Cap 55. Fim
Pouco depois de Shen Mu e Xiao Fan retornarem ao palácio, o doutor Xu foi convocado às pressas.
O velho, de cabelos prateados até os ombros, carregava uma caixa de madeira nos ombros e outra em cada mão. Assim que chegou à sala e fez uma reverência, colocou respeitosamente a caixa sobre a mesa diante de Xiao Fan e, com uma voz grave, pediu a Jing An que trouxesse uma bacia com água fervente.
A caixa foi aberta, e dentro dela estava uma túnica negra bordada com dragões — a mesma que Shen Mu havia entregado. Alguns servos se aproximaram trazendo um balde de madeira cheio até a metade com água fervente.
O velho retirou da caixa um lenço dobrado e um pequeno frasco de porcelana branca. Após abrir o lenço, ele revelou uma flor vermelha enrolada, que colocou sobre a mesa.
Pegou uma tigela com a água fervente e mergulhou as flores vermelhas ali dentro. Em seguida, destampou o frasco de porcelana e despejou o líquido incolor no barril. Só então empurrou a tigela para frente, fazendo um gesto para que Shen Mu e Xiao Fan observassem.
As delicadas flores vermelhas tinham sete pétalas no total e, assim que foram mergulhadas na água fervente misturada com o líquido medicinal, uma fragrância suave começou a se espalhar. Shen Mu se aproximou e aspirou o aroma. Suas sobrancelhas finas se franziram levemente.
Como Su Xin havia dito, o cheiro não era muito diferente do sândalo, mas era mais forte — com um toque adocicado.
— Essa é a flor? — ele perguntou.
O doutor Xu assentiu com a cabeça.
— Sim.
Depois do tempo de meio copo de chá, a água começou a adquirir um tom avermelhado, e o brilho vermelho dos pétalos também começou a se esvair aos poucos.
Vendo isso, o doutor pegou cuidadosamente a túnica negra dobrada e a mergulhou na água fervente.
Depois levantou os olhos e falou com Shen Mu:
— Examinei a túnica de Sua Majestade assim que o Senhor Regente me trouxe naquele dia. E de fato, como disse, ela havia sido embebida com o extrato da flor.
Assim que a túnica foi submersa na água medicinal, traços rosados começaram a emergir e flutuar sobre a superfície.
Xiao Fan franziu a testa e ordenou a Jing An que mergulhasse mais algumas peças de roupa na mesma água.
A coloração era a mesma — rosa, porém um pouco mais escura do que a túnica negra. Provavelmente porque o doutor Xu já havia testado a túnica uma vez no dia anterior.
Shen Mu retirou uma das peças da água, aproximou da ponta do nariz e inalou o cheiro. Depois a devolveu ao barril e se virou para perguntar ao médico.
Seu rosto estava sério, e a expressão ficou imediatamente fria, quase assustadora:
— Como se cura esse veneno?
Ao lembrar que, no livro, Xiao Fan viveu apenas até os quarenta anos, Shen Mu sentiu o coração ser apertado por uma mão invisível, a ponto de lhe faltar o ar.
Xiao Fan, sentado na poltrona macia, pegou sua mão entre as dele, transmitindo um calor constante e reconfortante. Murmurou:
— Vai ficar tudo bem. Não precisa ter medo.
Após verificar o pulso de Xiao Fan, o médico finalmente soltou um longo suspiro de alívio, e a rigidez em seu rosto pálido se suavizou. Ele se levantou, deu alguns passos para trás e fez uma reverência a Shen Mu e Xiao Fan, dizendo em voz baixa:
— Vossa Excelência não precisa se preocupar. A flor em si não é venenosa — na verdade, tem até propriedades tônicas. A questão é que Sua Majestade é jovem e cheio de vitalidade. Nesse caso, o forte tônico da flor sagrada da luciérnaga acabou sendo prejudicial.
Shen Mu perguntou de imediato:
— Qual é a solução?
Com permissão, o doutor Xu rapidamente redigiu uma receita longa em um pedaço de papel.
