Capítulo 12
O ambiente da cafeteria exalava aconchego. O ar carregava o aroma reconfortante de café moído na hora, misturado ao leve perfume de madeira antiga e páginas de livros. O som abafado das conversas, o tilintar de xícaras e o leve farfalhar das páginas contribuíam para o clima sereno e convidativo. O dia avançava sem pressa, e Ellin estava acomodado em uma das mesas próximas à janela, onde a luz do fim de tarde se filtrava em tons dourados, tocando delicadamente sua pele.
Ele estava organizando o espaço de trabalho com o usual cuidado meticuloso. O tablet repousava ao lado do notebook, ambos limpos e alinhados, enquanto o sketchbook, um tanto mais surrado, aguardava fechado à sua direita, com a caneta digital repousando por cima. Tudo ali era quase uma extensão de Ellin, desde a disposição ordenada dos objetos até o jeito como ele se inclinava levemente para o lado ao ajustar o notebook, como se estivesse ouvindo um sussurro invisível que o guiava.
O toque suave de uma campainha indicou a entrada de um novo cliente. Ellin ergueu o olhar por reflexo e viu um homem de meia-idade atravessar a porta com passos calculados. O cliente parecia deslocado, mas não nervoso – talvez apenas atento. Usava um terno discreto e carregava uma pasta preta nas mãos. Depois de uma breve pausa, seus olhos encontraram Ellin, e ele caminhou na direção da mesa com determinação tranquila.
— Ellington Bellamy-Langston? — perguntou, com um tom cordial, mas direto.
— Sou eu, sim. — Ellin endireitou-se na cadeira, assumindo uma postura ligeiramente mais profissional.
— Sou Martin Devereux. Tive sua recomendação por meio de um conhecido e fiquei interessado em contratá-lo para um projeto específico. Espero que não seja um incômodo discutirmos isso agora.
Ellin o convidou a sentar-se com um gesto discreto, escondendo a surpresa. Não era incomum receber propostas ali na cafeteria, mas a formalidade daquele homem lhe despertou uma curiosidade latente.
— Claro, senhor Devereux. Estou à disposição. Do que se trata o projeto?
— Um conceito visual para uma campanha publicitária que estamos desenvolvendo. É algo voltado para o lançamento de uma nova linha de cosméticos sustentáveis. Queremos algo original, expressivo, mas que mantenha certa leveza. E, bem, seu portfólio chamou nossa atenção exatamente por isso: você tem um estilo muito característico, que combina o detalhamento técnico com uma sensibilidade quase… etérea.
Havia um leve brilho de orgulho nos olhos de Ellin, mas ele permaneceu sereno, refletindo sobre o que o cliente dizia. Era gratificante saber que seu trabalho era reconhecido, especialmente em um meio tão competitivo como o das artes digitais.
— Fico muito feliz que tenham se interessado pelo meu estilo. — Ele fez uma pausa breve, recolhendo as palavras. — E já têm algum direcionamento inicial? Algo que gostariam que eu priorizasse ou alguma referência que consideram relevante?
— Sim, temos um briefing preparado. Posso encaminhar para você ainda hoje, caso concordemos em seguir em frente. Basicamente, queremos que você crie os conceitos visuais principais: personagens que representem os valores da marca e ilustrações que serão usadas nas embalagens. O prazo é apertado, mas o pagamento será proporcional à complexidade.
Ellin assentiu lentamente, refletindo sobre a proposta. Campanhas assim demandavam trabalho minucioso e muita comunicação com o cliente para garantir que o conceito atendesse às expectativas. No entanto, era o tipo de desafio que ele apreciava.
— Eu posso começar com alguns rascunhos iniciais e enviar para aprovação. A partir daí, ajusto conforme o feedback que vocês me derem. Isso funcionaria para vocês?
— Perfeitamente. — Martin sorriu, satisfeito. — Vou encaminhar o briefing e o contrato preliminar até o final da tarde. Se estiver tudo certo, podemos oficializar ainda esta semana.
Depois de algumas trocas adicionais sobre detalhes logísticos, Martin agradeceu e deixou a cafeteria com a mesma postura elegante e discreta com que havia chegado.
