Laços

Laços em Carmesim

Capítulo 8

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🟡 Em breve

A fumaça ainda pairava espessa no ar, turvando a luz opaca do final da manhã. Havia algo de nauseante na mistura entre ferro e pólvora que impregnou os becos apertados daquele distrito, tão saturado de miséria quanto de promessas quebradas. O som distante das sirenes se confundia com os gemidos dos que ainda estavam conscientes, mas Akihiro caminhava em meio àquele cenário como se fosse parte dele — como se o caos não o tocasse mais.

As mãos dele estavam manchadas. Sangue nos nós dos dedos, secando rápido sob o calor. As juntas estavam inchadas, algumas rachadas, como se a própria carne protestasse contra o esforço. Seu casaco estava aberto, desalinhado, revelando a camisa amarrotada, rasgada em um dos lados. Mais sangue ali. Não dele, em sua maior parte. Não que importasse.

Ele se abaixou ao lado de um de seus homens caídos, verificando-lhe o pulso com a precisão de quem já fez isso dezenas de vezes. Um movimento breve, quase automático. O sujeito respirava, ainda que de forma irregular. Estava fora de combate, mas vivo.

— Levem-no ao carro. Rápido. — Sua voz era baixa, cortante. Bastou para que dois subordinados corressem a cumprir a ordem, ainda suando frio sob o peso da tensão que pairava sobre todos eles.

Akihiro ficou de pé novamente, os olhos fixos no vazio por um momento. Havia algo em sua postura que desafiava a exaustão, embora ela se infiltrasse por todos os seus músculos como uma teia invisível. Ele pressionou os olhos com os dedos manchados, respirou fundo, como se estivesse tentando recalibrar a própria existência.

Foi então que sentiu o celular vibrar no bolso interno do casaco.

Com a mão esquerda — a menos machucada —, puxou o aparelho. A tela iluminou-se com o nome que ele já esperava não ver tão cedo.

Jun.

Uma única palavra. Um gesto mínimo. Mas o suficiente para que um músculo tensionado em sua mandíbula finalmente se soltasse.

Ele desbloqueou a tela, os olhos percorrendo a mensagem curta.

Jun: “Estou melhor. Obrigado por perguntar.”

Simples. Contida. E ainda assim, havia nela algo que o desarmou mais do que qualquer golpe poderia. Ele hesitou, o polegar pairando sobre o teclado, até que a segunda notificação chegou.

Jun: “Aquele encontro que você mencionou… ainda está de pé?”

Akihiro piscou. Como se as palavras não fizessem sentido de imediato. Não ali, não naquele momento em que o mundo parecia reduzido a sangue, concreto e sobrevivência.

Instintivamente, deixou escapar uma risada breve — um sopro rouco, quase incrédulo. Um dos rapazes ao seu lado, com a camisa suja de fuligem e um corte acima da sobrancelha, virou-se para ele com estranheza.

— Chefe…? — murmurou, incerto.

Akihiro não respondeu. Seus dedos já se moviam, digitando com uma agilidade desconcertante para alguém com as mãos tão feridas.

Akhiro: “Eu estava brincando… mais ou menos. Mas se quiser, podemos ter esse encontro.”

Houve apenas um instante de silêncio. Depois, o ícone de “digitando…” surgiu de novo. Akihiro permaneceu imóvel, como se o tempo tivesse pausado ao redor dele.

Jun: “Eu quero. Estarei livre esta tarde.”

Por um segundo inteiro, tudo ao redor pareceu distante demais para importar. O som das sirenes desapareceu. O gosto metálico na garganta perdeu sua presença. E, em meio ao caos, Akihiro sorriu. Não um sorriso cínico ou zombeteiro como os que costumava oferecer — mas um genuíno, quase juvenil, como se o corpo tivesse se esquecido de como fazer aquilo, e agora estivesse redescobrindo.

— Chefe…? — insistiu o mesmo subordinado, confuso, os olhos arregalados.

Akihiro girou sobre os calcanhares, guardando o celular com um movimento leve. A expressão ainda carregava traços de cansaço, mas agora havia algo novo ali. Um brilho nos olhos, uma tensão branda na boca, que dizia mais do que qualquer palavra poderia.

— Estou saindo — anunciou simplesmente. — Cuidem do resto. E limpem isso antes que a polícia chegue..

— Espera… aonde o senhor vai? — outro homem perguntou, franzindo o cenho.

Akihiro não respondeu. Apenas passou por eles, os passos firmes demais para alguém coberto de sangue. Era como se tivesse, de repente, um destino real a seguir. Algo concreto. Algo fora daquela espiral constante de poder, violência e controle.

