Laços

Laços em Carmesim

Capítulo 9

  1. Home
  2. All Mangas
  3. Laços em Carmesim
  4. Capítulo 9 - Rachaduras na muralha
Anterior
🟡 Em breve

A madrugada repousava serena sobre a cidade, envolta na penumbra de um céu espesso e imóvel. Os sons urbanos haviam se recolhido, cedendo lugar ao murmúrio distante do vento contra as janelas, à respiração contida do mundo adormecido.

No interior do apartamento, a penumbra era suavemente diluída pela luz morna do abajur à cabeceira, que tingia as paredes com sombras tênues, vacilantes, como se hesitassem em perturbar o silêncio. Sobre a cama ampla, os corpos de Akihiro e Jun repousavam sob a manta de linho espesso, entrelaçados pelo calor humano que persistia mesmo no adormecer. A respiração ritmada de Jun era tranquila, mergulhada num sono profundo que, por fim, o havia envolvido naquela noite.

Mas a paz foi abruptamente desfeita.

O toque agudo e insistente do celular rasgou o silêncio como uma lâmina, fazendo com que Jun despertasse de sobressalto. Seus olhos se abriram de imediato, ainda turvos e hesitantes, e a mão tateou ao lado da cabeceira, guiada pelo som incômodo. A luz do visor iluminou seu rosto pálido, revelando o nome estampado na tela. Seu corpo enrijeceu.

Era sua mãe.

Um arrepio percorreu sua espinha, e mesmo antes de atender, algo dentro de si já sabia: nada de bom poderia vir de uma ligação naquela hora.

— Alô? — Sua voz saiu rouca, arrastada pelo peso do sono interrompido, mas já marcada por um crescendo de inquietação.

Do outro lado da linha, ouviu-se o som irregular da respiração de sua mãe, ofegante, trêmula. Jun apertou o aparelho contra o ouvido, sentindo o estômago se contrair. O pânico da mãe era audível, transparente, como se cada palavra estivesse sendo arrancada de dentro dela.

— Jun… Jun… — ela balbuciou, a voz desorganizada, engasgada — É… é seu irmão. Ele está no hospital. Teve uma complicação, foi tudo tão de repente…

Por um instante, tudo em Jun cessou: o ar, o som, o tempo. Um silêncio absoluto o envolveu, como se o mundo houvesse parado de girar.

— O quê? — sussurrou, a voz falhando no meio do caminho, enquanto os olhos fixavam um ponto qualquer no escuro, vazios de foco. — Que tipo de complicação? O que aconteceu com ele?

Sua mãe tentava organizar os pensamentos em meio ao próprio desespero.

— Eu não sei ao certo… O hospital me ligou… disseram que o quadro dele se agravou. Por favor, Jun, venha rápido…

O súbito aperto em seu peito tirou-lhe o fôlego. Uma onda de adrenalina percorreu seu corpo, empurrando-o para fora da cama com brutalidade. Ele se levantou de imediato, arrancando o cobertor para o lado enquanto procurava as roupas, cada movimento marcado por urgência e descontrole. As mãos tremiam desordenadas enquanto ele tentava vestir a camisa, errando os botões, tropeçando nos próprios pensamentos.

Foi nesse instante que Akihiro se mexeu, despertado pelo tumulto ao seu lado. Com os olhos ainda enevoados pelo sono, ele se sentou, virando-se na direção de Jun. Bastou um olhar para que o pressentimento se confirmasse: algo estava muito errado.

— Jun…? — murmurou, a voz baixa e rouca. Seus olhos acompanharam a figura trêmula e apressada ao lado da cama. — O que está acontecendo?

Jun tentou responder, mas a voz parecia presa na garganta. Ele arfava, as palavras embaralhadas entre o pânico e a incredulidade. Finalmente, forçou-se a pronunciar, num sussurro sufocado:

— É meu irmão… Ele está no hospital. Eu preciso ir. Agora.

O impacto daquelas palavras foi imediato. Akihiro jogou as cobertas para o lado e se levantou num só gesto, os sentidos aguçados. Seus olhos, antes pesados de sono, agora se fixavam em Jun com nítida preocupação. Ele observou por um segundo o desespero contido nos gestos do outro — a pressa, a palidez, as mãos que não conseguiam sequer amarrar os cadarços.

