun. — Você é meu, Jun. Para sempre.
A respiração de Jun vinha em suspiros rápidos, o corpo ainda estremecia sob ele. Seus braços se apertaram ao redor de Akihiro, mantendo-o perto. Ele era dele agora. Em todos os sentidos que importavam.
E quando sentiu o calor ainda derramando-se dentro de si… soube que nunca mais estaria sozinho.
—–
O corpo de Akihiro era uma fornalha viva, a pele escorregadia de suor enquanto ele se estirava na cama, o peito subindo e descendo em respirações curtas e aceleradas. Jun pairava sobre ele, a preocupação gravada nas feições delicadas enquanto pressionava uma toalha úmida contra a testa do alfa. O quarto parecia saturado — denso de abafamento, de cheiro, de almíscar e sexo, com o ar quase vibrando ao redor dos dois.
— Você está queimando — murmurou Jun, com a voz trêmula, deslizando a toalha até o pescoço de Akihiro, enxugando o suor que se acumulava na curva da clavícula. Um adesivo gelado já estava colado em sua testa, na tentativa de controlar a febre que o consumia.
O rut de um alfa não era uma lenda. Jun ouvira histórias, mas vivê-lo era uma outra realidade — crua, visceral. O corpo de Akihiro era puro instinto, e acompanhá-lo exigia tudo que Jun podia oferecer.
Um gemido rouco escapou de Akihiro antes que seus olhos se abrissem, turvos e desalinhados com o presente.
— Jun… — A voz soou partida, tensa, como se já tivesse gritado seu nome incontáveis vezes. A mão dele se esticou às cegas, os dedos roçando a coxa de Jun, pedindo por contato.
— Você precisa descansar — insistiu Jun, tentando manter a firmeza na voz, apesar do coração acelerado. Ele se afastou ligeiramente, pegou outra toalha da mesa de cabeceira e a passou pelo peito febril do alfa, cujos músculos ainda tremiam sob seus cuidados suaves.
— Não preciso descansar — murmurou Akihiro, a mão deslizando com mais firmeza pela coxa de Jun, os dedos apertando a carne sensível. — Preciso de você.
Jun conteve o fôlego, o rosto tingido de rubor. Ainda assim, balançou a cabeça em negativa, determinado.
— Fique quieto, está bem? Me deixe cuidar de você.
Seus dedos afundaram devagar nos cabelos úmidos de Akihiro, acariciando-os com gentileza. O peito do alfa subia e descia com mais regularidade agora. O olhar âmbar permanecia cravado no rosto de Jun, menos voraz do que antes, mas carregado de um afeto intenso, algo mais bruto que ternura.
— Você é bom demais pra mim — disse Akihiro, rouco, com uma suavidade que surpreendeu Jun. Ele o puxou para mais perto e seus lábios se encontraram num beijo lento, denso, quase reverente.
Jun se inclinou, cedendo, o corpo se moldando ao do alfa com naturalidade. Akihiro o girou sobre o colchão, puxando-o para seu colo, encaixando Jun entre suas pernas enquanto o abraçava por trás. Deitados assim, os corpos se encaixavam como peças esculpidas um para o outro.
As mãos de Akihiro já vagavam, ávidas, provocando arrepios na espinha de Jun a cada toque.
— Eu preciso de você — rosnou ele, a voz baixa, rouca de desejo. Sua ereção, pulsante, pressionava as coxas de Jun com insistência ardente.
Jun hesitou. Seu corpo ainda pulsava com a lembrança do que haviam feito, sensível, exausto. Mas era tarde demais para resistir.
As mãos de Akihiro apertaram as nádegas de Jun, afastando-as para expor sua entrada úmida — lambuzada tanto por sua própria lubrificação quanto pelo sêmen quente de Akihiro. Com um gemido contido, o alfa empurrou os dedos para dentro, fazendo Jun se arquear com a sensibilidade.
Akihiro respirou fundo e, em um movimento lento e deliberado, pressionou seu membro contra a entrada de Jun até afundar. O corpo de Jun cedeu, tenso e maleável, esticando-se para acomodá-lo por completo. Um gemido trêmulo escapou de seus lábios, enquanto se movia devagar, sentindo cada centímetro ser preenchido.