Ellin ficou observando a porta fechar-se atrás dele por um instante, antes de voltar a atenção para o notebook. Ligou o aparelho e abriu o programa de design que usava habitualmente, enquanto o tablet despertava com um brilho tênue ao seu lado.
Os primeiros traços nasceram quase por instinto. A caneta digital deslizava com fluidez pela tela, e Ellin mal percebia o ritmo constante de sua própria mão.
Havia algo quase meditativo naquele processo – o jeito como cada linha começava tênue e imprecisa até ganhar forma e, pouco a pouco, vida própria.
Ellin se perdeu no ritmo constante e hipnótico, até que um movimento familiar à sua esquerda chamou sua atenção. Quando ergueu o olhar, deparou-se com Cas parado ao lado da mesa, segurando uma bandeja com uma xícara fumegante de café e um prato salgado. Havia algo sutil no jeito como ele o observava, um brilho caloroso nos olhos claros que contrastava com a expressão séria que ele raramente deixava de carregar.
— Achei que poderia estar com fome. — Cas colocou o prato e a xícara diante dele com gestos precisos e cuidadosos.
— Obrigado. — Ellin sorriu suavemente, tocando de leve a mão de Cas antes que ele se afastasse. — Você leu meus pensamentos.
— Não foi difícil. Você fica com essa expressão quando está tão concentrado que esquece do resto do mundo. — Cas permitiu que um sorriso discreto tocasse os lábios antes de abaixar-se levemente e depositar um beijo breve na testa de Ellin.
Havia algo de reconfortante naquele gesto – um tipo de intimidade que eles haviam cultivado com o passar dos anos e que agora parecia tão natural quanto respirar. Ellin respondeu com um sorriso mais amplo, e seu coração aqueceu com a simplicidade daquele momento.
— Não demore muito para fazer uma pausa, ou vai acabar com dor nas costas de novo. — Cas levantou-se, lançando-lhe um último olhar de leve advertência antes de voltar à cozinha.
Ellin o acompanhou com os olhos até que ele desaparecesse pela porta.
As lembranças surgiram como um fluxo suave e constante: o primeiro rascunho da ideia da cafeteria, feito às pressas em um guardanapo enquanto compartilhavam sonhos entre goles de café; a inauguração oficial, repleta de amigos e clientes curiosos; as noites em que Cas voltava exausto do restaurante, mas sempre encontrava energia para sentar-se com Ellin e escutar seus planos para o dia seguinte.
Eles haviam construído aquela vida juntos, pedra por pedra, e agora, finalmente, pareciam prontos para dar o próximo passo. O sorriso permaneceu em seus lábios enquanto ele voltava a trabalhar, sentindo-se completo.
—–
A chave girou suavemente na fechadura, e Ellin entrou em casa, fechando a porta atrás de si com um suspiro quase inaudível. O cansaço repousava sobre seus ombros como um peso invisível, mas familiar. Aquele não fora um dia particularmente exaustivo, e ainda assim, ele sentia o corpo pedir descanso. Talvez fosse o acúmulo dos pequenos esforços: as horas passadas diante da tela, os traços repetitivos, a concentração contínua. Ou talvez fosse o silêncio sereno que o lar oferecia, permitindo que sua mente relaxasse o bastante para reconhecer o desgaste.
A casa estava do jeito que sempre imaginara – não apenas um espaço funcional, mas um reflexo vivo da vida que ele e Cas haviam construído juntos. Cada detalhe parecia contar uma parte dessa história. Os móveis de linhas simples e aconchegantes, a manta desbotada dobrada sobre o encosto do sofá, as prateleiras repletas de livros e objetos que colecionaram ao longo dos anos. Mas eram as fotos que mais chamavam atenção. Espalhadas em porta-retratos delicadamente dispostos, elas capturavam momentos que não precisavam ser eternizados em imagens para permanecerem vívidos em sua memória – e, ainda assim, havia algo especial em vê-los ali, como testemunhas silenciosas do caminho que percorreram.