— Jun, respira. Você está tremendo — disse, sua voz firme, mas sem dureza, tentando trazer um mínimo de racionalidade ao caos crescente.

— Eu não posso! — rebateu Jun, a voz embargada. — Eu não sei o que está acontecendo com ele, Akihiro! E se for grave? E se… — a frase se perdeu no meio do ar, engolida por um soluço que ele conteve com os dentes cerrados.

Akihiro avançou até ele, contornando a cama com passos decididos, e segurou-lhe os pulsos. O toque não foi agressivo, mas o suficiente para fazê-lo parar — como uma âncora em meio à tormenta.

— Jun, escuta. Eu vou te levar — disse com firmeza, os olhos presos aos dele. — Mas você precisa se acalmar. Respirar. Se sair assim, vai se perder no caminho. Me deixa cuidar disso.

Por um momento, Jun apenas o encarou, como se as palavras demorassem a encontrar sentido. O mundo ainda girava rápido demais, mas a presença de Akihiro, estável, direta, começava a ancorá-lo na realidade. Ele assentiu, quase imperceptivelmente, com os lábios entreabertos e o olhar ainda em desalinho.

— Confia em mim. Eu vou te levar até ele — repetiu Akihiro, já pegando as chaves do carro em cima da cômoda.

Jun permaneceu imóvel por alguns segundos, depois se forçou a mover os pés, seguindo os passos de Akihiro até a porta. Ele ainda tremia, os pensamentos desordenados, mas havia uma clareza que o mantinha de pé: ele precisava chegar ao hospital. E Akihiro estaria ao seu lado, guiando-o naquela travessia.

—–

A entrada do hospital exalava uma frieza estéril que parecia repelir qualquer traço de calor humano. A iluminação branca e uniforme tornava o ambiente quase inóspito, lançando um brilho impiedoso sobre o piso cerâmico e os móveis metálicos. O ar estava impregnado pelo cheiro agressivo de antisséptico, enquanto o sussurro constante de vozes abafadas e o som cadenciado dos passos apressados de enfermeiros e médicos criavam um pano de fundo inquieto, quase mecânico.

Jun mal notava qualquer uma dessas coisas. Sua mente era um redemoinho silencioso, um único pensamento reverberando em ciclos incessantes: encontrar sua mãe. Encontrar Seojin.

Logo após passarem pela recepção, Akihiro notou o quanto Jun estava à beira do colapso. Seu peito subia e descia rápido demais, o olhar oscilava entre os corredores sem conseguir fixar-se em nada. Havia uma tensão quase palpável em seu corpo — o tipo de tensão que precedia o desmoronamento. Antes que ele se precipitasse, interpelando a primeira pessoa uniformizada que cruzasse seu caminho, Akihiro interveio com delicada firmeza.

— Jun, deixa que eu falo com eles. Qual é o nome do seu irmão?

A voz de Akihiro era calma, mas direta, como se ele estivesse tentando segurar o mundo no lugar apenas com palavras. Jun piscou algumas vezes, como se as palavras lhe custassem algum esforço, e então murmurou:

— Seojin Olivine.

Akihiro assentiu. Com passos seguros, aproximou-se da recepcionista, que levantou os olhos do monitor com a expressão profissional de quem já vira o desespero de dezenas antes dele.

— Estamos procurando Seojin Olivine. Ele foi internado esta noite.

A mulher digitou rapidamente, os dedos fluindo com prática sobre o teclado. Após alguns segundos, ergueu os olhos.

— Quarto 312, terceiro andar. Mas ele ainda está sob observação. A entrada está restrita a familiares diretos.

— Entendido, obrigado.

Voltando-se para Jun, Akihiro apenas disse:

— Terceiro andar. Vamos.

Jun sequer esperou. Assim que soube o número do quarto, seus passos se aceleraram por puro instinto, atravessando o saguão como se cada segundo fosse vital. Akihiro o acompanhou de perto, vigilante, pronto para ampará-lo caso o peso da angústia enfim o derrubasse.

