Capítulo 38
Depois de sair da residência, subi o morro que dava para ver tudo ao redor.
No topo da colina, flores de várias cores desabrochavam. Onde o vento sussurrava e sacudia os arbustos abundantemente floridos, ali, surgia uma ondulação verde ilusória.
Eu estava no meio do topo da colina, sob uma árvore com suas folhas grandes bem abertas, cavando um buraco. No orifício minúsculo, enterrei um pingente com revestimento solto e gasto.
“… Isto é seu, certo?”
Quando aquela serva se aproximou de mim, ela disse isso enquanto me entregava este pingente antigo.
Foi o pingente que dei a Seira quando éramos jovens.
“Eu acho que, talvez, ela não apenas odiava você.”
Eu me pergunto.
Mesmo que ela tenha desistido de sua própria carne para me matar? Não importa o que aconteça, essas eram palavras que eu não conseguia aceitar.
No entanto, no fundo da minha mente, elas estavam constantemente flutuando e se abrindo – fragmentos de memória de um tempo que nunca voltaria. Como bolhas, eles simplesmente explodiram, sua permanência foi efêmera.
Seira era uma empregada que trabalhava na residência da minha família.
Naquele país, raramente visto como meio-humano e homem-fera, ela conseguiu encontrar trabalho aproveitando-se do fato de que as pessoas não conheceriam a aparência de alguém como ela.
Mas essa era uma corda bamba terrivelmente perigosa de se andar. Já que meus pais odiavam especialmente homens-fera, se sua identidade vazasse, ela perderia a vida.
Ao trabalhar lá, ela teve que reconhecer esse perigo.
Percebi que ela era meio-fera e a investiguei, preocupada com os riscos que ela poderia representar. Mas não demorou muito para que isso se transformasse em um sentimento especial.
Seu cabelo ruivo, sua adorável voz de sino, seus olhos verdes cristalinos. Tudo nela era lindo aos meus olhos. Também fiquei impressionado com sua dedicação ao trabalho para sustentar sua família.
Só poder conversar com ela por acaso já faria o meu dia. Era esse tipo de sentimento modesto.
No entanto, naquela casa tal paz não poderia existir por muito tempo.
Um dia, outros criados a testemunharam roubando as joias de mamãe.
Para mim, que questionava a verdade, ela assentiu com o rosto pálido. Quando tudo foi exposto, ela chorou e me implorou por ajuda.
Pensando nisso agora, era óbvio que havia um limite para não saber minhas próprias habilidades. Meu minúsculo eu não tinha poder para fazer nada. Mas, naquela época, eu tinha fé.
Algum dia, eu definitivamente seria recompensado. Além dessa crença, não tinha outra maneira.
Dentre as joias que ela pegou, havia uma que ela, sem dúvida, nunca deveria ter colocado as mãos.
Era um broche que havia sido passado para cada esposa legal da família do Marquês Household geração após geração. Apesar de sua aparência relativamente simples, a joia colocada naquele broche foi o Spirit Drop (Gota Espiritual).
Se fosse divulgado que Seira era a culpada, então sua vida certamente estaria perdida. Ela poderia ser morta facilmente, mesmo sem ela saber.
No entanto, se fosse eu, eu poderia escapar apenas sendo ferido. Naquela época, eu já havia sido punido por meu irmão e minha irmã antes. Então, do que eu deveria ter medo?
Sem uma palavra, assumi seus crimes.
Até a minha família acreditava que ela era a patética, ordenada a perpetrar o crime por mim, o filho inadequado. Devido aos caprichos de minha mãe, ela obteve simpatia.
Meu erro de cálculo foi que a punição que recebi foi feita com a intenção de me matar de verdade. Era completamente incomparável com qualquer punição anterior.
Eu cometi o crime de roubar joias da herança de minha mãe. Foi muito conveniente descartar o irmão mais novo desnecessário.
Naquele momento, dentro de mim, o ódio foi plantado.
Ao longo da tortura que durou vários dias, o equilíbrio do meu coração desmoronou. Apesar disso, eu sobrevivi. Voltei para aquela residência opressora para confirmar sua segurança.
“Foram ordens de Lilius-sama.”