Havia uma foto deles no baile de formatura, emoldurada e pendurada em uma parede próxima à estante. Ellin se lembrava de cada detalhe daquela noite. Cas, com o cabelo ligeiramente bagunçado e os olhos tão intensos quanto sempre, entregando-lhe o “convite” que fizera à mão, um pedaço de papel cuidadosamente dobrado, com letras tortas e um desenho desajeitado no canto. Ellin guardava aquele papel até hoje, e embora já soubesse que iria ao baile com Cas antes mesmo de receber o convite, a sensação de segurá-lo nas mãos ainda lhe causava um calor silencioso no peito.
Ele deixou a mochila sobre a cadeira próxima à mesa de jantar e caminhou até o sofá, onde se deixou afundar no estofado macio com um suspiro. Por um momento, ficou ali apenas respirando, ouvindo o silêncio confortável da casa. Então, seus olhos pousaram sobre o álbum de fotos que descansava na mesa de centro. Ele o pegou com cuidado, deixando que as pontas dos dedos deslizassem pela capa antes de abri-lo.
As primeiras páginas estavam preenchidas com fotos da infância – ele e Cas em versões menores e mais desajeitadas, correndo por jardins, fazendo caretas para a câmera ou apenas sentados lado a lado, em um daqueles momentos tranquilos que só fazem sentido na infância. Eles nem sequer sabiam o que era um relacionamento romântico naquela época, mas a conexão já estava ali, evidente nos sorrisos espontâneos e na maneira como pareciam sempre gravitar um em torno do outro.
As páginas seguintes contavam outras histórias. Havia fotos deles na escola, na festa de aniversário de Ellin, em piqueniques improvisados e, claro, no baile. Uma delas, porém, arrancou-lhe um sorriso especialmente largo – uma selfie tirada às pressas na biblioteca, logo depois da primeira vez que estiveram juntos. Naquela noite, Ellin ainda se lembrava com clareza, ele estava nervoso, incerto, mas Cas lhe dera aquele sorriso calmo e seguro que sempre parecia dizer que tudo ficaria bem, e, naquele instante, Ellin soube que nada mais importava.
Ele virou mais algumas páginas, cada imagem trazendo consigo uma onda de lembranças, até que o cansaço começou a se impor. Seus olhos se fecharam lentamente, e ele adormeceu ali mesmo, com o álbum ainda entreaberto em seu colo e um sorriso suave nos lábios.
Quando Cas chegou em casa algum tempo depois, encontrou Ellin assim, profundamente adormecido no sofá, os cabelos caindo sobre o rosto de forma despreocupada. Ele se aproximou em silêncio e sentou-se na beirada do sofá, observando-o por um momento com um olhar que carregava um misto de carinho e reverência. Então, com a delicadeza de alguém que já conhecia cada detalhe daquele rosto, ele afastou uma mecha de cabelo da testa de Ellin e acariciou-lhe os fios, sentindo a textura macia sob seus dedos.
Ellin abriu os olhos devagar, piscando algumas vezes até focar no rosto de Cas. Por um breve instante, ele pareceu desorientado, mas logo um sorriso sonolento curvou seus lábios.
— Você já chegou… — murmurou, a voz baixa e arrastada pelo sono.
— Já. — Cas respondeu com o tom calmo de sempre, seus olhos capturando cada nuance da expressão de Ellin. — Você parecia cansado. Achei que fosse acabar dormindo no meio do caminho.
Ellin deu uma risada leve e fechou o álbum, colocando-o de volta na mesa de centro antes de estender as mãos para Cas, que as segurou sem hesitar. Os dedos deles se entrelaçaram com familiaridade, como peças que haviam sido moldadas para se encaixar.
— Vamos tomar banho juntos? — Cas sugeriu, inclinando-se um pouco mais para perto. Sua voz soava suave, mas havia algo a mais ali – uma nota de convite que fazia Ellin sentir o coração bater um pouco mais rápido.
— Vamos. — Cas apertou suas mãos com mais firmeza e puxou-o suavemente para segui-lo.
Não precisaram dizer mais nada – o gesto por si só carregava tudo o que era necessário.
—–
Os olhos de Cas se abriram de repente, sua mente emergindo do sono com uma inquietação inesperada. Algo estava errado. Ele piscou lentamente, ainda desorientado, enquanto o silêncio da madrugada envolvia o quarto em um manto pesado. A luz fraca da lua filtrava-se pelas cortinas entreabertas, lançando sombras suaves nas paredes. Instintivamente, ele estendeu a mão para o lado vazio da cama. Frio.