A caminho do carro, a cabeça se encheu com imagens que há dias tentava afastar — os olhos âmbar de Jun, arregalados pela angústia, a voz vacilante, os ombros trêmulos. Mas também o som contido de sua risada ao provar o café, o modo como organizava os talheres como se isso tivesse importância num mundo sem regras. A forma como usava um avental com uma naturalidade desarmante.

Não sabia o que esperar daquele encontro. E, em certo nível, temia saber. Porque algo em Jun fazia o mundo parecer menos estático. Menos previsível. E Akihiro sempre odiara o imprevisível.

Mas, agora, pela primeira vez em muito tempo, ele estava disposto a arriscar.

E isso, por si só, já mudava tudo.

 

—–

 

O sol da tarde lançava uma luz suave sobre o asfalto, filtrada pelas copas das árvores que margeavam a rua. Akihiro estava parado diante de um pequeno café, os olhos vagando entre as pessoas que passavam. O movimento ao redor seguia constante, indiferente à ansiedade que pulsava sob sua pele. Ele ajeitou o colarinho do blazer, os dedos impacientes, até que finalmente o avistou.

Jun atravessava a rua com um andar firme, mas leve. Chamava atenção — não porque queria, mas porque era impossível ignorá-lo. Usava uma blusa de seda ajustada, parcialmente aberta no peito, e um short jeans curto, moldando as pernas com precisão. A maquiagem era discreta, porém calculada — delineado sutil nos olhos, lábios tingidos de um vermelho tênue, ainda assim provocante. Os cabelos soltos dançavam com o vento, conferindo-lhe uma graça quase irreal.

Akihiro arqueou uma sobrancelha ao vê-lo se aproximar.

— Podemos ir? — Jun perguntou, o sorriso carregando um toque de malícia contida.

— Podemos — respondeu ele, sem devolver o sorriso, mas sem desviar o olhar.

Começaram a andar lado a lado, as conversas surgindo de forma casual. Falaram sobre o tempo, sobre os pontos ao redor, sobre uma feira de rua próxima a um parque movimentado. Akihiro sugeriu que fossem até lá, e Jun aceitou sem hesitar.

No entanto, após alguns passos, Akihiro lançou uma pergunta com a voz neutra demais para ser apenas curiosidade:

— Por que você está vestido assim?

Jun estacou por um breve segundo. Seus cílios bateram em um piscar demorado.

— …Eu deveria ter perguntado como você queria que eu me vestisse?

Havia uma hesitação sincera em sua voz, quase um desconcerto. O comentário o atingira num ponto que ele próprio não sabia que estava exposto.

Akihiro respirou fundo e respondeu com certa lentidão, como se escolhesse as palavras cuidadosamente.

— Não. Só queria que soubesse que não precisa se preocupar em chamar atenção. Nem… em me seduzir.

O rosto de Jun enrubesceu. A vergonha veio como uma brisa morna no rosto, sutil, mas inevitável. Estava acostumado a se vestir para agradar, para seduzir, para corresponder a expectativas — sempre foi assim. Mas com Akihiro, nada era previsível. Ele não exigia, não consumia, apenas o observava com aquela calma cortante.

Sem dizer nada, Akihiro retirou o blazer e o estendeu na direção dele.

— Se quiser usar isso…

Jun hesitou por um instante, mas aceitou. O tecido era largo em seu corpo, caía como um manto inesperado que disfarçava as formas e, ao mesmo tempo, o envolvia com o cheiro discreto de Akihiro — um perfume amadeirado com algo de brisa noturna. Sentiu-se estranho. Não desconfortável, mas exposto de outro jeito. Protegido.

— Desculpa se te deixei desconfortável — disse Akihiro, voltando a caminhar, sem olhar para ele.

— Não… está tudo bem — murmurou Jun, apertando as mangas do blazer entre os dedos.

Aquela sensação de cuidado era desconcertante. Não era o toque de um cliente. Não era um gesto ensaiado. Era simples demais, e por isso mesmo, mais difícil de assimilar.

Cruzaram um parque modesto, ladeado por trilhas estreitas de cascalho e lanternas de pedra musgosas. Em vez de vitrines reluzentes ou ruas engolidas por fachadas luxuosas, havia bancos de madeira sob cerejeiras esparsas, idosos alimentando carpas em um lago tranquilo, casais passeando com cães pequenos e estudantes rindo em grupos dispersos. Um vento morno fazia as folhas estremecerem com leveza, como se o tempo, ali, fosse mais lento.