Shen Mu olhou mais de perto. Era quase igual à anterior, apenas com algumas ervas extras. Ao mesmo tempo, ouvia a explicação do médico:
— Embora a flor não seja venenosa, o acúmulo excessivo dela no corpo pode causar danos. Nesta receita, incluí ervas que neutralizam os efeitos da flor da luciérnaga e ajudam a eliminar os resíduos tóxicos.
Xiao Fan parecia muito mais calmo.
— Quanto tempo até que esteja completamente limpo?
— Com uso regular da medicação, e sem mais acúmulo de toxinas, no máximo em um ano todo o resíduo terá sido eliminado.
- ¤•
Dentro do Palácio do Pavilhão Púrpura.
Uma mulher repousava sobre uma almofada macia, os olhos semicerrados. Nem mesmo a maquiagem delicada conseguia ocultar o ar de tristeza em seu rosto, e sob suas pálpebras havia um leve tom esverdeado — sinal claro de perturbação.
Na hora do almoço, um criado do palácio correu até ela com uma notícia: o doutor Xu, do Hospital Imperial, havia sido visto saindo do Palácio Ming Cheng.
O instinto da Imperatriz Viúva Chu imediatamente lhe dizia que o plano que mantivera escondido por tantos anos estava prestes a desmoronar.
Com o coração disparado e vestida com suas roupas mais refinadas, ela se levantou bruscamente, apertando as almofadas com a ponta dos dedos. Seus olhos de fênix se arregalaram, e ela falou com uma frieza cortante:
— Vá buscar Chun Ruo. E mande alguém garantir que ela deixe o palácio o quanto antes.
Chun Ruo era a pessoa que trabalhava secretamente para ela dentro da Oficina de Indumentária durante todos esses anos, sem levantar suspeitas.
A ideia de embebedar as roupas com o extrato da flor havia partido dela.
Seu irmão, o general Chu An, não aprovou de início, mas após as sucessivas repressões de Xiao Fan contra os parentes por afinidade, ele finalmente desistiu de sua teimosia em nome do poder da família Chu — e prometeu fornecer-lhe as flores.
Além disso, Xiao Huan nunca teve intenção alguma de disputar o trono com o imperador.
Por isso, à medida que os métodos de Xiao Fan se tornavam cada vez mais refinados com o passar dos anos, ficou claro para ela que, se não tomasse a iniciativa, a família Chu acabaria sendo arrastada para a ruína.
O plano levou tanto tempo para ser executado porque Xiao Fan praticamente não tinha fraquezas nem vulnerabilidades. Seu único acompanhante constante era o guarda que vivia ao seu lado. Por isso, para envenená-lo, ela teve de recorrer às vestes como último recurso.
Durante todos esses anos, Xiao Fan jamais desconfiou de nada — mas, recentemente, o jovem imperador parecia ter percebido algo. De repente, todos os servos do palácio foram substituídos e novos empregados foram convocados.
Depois de esperar ansiosamente por algum tempo, a irmã Qiu, que havia sido enviada para buscar alguém, voltou às pressas. O rosto que antes se mantinha calmo agora estava claramente transtornado.
Ofegante, o peito subindo e descendo tão rapidamente que se esqueceu até de fazer uma reverência, ela exclamou:
— Rainha Mãe, agora há pouco… a Chun Ruo… ela… ela foi levada pelos homens de Sua Majestade!
- ¤•
A caixa de madeira que continha as flores foi arremessada ao chão com um baque forte.
Dentro do estúdio imperial, uma mulher vestida com o uniforme oficial azul-acinzentado ajoelhava-se no chão, o corpo magro tremendo incontrolavelmente sob o peso do olhar gélido que recaía sobre ela.
Xiao Fan estava recostado no trono do dragão, e não muito longe, em uma cadeira de madeira, encontrava-se Shen Mu, vestido de branco.
Ambos observavam a funcionária trêmula ajoelhada no chão, até que ouviram a voz do oficial do Ministério das Punições, posicionado ao centro da sala, gritar com severidade:
— Quem te deu a ordem para envenenar? Fale!