Seu peito apertou. A ausência de Ellin reverberou como um alerta em seus sentidos. Cas se sentou devagar, com os lençóis se enrolando em sua cintura enquanto ele inspirava profundamente — e foi então que sentiu. O cheiro. Não apenas o perfume familiar de Ellin, mas algo mais denso, carregado, quase doce, como se os feromônios do ômega tivessem se intensificado.
Franzindo as sobrancelhas, ele deslizou as pernas para fora da cama, seus pés descalços tocando o piso frio. Em um gesto automático, puxou um par de calças de moletom da cadeira próxima e as vestiu. Seus movimentos eram calmos, mas havia uma tensão velada em cada passo enquanto ele saía do quarto.
— Ellin? — chamou, a voz rouca de sono reverberando suavemente pelo corredor.
Nenhuma resposta.
A casa estava mergulhada no silêncio, exceto pelo zumbido distante da geladeira. Cas seguiu o rastro do cheiro com precisão instintiva, o ar impregnado pela essência de Ellin. Ele não precisou pensar, apenas seguiu o instinto que o guiava direto até a cozinha.
Ao cruzar a soleira da porta, a visão diante dele o fez parar.
Ellin estava ali, de pé junto ao balcão, com o corpo iluminado pelo brilho suave das luzes noturnas que filtravam da janela. A bomba de leite emitia um clique rítmico e suave enquanto as garrafas lentamente se enchiam com o líquido branco. O ômega estava concentrado, mas seus ombros carregavam uma tensão sutil, como se cada respiração exigisse esforço.
Cas demorou-se naquela imagem por um instante, absorvendo cada detalhe. Seus olhos percorreram a linha graciosa do corpo do ômega, como seus quadris balançavam levemente a cada ajuste de postura. Era uma cena que Cas havia presenciado inúmeras vezes ao longo dos anos, mas que ainda despertava algo profundo e primitivo em seu peito.
Algo profundo se agitou dentro dele — um desejo de protegê-lo, de cuidá-lo, de aliviar qualquer dor que estivesse carregando em silêncio.
“Ele tem sido tão forte”, pensou Cas, com o coração apertado por uma mistura de orgulho e ternura.
Sem dizer uma palavra, Cas avançou em silêncio, seus pés descalços quase não fazendo barulho no chão. Quando chegou perto o suficiente, ele envolveu Ellin em um abraço firme, puxando-o gentilmente contra seu peito. Sentiu o corpo do ômega enrijecer brevemente antes de relaxar no calor de seus braços.
— Cas… — murmurou, a voz baixa e rouca.
— Por que está aqui tão cedo, amor? — Cas perguntou suavemente, com os lábios roçando a curva da orelha dele. Sua voz carregava uma preocupação genuína.
— O leite acabou vazando. Então, vim drenar antes que piorasse. — Ellin admitiu, suspirando com um cansaço quase imperceptível.
Cas franziu o cenho e apertou o abraço.
— E não achou que devia me chamar? — Sua voz tinha um tom levemente repreensivo, mas era doce.
— Você estava dormindo tão tranquilamente… Eu não queria incomodá-lo. — Ellin respondeu, inclinando-se ainda mais contra o peito dele, sentindo o inchaço sob suas palmas; o pulsar sutil sob os dedos. — Você sabe que não gosto de ser um fardo…
— E você sabe que nunca vai ser um fardo para mim. — Seus olhos encontraram os dele, carregados de intensidade e algo mais profundo que palavras não podiam expressar. — Você é o meu ômega. Meu marido. E cuidar de você é a única coisa que realmente importa pra mim.
Ellin piscou, as lágrimas ardendo em seus olhos.
— Você continua tão sensível. — Cas limpou suas lágrimas com o polegar e Ellin riu com o comentário. O calor das mãos de Cas em suas bochechas era reconfortante, uma âncora que o mantinha firme.
— Quer que eu ajude? — perguntou, como sempre fazia, mesmo sabendo a resposta.
Ellin sorriu pequeno, cúmplice.
— Claro que sim.