Do outro lado do parque, seguiram por uma passarela estreita que conectava uma ruela. Ali, a atmosfera mudava. Lanternas de papel iluminavam discretamente o caminho onde barracas de comida se enfileiravam, exalando aromas de massa frita, caldo quente e óleo de gergelim. Passaram por um quiosque que vendia takoyaki; o cheiro intenso de polvo grelhado e cebolinha misturava-se ao crepitar da chapa quente, fazendo Jun engolir em seco sem perceber e ele parou para comprar. Crianças riam ao redor de um jogo de pesca com ganchos de papel, enquanto adultos conversavam baixo diante de balcões improvisados.

Ainda vestindo o blazer, Jun sentia-se deslocado, mas menos vulnerável. Com Akihiro ao lado, a estranheza não doía. Pelo contrário — havia algo de suavemente libertador naquela simplicidade.

Detiveram-se diante de uma barraca onde uma senhora moldava dalgonas com mãos ágeis, despejando o açúcar derretido sobre pequenas formas metálicas. O doce coreano, caramelizado até atingir um dourado ambarino, tomava formas de estrelas, corações e guarda-chuvas. Jun fixou os olhos naquelas figuras com uma expressão inesperadamente suave, como se, por um momento breve, tivesse sido arrancado de dentro de si.

Akihiro percebeu.

— Quer tentar?

Jun assentiu com um aceno breve.

— Sim.

Aproximaram-se da barraca. Ao vê-los, a senhora sorriu e ofereceu um doce para cada um. Jun, ao vê-la, respondeu quase instintivamente em coreano:

— Olá senhora! Faz tempo que não vejo alguém preparando dalgona assim.

A mulher, surpresa e encantada, respondeu no mesmo idioma:

— Você fala coreano, meu jovem? Que agradável surpresa. Quer tentar o desafio?

— Sim, adoraria.

Akihiro assistia à cena com um sorriso discreto.

— Me dê um também — disse à senhora em japonês.

Receberam os doces com pequenas agulhas para esculpir a figura. A mulher explicou as regras com doçura:

— São trezentos ienes. Se conseguirem cortar a figura sem quebrar, podem escolher um prêmio.

Akihiro pagou por ambos. Jun examinava a forma com olhos atentos, concentrado. Havia tentado aquilo na infância, mas nunca teve sucesso.

Começaram a escavar com cuidado. O tempo parecia suspenso na respiração contida. Então, um estalo seco ecoou como uma sentença.

Jun encarou o próprio doce. A rachadura se abriu lenta e cruel, partindo a figura.

— Ah… que pena — murmurou, frustrado.

Ao seu lado, Akihiro ergueu o disco intacto, exibindo-o para a senhora com um sorriso contido.

— O meu sobreviveu.

— Muito bem! Pode escolher um prêmio — disse ela, satisfeita.

Akihiro analisou os chaveiros, doces e pequenos acessórios antes de escolher um chaveiro de um pequeno gato caramelo, talvez de algum desenho infantil, feito de tecido bordado. Em vez de guardá-lo, estendeu-o para Jun.

— Aqui.

Jun piscou, surpreso.

— Eu não posso aceitar, você quem ganhou.

— Mas você queria mais do que eu — respondeu Akihiro, ainda sem sorrir completamente. — Além disso, foi pura sorte. Nunca joguei isso antes.

Jun segurou o chaveiro com cuidado. Em um impulso tímido, vasculhou o bolso e tirou uma pulseira trançada de cordões vermelhos.

— Eu… ganhei de brinde quando comprei takoyaki. Toma.

Sem esperar reação, amarrou a pulseira no pulso de Akihiro, o nó apertado e firme.

Akihiro observou o objeto em seu pulso. O vermelho simples parecia vivo contra sua pele. Ele ergueu a mão e bagunçou de leve o cabelo de Jun.

— Obrigado.

Jun abaixou o olhar para o chaveiro de gato em sua palma e sorriu, pequeno e sincero.

— No fim das contas, valeu a pena tentar.

 

—–

 

O fim de tarde tingia o céu com pinceladas de âmbar e lilás, e a brisa amena serpenteava entre os prédios enquanto Akihiro conduzia Jun pelas ruas movimentadas da cidade. Ele não dizia para onde iam, mantendo o suspense com um sorriso que parecia guardar um segredo prestes a ser revelado. Jun, ao seu lado, franzia o cenho de leve — não de irritação, mas de pura curiosidade, como quem tentava montar um quebra-cabeça sem todas as peças.

