Capítulo 19
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Final de ano.
“Droga!”
Bruna odiava a festa de réveillon.
A véspera é sempre entediante e melancólica depois da morte da mãe, que completará cinco anos.
Nesse dia, repete o mesmo ritual, auxilia na ceia, come, toma os remédios para dormir e cai no mar do esquecimento para acordar no dia seguinte grogue.
O motivo de odiar essa passagem foi devido a um evento traumático ao vê-la sendo hospitalizada e nunca retornando.
Durante esse momento, o céu perde cor, ficando cinza, mesmo estando maravilhoso, o cheiro característico da solidão e dor é acentuado e toda felicidade que sempre sentiu nas festas natalinas se esvai pelos dedos sem nenhum controle.
Ainda que a refeição esteja apetitosa, não tem gosto, se tornando insossa como a dieta restritiva.
O quadro depressivo toma uma proporção gigantesca, engolindo imediatamente.
Só pensa em dormir e acordar no dia seguinte.
Antigamente, durante os quase quatro anos de dor intensa, o desejo era nunca mais acordar.
Só que sempre acordava, o que arrasava mais.
E agora, após apresentar melhoras, não deseja adormecer eternamente, e sim acordar e olhar para o novo mundo.
O ano que passou teve muitas surpresas magníficas e o recomeço das conquistas após ficar em um poço fundo e escuro por um longo tempo.
Quando chegou, desacreditava que poderia colher algo bom novamente, e apenas seguiria como uma folha danificada à margem de um vento violento que a levava para todos os lados.
No entanto, não foi.
Após decidir por si própria parar de tomar a risperidona — um antipsicótico com efeitos horríveis —, em que foram saindo da sua corrente sanguínea, percebeu os benefícios.
Era errado, até porque era um medicamento que mexia profundamente e fazer dessa forma sem consultar um profissional, desencadearia efeitos danosos.
Entretanto, o desespero gritou e agiu pela impulsividade do primeiro e único sintoma da loucura.
Logo, em maio, a médica comunicou que não havia tal receita em estoque.
Simplesmente, demonstrou uma falsa surpresa e continuou com os dois únicos receitados por uma psiquiatra na Hélio Pellegrino.
Percebendo, assim, a melhora a partir de junho, quando os efeitos colaterais sumiram.
Passando a dormir bem, às oito horas seguidas, sem falta do sedativo.
Começou a ter força para fazer algumas tarefas domésticas, inclusive a amar cozinhar.
Apesar de não gostar de arrumar a casa, faz sem pestanejar, sentindo-se bem quando conclui.
As refeições voltaram a ter o antigo gosto, até o modo de preparo melhorou em 1000%. Sendo mais ágil, dedicada, com a sensação plena de prazer em fazer cada prato.
É o bem-estar que não experimentava há anos.
Ainda que seja pequeno, que passa despercebido, para a moça foi um avanço.
Lentamente, foi captando outras melhoras, porém a insônia retornou e não estava obtendo a mesma qualidade como antigamente, acordando cedo, prejudicando o que encurtava ao passar dos dias.
Então, na consulta de julho, antes de ir para o Pedro Ernesto, a médica alterou a medicação para melhorar o quadro.
Tendo resultado positivo, não gerando efeitos colaterais.
Após a avaliação da psiquiatra, na segunda consulta, estava livre de continuar o tratamento, pois no relatório final havia um avanço positivo do quadro depressivo, e só retornaria caso voltasse novamente.
Continuando as consultas na clínica.
Quando pegou o relatório, aquilo impactou, sendo maravilhoso, igual a um moribundo retornando à vida.
Ganhando outra cor.
As experiências adquiridas nesse período doloroso fizeram valorizar a nova página que será reescrita com suas ideias originais.
Agora, com 31 anos, pode saber qual é o real significado da vida e o que realmente são as coisas.
A convicção sobre amor e morte foi reconfigurada, dando novas nuances que nunca imaginou tentar seguir, coisas que consideravam ofensivas e pecaminosas foram quebradas como grilhões que aprisionam os prisioneiros.
O conceito religioso, doutrinado por décadas, desmanchou, sobrando apenas uma sombra negra e memorável de nunca mais retornar.
Finalmente estava sentindo o gosto da liberdade, o significado que procurava desde que iniciou a vida adulta.
Ao que, por mais que tenha perdido seu sol e tenha passado pelo processo de ser um planeta sem sua estrela mãe.
Acabou adquirindo novas visões, aprendendo a ampliar o escudo amoroso.
E finalmente descobriu mais sobre si mesma, e hoje dá a importância às emoções naturais.
Permitindo-se viver todos os sentimentos saudáveis criados, como deve ser feito, sem medo de ir para um possível céu ou inferno, como foi induzida.
Viu sobre o valor da vida e o ambiente que a cerca, adquiriu certo conhecimento nas áreas nas quais a ciência atua, aprendeu para não ser mais uma marionete nas mãos de quem manipula.
E o conceito da maldade humana.
Tudo isso durante esse período, e agradeceu, na verdade, é grata a todo instante por essa oportunidade.