“Eu não conheço uma pessoa tão nojenta.”
“Não chegue mais perto de mim!”
Voltei, mas não havia lugar para mim. Desde o início, o que eu esperava nunca existiu.
Alguém que desejou minha segurança, que desejou que eu vivesse, não existia.
Já basta.
No fundo do meu coração, algo desabou.
Tudo deixou de ter importância e o mundo ficou distante.
Então, vários dias depois, com a alegação de que estava me preparando para ingressar na Royal Academy (Academia Real), deixei a residência.
Não importava que eu fosse incapaz de conhecê-la. A notícia da morte da Seira, da venda da família por não poder pagar os impostos, nada disso me preocupava.
O feudo, os servos, todos foram enganados pelo engano do irmão. Sob suas belas palavras, eles dançaram em suas palmas, mesmo sem perceber.
Eles não sabiam do meu sofrimento, atingido por chicotes, pendurado em correntes. Essas pessoas que não se importaram e depois me culparam, por que eu deveria protegê-las?
Eles me procuraram em busca de ajuda e, no entanto, como se fosse uma coisa natural, eles me abandonaram e passaram por mim. Eles eram odiosos.
Tudo poderia virar pó, eu não me importava. Quem iria morrer, quem iria ser morto, todas essas coisas não tinham nada a ver comigo.
Como tal, houve pessoas que me amaldiçoaram que eu era um demônio.
Nesse caso, eu ficaria feliz em mostrar a eles.
Até quando devo arrancar meu coração, amando-os? Até quando devo ser utilizado, suportando o sofrimento?
Por quanto tempo tive que aceitar de meu irmão a agonia que me fez querer morrer inúmeras vezes?
Eu sabia que, para cada pessoa, seus próprios assuntos eram os mais importantes. Portanto, eles me abandonaram. Então eu também seria meu mais querido.
Quando ouvi a notícia de que ela fugiu com o dinheiro da residência, não demorou muito para eu deixar a família.
No final, tanto eu quanto ela colocamos nossa própria felicidade em primeiro lugar. Por causa disso, não nos importamos em machucar os outros.
Ódio e resignação se misturaram e combinaram dentro do meu coração, precipitando-se em resíduos. Era pus que nunca desapareceria, não importa quanto tempo.
Olhando para trás, não era grande coisa, apenas uma história comum.
Alguém como ela e eu, nossa conclusão foi, claro, um final indefeso.
Amaldiçoando, odiando, invejando – e então, não entendendo nada do coração um do outro.
Éramos causas perdidas, não ouvíamos o que cada um tinha a dizer.
Minha voz não conseguia alcançá-la, e seu sofrimento também era difícil de entender.
Então, por que ela estava segurando esse brinquedo até agora?
“Ela o chamou de talismã.”
Depois de tudo isso, mesmo que eu ouvisse essas palavras agora, não havia nada que eu pudesse fazer.
Quando homens-fera e meio-homens perdem suas vidas, eles se transformam em luz e desaparecem. Nem mesmo um fio de cabelo sobraria.
Diferente de nós, humanos, até seus cadáveres acabariam desaparecendo.
“… Em seus olhos, como eu sou?”
Ela lamentou como se ela fosse o único monstro.
Mas isso estava errado.
Em minhas raízes, mesmo agora, meus sentimentos de ódio pelas pessoas não haviam desaparecido.
Não importa o quanto o ambiente mudou, a natureza da pessoa nunca mudou. Eu era um monstro para sempre acorrentado por eles.
Um monstro ressentido e invejoso dos outros, amando apenas a mim mesmo. Este pecado em que caí nunca desapareceria.
Até agora, as chamas do ódio aos poucos estava me corroendo.
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Cantinho da tradutora para o inglês:
Lillus, você não é odioso de modo algum.
Você merece ser feliz e com certeza ter seu valor reconhecido!
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Capítulo 38
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Parenting in Full Bloom! The Former Villainous Noble Son Who Found His Love Nest
Inglês: sleepingjay (chrysanthemumgarden)
Português: @VickWaifu (Até o capítulo 13); lume_lux (do capítulo 14 ao 26)Novamente Vick_Waifu(27 em diante)
Revisão: QianCherry (Até...