Ao caminhar, um detalhe chamou a atenção de Akihiro e o fez sorrir, discreto. Preso à lateral do short jeans de Jun, no passador onde normalmente passaria um cinto, balançava suavemente o chaveiro de gato que ele havia ganhado mais cedo, durante a brincadeira do dalgona. Era um detalhe pequeno, mas notável. E revelador.

— Gostou tanto assim do chaveiro? — indagou Akihiro, com um tom brincalhão, quase provocativo.

Jun abaixou os olhos até o pequeno objeto, tocando-o com os dedos, como se só então percebesse que ainda estava ali.

— Eu só não queria perdê-lo — respondeu, numa tentativa de soar casual.

Akihiro soltou uma risada baixa.

— Mas você já tem um gato bem ao seu lado.

Jun ergueu as sobrancelhas e virou o rosto em sua direção, com um olhar cheio de ironia e diversão.

— Mesmo? Achei que você fosse mais um panda.

— Panda? — Akihiro fingiu indignação. — Está me chamando de gordo e preguiçoso?

— Claro que não. Os pandas também têm qualidades.

— Tipo o quê? Comer bambu o dia inteiro e dormir por horas só para digerir?

— Como sabe disso?

— Vi na televisão. — Ele passou um braço ao redor dos ombros de Jun, inclinando-se levemente. — Se me chamar de panda de novo, eu acabo com você.

Jun riu, balançando a cabeça. Por mais que tentasse manter a postura, não conseguia evitar aquele calor tênue no peito. O chaveiro era simples, mas continha uma ternura que escapava de tudo o que já havia vivido com outros homens. Nenhum presente caro lhe causara aquela sensação.

— Não vai me dizer mesmo para onde estamos indo? — perguntou, lançando um olhar lateral, desconfiado, mas mais curioso do que irritado.

— E estragar a surpresa? — rebateu Akihiro, sorrindo com aquela expressão de quem se diverte à custa do outro.

— Não sou muito fã de surpresas. — Jun suspirou, cruzando os braços.

— Isso porque você nunca teve uma que valesse a pena.

Jun ergueu uma sobrancelha, mas preferiu não insistir. Conhecia bem o tipo de teimosia que Akihiro carregava, e sabia que não arrancaria nada antes da hora.

Poucos minutos depois, Akihiro parou em frente a um prédio com fachada chamativa. Os letreiros iluminados piscavam em tons de rosa e azul, anunciando um bar com karaokê. Jun piscou, surpreso, encarando o local como se tentasse compreender a lógica da escolha.

— Karaokê? — indagou, com a voz carregada de ceticismo.

— Sim — respondeu Akihiro, com naturalidade.

Jun desviou o olhar para a entrada do estabelecimento, cruzando os braços.

— Não esperava isso de você.

— E o que esperava então? — Akihiro arqueou uma sobrancelha, o sorriso malicioso nunca o abandonando.

— Algo mais… condizente com você.

A risada de Akihiro foi breve, mas genuína.

— Você tem uma visão muito limitada sobre mim — murmurou, inclinando-se para mais perto. — Quem disse que eu não gosto de cantar?

Jun o fitou, tentando decifrar se aquilo era uma piada ou uma provocação. No fim, soltou um suspiro resignado.

— Por mim, tudo bem. Desde que não me force a cantar.

— Sem promessas — respondeu Akihiro, antes de empurrar a porta e entrar.

Jun revirou os olhos, mas seguiu logo atrás.

O interior era animado, com vozes desafinadas ecoando de salas privadas e risos escapando pelas frestas das portas. O cheiro de bebida misturava-se ao de frituras, e as luzes suaves criavam uma atmosfera descontraída, quase acolhedora. Akihiro escolheu uma sala particular, mais afastada, garantindo certa privacidade.

Assim que se acomodaram, ele pegou o catálogo eletrônico e começou a deslizar pelas opções.

— Então, o que costuma ouvir? — perguntou, como se estivessem simplesmente trocando gostos triviais.

— Depende do momento — respondeu Jun, evasivo.

— Clássico. — Akihiro sorriu. — Mas e cantar? Já tentou alguma vez?

Houve uma pausa. Jun desviou o olhar para a tela, onde as letras das músicas apareciam em sincronia com melodias gravadas.

— Talvez, mas faz um tempo.

Akihiro percebeu o leve endurecimento da expressão dele. Não era desprezo nem vergonha — era algo mais… melancólico. Como uma lembrança que não queria ser tocada.

— Parece que tem uma história por trás disso — comentou, inclinando-se sobre a mesa, mas sem insistência.

Jun apenas sorriu de canto, como quem diz “outra hora”, e deixou a pergunta sem resposta.