As mãos de Akihiro seguraram firme seus quadris, os olhos escuros como breu, intensos de luxúria. Jun sentia tudo — o calor, a pressão, a queimação sutil — e o prazer se acumulava como uma onda prestes a romper.
Com uma mordida suave na bochecha de Jun, Akihiro o beijou logo em seguida, depois ergueu uma de suas pernas, dando-lhe um novo ângulo. Começou a se mover.
O quarto se encheu com o som ritmado de seus corpos se chocando, os gemidos abafados de Akihiro se fundindo aos suspiros entrecortados de Jun.
— Akihiro — gemeu Jun, a voz embargada. — Estou tão perto…
O alfa rosnou em resposta, as investidas se tornando mais urgentes. Puxou Jun pelos ombros e capturou seus lábios num beijo intenso, fazendo-o virar o pescoço, ofegante.
Jun gemeu contra sua boca, o corpo tremendo, tentando desacelerar para prolongar o clímax iminente. Sentia o pênis de Akihiro latejar dentro de si, a base engrossando.
Quando o nó se formou, prendendo-os juntos com força, Jun gritou, o corpo arqueando-se com a pressão.
Akihiro o envolveu com os braços, abraçando-o contra si enquanto ambos eram arrastados pelas ondas do orgasmo. Jun enterrou o rosto em seu pescoço, a respiração em arfadas curtas, enquanto o nó do alfa pulsava, derramando-se profundamente.
— Você fez isso de propósito — acusou Jun, a voz abafada contra sua pele. — Só pra me manter aqui.
Akihiro soltou uma risada baixa, preguiçosa, lambendo as marcas que deixou no pescoço de Jun.
— Talvez — murmurou, a voz carregada de presunção.
Jun suspirou, o corpo ainda trêmulo.
Os braços de Akihiro se apertaram ao redor dele.
—–
Akihiro despertou com o corpo pesado e lânguido, ainda sob os efeitos residuais do rut. O quarto permanecia imerso na penumbra, iluminado apenas pela luz tênue que atravessava as cortinas, derramando um brilho suave sobre os lençóis desalinhados. Seus sentidos retornaram aos poucos, e a primeira coisa que notou foi o peso repousando sobre seu peito.
Baixou os olhos. Jun dormia profundamente sobre ele, os longos cabelos loiros espalhados sobre seu tronco como uma cascata de fios dourados.
A pele de Jun estava salpicada de marcas — chupões, mordidas, arranhões —, vestígios vívidos da intensidade dos últimos dias. O peito de Akihiro se apertou diante daquela visão. Ele parecia exausto. A culpa se insinuou em seu estômago, mas logo foi eclipsada por uma constatação mais urgente.
“Que merda…” — Ele ainda estava dentro de Jun.
Embora o nó já houvesse desfeito há muito tempo, ainda permanecia enterrado no calor dele — um lembrete físico, íntimo e silencioso de até onde haviam ido.
Akihiro moveu-se com delicadeza, tentando não despertá-lo. Tarde demais.
Os cílios de Jun se agitaram, e um som baixo e rouco escapou de sua garganta quando começou a recobrar a consciência. Seus olhos âmbar, ainda turvos de sono, encontraram os de Akihiro. Por um instante, nenhum dos dois disse uma palavra. Então, os lábios de Jun se curvaram num sorriso preguiçoso, satisfeito.
As bochechas de Akihiro tingiram-se de vermelho. Não era comum que se sentisse envergonhado, mas vê-lo tão marcado, tão completamente seu — somado ao fato de que ainda permanecia dentro dele — apertou-lhe o peito de um modo novo e inexplicável.
— Jun… como você está?
A voz de Akihiro saiu baixa, quase um sussurro, carregada de hesitação e culpa. Jun piscou algumas vezes, os olhos ainda enevoados pela sonolência, depois esticou os braços com preguiça e gemeu baixinho ao se mover, sentindo imediatamente o incômodo no corpo.
— Dolorido… — murmurou, com um sorriso enviesado e quase provocador. — Mas vivo.
Akihiro arregalou os olhos.
— Dolorido?! Que tipo de dor? Dor muscular? Ou… dor interna? — Ele já estava se erguendo, completamente alarmado, mesmo que o próprio corpo protestasse, exausto. — Deveríamos ir ao hospital?