No terceiro andar, quando as portas do elevador se abriram com um suspiro metálico, Jun avançou pelo corredor iluminado de forma igualmente fria até encontrar sua mãe sentada em um dos bancos próximos às janelas. O irmão mais novo, com o corpo encolhido contra ela, soluçava baixinho. Ambos estavam com os rostos marcados pelo cansaço e o desespero recente.

O coração de Jun apertou num gesto involuntário, como se tivesse sido espremido por dentro do peito.

— Mãe… — Sua voz saiu falha, trêmula.

Ela ergueu o rosto, os olhos inchados e úmidos. Ao vê-lo, ergueu-se imediatamente, o instinto materno ultrapassando o cansaço. Segurou o rosto de Jun com ambas as mãos, como se precisasse confirmar que ele estava realmente ali.

— Jun, graças a Deus você veio! — A voz dela embargou, rompida pela urgência emocional que já não conseguia mais conter. — Ele… ele estava tão mal…

— O que aconteceu? Ele estava estável. — A tentativa de controlar o tom falhou. O pânico rasgava a superfície de sua voz, expondo-o.

— Ele teve uma crise… diferente de todas as anteriores. Os médicos disseram que os pulmões dele estavam muito fracos. Houve uma insuficiência respiratória.

Aquelas palavras atingiram Jun como uma lâmina. Ele oscilou ligeiramente, como se o chão sob seus pés tivesse cedido por um instante.

Seojin sempre teve saúde delicada. Desde muito pequeno, vivia sob os efeitos severos da fibrose cística — uma condição genética que tornava seus pulmões armadilhas para o próprio corpo. O muco espesso acumulava-se lentamente, sufocando-o por dentro, tornando cada gripe um risco, cada infecção uma ameaça de vida. O tratamento era exaustivo: nebulizações, fisioterapia respiratória, antibióticos constantes… e ainda assim, parecia uma batalha perdida contra um inimigo implacável.

Jun sabia disso. Sabia de tudo, mas evitava olhar para essa realidade de frente. Preferia alimentar a esperança. Trabalhava incansavelmente para ajudar com os custos — mesmo quando o cansaço o esmagava — porque a ideia de perdê-lo era simplesmente insuportável.

— Ele está estável agora? — a pergunta saiu como um fio de voz, presa entre o medo e o desejo urgente de ouvir algo diferente do que já imaginava.

— Por enquanto. Mas o médico disse que, se as crises se repetirem com essa intensidade, ele precisará ser internado com mais frequência. O corpo dele está se desgastando, Jun.

As palavras da mãe soaram como um presságio. Um prenúncio que Jun sempre temeu ouvir com aquela clareza.

Akihiro permanecia próximo, em silêncio. Ele não intervia, mas estava lá — sua presença era como uma âncora, firme, constante. Quando Jun deu um passo para trás, tentando recuperar o ar que parecia lhe escapar, sentiu uma mão repousar suavemente em suas costas. Era a mão de Akihiro — quente, firme, um gesto simples, mas capaz de mantê-lo de pé.

— Podemos vê-lo? — Jun voltou-se à mãe com a voz baixa.

— Ainda não. Os médicos preferem monitorá-lo por mais algum tempo antes de permitir visitas.

Jun assentiu em silêncio. As palavras se tornaram espessas em sua garganta, e tudo ao redor parecia ofuscado por uma névoa de incertezas. O corredor do hospital era sombrio, interrompido apenas pelos passos de plantão e pelo som ritmado e distante de monitores. Um relógio na parede marcava pouco depois das três da manhã — um horário cruel para se estar acordado por dor.

Percebendo a necessidade de acalmar o outro, Akihiro afastou-se por alguns minutos. Quando voltou, trazia duas garrafinhas de chá quente compradas na máquina automática do andar. Sem dizer palavra, entregou uma a Jun, que demorou um instante antes de aceitá-la. Suas mãos ainda tremiam.

— Beba. O calor ajuda a acalmar os nervos.

Jun assentiu, levando a garrafa aos lábios. O sabor adocicado e morno deslizou garganta abaixo, trazendo um conforto modesto, quase ilusório.

— Isso acontece com frequência? — perguntou Akihiro, a voz baixa, como quem respeita a dor que habita o silêncio alheio.