Passaram-se algumas músicas, escolhidas quase ao acaso. Akihiro, sempre animado, tentava puxar Jun para cantar, sem sucesso. Depois de algumas tentativas, resolveu apelar.

— Se eu cantar uma música, você canta a próxima? — propôs, erguendo o microfone.

— Duvido que vá cantar de verdade.

— Se eu cantar, você canta? — repetiu, num tom que beirava o desafio.

Jun o encarou por alguns segundos, avaliando.

— Posso fazer uma meia promessa, seu eu gostar de ouvir você cantar, posso pensar no caso.

Akihiro sorriu de canto, satisfeito.

— Justo.

Sem hesitar, escolheu uma música e começou.

Jun esperava algo debochado, mas foi surpreendido. A voz de Akihiro era rouca, mas firme, com um timbre que denotava certa intimidade com a melodia. Não era exatamente um cantor nato, mas havia entrega. Ele cantava com sinceridade, e isso por si só era mais do que Jun estava acostumado a ver nos homens ao seu redor.

Quando a canção terminou, Akihiro pousou o microfone sobre a mesa e olhou para Jun.

Quando a canção terminou, Akihiro pousou o microfone sobre a mesa e desviou o olhar em direção a Jun, que mantinha a mão parcialmente cobrindo o rosto, tentando disfarçar um sorriso. Por fim, não conseguiu conter o riso abafado.

— Gostou, né? — disse Akihiro, com um meio sorriso. — Então agora é sua vez.

Jun cruzou os braços, hesitante. Estava pronto para recusar, mas algo na atmosfera da sala, na forma como Akihiro estava relaxado e não zombava dele, o fez reconsiderar.

Suspirou. Pegou o catálogo.

— Só uma — murmurou, selecionando a música e se erguendo com o microfone em mãos.

Akihiro recostou-se no assento, curioso.

A melodia começou suave, delicada. Quando Jun enfim abriu a boca, sua voz preencheu o espaço com uma clareza inesperada. Era uma voz suave, mas profunda, carregada de sentimento contido. Ele cantava como quem revive uma memória antiga — e isso dava às palavras um peso que transcendia a letra.

Akihiro permaneceu em silêncio, hipnotizado. Era evidente que Jun já havia feito aquilo antes. Talvez muitas vezes. Havia controle, emoção e uma honestidade desarmante em sua interpretação. E algo mais: uma tristeza oculta, uma ferida que se deixava entrever nas entrelinhas.

Quando a música terminou, Jun abaixou o microfone sem olhá-lo.

— Pronto. Agora pode parar de insistir.

Akihiro não respondeu de imediato. Ainda absorvia o que acabara de ouvir.

— Você já cantou antes — disse, não como pergunta, mas como constatação.

Jun hesitou, mexendo distraidamente no microfone.

— Sim, eu disse que fazia um tempo… eu gostava de cantar para o meu irmão.

A frase caiu entre os dois com o peso de uma confidência. Akihiro observou Jun em silêncio, captando o véu de nostalgia e resignação em seus olhos.

— Se depender de mim, você vai cantar mais vezes.

Jun ergueu o olhar, surpreso pelo tom sincero. Não havia provocação ali, nem segundas intenções — apenas uma afirmação tranquila, quase um cuidado velado.

Suspirou, mas não rejeitou a ideia. Nem em palavras, nem no olhar.

 

—–

 

A tempestade os surpreendeu ao final do passeio, e quando finalmente encontraram abrigo, ambos já estavam completamente encharcados. A chuva, insistente e cortante, colava as roupas à pele como uma segunda camada translúcida, moldando cada contorno, cada curva.

Jun caminhava ao lado de Akihiro, o corpo trêmulo do frio que a água trazia, a camisa fina aderindo ao peito como seda molhada. Akihiro, ao fitá-lo, sentiu um calor inteiramente oposto percorrer-lhe o corpo. Havia algo de indecente naquele contraste entre o frio da chuva e o modo como o tecido deixava transparecer o corpo de Jun. E aquela visão atiçava algo nele que nem mesmo a tempestade poderia conter.

Assim que a porta do apartamento se fechou às suas costas, Akihiro não hesitou. Agarrou a mão de Jun com firmeza e o guiou até o banheiro. O vapor logo começou a tomar o ar à medida que o chuveiro era acionado, suas roupas ainda coladas ao corpo quando Akihiro o puxou para debaixo da água corrente, como se o calor da água pudesse purgar o desejo que ardia sob a pele.

