Laços

Laços em Carmesim

Capítulo 2 - A primeira intersecção

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📌 Nota da Autora

📖 Esta obra, Laços Carmesim, está diretamente ligada ao universo de Encoleirado em Carmesim, que acompanha a história de Himeko, uma alfa, e Rurihito, um ômega.

⚠️ Importante:
🔗 A versão completa e original está disponível no AO3 (Archive of Our Own).
🔗 A versão publicada no Wattpad é adaptada.

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——

Pouco depois do Natal

O cheiro de sangue impregnava-lhe as roupas, entranhado até o mais fino fio do tecido como uma lembrança persistente da noite anterior. Akihiro encostou as costas contra a parede fria de concreto, os músculos protestando a cada movimento, como se seu corpo tivesse sido esmagado sob o peso de um trem em marcha lenta. A camisa preta estava rasgada na altura do ombro esquerdo, expondo um corte ainda maltratado e pulsante. Um filete de sangue seco descia da sobrancelha, onde a pele fora partida num confronto breve, mas brutal.

Com dedos ainda trêmulos da adrenalina tardia, ele puxou um cigarro amassado do bolso e o acendeu, tragando fundo. A fumaça densa rasgou-lhe a garganta e encheu os pulmões de um alívio corrosivo. Não se importava com a dor, com o sangue, com os hematomas espalhados sob a pele. Nada disso tinha importância agora.

A imagem que não conseguia afastar da mente era a de Himeko — a expressão contida em seu rosto quando soube do sequestro de Rurihito. Ele já a tinha visto furiosa, já a vira ordenar mortes com a serenidade de quem recita um número de telefone. Mas aquilo era diferente. Havia um silêncio febril em seus olhos, uma fúria crua que ameaçava transbordar a qualquer momento, como o céu antes da tempestade.

Ela não estava apenas irritada. Estava disposta a destruir.

Akihiro pensava conhecê-la. Pensava saber até onde sua irmã seria capaz de ir por alguém. Ele duvidou quando Himeko contou, meses atrás, que o ômega morava com ela. Riu, inclusive. Achou que fosse mais um de seus caprichos temporários, uma distração conveniente. Mas Rurihito havia partido — e a ausência dele não deixara apenas um espaço vazio. Deixara um rombo. Um buraco que nem mesmo o orgulho de Himeko conseguia disfarçar.

Ela não chorou. Himeko não era feita de lágrimas. Mas sua raiva falava por ela, e dizia mais do que qualquer lamento. Perder Rurihito era, para ela, inaceitável. Inconcebível.

E Akihiro sabia o que precisava fazer.

Não porque compreendia, não porque aceitava os sentimentos que pareciam guiar a irmã. Mas porque ela era Himeko. E isso bastava.

A luta daquela noite fora feia. Informação nunca vinha sem custo, e, naquele submundo em que ambos aprenderam a respirar, às vezes era necessário derramar sangue para obtê-la. Ele não hesitou em se ferir. Era um preço baixo a pagar em comparação à sombra que se instalava nos olhos da irmã sempre que o nome de Rurihito era pronunciado.

Tragou mais uma vez. A brasa do cigarro reluzia como um pequeno farol na penumbra. Jogou a cabeça para trás e soltou o ar, observando as luzes da cidade cintilarem distantes, alheias à violência que ainda pulsava sob sua pele.

Não entendia o que havia de tão especial naquele garoto.

Mas, se ele era importante para Himeko… então, por mais absurdo que parecesse, Akihiro o traria de volta.

—–

O cheiro metálico do sangue enchia o interior do carro como um presságio abafado. O silêncio era preenchido apenas pelas respirações trêmulas de Rurihito e pelos sons frágeis que escapavam de Himeko, inconsciente, em seus braços. Akihiro mantinha os olhos fixos na estrada, os postes passando como lâminas de luz sobre o para-brisa. Evitava olhar para o banco de trás, mas o retrovisor o traía, revelando uma imagem que o desconcertava.

Rurihito segurava Himeko com uma delicadeza desesperada, as mãos manchadas pressionando o ferimento dela. O sangue empapava-lhe a calça, escorrendo em sulcos escuros pelo banco, mas ele sequer parecia notar. Seus olhos estavam arregalados, a pele pálida, os lábios entreabertos num sussurro de pânico que não se transformava em voz.

O que perturbava Akihiro, contudo, não era o sangue, nem o risco. Era a maneira como Rurihito a olhava. E, mais ainda, a expressão que viu estampada no rosto de Himeko antes de perder os sentidos — algo entre vulnerabilidade e um tipo primitivo de devoção.