Jun arregalou os olhos, surpreso pelo pânico súbito que brotava em Akihiro como uma flor desesperada.
— Akihiro… calma.
— Eu estava fora de mim, Jun. E a gente fez isso por dias! E… isso são mordidas? — rebateu ele, os cabelos em desalinho e uma expressão de genuíno pavor surgindo no rosto.
Jun o encarou por um segundo, depois fechou os olhos e soltou uma risada abafada contra o peito dele.
— Eu sei que foi por dias, Akihiro… E sim, você me mordeu
— Isso não é engraçado! — Akihiro rebateu, escandalizado. — E se você nunca mais conseguir andar direito? E se os músculos das suas pernas entrarem em colapso? Eu li sobre isso. Um colapso muscular causado por esforço excessivo!
Jun soltou um gemido teatral e caiu de novo sobre o peito do alfa, enterrando o rosto ali com um suspiro.
— Se você continuar falando assim, vou mesmo acabar precisando de repouso prolongado. Você está muito… barulhento.
Akihiro ficou em silêncio por um segundo, os olhos arregalados, e então perguntou com sinceridade absurda:
— Você está sensibilidade auditiva? É um sintoma de exaustão.
Jun estalou a língua, impaciente, e esticou o braço para alcançar um travesseiro e jogá-lo contra o rosto dele.
— Para de falar, antes que eu passe a realmente me arrepender de ter sido tão generoso com você.
O travesseiro ricocheteou na cabeça de Akihiro e caiu no chão com um baque surdo. Jun se aconchegou novamente, como se pretendesse entrar em coma por tempo indeterminado.
Akihiro olhou para o teto, um tanto perplexo, ainda tentando decidir se deveria chamar uma ambulância ou apenas trazer uma bandeja com café da manhã e um pedido formal de desculpas.
— Me avisa se você começar a ver estrelas ou se sentir tontura ou se perder os movimentos das pernas, a fala… Ou se seu batimento cardíaco começar a acelerar… ou se você esquecer seu nome. Isso seria preocupante.
Akihiro finalmente calou-se. E por um breve, glorioso momento, o quarto mergulhou em paz — até ele resmungar em voz baixa, mais para si mesmo do que para Jun:
— Talvez eu devesse medir sua pressão…
Jun soltou um gemido arrastado, enfiando a cabeça debaixo do cobertor.
E pela primeira vez em horas, Akihiro deu uma risada abafada. Talvez Jun estivesse mesmo bem — bem o suficiente para ameaçá-lo com assassinato logo depois de sobreviver ao seu rut.
Era um bom sinal.
Quando Akihiro começou a sair de dentro dele, o movimento fez Jun estremecer visivelmente. Seu corpo ainda trêmulo, sensível ao toque mais sutil, quase implorou por uma pausa.
— Espera… — pediu ele, a voz fraca, mas firme o suficiente para conter o outro por um momento.
E então, como se cedendo ao próprio peso do instante, o sêmen quente começou a escorrer lentamente, marcando a pele pálida de Jun com um rastro viscoso. Ele arfou com a sensação, os músculos do ventre contraindo involuntariamente, como se cada centímetro do corpo estivesse ainda em reverberação.
Akihiro congelou por um instante, os olhos arregalando-se levemente ao ver o líquido escorrendo de dentro de Jun — uma imagem demasiadamente íntima, crua, quase brutal em sua natureza. Um nó se formou em sua garganta.
— Jun… — murmurou, com a voz subitamente tensa, trêmula. — Isso foi demais. Eu… Nós não usamos… merda.
Jun soltou um som abafado de protesto sob o cobertor, movendo-se apenas o suficiente para erguer um dos braços e fazer um gesto vago, como se afastasse fisicamente a preocupação do outro.
Akihiro já estava em pânico. Aquele tipo de pânico silencioso, quase metódico, que vinha com o hábito de racionalizar tudo — e falhar miseravelmente quando se tratava de Jun. Passou a mão pelos próprios cabelos, sentando-se na cama como se estivesse prestes a procurar um médico no meio da madrugada.
— Você sente alguma coisa estranha? Tipo, cólica? Náusea? Formigamento nas extremidades?