A água escorria por entre os fios de cabelo, pelos rostos e corpos, misturando-se ao calor crescente entre os dois. Akihiro já tinha as mãos firmes na cintura de Jun, puxando-o para si, seus lábios encontrando os dele com uma urgência que dispensava palavras. Jun respondeu ao beijo com igual intensidade, seus dedos se fechando sobre a camisa molhada de Akihiro, em um gesto quase instintivo.

— Você não poderia esperar até tirarmos as roupas? — murmurou entre beijos, sem esconder a respiração entrecortada. Os dedos se enredavam nos cabelos encharcados de Akihiro, e apesar do tom leve, seu corpo o contradizia, curvando-se mais na direção dele.

Akihiro afastou-se apenas o suficiente para encará-lo. Seus olhos, escuros e atentos, estavam intensamente fixos no rosto de Jun. As mãos deslizaram até os quadris dele, apertando-os com firmeza, mantendo-o próximo.

— Você estava bonito demais — disse em voz baixa, mas firme.

A resposta pegou Jun desprevenido. Ele piscou, confuso, virando o rosto ligeiramente para encará-lo.

— Mas… você me deu o blazer para me cobrir — retrucou, a expressão suavemente franzida pela dúvida. — Achei que…

— Eu só disse que não precisava se preocupar em chamar atenção — interrompeu Akihiro, sem perder a serenidade no tom. — Nunca disse que você não estava bonito.

Jun entreabriu os lábios, mas nenhuma resposta imediata veio. O olhar de Akihiro, firme e inabalável, não permitia tergiversações.

— Você estava lindo — reforçou, sem vacilar. — Eu só não queria que outros homens olhassem para você. Só isso.

O rubor que tingiu o rosto de Jun era inegável, contrastando com a umidade de sua pele. Ele desviou os olhos por um momento, como se digerisse aquelas palavras.

— Tudo bem… da próxima vez, só seja mais claro sobre como quer que eu me vista — respondeu, num tom baixo, quase defensivo.

Akihiro soltou um riso breve, abafado.

— Você pode se vestir como quiser — disse, com simplicidade. — Desde que isso não signifique agradar os outros… ou seduzir qualquer um que cruzar seu caminho.

— Me desculpe — murmurou Jun. — Estou acostumado a me vestir do jeito que os clientes esperam. Ninguém nunca me disse que podia escolher algo confortável só para mim.

Akihiro o observou em silêncio por um momento, os olhos percorrendo o rosto de Jun como quem decifra algo delicado. Então, quase imperceptível, um sorriso se formou no canto dos lábios.

— Pois bem — disse, com a firmeza de uma promessa simples. — Agora você sabe.

O beijo que se seguiu carregava algo mais profundo que desejo. Era uma afirmação, uma reivindicação silenciosa. Akihiro deslizou as mãos pela bainha da camisa de Jun, puxando o tecido com dificuldade, o algodão molhado relutando em se soltar da pele quente. Jun ergueu os braços em auxílio, expondo o torso nu sob o jato quente do chuveiro.

Akihiro prendeu a respiração por um instante ao fitar aquela visão, antes de se livrar da própria camisa. Os lábios do alfa estavam quentes, ligeiramente rachados, e havia neles uma textura que despertava em Jun um desejo inesperado. Ele se entregou ao beijo, aprofundando-o com um roçar sutil da língua contra o lábio inferior de Akihiro, em um apelo silencioso e íntimo.

Akihiro respondeu com um gemido abafado, puxando-o para mais perto, suas mãos deslizavam para baixo do shorts, até as nádegas de Jun, apertando-as com intensidade.

Jun deslizou as mãos até o cós da calça de Akihiro, os dedos trêmulos tropeçando nos botões e no zíper. A risada baixa do alfa reverberou entre eles, grave e indulgente. Jun foi o primeiro a interromper o beijo — os lábios úmidos e entreabertos, corados pelo calor — apenas para se ajoelhar diante dele.

Dessa vez, retirou as calças com mais calma, puxando também a roupa íntima e deixando as peças de lado, empilhadas num canto úmido.

Ajoelhou-se entre as pernas dele, sentindo o calor naquele ponto irradiar, espesso e intoxicante. O cheiro de Akihiro era mais denso ali — uma mistura de almíscar, feromônio e desejo cru. Jun inspirou fundo, como se pudesse ficar embriagado daquele aroma.

O membro já despontava, meio ereto, pulsando com expectativa. Jun o envolveu com uma das mãos, firme, mas delicado — como se aquilo fosse precioso demais para pressa. Com a outra, afastou os fios dourados que lhe caíam pelo rosto e, em seguida, inclinou-se para depositar um beijo suave na ponta, antes de deslizar a língua ao redor com movimentos circulares e devotados, explorando cada contorno como quem decora algo sagrado.