O rosto da mulher estava lívido, pálido como palha, e quando o homem alto e magro lhe gritou, duas linhas de lágrimas rolaram com força. Sem ousar sequer olhar para o homem no trono do dragão, Chun Ruo só conseguiu dizer a verdade, chorando enquanto falava:
— Foi a Rainha Mãe quem ordenou que esta serva adicionasse o extrato da flor nas roupas… Ela não disse que era venenoso! — a mulher curvou-se profundamente ao chão, defendendo-se — Caso contrário, eu jamais ousaria envenená-lo!
— Se você não sabia que o extrato da flor era venenoso… — Shen Mu girou a xícara de chá em sua mão, emitindo um som seco — Por que então ocultou tudo depois de receber a ordem?
O corpo da mulher estremeceu. Os lábios tremiam de forma descontrolada, e ela não conseguiu dizer mais nada.
Com um sorriso frio, Shen Mu sequer se deu ao trabalho de continuar:
Levantando os olhos para o recém-nomeado Ministro das Punições que estava à sua frente, tomou um gole do chá e ordenou diretamente:
— Levem-na. Apliquem a lei conforme deve ser.
O servidor Liu, do Ministério das Punições, olhou para Xiao Fan, aguardando a confirmação.
Xiao Fan assentiu:
— Façam como disse o Regente.
Não foi preciso recorrer à tortura. Assim que foi capturada, Chun Ruo apressou-se em confessar tudo, e até cooperou oferecendo provas em troca da própria vida.
Com todas as evidências reunidas, a Rainha Mãe não pôde mais negar, e a mulher teve pouco esforço para obter uma confissão. Somente quando finalmente estava sendo arrastada pelos guardas, ela lançou um último olhar aos calmos olhos negros de Xiao Fan e falou com rancor:
— Você vai pagar por isso.
Ao perceber que o jovem não lhe dava atenção, a mulher infeliz virou a cabeça e lançou o olhar a Shen Mu, que permanecia ao lado de Xiao Fan.
Encarou-o fixamente e, após um longo silêncio, soltou uma risada súbita e insana. A gargalhada era carregada de sarcasmo, cada palavra sendo pronunciada entre os dentes cerrados, com ferocidade:
— Acha mesmo que, colaborando com ele, poderá viver em paz pelo resto da vida? — Os olhos de fênix da mulher cintilavam de veneno — Não seja ingênuo. Servir a um rei é como conviver com um tigre. Se hoje ele confia em você para destruir minha família, amanhã poderá apagá-lo com a mesma facilidade.
Shen Mu a encarou com expressão inalterada e tomou a iniciativa de segurar a mão de Xiao Fan. Diante do olhar chocado da mulher, ele curvou os lábios num leve sorriso:
— Estou disposto a correr esse risco.
O que se seguiu foram apenas os gritos e maldições de uma mulher à beira do colapso.
O tempo estava perfeito quando os dois deixaram o Palácio do Pavilhão Púrpura. O calor do sol que os envolvia trazia não só calor ao corpo, mas também uma leveza tranquila ao coração.
Diante do alto muro de tijolos vermelhos, pela primeira vez, Shen Mu sentia que podia respirar em liberdade total.
Com a mão ainda firmemente entrelaçada à do jovem, Shen Mu virou o rosto e encontrou os olhos de Xiao Fan. Ao perceber um traço de inquietação no fundo daquele olhar firme, sorriu e perguntou suavemente:
— O que foi?
— Não sou uma pessoa gentil… e tampouco sei dizer coisas bonitas — Xiao Fan parecia ainda incomodado com o que a mulher havia dito. Seus olhos se fixaram nos dele com firmeza, e ele declarou com voz grave:
— Mas, ZiNian, eu prometo que enquanto eu viver, jamais te decepcionarei. Você não pode deixar que ela…
— Xiao Fan, tem algo que eu nunca te disse.
Uma brisa suave tocou seu rosto, e ele sentiu o leve perfume de um céu limpo. Apertando a mão de Xiao Fan com mais força, Shen Mu sorriu, os olhos curvando-se com ternura.
Aproximando-se do ouvido do jovem, sussurrou:
— Eu te amo. Muito mais do que você imagina.
- Fim •
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Cap 55. Fim
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