— Eu sinto cansaço. — respondeu Jun, seco, a voz abafada debaixo do cobertor. — Um formigamento leve no cérebro de tanto ouvir você falar.
Akihiro ignorou solenemente a provocação. Inclinou-se de novo, agora com uma das mãos deslizando pela barriga de Jun, como se procurasse algo — uma protuberância mínima, um sinal, qualquer coisa.
— Me diz se estiver sentindo dor aqui, ou pressão. Ouvi dizer que às vezes o útero de um ômega se prepara para uma quantidade grande. E se tiver causado alguma irritação interna? Ou se houver acúmulo demais? Isso pode sobrecarregar o…
Jun tirou o cobertor de cima do rosto com violência cômica, os olhos semicerrados e fulminantes.
— Akihiro.
— O quê?
— Para de apertar minha barriga como se fosse um pão recheado prestes a estourar.
Akihiro piscou, sem soltar de imediato.
— Mas…
— Mas nada — cortou Jun, com a voz rouca, firme, porém embargada pelo cansaço
Ele ergueu as mãos devagar, tocando o rosto de Akihiro, e o puxou para um beijo breve, quente e trêmulo. Quando se afastou, apertou suavemente as bochechas do outro, encarando-o com os olhos semicerrados e uma expressão exausta, mas sincera.
— Eu estou bem… — murmurou. — Vou me recuperar…. Você não precisa se sentir culpado. Se eu não tivesse aguentado, teria te impedido… como prometi.
A respiração dele ainda vinha entrecortada, os músculos trêmulos e a pele sensível ao menor toque, mas havia convicção em sua voz.
— E se você me cutucar mais uma vez, Akihiro, eu juro… nunca mais vamos transar. No rut ou fora dele.
Houve uma pausa curta, seguida por um suspiro resignado de Akihiro, que recuou um pouco, mas não deixou de encará-lo com os olhos ainda cheios de angústia.
— Eu só… Eu devia ter sido mais cuidadoso. — Jun bufou, agora esfregando o rosto com as mãos, vencido pelo drama alheio. — E se você engravidar?
— Eu não vou.
— Como sabe?
Jun o encarou por cima da mão, exasperado, os cabelos loiros bagunçados como se tivessem travado uma guerra com o lençol.
— Porque, antes do seu rut, eu tomei uma injeção de bloqueio. Daquelas de ação rápida. Presumindo que você estaria muito fora de si para usar camisinha.
O alfa ficou em silêncio. Um longo suspiro de alivio ao saber que Jun se preveniu quando ele não podia. Akihiro o fitou por mais alguns segundos, claramente dividindo-se entre a vergonha e a indignação. Depois, deixou-se cair de costas ao lado dele, encarando o teto.
— Eu achei que a gente tinha feito um bebê.
Jun sorriu devagar, os olhos se fechando.
— Você fez um escândalo, isso sim. Se eu engravidar, você vai descobrir quando eu começar a vomitar.
— Isso não é reconfortante.
Jun não se deu ao trabalho de abrir os olhos. O corpo ainda pesava, moldado contra os lençóis e contra o calor silencioso de Akihiro. Este, por sua vez, soltou um resmungo baixo, levando uma das mãos ao próprio rosto e cobrindo os olhos com os dedos como se quisesse apagar a imagem mental que a fala de Jun acabara de pintar.
— Vou encher a banheira — anunciou, após um breve silêncio. A voz firme, mas comedida, carregava uma exaustão que Jun conhecia bem, a mesma que se instala depois do prazer vertiginoso.
Jun abriu um olho, sorrindo com a língua presa entre os dentes.
— Vai me levar pra lá? Porque eu não vou me mexer.
Akihiro respondeu sem hesitar, já se erguendo.
— Eu te carrego.
Jun riu baixinho, voltando a fechar os olhos enquanto escutava os passos de Akihiro sumirem pelo corredor. O som da água sendo liberada logo preencheu o apartamento, abafado pela porta semiaberta do banheiro. Akihiro girou os registros da banheira e inclinou o rosto, sentindo o vapor começar a se erguer sutilmente com o calor da água.
Fazia tempo desde a última vez que usara a banheira. Tempo demais.