Era real.

Himeko, aquela mulher feita de aço e silêncio, havia arriscado tudo por aquele garoto.

A ideia doía. Era como assistir à ruína lenta de uma estátua outrora inquebrantável.

— Aguentem firme, porra — rosnou, afundando ainda mais o pé no acelerador. Não sabia para quem falava. Talvez para os dois. Talvez para si mesmo.

—–

O hospital era uma mancha de luzes e vozes apressadas. Em poucos segundos, médicos os separaram, levando Himeko e Rurihito por corredores distintos. Alguém o puxou para o lado, insistindo que fosse tratado, mas ele mal ouviu. Seus próprios ferimentos eram insignificantes. Cortes, hematomas — coisas que não exigiam sequer pontos.

Mas quando viu as portas de emergência se fecharem atrás deles, uma sensação gélida se cravou em seu estômago.

Pela primeira vez em muitos anos, Akihiro teve medo de perder a irmã.

E, ainda mais surpreendente… percebeu que temia também por Rurihito.

—–

A revelação veio enquanto Himeko e Rurihito estavam no hospital, envolta em silêncios e olhares que evitavam se encontrar. Quando Himeko lhe contou, a voz soando mais áspera do que de costume, Akihiro não soube como reagir. A palavra ficou presa em sua mente como um estilhaço:

Gravidez.

Rurihito estava grávido.

Ele precisou de tempo para absorver aquilo. Ainda o via como um garoto perdido, lançado no mundo brutal de Himeko sem ao menos saber nadar. Um acidente. Um erro de cálculo. Mas agora, esse mesmo garoto carregava uma vida.

E Himeko não sabia o que fazer com isso.

Akihiro compreendia sua irmã como poucos. Sabia o quanto ela havia se despido de certezas, o quanto mergulhara em territórios que antes repudiava, apenas para encontrá-lo. Viu quando ela começou a ceder. Viu quando cruzou limites que sempre jurou não atravessar.

Agora, não havia mais volta.

Ele sempre zombara daquela relação, atribuindo-a ao tédio, ao instinto predatório de Himeko, à curiosidade passageira por um ômega atípico. Mas aquilo… aquilo era algo que nenhum capricho sustentaria. Uma gravidez mudava tudo.

E Akihiro, mesmo sem entender por completo, deixou de duvidar.

Não compreendia ainda o que os unia, mas passou a respeitar. Respeitava o garoto, também — não por simpatia, mas por sobrevivência. Porque, mesmo depois de tudo, Rurihito permanecia de pé. Frágil, sim, mas inteiro. E isso, para alguém que viveu o que ele viveu, era notável.

Akihiro não fazia ideia de como o futuro se desenharia para os dois. Mas estivesse Himeko certa ou errada, estivesse Rurihito preparado ou não… ele estaria ali.

Porque, no fim, era isso que se fazia por aqueles que chamava de família.

—–

No dia do casamento de Himeko

O salão estava preparado com discrição, ornado com flores claras que se derramavam em arranjos simples, mas elegantes, espalhados pelas mesas e colunas. A iluminação suave aquecia o ambiente, ressaltando o verde delicado das folhagens e o branco das pétalas. Não havia grande multidão: apenas a família Hanamura, alguns poucos amigos de Rurihito e o silêncio respeitoso que preenchia os espaços entre uma conversa e outra. A cerimônia não parecia um espetáculo; era íntima, quase familiar, sustentada pelo perfume discreto de flores frescas e pelo som leve das cordas de um quarteto ao fundo.

Encostado em um canto, Akihiro observava a cena com o olhar encoberto pela sombra do abajur próximo. Um copo de uísque meio vazio repousava em sua mão, e já não era o primeiro da noite. A gravata estava frouxa, o colarinho aberto, e o ar desleixado destoava da solenidade ao redor. O cigarro apagado que girava entre os dedos era apenas outro reflexo de inquietação.

Jamais pensara presenciar a irmã em uma cerimônia de casamento. Não porque duvidasse de sua capacidade de amar, mas porque sempre acreditara que Himeko jamais se renderia à vulnerabilidade que tal laço exigia. Ela sempre fora um rochedo: firme, inabalável, moldando os outros em torno de si. Ainda assim, ali estava ela — de traje escuro e porte altivo — ao lado de Rurihito, vestido em branco, como se sua presença iluminasse cada canto do salão.