Jun apoiou os cotovelos nos joelhos, o olhar fixo em algum ponto do chão.

— Mais do que deveria. — Sua voz estava carregada de cansaço. — Às vezes ele parece bem, melhora, sorri… e então, do nada, tudo piora de novo. Como se nada do que fizéssemos fosse suficiente. Como se estivéssemos sempre à beira de algo pior.

— E os médicos? O que dizem?

— Que precisamos estar prontos. Para tudo. — Jun soltou uma risada seca, sem humor. — Como se alguém pudesse realmente estar pronto para isso.

Havia um tom oculto por trás das palavras de Jun, e Akihiro notou. Um peso que ia além do medo e da exaustão. Ele o observou por alguns segundos, antes de murmurar:

— Está com medo de que falte mais do que só tempo, não é?

Jun não respondeu de imediato. Mas o silêncio que se seguiu confirmou o que Akihiro já sabia. O fardo financeiro — os custos absurdos de um tratamento constante, os remédios, as internações, os exames — tudo isso pendia sobre os ombros de Jun como um fardo silencioso, insuportável, e que ele carregava sozinho.

Ele manteve os lábios cerrados, optando por não mencionar os custos crescentes do tratamento de Seojin. Não queria que Akihiro soubesse da gravidade daquele fardo.

O alfa, por sua vez, notou a tensão estampada nos traços do rosto de Jun, mas não insistiu. Em vez disso, recostou-se na cadeira, cruzando os braços com a tranquilidade de quem sabia observar antes de agir.

— Sei que está exausto, Jun.

— Estou bem. — A resposta foi automática, rápida demais para convencer.

Akihiro arqueou uma sobrancelha, a incredulidade evidente.

— Pode mentir para si mesmo o quanto quiser, mas não para mim. Não dormiu nada esta noite, está tenso desde que entramos aqui. Se continuar assim, vai acabar desmoronando.

Jun abriu a boca, prestes a protestar, mas Akihiro não lhe deu espaço para se justificar. Com um movimento calmo, envolveu-lhe os ombros com o braço e o puxou para perto, guiando sua cabeça até seu próprio ombro com naturalidade.

— Apenas… relaxe um pouco.

Jun enrijeceu ao toque. Não estava acostumado com gestos tão espontâneos — muito menos com aqueles que exigiam vulnerabilidade. Porém, a presença de Akihiro ao seu lado não era impositiva; era cálida, firme, ancorando-o. Com o passar dos segundos, ele permitiu-se ceder um pouco, o peso da noite e das emoções tornando-se impossível de suportar sozinho.

Apoiou a cabeça no ombro de Akihiro, os músculos enfim se entregando à exaustão.

— Você não precisava ter vindo, — murmurou, a voz baixa, quase inaudível. Havia culpa em suas palavras.

— Mas eu quis vir. — A resposta de Akihiro veio sem hesitação, firme e desprovida de dramatismo. — Então não perca tempo se preocupando com isso.

Jun fechou os olhos, deixando o silêncio preencher o espaço entre eles. O aroma que emanava de Akihiro era limpo, sutil — vestígios do sabonete usado no banho misturados a algo mais pessoal, discreto, que o fazia lembrar de coisas seguras, constantes.

O hospital continuava frio, indiferente. A apreensão ainda pesava como chumbo em seu peito. Mas ali, naquela presença sólida ao seu lado, o mundo parecia um pouco menos cruel.

—–

A madrugada cedeu espaço à luz pálida da manhã. Os primeiros raios filtravam-se pelas janelas do hospital, tingindo de cinza claro os corredores outrora silenciosos. O sussurro dos passos dos funcionários e o início das atividades transformavam o ambiente, preenchendo o vazio da noite com um murmúrio contínuo.

Jun e Akihiro haviam adormecido sentados, vencidos pela exaustão. O corpo de Jun repousava contra Akihiro, que, por sua vez, sem perceber, inclinara a própria cabeça sobre a de Jun. O calor mútuo oferecia um conforto silencioso, um laço silenciosamente tecido entre os dois no torpor da espera.

Foi a voz contida da mãe de Jun que os despertou.