Por um instante, apenas observou enquanto ela se enchia, como se estivesse desenterrando uma antiga promessa de conforto esquecida ali. Depois, se aproximou das gavetas da pia, abrindo-as uma a uma. Havia ali uma seleção modesta de frascos antigos: sais de banho, óleos aromáticos e pequenos frascos de fragrâncias que ele mal se lembrava de ter comprado. Escolheu uma essência amadeirada com notas de lavanda e musgo — algo discreto, mas reconfortante — e despejou uma pequena quantidade na água, observando as primeiras ondulações se tingirem com um leve véu esbranquiçado e perfumado.
O ar do banheiro começou a mudar. Ficou mais úmido, mais denso, envolvido por aquele aroma que parecia apagar o mundo lá fora.
Quando a banheira finalmente se encheu, Akihiro desligou a água e passou a mão pela borda para testar a temperatura. Estava no ponto. Respirou fundo antes de sair dali, e, ao voltar ao quarto, encontrou Jun do mesmo jeito — afundado nos lençóis, o peito subindo e descendo num ritmo preguiçoso, as pálpebras cerradas.
Por um momento, Akihiro apenas observou.
A penumbra suave do quarto delineava os contornos do corpo de Jun, revelando a vulnerabilidade exposta após horas de entrega. Ele estava marcado — não apenas com o sêmen que escorrera aos poucos, colando-se à pele e aos lençóis, mas com aquela languidez que só se vê quando o corpo é levado ao limite, esvaziado e cheio ao mesmo tempo.
Akihiro se aproximou da cama e afastou as cobertas com cuidado, revelando a nudez morna de Jun. Com a ponta dos dedos, tocou entre as coxas do outro, pressionando devagar a região ainda sensível.
— O que está fazendo? — murmurou Jun, o corpo contraindo-se levemente ao sentir o toque.
— Limpando você… antes do banho.
— Mas… vai escorrer na cama… vai sujar…
— Ela já está suja — respondeu, com voz baixa. — Depois de tudo o que fizemos, isso é o de menos.
Com movimentos lentos, quase reverentes, Akihiro começou a limpar os vestígios da noite que ainda manchavam a pele do outro. Seu toque deslizava com precisão contida, acompanhando os contornos do quadril, descendo até onde o corpo ainda pulsava de sensibilidade. Quando os dedos encontraram o líquido morno escapando lentamente de dentro dele, Jun arqueou um pouco, um espasmo involuntário percorrendo-lhe o ventre.
Akihiro sentiu uma fisgada surda — uma mistura amarga de culpa, cuidado e um fascínio que lhe apertava o peito. Pressionou de leve o abdômen inferior de Jun, e a carne cedeu com suavidade, revelando o inchaço e a dor discreta que ainda restavam ali. Jun gemeu baixo, entre o incômodo e o resquício de prazer, os olhos cerrados, o rosto virado contra o travesseiro.
— Ainda está sensível… — sussurrou Akihiro, mais para si mesmo.
Jun respirava entrecortado. Seu corpo reagia a cada toque, ora contraindo-se, ora cedendo, os músculos tensionando com uma vulnerabilidade silenciosa que deixava tudo ainda mais íntimo. Não havia resistência, apenas entrega exausta.
Akihiro hesitou por um breve momento. A intimidade daquele cuidado era quase insuportável em sua ternura crua, mas ele não recuou. Continuou, atento ao menor sinal de desconforto, limpando com delicadeza a região dolorida. Era mais do que um gesto prático — era uma súplica muda, um pedido de perdão sem voz, tecido nos dedos que tocavam como se reconhecessem cada centímetro que haviam marcado.
— Acho que agora está limpo — murmurou por fim, limpando os dedos com desatenção no lençol manchado, como se aquele detalhe fosse irrelevante diante do que partilhavam.
Então, com um último olhar, deslizou os braços sob o corpo exausto do outro e o envolveu, os braços firmes deslizando sob o corpo de Jun com uma facilidade quase prática, mas ainda assim gentil. Ergueu-o contra o peito, ignorando qualquer protesto sutil do outro — embora, naquele momento, Jun estivesse mais rendido que resistente.