Cas passou as mãos pelo peitoral dele, massageando devagar para estimular o fluxo. Conhecia o suficiente do corpo de Ellin para saber onde pressionar, onde aliviar. O ômega fechou os olhos, apoiando-se no toque firme, e deixou escapar um suspiro discreto. Ele não admitiria em voz alta, mas gostava de ser mimado assim — e Cas sabia disso melhor do que ninguém.
Quando terminou, Ellin desligou a bomba, afastou-se apenas o necessário para guardar as garrafas na geladeira, e logo voltou para os braços de Cas, que o esperava sem se mover.
O ômega manteve o olhar abaixado por um instante, até que Cas ergueu seu rosto gentilmente, segurando-o com firmeza e carinho.
— Eu amo você — sussurrou, com a voz trêmula de emoção. — Não sei o que faria sem você.
Cas não desviou o olhar nem por um segundo. Seus polegares deslizaram suavemente pelas bochechas de Ellin, enxugando uma lágrima silenciosa que escorreu antes que ele pudesse evitar.
— Você nunca terá que descobrir — disse ele, com a voz grave e baixa, mas firme. — Eu sempre estarei aqui.
Ellin o fitou, e em seus olhos azuis havia um misto de vulnerabilidade e amor tão profundo que Cas sentiu o peito apertar.
Ele se inclinou e beijou Cas. Não foi um beijo suave; foi intenso.
Os dedos de Cas se enroscaram nos cabelos de Ellin, puxando-o delicadamente para mais perto enquanto o beijo se aprofundava, roubando-lhes o fôlego. Ellin respondeu com o mesmo fervor, seus lábios se abriram, permitindo a língua de Cas entrar, as mãos dele deslizaram para baixo para agarrar os quadris do ômega.
Ellin gemeu baixinho, com as mãos apertando os ombros de Cas enquanto ele se aproximava mais.
Quando finalmente se separaram, ambos estavam ofegantes, suas testas encostadas enquanto recuperavam o ar.
— O que foi isso? Por que você está tão atiçado logo de madrugada? — Cas perguntou, com a voz rouca, enquanto ainda sentia o gosto doce de Ellin em seus lábios. Seu tom carregava uma provocação leve, mas seus olhos continuavam escurecidos pelo desejo.
Ellin soltou uma risada baixa, quase um suspiro entrecortado, com o peito ainda subindo e descendo rapidamente enquanto ele recuperava o fôlego. Seus dedos desceram lentamente pelo peitoral de Cas, traçando os músculos definidos com uma sensualidade quase inconsciente.
— Não coloque a culpa toda em mim, senhor. — A voz de Ellin era suave, mas carregada de um tom malicioso, com os lábios levemente inchados de tantos beijos. Seus olhos brilhavam, meio divertidos, meio desafiadores. — Você correspondeu tão bem que é difícil saber quem começou.
Cas arqueou uma sobrancelha, um sorriso enviesado surgindo em seu rosto enquanto ele deslizava as mãos pelas costas de Ellin, os dedos espalhando calor pela pele dele.
— Eu só respondi à provocação do meu ômega… Seu cheiro ficou mais forte, doce e quente… Você sabe o que isso faz comigo. — Sua voz era baixa, devolvendo o tom provocativo e malicioso, mas com uma doçura implícita naquelas palavras, uma admiração sincera que sempre transbordava quando se tratava de Ellin.
Ele sentiu o calor subir por seu corpo, arrepiando sua pele sob o olhar penetrante de Cas. Ele não precisava de palavras para entender o efeito que causava no alfa. O peito de Cas subia e descia em um ritmo lento, como se ele estivesse se contendo. Era esse autocontrole que deixava Ellin ainda mais tentado a provocar. Ele se inclinou para a frente e roçou os lábios suavemente contra o queixo de Cas, deixando beijos suaves.
— Eu não fiz de propósito… — murmurou Ellin, encostando o rosto no pescoço de Cas e respirando fundo o aroma amadeirado que tanto o confortava. — Não me lembro de ter feito nada além de estar aqui… Mas você acordou, veio até aqui e… bem, olha só onde estamos. — Sua voz saiu suave, quase como um ronronar, enquanto ele deslizou as mãos pelos ombros largos do alfa.