Algo nela havia mudado. Não na postura, ainda marcada pela autoridade, mas no olhar. Havia calma, uma felicidade discreta, mas inegável. Não era triunfo nem conquista; era paz. Uma paz sustentada pela simples presença de Rurihito, que a fitava como se não existisse mais ninguém ali. E, pela maneira como ela retribuía aquele olhar, Akihiro compreendeu: de algum modo, ele era o mundo dela também.

Suspirou, desviando os olhos. Viu, ao longe, os pais: Naomi, sentada com o neto adormecido nos braços, e Tatsuo, de pé ao lado, observando a cena com o orgulho silencioso que lhe era próprio. O bebê do casal dormia tranquilo nos braços da avó, alheio ao peso simbólico daquela noite, vestido com um terno fofo.

Outra visão que jamais imaginara testemunhar.

— Nunca pensei que veria isso acontecer — murmurou, girando o cigarro entre os dedos, esquecendo-se de acendê-lo enquanto o uísque escorria pela garganta.

— O casamento… ou o fato de Himeko estar verdadeiramente feliz? — perguntou uma voz familiar à sua direita.

Akihiro ergueu os olhos e encontrou Naomi, aproximando-se com o neto ainda adormecido nos braços. O sorriso dela era sereno, um traço de ternura que suavizava a rigidez habitual.

— Ambos, na verdade — respondeu, desviando novamente o olhar para o casal no centro do salão.

Naomi acompanhou o olhar do filho, e por alguns instantes permaneceu em silêncio.

— Himeko sempre foi difícil de alcançar — disse, quase como se falasse consigo mesma. — Se um dia se permitisse a alguém, pensei que seria em seus próprios termos. Mas nunca imaginei que deixaria alguém atravessar as muralhas.

Akihiro assentiu em silêncio, mas dentro dele algo se agitava. Não inveja, não exatamente. Era mais próximo da ausência.

— Está feliz por ela, não está? — Naomi indagou, fitando-o de lado.

— Sim. — A resposta veio firme, ainda que abafada pelo uísque. — Ela merece isso.

E era verdade. Himeko merecia paz. Merecia alguém que a amasse com coragem e constância. Por mais estranho que aquilo lhe soasse, ele não podia negar o que via.

— Mas algo te incomoda. — A voz de Naomi era baixa, quase maternal.

Ele demorou a responder. Observou o bebê que dormia em seus braços: um início, uma família, algo que nunca buscara de fato. E que, de repente, parecia distante demais para se alcançar.

— Não é nada. — As palavras saíram rápidas, mas sem convicção.

Naomi sorriu, compreensiva. Não insistiu.

— Talvez um dia seja você.

Akihiro riu, um som curto e rouco, carregado de sarcasmo.

— Não contaria com isso.

— A vida é hábil em desmentir certezas — replicou ela com suavidade.

Ele não respondeu. Apenas deixou o olhar vagar pelo salão, os pensamentos toldados pelo álcool e por uma estranha sensação de incompletude que não esperava sentir naquela noite.

—–

Semanas depois, na casa de Himeko

A casa de Himeko exalava uma elegância contida, marcada por tons neutros e uma organização impecável. A iluminação suave e o mobiliário moderno criavam uma atmosfera aconchegante, quase íntima, muito distinta da imagem impetuosa que Akihiro costumava associar à irmã. Era um lar — e, embora nunca o admitisse em voz alta, isso o desconcertava um pouco.

Ele já não contava mais quantas vezes estivera ali desde o casamento. Oficialmente, era pelas visitas ao sobrinho, mas, no fundo, Akihiro sabia que havia algo naquela rotina silenciosa e doméstica que o atraía. Ainda assim, naquele momento, nenhuma das boas intenções importava. Estava afundado no sofá como um adolescente contrariado, o cenho franzido e os braços cruzados de forma quase teatral.

— Por que, diabos, você tinha que se casar? — disparou, sem rodeios.

Himeko, sentada com uma xícara de café nas mãos, ergueu os olhos para ele com uma calma exasperante, como se aquela fosse a enésima vez que escutava a mesma queixa.

— Você ainda está de birra?

— Isso não é birra! — Ele gesticulou, indignado. — Desde que você resolveu assentar, minha vida virou um inferno.

Do outro lado da sala, Rurihito estava sentado no tapete, com o filho nos braços. Fingiu não ouvir, mantendo os olhos fixos no bebê, que se entretinha mordendo um pinguim de borracha com uma concentração invejável.

Himeko recostou-se no sofá, cruzando as pernas com a naturalidade de quem já sabia onde aquilo ia terminar.