— Jun.

Ele abriu os olhos com dificuldade, desorientado. Levou alguns segundos até que a lembrança do hospital, da madrugada passada em vigília, voltasse com clareza. Ao seu lado, Akihiro também despertou, passando a mão pelo rosto, a respiração pesada e arrastada pelo cansaço.

— Seu irmão já pode receber visitas, — informou a mãe, com um sorriso contido. Havia alívio em sua voz, mas também desgaste.

O corpo de Jun reagiu antes que sua mente conseguisse formular qualquer pensamento coerente. Ele se ergueu num gesto apressado, ignorando as dores nas articulações e a rigidez dos músculos.

— Ele está acordado? — perguntou, ainda com a voz rouca.

— Sim. Os médicos disseram que está estável.

A confirmação trouxe um breve alívio ao seu semblante. Ele endireitou as roupas com um gesto automático e dirigiu-se à porta do quarto. Akihiro, discreto, permaneceu no corredor.

Dentro, Seojin jazia deitado, o rosto pálido contrastando com os olhos que, embora pesados, carregavam um brilho tênue de lucidez. Ao ver Jun, um sorriso fraco curvou seus lábios.

— Você demorou. — A voz era baixa, mas tentou soar bem-humorada.

Jun soltou um suspiro trêmulo e aproximou-se, tomando a mão do irmão com cuidado.

— E você me assustou. — A sinceridade em sua voz não deixava espaço para subentendidos.

— Me desculpe. — Seojin retribuiu o aperto com a pouca força que lhe restava. — Mas ainda estou aqui.

Jun sorriu brevemente. O nó em sua garganta se afrouxou, ainda presente, mas menos sufocante.

— Sim… ainda está.

Ficou ao lado dele por longos minutos. As palavras entre eles eram poucas — não por falta do que dizer, mas porque, naquele momento, o silêncio era suficiente.

Ao sair, encontrou Akihiro no mesmo lugar onde o deixara. O alfa se ergueu ao vê-lo, o olhar atento examinando-lhe o rosto.

— Ele está melhor. — Jun falou primeiro, a voz mais firme, embora ainda carregasse traços de cansaço. — Vou ficar com ele. Minha mãe e meu irmão mais novo precisam descansar.

Akihiro franziu o cenho.

— E você?

— Eu já passei por isso muitas vezes. Não será a última. — A resposta veio tranquila, sem traço de desafio, apenas resignação.

Akihiro suspirou, sabendo que não adiantaria insistir.

— Se algo acontecer de novo, você me avisa.

Jun hesitou por um breve instante, mas assentiu.

— Avisarei.

Quando Akihiro se virou para partir, algo nele titubeou. Seus olhos voltaram para Jun, e, num gesto impulsivo, ergueu a mão. Com o polegar, afastou uma lágrima solitária que escorria silenciosamente sob o olho esquerdo de Jun — uma lágrima que talvez nem o próprio tivesse notado.

O gesto foi breve, quase imperceptível. Mas carrega um peso que palavras não poderiam descrever.

Jun permaneceu imóvel, surpreso com o toque. Não havia nada de invasivo no movimento; apenas um cuidado silencioso, íntimo, inesperado.

Akihiro também pareceu se dar conta do que fizera apenas um segundo depois. Recuou a mão com discrição, desviando o olhar.

— Lembre-se de descansar. — Foi tudo o que disse antes de se afastar pelo corredor.

Jun permaneceu onde estava, observando a figura de Akihiro desaparecer lentamente. Então levou a mão ao rosto, tocando com os próprios dedos o lugar onde fora tocado.

Seu coração deu um leve salto, pequeno, mas impossível de ignorar. Ainda assim, afastou esse pensamento com firmeza.

Havia coisas mais urgentes para as quais precisava estar presente.

—–

O sol ainda se insinuava timidamente no horizonte quando Akihiro parou diante da porta do apartamento de Himeko. Durante alguns segundos, permaneceu imóvel, hesitando antes de tocar a campainha. Passou uma mão pelo rosto em um gesto cansado, como se pudesse afastar o peso da noite mal dormida. Apesar de ter retornado para casa, não havia conseguido repousar. O silêncio o incomodava. A solidão o inquietava.

