01. Prólogo
Zona de Fratura Silêncio Branco – Norte da Europa
A tempestade de neve durava mais de cinco dias. A fila que se estendia para além da base militar era ainda mais duradoura. O homem estava na fila há três dias. Os militares lhe ofereceram um cobertor, mas naquela época, o sol ainda aquecia a terra e, à noite, não fazia frio. Se ele soubesse, teria provavelmente pegado.
Quando chegou sua vez, ele parecia tremer tanto que não parecia humano. O tremor parecia vir de fora do seu corpo. Seu olhar estava vacilante, não conseguia olhar para cima. Os cabelos pretos, curtos e lisos estavam congelados. Antes que ele pudesse raciocinar sobre o que fazer, um vulto preto surgiu em meio à névoa branca. Ele só percebeu a existência dessa pessoa quando aquela sombra estava à sua frente.
Um homem de cabelos escuros e cacheados e sardas no rosto se aproximou. Ele vestia uma beca militar cinza, coberta por um sobretudo pesado. Mas ele só conseguia enxergar o par de coturnos. Ele fitava o chão.
— Você sabe o que está do outro lado?
Felizmente, ele conseguia entender aquela linguagem. Graças a Deus, conseguia entender! O problema era que não conseguia falar corretamente. Seria descoberto se ousasse pronunciar qualquer palavra em voz alta. O sotaque o entregaria.
O homem balançou a cabeça.
Mentira.
O militar não se mexeu. Ele piscou algumas vezes antes de fazer um movimento mínimo. Um inclinar suave — um grau, dois graus — para a direita, onde, entre os cabelos, havia um objeto metálico. O homem não havia visto esse olhar, mas pôde senti-lo. O ar ao redor dele havia mudado. A temperatura parecia mais alta, o suor frio escorreu pelas costas.
— Você não sabe, certo? — Ele balançou a cabeça novamente. — Então, vamos descobrir.
O barulho do sobretudo sacudir pareceu ecoar mais alto. Um vento frio passou entre eles, trazendo alguns flocos de neve. Um objeto foi tirado do bolso, um cigarro. O isqueiro estava na outra mão.
A chama acendeu por um segundo, apenas para queimar a ponta. A luz alaranjada iluminou o rosto do militar. Um dos cantos dos lábios estava levemente erguido. Ele colocou o cigarro na boca e deu uma tragada. Soprou a fumaça na direção do moribundo à sua frente.
— Está tudo bem com você? Sente frio?
A pergunta. O homem estremeceu. Seus joelhos vacilaram. Seu corpo inclinou para o lado. O militar, imediatamente, o segurou pelo braço. Frio.
Balançou a cabeça rápido demais.
— Z! — o militar gritou — Traga um cobertor para esse homem!
Sua voz elevou-se até longe e, através da névoa, rapidamente outro militar surgiu, como se estivesse esperando por uma ordem. Ele era mais alto, com os cabelos louros e compridos até a cintura. Um par de óculos retangular marcava a seriedade no seu rosto. Ele foi até o homem, colocou o cobertor em suas costas e se afastou, ficando atrás do outro militar.
Sem reação.
O militar de cabelos pretos estreitou o olhar. Outro sopro de fumaça em sua direção, muito delicado, suave demais.
— Senhor, — disse o militar de cabelos pretos, baixando o cigarro.
— O quê? — A voz saiu rouca, tão rouca que o homem mal reconheceu a própria voz, mas era a única palavra que tinha confiança em pronunciar.
O militar deixou que o cigarro escapasse pelos dedos e o esmagou debaixo de seu pé. Ele inclinou seu corpo para frente, ficando à altura do outro homem, e sussurrou em seu ouvido, a voz tão baixa que parecia vir de dentro de sua própria cabeça.
— A pergunta é simples. — Seu sorriso cresceu. — Em que ano estamos?
O homem não respondeu. Seus olhos se arregalaram. Levou a mão até o peito, agarrando com força a camisa velha. Sua cabeça girou, um giro perfeito de noventa graus. Seus olhos, azuis brilhantes, tão vivos que pareciam fora de lugar naquele rosto pálido e congelado, finalmente encontraram a escuridão do militar. Ele não piscou.
Z estava prestes a dar um passo, mas seu movimento foi parado quando um vulto rápido atravessou o ar. Ele recuou.
— Marechal! — Z gritou.
O militar de cabelos escuros dobrou o corpo para trás, esquivando-se de um golpe. Sua mão já estava na cintura, no coldre.
O homem havia rasgado a própria roupa, revelando o peito. O metal polido brilhava sutilmente, uma placa torácica, linhas de circuito como veias e, no lugar do coração, havia um núcleo que pulsava.
Um androide.
O que aconteceu a seguir, Z não conseguiu entender. Apenas um brilho surgiu para apenas desaparecer. E quando a escuridão retornou, a espada que o Marechal carregava estava atravessada no núcleo daquele androide.
— Dia vinte e sete de setembro de 202x, o terceiro androide é encontrado em Silêncio Branco. É o sétimo em duas semanas. — A voz do Marechal não tinha emoção, segurava um gravador perto dos lábios. — A probabilidade de um evento de quebra é exacerbada.
O Marechal se virou lentamente. Ele passou por Z, em direção à base.
— Recolha o corpo, leve para a sala três do subsolo.
Z inclinou-se em uma mesura, os olhos fixos no chão, mantendo a postura até que seu Marechal desaparecesse entre os flocos de neve. Ele olhou para o chão. Suas mãos estavam trêmulas. Ele não sabia se tinha mais medo desses estrangeiros ou… de seu próprio marechal.
01. Prólogo
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Fracture Zone (Omegaverse)
O apocalipse chegou em silêncio. A realidade se partiu nas bordas, e o que restou foi uma vigília eterna para os que se encontram fragmentados.
Em 2000, o mundo não acabou. Ele se...