— Mas sério, por quê? Por que você tinha que se casar?!

— Porque eu quis, seu idiota.

— Você nunca quis nada disso antes! — Akihiro exclamou, jogando as mãos para o alto. — Você sempre foi a que nunca iria se prender a ninguém. A mulher que olhava para casamentos e dizia “que perda de tempo”. — Akihiro olhou para Rurihito. — É tudo culpa sua, Rurihito. — Rurihito riu, o que deixou Akihiro mais “irritado”

— Ignore ele, Ruri. — Himeko sugeriu, piscando para ele. — Pessoas mudam, Aki.

— Mas tão rápido assim?! — Ele se inclinou para frente, apontando um dedo para ela. — Desde que você casou, nossos pais decidiram que eu sou o próximo! Toda vez que eles me ligam é o mesmo discurso: “quando você vai sossegar?”, “já pensou em ter filhos?”, “você está ficando velho, Akihiro”.

Rurihito mordeu o lábio para conter um sorriso, mas Himeko não se deu ao trabalho.

— E você está bravo porque… eles querem que você cresça?

— Eu já sou adulto, Himeko! — rebateu, afundando-se mais ainda no sofá. — Só porque não tenho aliança no dedo nem um bebê pendurado no pescoço não quer dizer que minha vida esteja uma bagunça!

Himeko soltou uma risada breve, sem humor.

— Você fuma e bebe compulsivamente, vive em clubes transando quando não se aguenta de tesão e não mantém um relacionamento estável. — Tomou outro gole de café. — Isso, definitivamente, não é o que nossos pais chamariam de “vida nos eixos”.

— Eu gosto da minha vida do jeito que é! — Akihiro insistiu, com uma veemência quase infantil. — Mas agora tudo virou um julgamento. Só falta mandarem um ômega compatível para minha porta com contrato de acasalamento em mãos!

Foi então que Rurihito, até então silencioso, resolveu intervir, erguendo os olhos do filho com um sorriso suave.

— E você já pensou nisso?

Akihiro o encarou como se ele tivesse falado em outro idioma.

— Em quê? Em filhos? — Ele apontou com o queixo para o bebê. — Claro que não, esse aí já parece trabalho demais.

Rurihito deu uma risada baixa, olhar ainda fixo na criança.

— Dá trabalho, sim. Mas vale cada segundo.

Akihiro fez uma careta de repulsa teatral, estendendo os braços.

— Me dá ele.

Himeko arqueou uma sobrancelha.

— Desde quando você gosta de segurar bebês?

— Desde que ele é meu sobrinho. E eu vou provar que vocês estão todos enfeitiçados.

Rurihito entregou seu filho para os braços de Akihiro. Mesmo com todos os protestos anteriores, Akihiro segurou o bebê com cuidado, como se algo instintivo e profundo tivesse se ativado em seu corpo. O bebê o encarava com olhos curiosos, as bochechas cheias e os dedos minúsculos tentando agarrar seu colarinho.

— Você tem sorte de ser fofo, pequeno. — Murmurou Akihiro, quase com carinho. — Viu só? feitiço.

Himeko soltou uma gargalhada breve.

— Já está se afeiçoando.

Ele bufou, fingindo desdém.

— Cala a boca. Isso é porque ele ainda não fala. Quando começar a fazer perguntas, você vai ver.

— Você está exagerando. — Himeko se recostou no sofá, observando o irmão com um sorriso contido.

— Você diz isso porque já caiu na armadilha e está começando a gostar.

— Armadilha? — Ela arqueou uma sobrancelha com provocação.

— Sim! Primeiro vem o namoro, depois o casamento, aí os filhos… e, de repente, você se pega gastando mais com fraldas do que com cigarros.

— Fraldas são bem mais úteis que cigarros, se quer saber. — Rebateu ela com um sorriso malicioso.

Akihiro levou a mão ao peito, simulando um golpe fatal.

— Isso veio de você… a mesma mulher que uma vez me ajudou a fugir de um encontro para beber em um armazém abandonado.

— As coisas mudam, Aki. — disse, e havia sinceridade em sua voz. — Eu também não esperava que fosse gostar disso tudo. Mas agora que estou aqui… eu não trocaria essa vida por nada.

Akihiro a observou se levantar para pegar o filho de volta. Seus movimentos eram naturais, cuidadosos. Ela o aninhou contra o peito com ternura, e o pequeno, satisfeito, repousou a cabeça em seu ombro, agarrando-se a roupa dela com os dedinhos.