A porta se abriu pouco depois, revelando Himeko vestida com roupas simples de casa. Os cabelos estavam presos de qualquer jeito, um coque frouxo que revelava o início apressado de sua manhã. Ainda assim, havia nela uma graça despreocupada. Ao vê-lo ali, tão cedo, uma sobrancelha se ergueu com um misto de surpresa e divertimento.

— Essa é nova. Nunca achei que te veria de pé a essa hora — comentou, cruzando os braços com naturalidade.

Akihiro soltou um suspiro abafado, apoiando-se no batente da porta com o ombro.

— E você, por que já está acordada?

Himeko riu baixo, sacudindo a cabeça como quem repete uma verdade que já lhe era habitual.

— Por causa do bebê. Ele sempre desperta nesse horário.

Akihiro assentiu com lentidão, murmurando um “claro” quase inaudível. Em outras circunstâncias, teria aproveitado a oportunidade para provocar a irmã. Teria dito algo sobre como ela havia se tornado o retrato da responsabilidade doméstica — algo impensável alguns anos atrás. Mas naquele instante, não havia ânimo para ironias. Aquele papel que ela agora ocupava com firmeza e serenidade lhe parecia, de súbito, pesado demais para ser alvo de piadas.

O silêncio que se formou entre eles não passou despercebido. Himeko inclinou ligeiramente a cabeça, estreitando os olhos enquanto estudava o rosto do irmão. Conhecia-o bem demais para ignorar aquela sombra silenciosa em seu olhar.

— Está tudo bem?

Akihiro desviou os olhos, sustentando um suspiro demorado antes de responder com uma evasiva quase automática:

— Só estou com sono. Não dormi bem e não queria ficar em casa.

A resposta soou vazia, sem consistência. Himeko reconheceu a mentira contida naquela hesitação. Akihiro, que sempre preferia o refúgio da própria cama e da própria solidão quando algo o incomodava, estava ali — e isso, por si só, dizia muito. Mas ela não insistiu. Conhecia os limites do irmão. Forçá-lo a falar só o faria erguer barreiras.

— Quer café? — perguntou com uma casualidade proposital, oferecendo-lhe uma saída mais confortável.

Ele hesitou por um momento, então deu de ombros, a expressão ainda abatida.

— Não, obrigado.

— Pelo menos entre antes que desmaie aí fora.

Akihiro atravessou o limiar em silêncio e deixou-se cair no sofá da sala, como se o peso em seus ombros se tornasse mais denso a cada passo. Do lugar onde estava, acompanhou com o olhar a silhueta de Himeko se afastando em direção à cozinha. O som dos passos dela, o leve tilintar de utensílios e o aroma do café começando a se espalhar no ar criavam um conforto inesperado.

Não mencionou Jun. Ainda não era o momento.

Havia algo indefinido em seu peito. Um incômodo que não conseguia nomear. O toque sutil de Jun na noite anterior, a exaustão que ele tentava ocultar, o modo como insistia em carregar o mundo nas costas sem jamais pedir ajuda. A lembrança da lágrima silenciosa em seu rosto — aquela que ele sequer percebeu ter deixado cair — insistia em retornar, como uma presença incômoda.

Suspirou e pegou o celular do bolso, desbloqueou a tela, conferiu as mensagens. Nada. Nenhum sinal dele.

Sem pensar, abriu a galeria. E lá estava a foto: Jun segurando um buquê improvisado, os lábios curvados num sorriso que começara como brincadeira e terminara sincero demais. Uma encenação tola, quase caricata, que no entanto carregava uma intimidade desconcertante.

Akihiro demorou-se naquela imagem. A expressão de Jun não era apenas de riso — havia entrega ali.

Talvez estivesse pensando demais. Ou talvez estivesse começando a entender que Jun já ocupava mais espaço em sua mente do que ele estava pronto para admitir.

—–

O sofá, ainda que longe do conforto de sua própria cama, o acolheu o suficiente para que o sono finalmente o dominasse. Dormiu profundamente, vencido pelo cansaço acumulado da noite anterior. O silêncio da casa de Himeko, pontuado apenas por ruídos sutis e distantes, ofereceu um refúgio raro, e seu corpo, por fim, cedeu.