A doença, que fez passar por um turbulento furacão violento, foi fundamental para formatar o ser humano que é hoje, e não está à venda, sendo inestimável e sem valor monetário.
Hoje sorri verdadeiramente, coisa que não fazia desde a infância.
Sendo que poderia tomar um rumo contrário, se entregando totalmente — tendo convicção de que ocorreria — pela armadura estar destruída e a sua espada não ser mais tão afiada.
Entretanto, o destino mostrou outro ângulo e seguiu de bom grado.
Finalmente, está vendo o arco-íris descrito nas grandes histórias da humanidade.
No meio do processo, também perdeu alguém que recebeu seu valor após sua morte, o seu tio materno, Gutenberg, apelidado carinhosamente como ‘Melodia’.
Um ser valioso, que permaneceu ao lado de sua mãe quando enfrentava seus próprios pesadelos, nos quais não reconheceu e rejeitou o contato, diferente dos seus irmãos.
Após o falecimento, notou o quanto a amava e não queria estar em um plano onde ela não estivesse.
Reviveu todos os momentos em que riram e conversaram juntos, na janela da copa.
Bruna foi grata por dar os últimos momentos felizes para o mundo caótico e triste dela.
Partindo em 2022, em agosto, foi algo repentino na época do caos da Covid-19.
Em que retornava para casa, após ir com o pai ao supermercado, sua irmã, que trabalhava na clínica particular, ligou para seu celular e noticiou o falecimento em meio a lágrimas.
Na hora, ficou em choque, queria chorar, mas não conseguia, sentiu o vazio e sem raciocinar direito, em meio à explicação do fato ocorrido.
Entretanto, mais tarde, foi explicado que faleceu na casa de sua filha mais nova em São Gonçalo, no morro pobre de Niterói.
Não sentiu dor, pois estava dormindo.
Até hoje se especula sobre a causa, contudo ninguém de fato saberá o que realmente aconteceu, porque não gostava de ir a médicos e nunca frequentou uma instituição de saúde.
O ruim não foi o desconhecimento acerca de sua morte e sim, pelo simples fato de ser enterrado como indigente, como um morador de rua, do qual ninguém saberá o nome ou sua história.
Pela pobreza extrema, teve o mesmo destino que um mendigo.
O pior é saber que os que estavam ao seu lado e até ‘gostavam’, não fizeram questão de dar o enterro decente, tendo condições para tal.
Portanto, uma pessoa importante com defeitos, mas também dotada de preciosas qualidades, ficou à mercê do Estado, que não pensou duas vezes em colocar em caixão barato sob camada de pedras como manto de descanso.
Fazendo lembrar que, para eles, é um indigente com uma história apagada.
Seu tio só serviu para lucrar, depois que fechou os olhos, não lhe era de serventia alguma.
Agora, mesmo sendo tarde, recorda com muito carinho e nunca será um indigente sem livro ou feitos sem importância.
Por causa dele, sua mãe foi feliz, dando o que não pôde dar, e isso já basta para permanecer em sua memória como o melhor tio do mundo.
Apesar da melhora e da nova visão de mundo, a passagem ainda machuca, sempre experimentando o ápice da dor e solidão que a depressão pode proporcionar, e a solução é dormir e só acordar no dia seguinte.
Essa é a melhor receita e remédio, e ficará marcado até o final de sua existência, sofrendo a mesma reação ano após ano.
É o seu castigo, e aceitou de peito aberto.
Sofrendo o efeito reverso, a antiga cartela de antidepressivos e fortes sedativos deixava sem sonhos, mas o incomum surgiu.
Há mais de meio ano que não vê o rosto vivido dela, na verdade, quando ocorria, eram confusos, no qual nunca ouvia a voz dela.
No entanto, dessa vez foi singular.
Após a morte, o mecanismo de defesa para amortecer o impacto da dor gerado pelo luto retirou todas as informações ligadas ao som da voz.
Desse modo, quando esses sonhos aconteciam, eram mudos como filmes antigos.
Apenas via a face, porque de alguma forma não conseguia lembrar da entonação do som gerado por essa pessoa, com quem conviveu até os 26 anos, como se nunca existisse.
E, quando ouviu claramente, como a maioria da vida, dentro de si desmanchou idêntico ao gelo que sucumbe a uma temperatura alta.
Sua reação foi de desmoronamento, cada célula sentiu o peso da saudade e a leve sensação do ataque de ansiedade.
E inverso dos outros — que era uma ilusão, uma criação gerada por seus desejos e emoções ocultas — dessa vez pensou ser real, como se retornasse à vida.
A primeira reação foi abraçar e sentir a temperatura corporal, para não cair em mais uma armadilha do subconsciente.
É quente…
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Capítulo 19
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As Mil e uma noites Dela com um espírito Obsessor
Dizem que o amor é a chave para o sucesso, capaz de unir mãos e garantir um felizes para sempre.
No entanto, Bruna, prestes a completar 32 anos, já não sente mais essa faísca e deseja...