— Você realmente gosta dessa vida, não é? — murmurou ele, como se ainda custasse a acreditar.

Himeko olhou para ele com serenidade.

— Eu gosto dele. — Fez um gesto sutil com os olhos em direção a Rurihito. — E estou aprendendo a amar esse pequeno aqui. Você tem razão. Eu não era tão diferente de você, mas minhas prioridades mudaram. Eles existem agora e eu quero protegê-los, mesmo que isso me assuste às vezes.

Akihiro permaneceu em silêncio, cruzando os braços novamente enquanto olhava para o teto.

— É estranho… — murmurou. — Porque eu nunca me imaginei diferente. Você mudou tanto… e agora parece que todo mundo espera que eu mude também.

— Você não vai mudar porque te pressionam. — Himeko disse, a voz mais suave do que antes. — Vai mudar quando algo novo entrar na sua vida. Algo que faça você querer tentar. Aí, quando perceber, já será tarde demais para voltar atrás.

Ele soltou um suspiro pesado.

— Eu só queria que me deixassem em paz.

— Isso nunca vai acontecer. — Himeko sorriu com ironia. — Você é o filho mais velho agora.

Akihiro gemeu em protesto, jogando a cabeça para trás no encosto do sofá e cobrindo o rosto com as mãos.

— Isso é um pesadelo.

O riso abafado de Rurihito e o som leve da risada de Himeko preencheram a sala por um instante. Apesar do tom cômico, havia algo no olhar de Akihiro que os dois reconheceram — uma inquietude sutil, como o eco de uma dúvida que ainda não tomara forma.

E naquela pausa entre as palavras, ficou claro que, por trás da fachada despreocupada, ele começava a vislumbrar — ainda que de relance — o contorno do que poderia ser uma mudança real.

Talvez não hoje. Talvez não amanhã.

Mas algo nele já havia começado a ceder.

—–

A penumbra dourada do clube privado parecia fundir os corpos e os sons em um único sopro abafado de luxo e desejo. A iluminação era baixa, difusa, e envolvia o salão em um brilho morno, como se a noite se recusasse a acabar. Ecos de risos contidos e o tilintar de copos flutuavam no ar, misturando-se ao perfume de álcool caro e feromônios mal disfarçados.

Akihiro estava no bar, um copo de uísque entre os dedos e a expressão distante. Seu corpo parecia relaxado, mas seus olhos — olhos que sempre captavam mais do que deixavam transparecer — percorriam o ambiente como se buscassem algo que ele mesmo não nomeava. Seu braço esquerdo, tatuado com um desenho intricado, repousava sobre o balcão; a tinta negra serpenteava sob a manga dobrada de sua camisa, cintilando quando a luz tocava certos pontos.

Foi então que notou a aproximação.

O garoto se destacou contra a penumbra do salão — esbelto, de feições suaves, cabelos escuros emoldurando um rosto quase angelical. Havia nele uma beleza cuidadosa, ensaiada, como se cada movimento fosse meticulosamente treinado para seduzir sem parecer vulgar. Seus olhos, no entanto, contradiziam a perfeição calculada. Eles brilhavam com um toque de timidez genuína, um traço raro naquele lugar.

— Posso me sentar aqui? — perguntou o garoto, a voz delicada e impregnada de expectativa.

Akihiro ergueu o olhar, observando-o por um momento longo, antes de indicar com um gesto vago o assento vago ao seu lado.

— À vontade.

O garoto, que logo se apresentou como Eli, acomodou-se com graciosidade. Pediu uma bebida leve, frutada, e então virou-se para Akihiro com um sorriso que parecia frágil, como vidro fino. Akihiro o observou em silêncio, permitindo que seus olhos percorressem o rosto do ômega. Ele era bonito, sem dúvida. Mas havia algo além da beleza ali. Um incômodo tênue crescia em seus instintos.

E então ele soube. Já o havia visto antes.

A lembrança veio turva, como uma névoa que se desfaz aos poucos. Uma noite distante, em outro clube. Um garoto semelhante, ansioso por atenção, oferecendo-se com a mesma mistura de doçura e desespero. Na ocasião, Akihiro lhe dera o que queria — por um instante breve, sem se vincular. Agora, ele estava ali de novo, como se quisesse reviver algo que, para Akihiro, sequer tinha peso.

O olhar do alfa endureceu, ainda que seu rosto permanecesse sereno. Levou a mão à cintura de Eli e o puxou, sem aviso, até que seus corpos se tocassem.

— Você já esteve aqui antes — disse, sua voz baixa, quase arrastada.