Cas soltou um riso abafado, aquele som grave e profundo que sempre fazia o corpo de Ellin reagir involuntariamente. Seus olhos percorreram o rosto do ômega, demorando-se nos traços delicados, nos olhos azuis que o encaravam com uma mistura de amor e desejo.
— A questão não é onde estamos, mas onde você quer que a gente chegue… — disse ele, apertando levemente a cintura de Ellin, trazendo-o ainda mais perto. — Você tem esse efeito em mim desde sempre.
Ellin mordeu o lábio inferior, sentindo as bochechas corarem com a intensidade do olhar de Cas, mas não desviou. Em vez disso, passou os braços ao redor do pescoço dele e se encaixou ainda mais no corpo quente do alfa.
Havia entrega naquela confissão, uma vulnerabilidade silenciosa que só Cas conseguia arrancar dele.
Ellin fechou os olhos por um instante, absorvendo cada toque e cada palavra carregada de significado. Pegou as mãos do alfa e recuou alguns passos, guiando-o em silêncio.
— Então… — Ellin começou, sua voz mais baixa e cheia de um convite implícito — Vamos para o quarto?
Cas podia senti-lo na forma como suas mãos tremiam levemente. Depois de tantos anos, Ellin ainda ficava nervoso, como se fosse a primeira vez. O coração do alfa acelerou, mas ele manteve o controle, erguendo-o nos braços com facilidade.
A respiração de Ellin engatou, o corpo estremecendo ao ser carregado para o quarto, a força de seu alfa sempre uma fonte de conforto e excitação.
Cas o deitou sobre os lençóis macios, que se moldaram ao corpo de Ellin. Ele pairava acima, os olhos escuros absorvendo cada detalhe do rosto corado de seu ômega.
Cas se inclinou e seus lábios se fecharam sobre os de Ellin num beijo intenso — ainda que gentil. O gosto dele era tão familiar quanto viciante, e Ellin suspirou contra sua boca, sentindo-se amado. Era aquilo que ele mais gostava: a mistura rara de ternura e desejo nos beijos de Cas.
As mãos de Ellin agarraram os ombros largos do alfa, as unhas pressionando levemente a pele. Ele gemeu baixinho no beijo, seu corpo arqueando-se levemente, buscando mais contato.
Cas permitiu que suas mãos deslizassem com carinho pelas laterais do corpo de Ellin. Elas se apertaram ao redor das coxas. Subiu lentamente, hesitando por um instante antes de roçar os mamilos sensíveis com a ponta dos dedos. A reação foi imediata: Ellin ofegou, suas costas arqueando-se para fora da cama, suas pernas instintivamente envolvendo a cintura de Cas.
— Ainda está sensível? — murmurou contra seus lábios, sorrindo ao sentir a reação imediata.
— Sim… mas tudo bem. Pode me tocar. — Ellin respondeu, a voz embargada pelo prazer.
Ele provocou os mamilos endurecidos com a ponta dos dedos, rolando-os suavemente entre eles. A fricção dos quadris intensificou-se, enviando ondas de calor que pareciam incendiar ambos.
O toque ficou mais firme, mais insistente
Cas se moveu ligeiramente, movendo-se para beijar o pescoço de Ellin, deixando um rastro de beijos quentes e de boca aberta que o fizeram estremecer, descendo pela clavícula até envolver um dos mamilos com os lábios. Ellin arfou, curvando-se ao toque da língua que o estimulava, o prazer se espalhando em ondas que o deixavam vulnerável.
As mãos de Cas desceram outra vez, firmes, carinhosas, explorando a curva da bunda de Ellin, antes de empurrar o tecido de sua roupa íntima. Seus dedos roçaram a entrada do ômega e ele ofegou, seus quadris se movendo para frente. Ellin gemeu baixinho, o corpo todo pedindo mais.
— Relaxe para mim, tudo bem? — Disse Cas, sua voz baixa e suave. Ellin assentiu com a cabeça.
Cas pressionou um dedo primeiro, preparando-o com calma, antes de acrescentar o segundo. O corpo de Ellin cedeu facilmente. Os lábios de Cas encontraram os seus novamente, engolindo seus gemidos. Seus dedos se curvando apenas o suficiente para fazer Ellin se desfazer, seus dedos se cravaram nos ombros largos acima de si.