O gemido que escapou de Akihiro foi grave e arrastado, e suas mãos encontraram os cabelos de Jun por instinto, enredando-se nos fios com uma firmeza controlada, quase carinhosa.

Jun manteve o ritmo estável, mergulhando com precisão. Sua boca o envolvia com calor, mapeando veias e texturas com a língua, aprofundando-se até o limite que a garganta lhe permitia, sem engasgar. O aperto nos cabelos intensificou-se, mas havia afeto ali — uma força que sustentava, nunca forçava.

O corpo de Akihiro reagia em espasmos contidos, os quadris se contraindo com uma fome mantida à rédea curta.

— Jun… — rosnou, a voz tensa, os olhos semicerrados pelo prazer acumulado.

Jun o engolia com entrega total, os olhos semicerrados, os lábios brilhosos de saliva. A cada movimento, buscava que Akihiro sentisse o calor e o estreitamento da garganta. Quando percebeu que ele se aproximava do limite, ouviu o sussurro baixo e urgente.

Parou de súbito, os lábios selando-se apenas na ponta, sugando com lentidão, saboreando o gosto salgado do pré-gozo.

Levantou-se logo em seguida, tirando o próprio short e a roupa íntima, que deslizaram pelo corpo úmido até tocarem o chão. O vapor do banho embaçava os azulejos, desfocando os contornos do corpo de Jun como se ele fosse parte daquele nevoeiro quente.

— Desculpa… — murmurou, se aproximando — eu só… não quero mais esperar.

Akihiro não respondeu de imediato. Não havia frustração em seu olhar — apenas algo mais intenso, mais denso. A tensão em seus ombros pareceu se transformar em puro desejo. Suas mãos alcançaram Jun, os dedos explorando com firmeza a curva das nádegas antes de deslizarem para baixo.

Jun arfou ao sentir os toques provocadores, enquanto sua própria mão mantinha o ritmo no membro de Akihiro. Os gemidos escaparam de sua garganta, abafados pela umidade do ar, ecoando entre as paredes cobertas de azulejos.

Os lábios de Akihiro encontraram seu pescoço, roçando a pele úmida com os dentes, ao mesmo tempo que os dedos pressionavam sua entrada, cuidadosos, mas exigentes.

— Está apertado — murmurou, com a voz rouca de desejo contido. — Tem certeza de que vai aguentar?

Jun assentiu, o quadril movendo-se por reflexo, numa resposta muda, mas eloquente.

— Sim… Eu… vou ficar bem.

Akihiro retirou os dedos, e por um instante pareceu se lembrar de algo. Soltou um suspiro breve.

— Droga… — disse, com um tom quase casual. — Não tem camisinha aqui. E, pra pegar no quarto, a gente vai ter que fazer uma travessia que vai molhar tudo. Melhor a gente terminar o banho primeiro.

Ele começou a se afastar, levando as mãos ao próprio corpo para continuar se ensaboando sob o jato morno, quando a voz hesitante de Jun o alcançou:

— A gente… pode fazer sem.

Akihiro virou-se, surpreso. A expressão no rosto de Jun era um retrato de hesitação, as bochechas acesas de constrangimento, os olhos evitando os seus.

— O que? — perguntou, com a voz mais baixa, agora mais séria. — Você sabe que é um ômega, certo?

— Sim. E eu não tenho nenhuma doença, se é com isso que você está preocupado… — murmurou Jun, sem encará-lo. — E… eu acompanho meu período fértil. Tenho certeza que é seguro.

Por um momento, tudo que se ouviu foi o som da água batendo no chão. O alfa observou o modo como Jun se encolhia levemente, os ombros tensos, como se esperasse ser rejeitado ou repreendido por ter sugerido algo tão íntimo.

Akihiro se aproximou de novo e, sem dizer nada de imediato, pousou um beijo breve nos lábios dele, um gesto calmo.

— Já que você foi longe a ponto de dizer isso… então vamos fazer — murmurou, a voz ainda rouca, mas agora embebida em algo mais fundo. — Mas não sugira isso de novo, caso contrário eu posso ficar viciado e começar a pedir por isso.

Com um movimento firme, passou um dos braços pelas costas de Jun e o ergueu, sustentando-o com facilidade. Jun ofegou, instintivamente envolvendo as pernas ao redor da cintura dele.

— Akihiro, espera! Eu posso cair — sussurrou, entre alarmado e risonho.

— Cair? — Akihiro arqueou uma sobrancelha, com um meio sorriso. — Sente só o tamanho dos meus braços.