Despertou com uma sensação leve no braço, um toque pequeno e desajeitado. Piscou devagar, os olhos ainda pesados de sono, até perceber a origem daquilo.

Diante dele, sentado no tapete, estava seu sobrinho — uma criaturinha de olhos grandes e curiosos, que o observava com o fascínio típico da infância. Um segundo depois, Rurihito apareceu, apressado, puxando o pequeno com delicadeza para mais perto de si.

— Desculpe, ele te acordou — disse com um sorriso tímido. — Eu tentei impedir, mas ele foi mais rápido.

Akihiro passou a mão pelo rosto, afastando os últimos vestígios de torpor.

— Está tudo bem… — respondeu em voz rouca, o tom ainda preguiçoso.

O bebê nos braços de Ruri olhava para ele com aquela pureza sincera que só as crianças possuíam. Sem pensar, Akihiro estendeu os braços, e o pequeno não hesitou em se aconchegar em seu colo. Brincava agora com as dobras da camisa, como se aquele lugar fosse familiar desde sempre.

— Você parece cansado — comentou Rurihito, observando-o com atenção serena. — Não quis acordá-lo porque parecia que precisava mesmo descansar.

Akihiro não respondeu de imediato. Limitou-se a observar o sobrinho, pequeno e confiante, aninhado contra seu peito. Olhou em volta, absorvendo a cena: o chão forrado com brinquedos, o ambiente simples e acolhedor, a presença tranquila de Ruri ali ao seu lado.

Por anos, zombara da escolha de Himeko. Ri da ideia de que ela, outrora tão independente e indomável, optaria por uma vida familiar, por uma rotina doméstica. Achava que ela havia se rendido, perdido sua essência. Mas ali, naquela manhã comum, Akihiro enfim compreendeu.

Compreendeu que Himeko não havia mudado — ao menos, não da maneira que ele pensava. Ela apenas encontrara algo que fazia sentido para ela. Algo que valia a pena proteger. Um amor que justificava todas as concessões.

Akihiro desviou o olhar, voltando os olhos para o bebê que agora segurava firmemente seu dedo com uma mão minúscula.

Talvez, afinal, sua irmã não tivesse se transformado em outra pessoa.

Talvez ela apenas tivesse encontrado, por fim, um lugar onde pudesse permanecer sem precisar lutar contra tudo. E, em silêncio, Akihiro começou a se perguntar se ele também não estava à procura desse mesmo lugar — mesmo que ainda não soubesse como nomeá-lo.

Capítulo 9
Fonts
Text size
AA
Background

Laços em Carmesim

2K Views 0 Subscribers

Akihiro Hanamura sempre acreditou que laços afetivos não passavam de ilusões passageiras – convenções sociais frágeis que encobriam a inevitável falência das relações humanas. Como...

Chapters

  • Capítulo 16 FINAL O eterno no cotidiano
  • Capítulo 15 A Vulnerabilidade de um Alfa
  • Capítulo 14 Segredos de Sangue
  • Capítulo 13 Fim das Correntes
  • Capítulo 12 Um lar e o cheiro de comida
  • Capítulo 11 Rastros de Medo
  • Capítulo 10 Mesa para Dois na Sala Reservada
  • Capítulo 9 Rachaduras na muralha
  • Capítulo 8 A Voz de Jun
  • Capítulo 7 O coração exausto de Jun
  • Capítulo 6 O Gosto da Ternura
  • Capítulo 5 Junhos Possíveis
  • Capítulo 4 Proposta Intrigante e Tentadora
  • Capítulo 3 Sedução no Palco, Verdades no Encontro
  • Capítulo 2 - A primeira intersecção
  • Capítulo 1 - Uma Noite ao Acaso

Login

Perdeu sua senha?

← Voltar BL Novels

Assinar

Registre-Se Para Este Site.

Leave the field below empty!

De registo em | Perdeu sua senha?

← Voltar BL Novels

Perdeu sua senha?

Por favor, digite seu nome de usuário ou endereço de e-mail. Você receberá um link para criar uma nova senha via e-mail.

← VoltarBL Novels