Eli ofegou, um leve rubor subindo às bochechas.

— Sim… Eu não achei que você fosse lembrar de mim.

— Não lembro muito bem — retrucou Akihiro, soltando-o logo em seguida, a mão voltando ao copo no balcão. A indiferença era clara.

O sorriso de Eli vacilou, mas ele logo o recompôs, embora agora com um toque forçado.

— Talvez esta noite seja diferente. Aprendi algumas coisas desde a última vez…

Akihiro tomou um gole de uísque sem sequer olhá-lo.

— Imagino que sim.

O silêncio entre eles se estendeu, preenchido apenas pelos ruídos abafados do ambiente. Eli se inclinou mais uma vez, os dedos tamborilando no balcão com nervosismo.

— Deixe-me mostrar a você.

Os olhos de Akihiro se voltaram para ele, intensos. Havia algo predatório em seu olhar, mas também um traço de cansaço. Ele inclinou a cabeça levemente.

— Hoje não.

Eli congelou, como se aquelas palavras tivessem cortado o ar. Mas antes que pudesse responder, algo desviou completamente a atenção de Akihiro.

Do outro lado da sala, Jun.

Sentado à mesa com um homem mais velho, o ômega parecia deslocado, quase pequeno. Seus dedos brincavam com a bainha da camisa, um gesto nervoso. O brilho suave da vela sobre a mesa acentuava a delicadeza de suas feições, mas também revelava uma tensão incômoda em sua postura.

Os olhos de Akihiro estavam cravados em Jun, absorvendo cada gesto — a hesitação ao recusar o toque do homem à sua mesa, o desconforto contido na postura elegante, a forma como caminhava até o bar com os ombros tensos, como se carregasse um fardo invisível.

Quando Jun chegou, o ambiente pareceu silenciar ao redor, como se até a música e as vozes abafadas cedessem espaço à sua presença. Akihiro se afastou da companhia anterior sem dizer palavra. Seu olhar não deixava dúvidas: nada naquele salão importava mais.

— Jun — disse ele, com a voz rouca, baixa, carregada de uma gravidade suave que fazia estremecer até o ar entre eles.

O ômega parou, surpreso — mas não houve medo ou distância em seu olhar. Ao contrário: havia uma familiaridade contida, um reflexo de algo que ambos reconheciam, mesmo depois de tanto tempo.

— Hanamura-sama… — ele respondeu, com um sorriso que não disfarçava por completo o nervosismo. — Que coincidência.

— Coincidência? — Akihiro aproximou-se, seus olhos escuros fixos nos dele. — Não parece o tipo de coisa que você acreditaria.

Jun não recuou, embora seu coração acelerasse. A maneira como Akihiro o observava… era como se fosse capaz de despir não apenas sua pele, mas também as defesas que ele tanto se esforçava para manter erguidas.

— Então você acredita em destino? — retrucou, com leve ironia, como quem tenta manter o controle da conversa. Mas a voz saiu mais baixa do que o habitual, mais suave.

— Não. — A mão de Akihiro roçou levemente sua cintura, o gesto contido, mas intencional. — Acredito em vontades que não mudam, mesmo com o tempo.

Jun lançou um olhar por cima do ombro, na direção da mesa onde o homem o aguardava, a expressão inquieta. ele tentou recuperar o fôlego que nem sabia ter perdido. Mas depois sorriu, aquele sorriso pequeno e enviesado que ele costumava oferecer quando queria agradar aos outros sem esforço.

— Está ocupado pelo que vejo.

— Vim acompanhar um cliente para um drink, nada mais.

O olhar de Akihiro se estreitou, sua atenção voltando ao homem, cuja postura deixava claro o tipo de expectativa que carregava.

— Você não precisa voltar para ele se não quiser.

Jun o fitou com aqueles olhos âmbar grandes demais, surpresos demais. O silêncio que se instalou entre os dois era denso, repleto de algo não dito. E, ainda assim, Jun não se afastou.

Akihiro percebeu. E insistiu.

— Fique um pouco comigo. Sua companhia pode esperar alguns minutos.

Jun vacilou, mas encarou-o.

Os olhos âmbar de Jun buscaram os de Akihiro, tentando compreender o que havia por trás daquele convite. Havia um subtexto ali, algo mais denso do que apenas possessividade passageira.

— Agradeço o convite, mas eu realmente preciso voltar…

Os dois se fitaram por um longo momento, um silêncio carregado de tudo que não estava sendo dito. Era desejo, saudade, e algo quase indecente pairando entre eles. O bar parecia sumir ao redor.