Os músculos estavam contraídos, tensos, sustentando o corpo de Jun com firmeza, como se não pesasse nada.

— Tudo bem, mas… e se você escorregar?

— Para isso existe tapete o antiaderente no chão emborrachado. — respondeu com simplicidade, a voz carregada de provocação indulgente.

Jun riu, um som nervoso, abafado, mas os dedos já se agarravam aos ombros de Akihiro com mais segurança, confiando.

— Tudo bem, só… me segure firme.

Com cuidado, Akihiro o posicionou contra a parede, uma das mãos firme sob a coxa de Jun, a outra guiando-se para encontrar o caminho entre seus corpos. Quando a glande roçou a entrada sensível, ambos prenderam a respiração por um breve instante. O impulso foi lento, mas preciso — o tipo de firmeza que falava de desejo, sim, mas também de respeito.

Jun deixou escapar um gemido entrecortado, abafado contra o ombro do alfa, a cabeça tombando para trás à medida que o sentia invadi-lo por inteiro.

— Merda… isso é bom — arfou Akihiro, os quadris começando a se mover com força crescente.

O vapor preenchia o banheiro como um véu espesso, diluindo os contornos dos corpos em movimento. Uma das pernas de Jun deslizou, ágil, até descansar sobre o ombro de Akihiro, sem esforço algum — como se seu corpo soubesse, instintivamente, o que fazer naquela dança crua e íntima.

— Tão flexível… — murmurou o alfa, ofegante, os lábios quase tocando a pele úmida e trêmula entre as investidas. — Por isso dança tão bem…

Jun já não conseguia conter os gemidos, o corpo tremendo sob cada movimento profundo, o som dos corpos se chocando ecoando pelo banheiro tomado pelo vapor. Akihiro mordiscou a curva do pescoço de Jun, seus movimentos tornando-se cada vez mais intensos.

— Akihiro… eu vou… eu vou gozar… — arfou Jun, o clímax tomando-o com força.

O corpo se arqueou de encontro ao do alfa, as costas roçando os azulejos frios da parede enquanto seu sêmen salpicava o próprio abdômen, em espasmos desordenados, enquanto os músculos se contraíam em ondas violentas de prazer.

Akihiro não parou. O clímax do outro apenas acendeu a fome em seu interior. Seus movimentos tornaram-se erráticos, mais profundos, como se buscasse gravar a sensação em sua própria carne. E quando enfim chegou ao ápice, foi diferente de qualquer vez anterior.

Enterrou-se por inteiro dentro de Jun e permaneceu ali, arfando contra sua nuca, a respiração entrecortada pelo êxtase. O calor que o envolvia era quase sagrado. Sem nada entre eles, o gozo veio intenso, quente, derramando-se fundo, fazendo-o estremecer por inteiro.

Jun o sentiu — cada pulsar, cada jorro quente que se espalhava em seu interior. Era um preenchimento mais íntimo, mais visceral, como se uma parte de Akihiro o reclamasse de forma definitiva. Seu corpo reagiu com um leve tremor, os olhos cerrados, os lábios entreabertos num suspiro silencioso. Não era apenas o prazer que se espalhava — era o reconhecimento de algo que ia além da carne.

O alfa manteve-se ali por longos segundos, pressionando o corpo contra o dele, antes de sussurrar, a voz rouca, mas agora suavizada por um traço de ternura:

— Vamos nos lavar e depois, vamos para a cama. No meu quarto, tenho camisinhas.

Capítulo 8
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Laços em Carmesim

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Akihiro Hanamura sempre acreditou que laços afetivos não passavam de ilusões passageiras – convenções sociais frágeis que encobriam a inevitável falência das relações humanas. Como...

Chapters

  • Capítulo 16 FINAL O eterno no cotidiano
  • Capítulo 15 A Vulnerabilidade de um Alfa
  • Capítulo 14 Segredos de Sangue
  • Capítulo 13 Fim das Correntes
  • Capítulo 12 Um lar e o cheiro de comida
  • Capítulo 11 Rastros de Medo
  • Capítulo 10 Mesa para Dois na Sala Reservada
  • Capítulo 9 Rachaduras na muralha
  • Capítulo 8 A Voz de Jun
  • Capítulo 7 O coração exausto de Jun
  • Capítulo 6 O Gosto da Ternura
  • Capítulo 5 Junhos Possíveis
  • Capítulo 4 Proposta Intrigante e Tentadora
  • Capítulo 3 Sedução no Palco, Verdades no Encontro
  • Capítulo 2 - A primeira intersecção
  • Capítulo 1 - Uma Noite ao Acaso

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