O vapor quente do banheiro os envolveu ao entrarem. A banheira estava quase cheia, espuma acumulada nas bordas, com um aroma suave de lavanda e alguma essência de sândalo que Akihiro encontrara nas gavetas esquecidas da pia. Era a primeira vez que a usava em muito tempo. A água fumegante parecia convidativa até para ele.
Akihiro acomodou Jun com cuidado dentro da banheira, apoiando-o com os braços até que o corpo submergisse devagar, sentando-se com os joelhos dobrados, o peito arfando com o contraste entre o calor da água e a sensibilidade da própria pele. Jun suspirou, os olhos se fechando por um instante, permitindo-se ceder à sensação morna e reconfortante.
Akihiro se ajoelhou ao lado da banheira e começou a espalhar a espuma sobre os ombros e as costas dele, os dedos se movendo com gentileza, como se quisesse diluir qualquer dor residual em gestos silenciosos.
— Você não vai entrar também? — murmurou Jun, com os olhos semicerrados, observando-o de lado.
— Depois que você terminar — respondeu ele, enxaguando a esponja com água quente.
Jun o observou por um momento. Então, como quem toma uma decisão irônica, encheu uma das mãos com água e lançou um respingo sobre a cabeça de Akihiro, que escorreu pelo rosto dele, encharcando seus cabelos escuros.
— Agora você já tá molhado. Entra logo.
Akihiro lançou-lhe um olhar entre exausto e resignado, mas cedeu. Levantou-se e, sem pressa, juntando-se a ele na banheira. A água subiu, transbordando um pouco pelas bordas quando ele se acomodou atrás de Jun, puxando-o gentilmente contra o peito, de modo que o corpo menor repousasse entre suas pernas.
Durante um tempo, nenhum dos dois falou. O vapor preenchia o ar, e o som suave da água mexida por movimentos lentos soava como o único elemento vivo naquele espaço. Akihiro retomou o gesto de lavar o corpo de Jun, agora com mais calma, escorrendo espuma pelos ombros, pelos braços e costas, até alcançar as pernas. Suas mãos se moviam com o mesmo cuidado de alguém que tenta conservar algo precioso em silêncio.
— Akihiro…? — murmurou Jun, rompendo a quietude com voz baixa.
— Hm?
— Seria… tão ruim assim se eu engravidasse?
Akihiro manteve-se em silêncio por um momento, como se suas sinapses estivessem ainda tentando assimilar a pergunta. O silêncio se prolongou alguns segundos antes de ele soltar um som abafado, cobrindo o rosto com as mãos.
— Não acredito que eu disse aquelas coisas… — murmurou.
— “Te encher com minha semente, te dar uma família, fazer de você meu…” — Jun citou, entre risos suaves. — Um verdadeiro poeta romântico. — Akihiro suspirou em protesto e Jun se virou ligeiramente para encará-lo com um sorriso malicioso, os cabelos encharcados colando-se à testa. — Devíamos ter conversado sobre isso antes de você me destruir completamente, não acha?
Akihiro expirou, resignado.
— Justo. — Resmungou ele, tirando devagar as mãos do rosto, ainda visivelmente constrangido.
Jun se recostou outra vez, acomodando-se contra ele, permitindo-se ser tocado com a mesma ternura que antes. Akihiro ficou em silêncio por um instante mais longo, como se buscasse as palavras certas, ou talvez coragem para admiti-las.
— A verdade é que… eu nunca pensei muito em filhos. Não de verdade. Nunca tive uma relação que justificasse esse tipo de plano, entende? — Ele deslizou a mão até pousá-la, quase com reverência, sobre o ventre submerso de Jun. — Mas agora… não sei. Talvez não pareça tão absurdo. Principalmente se você… já estiver grávido.
Jun sorriu outra vez, os olhos se fechando com a tranquilidade de quem, enfim, permitia-se imaginar.
O calor da água, a firmeza daquele toque e a vulnerabilidade crua de Akihiro faziam tudo parecer possível. Até mesmo criar uma vida ali, entre as cinzas do que restava deles mesmos.
E por ora, isso bastava.
Capítulo 15
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Laços em Carmesim
Akihiro Hanamura sempre acreditou que laços afetivos não passavam de ilusões passageiras – convenções sociais frágeis que encobriam a inevitável falência das relações humanas. Como...