O barman chegou e pousou os drinks à frente de Jun, desfazendo o instante como o toque de um despertador interrompe um sonho indulgente.

Jun endireitou-se, o olhar ainda relutante em se afastar. Pousou uma das mãos sobre o copo, mas seus dedos tremiam quase imperceptivelmente.

— Tenha uma boa noite, Hanamura-sama.

Virou-se e partiu antes que Akihiro pudesse responder, retornando à mesa onde o homem mais velho o aguardava com um sorriso de propriedade que fez o sangue de Akihiro ferver.

Ele permaneceu ali, com o copo na mão, girando o líquido âmbar com movimentos lentos. O gosto do uísque agora parecia mais amargo.

Dessa vez, ele realmente queria que alguém tivesse ficado.

—–

Em outro dia qualquer

O sol alto pairava sobre a cidade, filtrando-se entre os arranha-céus e tingindo o concreto de tons dourados. O calor era abafado, pesado, misturado ao cheiro de fumaça e asfalto quente. Carros passavam com pressa, suas buzinas compondo uma trilha sonora caótica, interrompida apenas pelo arrastar de passos apressados e conversas entrecortadas.

Akihiro caminhava pelas ruas com a familiaridade de quem conhece cada curva, cada beco e esquina, como se fizessem parte de seu próprio corpo. Tinha decidido resolver algumas pendências pessoalmente naquela tarde — nada importante, apenas um retorno breve a antigos hábitos, como comprar os próprios cigarros em vez de delegar a tarefa. Havia algo reconfortante na rotina crua e direta das ruas, algo que lhe lembrava que ainda era dono de si, mesmo agora, com a vida mais estabilizada

Seus passos o guiavam sem pressa até a loja de conveniência na esquina, quando um movimento sutil, uma silhueta conhecida entre a multidão, o fez parar.

Jun.

O jovem surgia com a suavidade de uma miragem, caminhando ao lado de um homem mais velho, elegantemente vestido, que conversava com um sorriso discreto nos lábios. A cena, à primeira vista, poderia passar despercebida. Mas não para Akihiro. Seus olhos captaram o detalhe que o fez franzir o cenho de imediato: a mão do homem repousava com naturalidade sobre a cintura de Jun, um toque lento, íntimo, que definitivamente não pertencia ao domínio da casualidade.

Algo se contraiu no fundo de seu peito. Não era exatamente raiva, tampouco ciúme — ou, pelo menos, ele não ousava dar nome ao que sentia. Era uma inquietação surda, como se algo estivesse fora do lugar.

Poderia ter seguido seu caminho. Entrar na loja, comprar o que queria, esquecer a cena. Mas permaneceu onde estava, imóvel, a testa levemente franzida enquanto seus olhos seguiam cada movimento dos dois. Algo naquela imagem exigia ser compreendido. A presença de Jun — aquele Jun tímido, hesitante, cujas respostas no clube vinham sempre temperadas por silêncios cuidadosos — não combinava com o que via agora.

Com passos contidos, Akihiro passou a segui-los a distância, mesclando-se ao movimento da rua com a discrição de um predador urbano. O sol lançava sombras anguladas nas calçadas, e ele se movia entre elas, atento. Observava o modo como Jun mantinha a postura ereta, os ombros levemente erguidos, o sorriso que surgia com frequência controlada. Não era forçado, tampouco espontâneo. Era calculado.

A roupa de Jun chamava atenção: uma blusa recortada que deixava os ombros e parte do abdômen à mostra, acompanhada de um short curto que realçava as pernas esguias. Sandálias sofisticadas completavam a composição. Era um visual pensado para encantar — e funcionava. As pessoas olhavam, algumas discretamente, outras nem tanto.

Akihiro estreitou os olhos.

Os dois entravam e saíam de estabelecimentos caros com naturalidade. O homem insistia em comprar coisas para Jun: roupas, acessórios, itens cujos preços certamente não eram modestos. As sacolas se acumulavam pouco a pouco nas mãos de Jun, que as recebia com gestos elegantes, quase artísticos, como se já tivesse vivido aquele tipo de situação inúmeras vezes.

Em uma joalheria, o homem colocou uma pulseira no pulso de Jun — uma peça delicada, dourada, com pequenas pedras cintilantes. Jun ergueu o braço com leveza, os olhos apreciando o brilho da joia sob o sol da tarde, enquanto sorria com suavidade. Não havia hesitação em seu olhar, tampouco qualquer indício de desconforto.