O corpo de Ellin tremia, seu peito se agitava à medida que os dedos se moviam em movimentos lentos e deliberados. Mas então, Cas os retirou, e um arrepio de frustração percorreu a pele sensível de Ellin, seu corpo instintivamente buscando o toque perdido. Antes que pudesse protestar, viu o alfa se afastar apenas o suficiente para abrir a gaveta do criado-mudo. Seus olhos não se desviaram de Ellin enquanto rasgava a embalagem de camisinha e colocava em si mesmo, o gesto simples carregando uma tensão que quase o desfez.
Cas voltou a se inclinar, e o beijo seguinte foi um contraste vertiginoso: terno e, ao mesmo tempo, faminto. Doce e brutal em igual medida, como se dissesse mais do que as palavras poderiam.
Ele ergueu os quadris do ômega com facilidade antes de se posicionar entre suas pernas. Toda a impaciência de Ellin cedeu lugar a uma onda avassaladora de expectativa. Seu peito subia e descia rápido, o coração batendo contra as costelas como se quisesse escapar.
Cas o penetrou em uma estocada lenta, deliberada.
O ar deixou os pulmões de Ellin em um arquejo contido. A sensação era esmagadora: o calor, o preenchimento, a forma como cada nervo parecia incendiar-se sob o toque de seu alfa. O corpo dele tremeu, as pernas envolvendo a cintura forte de Cas enquanto enterrava o rosto no pescoço dele, inalando o cheiro que sempre o fazia se sentir seguro.
— Você está bem? — Cas murmurou, a voz grave, tensionada pela contenção.
— Sim… estou bem — arfou Ellin, a voz embargada, mas firme.
Os polegares do alfa traçaram círculos lentos nos quadris suados de Ellin, guiando cada movimento. Suas investidas eram ritmadas, profundas, como se gravasse cada instante na pele dele. Os lábios se buscaram novamente, em beijos molhados e longos, uma dança de línguas e suspiros entrecortados.
O quarto foi preenchido pelo som úmido de pele contra pele, pelo deslizar do corpo de Ellin sob o de Cas, pelas respirações descompassadas que aqueciam o ar entre eles.
A pressão cresceu depressa dentro do ômega, os músculos se contraindo em torno do alfa num compasso irresistível.
— Cas… eu… estou perto… — engasgou, suas unhas se cravando nos ombros dele.
Um rosnado baixo escapou da garganta de Cas quando acelerou, suas estocadas tornando-se mais intensas. Então Ellin se desfez, seu corpo estremecendo em ondas violentas, o prazer explodindo quente entre eles.
O aperto pulsante ao redor dele arrastou Cas ao limite. Com um último impulso profundo, o alfa se derramou dentro da camisinha, sua respiração se quebrando enquanto o corpo inteiro tremia com a liberação. Ele permaneceu ali, imóvel por alguns instantes, os braços envolvendo Ellin contra si, como se não pudesse deixá-lo escapar.
Por um tempo, tudo o que restou foi o som irregular de suas respirações, seus corpos colados, suados e satisfeitos. Cas se moveu primeiro. Retirou-se com cuidado, descartou a camisinha e, em seguida, abriu a gaveta do criado-mudo, puxando alguns lenços.
Com a mesma paciência de sempre, começou a limpar a pele marcada pela bagunça do prazer de Ellin, um sorriso discreto nos lábios enquanto observava o rubor ainda aceso em seu rosto.
— Vai dormir agora? — perguntou em tom baixo, quase provocativo.
— Não sei… — Ellin murmurou, desviando o olhar apenas para logo depois voltar a encará-lo com um meio sorriso. — Talvez eu esteja esperando você me cansar mais.
Cas riu suave, pressionando um beijo demorado na testa do ômega.
— Cuidado com o que deseja. Eu posso levar esse tipo de provocação a sério.
— Sabe que eu gostaria disso — Ellin retrucou, ainda corado, mas divertido, deixando a tensão dar lugar a uma intimidade confortável.
Quando terminou de limpá-lo, Cas jogou os lenços fora e lhe roubou mais um beijo rápido. Só então Ellin se sentou à beira da cama, a respiração já estabilizada, os cabelos soltos e úmidos de suor caindo em ondas sobre os ombros. Com os dedos, distraidamente, tentava organizar algumas mechas rebeldes, mas seu olhar estava distante, perdido em pensamentos que iam muito além do reflexo que poderia imaginar no espelho.