Akihiro sentiu uma fisgada aguda. Aquele não era o mesmo Jun que ele vira no clube dias atrás. O garoto de feições doces e atitudes retraídas havia desaparecido. Diante dele, havia alguém treinado, lapidado para aquele papel — alguém que sabia exatamente como se portar, como cativar. E isso o incomodava. Profundamente.

A pergunta que crescia dentro dele era incômoda: qual dos dois era o verdadeiro?

Seguiram até uma cafeteria refinada, onde o aroma de grãos torrados e notas de baunilha se misturava ao som de talheres e risos abafados. As janelas amplas permitiam que a luz natural inundasse o ambiente, projetando reflexos dourados sobre as mesas de mármore claro. Akihiro se acomodou em uma das poltronas ao fundo, onde podia observar sem ser visto.

Jun e o homem se sentaram próximos à janela. Conversavam em tom ameno. O homem segurava a mão de Jun com familiaridade, traçando pequenos círculos com os dedos sobre sua pele. Akihiro observou cada gesto com minúcia, registrando a linguagem corporal dos dois. Quando o garçom se aproximou, o homem fez o pedido sem consultar Jun, que apenas assentiu com a cabeça, sereno, como se aquela dinâmica lhe fosse habitual.

O prato que chegou logo depois era sofisticado, e Jun, ao provar a primeira garfada, abriu um sorriso espontâneo, verdadeiro, de prazer. Murmurou algo — provavelmente um elogio ao sabor — e o homem respondeu deslizando os dedos sobre sua mão com ternura discreta.

Havia um estranho tipo de intimidade ali, forjada no silêncio, nos gestos ensaiados, na ausência de barreiras. Akihiro sabia o que aquilo era. Já vira inúmeras vezes. Mas ainda assim… não era fácil de aceitar.

O celular do homem vibrou. Ele o verificou brevemente, e, após um suspiro contido, guardou o aparelho. Inclinou-se na direção de Jun e disse algo com voz baixa, quase confidencial. Jun apenas sorriu, sem estranhar. Logo em seguida, o homem fez uma transferência, Jun pegou o próprio aparelho, conferiu o valor recebido e assentiu, guardando-o sem sequer desviar o olhar.

Pouco antes de sair, o homem inclinou-se uma última vez. Seus lábios tocaram de leve a bochecha de Jun em um gesto quase invisível — executado com tamanha discrição que nenhum dos presentes pareceu notar. Mas Akihiro viu. E aquilo foi a última peça no quebra-cabeça que não conseguia montar.

Jun não era apenas alguém que interpretava papéis. Ele era um mistério que se refazia a cada encontro, como uma máscara que se moldava ao ambiente. O Jun hesitante do clube e o Jun confiante daquela tarde pertenciam à mesma pele, mas não ao mesmo momento.

E isso o incomodava.

Quando o homem foi embora, Jun permaneceu no lugar, absorto. Brincava com o canudo da bebida, o olhar perdido além da janela. Não havia pressa em sua expressão, tampouco arrependimento. Apenas um silêncio confortável, como se estivesse acostumado àquilo. Como se aquilo fosse, de alguma forma, normal.

Akihiro recostou-se, observando com os olhos semicerrados. Ainda não sabia por que aquilo o afetava tanto. Mas sabia, com incômoda clareza, que não estava pronto para desviar o olhar.

Ainda não.

Capítulo 2 - A primeira intersecção
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Laços em Carmesim

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Akihiro Hanamura sempre acreditou que laços afetivos não passavam de ilusões passageiras – convenções sociais frágeis que encobriam a inevitável falência das relações humanas. Como...

Chapters

  • Capítulo 16 FINAL O eterno no cotidiano
  • Capítulo 15 A Vulnerabilidade de um Alfa
  • Capítulo 14 Segredos de Sangue
  • Capítulo 13 Fim das Correntes
  • Capítulo 12 Um lar e o cheiro de comida
  • Capítulo 11 Rastros de Medo
  • Capítulo 10 Mesa para Dois na Sala Reservada
  • Capítulo 9 Rachaduras na muralha
  • Capítulo 8 A Voz de Jun
  • Capítulo 7 O coração exausto de Jun
  • Capítulo 6 O Gosto da Ternura
  • Capítulo 5 Junhos Possíveis
  • Capítulo 4 Proposta Intrigante e Tentadora
  • Capítulo 3 Sedução no Palco, Verdades no Encontro
  • Capítulo 2 - A primeira intersecção
  • Capítulo 1 - Uma Noite ao Acaso

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