Caspian ainda estava reclinado contra os travesseiros, observando-o com aquela calma peculiar que só ele tinha — um misto de vigília e contemplação. Seus olhos claros acompanhavam os movimentos distraídos de Ellin, como se cada gesto fosse digno de atenção. O silêncio entre eles não era incômodo, mas inevitavelmente denso, e talvez fosse justamente essa densidade que empurrava Ellin a quebrá-lo.
— Cas… — começou, a voz baixa, quase como se testasse o som do próprio nome em seus lábios antes de continuar. Ele mordeu de leve a parte interna da bochecha, hesitando, até soltar o ar num suspiro que parecia carregado de uma decisão já amadurecida. — Você já pensou em… termos um bebê?
O silêncio que se seguiu não era de surpresa, mas de absorção. Cas não desviou o olhar, não piscou, apenas se endireitou lentamente, apoiando os antebraços sobre os joelhos, inclinando-se levemente na direção dele. O peso daquela pergunta era maior do que qualquer confissão apressada; era o tipo de desejo que se carregava no peito por muito tempo antes de ter coragem de enunciar.
— Pensei, sim — respondeu, enfim, a voz grave e tranquila, como se cada palavra fosse ancorada em certeza.
Ellin desviou o olhar, um rubor suave subindo às suas bochechas. Os dedos ainda brincavam com as mechas soltas de cabelo, mas agora o gesto parecia menos distraído e mais nervoso, como se tentasse se proteger da intensidade da resposta.
— Eu… estou chegando nos trinta. E me dei conta de que talvez não queira esperar mais. Eu quero… quero uma família com você. — Murmurou, a voz quase engasgada, mas sincera.
A expressão de Cas suavizou de uma maneira quase imperceptível, mas havia um brilho a mais em seus olhos, um calor silencioso que só se revelava nos momentos em que ele deixava a armadura cair. Ele se levantou da cama e caminhou até Ellin, parando atrás dele. Com um gesto lento, afastou os cabelos que ele tentava arrumar, deixando-os escorrer pelos dedos antes de repousar as mãos firmes sobre seus ombros.
— Ellin — murmurou, baixo, inclinando-se até que seus lábios roçassem a lateral de seu rosto. — Você já é tudo que eu sempre quis. Mas se quer dar esse passo… então vamos dar.
Ellin fechou os olhos, permitindo-se relaxar contra o toque dele. O peso daquelas palavras se infiltrava em seu peito, preenchendo cada espaço onde antes morava a dúvida. Por mais que o mundo pudesse ser cruel, por mais que seu corpo carregasse limitações e marcas, Cas estava ali — sólido, inquebrantável, e disposto a caminhar ao seu lado em qualquer direção.
— Eu estava com tanto medo de tocar no assunto… — sussurrou Ellin, com a voz embargada, mas sincera. — Eu deveria ter dito alguma coisa.
Caspian sorriu, um som baixo escapando de sua garganta. Ele inclinou a cabeça, encostando a testa na dele, o gesto mais íntimo e promissor que poderiam compartilhar.
— Tipo quando você tinha uns vinte e quatro?
Ellin balançou a cabeça, esboçando um sorriso tímido.
— Nem tanto… — respirou fundo antes de continuar, com a voz mais suave. — A verdade é que você sempre foi o suficiente pra mim, Cas. Eu nunca pensei em filhos até, talvez… um ano atrás.
Caspian apertou de leve a nuca dele, os olhos fixos, carregados de certeza.
— Não precisa se culpar por isso. — Disse com firmeza, mas em tom afetuoso. — Você ainda pode passar pela gravidez. Nós vamos ter um bebê… e tudo que você quiser.
E, naquele instante, não havia mais pressa nem receio. Apenas o peso de uma promessa silenciosa, tão forte quanto o vínculo que os unia desde o início.
Capítulo 12
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Ellington sempre foi uma presença discreta nos corredores da escola - um ômega reservado, de fala suave e olhar sempre atento. Sua vida era marcada por silêncios: o...