Fragmentos De Nós S2

Fragmentos de Nós

Capítulo 13

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🟡 Em breve

A sala de espera do consultório médico era um espaço minimalista e silencioso, decorado em tons neutros que pareciam projetar uma calma artificial. Ellin estava sentado em uma das cadeiras acolchoadas próximas à janela, observando o movimento das folhas lá fora. Do lado de dentro, porém, o tempo parecia passar mais devagar. Sua perna balançava suavemente, em um ritmo que traía a ansiedade que ele tentava esconder.

Ao seu lado, Cas estava tão imóvel quanto uma montanha. Sua presença era sólida, como sempre, mas os dedos de uma de suas mãos estavam ocupados traçando círculos lentos nas costas da mão de Ellin, um gesto quase imperceptível, mas reconfortante. Ellin sabia que Cas estava atento, percebendo cada detalhe de sua inquietação. Não era surpresa. Cas sempre parecia saber quando ele precisava de apoio, mesmo que Ellin não dissesse nada.

Já fazia um tempo desde que haviam decidido tentar ter um bebê. Não foi uma escolha impulsiva, mas uma construção lenta, moldada pelo desejo crescente de expandir a vida que compartilhavam. Ellin deixara de tomar os inibidores anticoncepcionais havia mais de um ano, e eles haviam tentado várias vezes – primeiro fora de seu cio, conscientes de que as chances eram pequenas, e depois durante o cio, quando, por breves dias, o desejo instintivo os envolvera com mais intensidade. Ainda assim, não havia acontecido.

Ellin tentava não pensar muito sobre isso, mas o peso da frustração às vezes surgia em momentos inesperados. Não se tratava apenas do fato de ainda não terem conseguido. Havia também um medo mais profundo, enterrado sob a superfície, de que talvez houvesse algo errado com ele.

Cas nunca demonstrou qualquer sinal de impaciência ou desapontamento – pelo contrário, dizia que se não fosse dessa vez, haveria outras. Ainda assim, Ellin não conseguia evitar a sensação de insuficiência que o espreitava em momentos como aquele, na quietude ansiosa do consultório médico.

— Ellington Bellamy-Langston? — A voz da enfermeira soou clara e eficiente, chamando seu nome com um leve sorriso educado.

Ellin se levantou, e Cas o seguiu de perto. Caminharam lado a lado até o consultório, onde o médico, um beta de aparência serena e expressão gentil, conhecido por sua longa experiência com casos de fertilidade ômega.

— Vamos conversar sobre os exames e ver como estão as coisas. — Ele indicou as cadeiras diante da mesa.

Ellin sentou-se, cruzando as pernas para conter a agitação, enquanto Cas permanecia quieto ao seu lado, o olhar atento focado no médico. O doutor puxou os resultados dos exames e passou os olhos pelos papéis com atenção antes de falar.

— E há algumas coisas que precisamos discutir. Não há nada grave, quero deixar isso claro desde o início, mas há fatores que podem estar contribuindo para uma certa dificuldade.

Ellin assentiu novamente, mantendo a expressão atenta, embora Cas notasse o leve endurecimento em seus olhos. Ele sabia o quanto aquele assunto mexia com Ellin, o quanto cada tentativa frustrada havia plantado pequenas sementes de dúvida e insegurança em sua mente. Cas, por outro lado, nunca questionara a capacidade de Ellin de ser pai – para ele, isso era algo inquestionável.

— Primeiramente, há a questão da hiperprolactinemia, que já conhecemos e você vem controlando muito bem. Porém, é possível que ela ainda esteja influenciando os níveis hormonais de maneira mais sutil do que pensávamos. — O médico fez uma pausa, como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras antes de continuar. — Isso pode afetar a fertilidade, mesmo que os sintomas estejam sob controle. A prolactina alta pode interferir na produção e regulação hormonal, tornando a concepção mais difícil. No entanto, os resultados mostram que não há bloqueios hormonais graves, e seu sistema reprodutivo parece estar em boa forma.

Ellin sentiu seu corpo relaxar levemente com as palavras do médico, embora a ansiedade ainda estivesse lá, latente. Não havia um diagnóstico claro que o culpasse, mas a incerteza da situação continuava a pesá-lo.

— Então… não há nada mais grave? — Ellin perguntou, sua voz baixa, quase insegura.

— Não. A saúde reprodutiva está normal dentro do que é esperado para a sua condição. — O médico sorriu com uma leveza reconfortante. — Isso significa que estão no caminho certo. Pode ser apenas uma questão de tempo. Algumas gestações acontecem rápido, outras demoram mais. Não há como saber com precisão. A pressão hormonal causada pela prolactina pode estar atrasando o processo, mas não impede a concepção. Como sempre, durante o cio, as chances são maiores.

Cas apertou levemente a mão de Ellin, que estava pousada sobre a coxa. Não foi um gesto grandioso, mas bastou para que Ellin sentisse um pouco mais de força voltar para si.

O médico fez uma pausa antes de continuar:

— Antes de encerrarem por hoje, quero pedir mais um exame complementar. — Ele pegou uma folha e fez algumas anotações rápidas. — Trata-se de um exame de perfil hormonal mais detalhado, focado nos efeitos da prolactina durante o ciclo. Pode nos dar uma visão mais precisa do seu padrão hormonal e ajudar a ajustar qualquer tratamento, se necessário.

Ellin assentiu lentamente. Não era uma resposta definitiva, mas pelo menos não estavam de mãos atadas.

— Peço que retornem com o exame assim que ele estiver pronto. A partir daí, ajustamos as recomendações, caso algo novo apareça.

Quando saíram do consultório, o corredor parecia menos opressivo. Ellin sentia-se um pouco mais leve, embora a ansiedade ainda estivesse presente, como uma sombra discreta.

— Está pensando em alguma coisa? — Cas perguntou, quando já estavam descendo as escadas que levavam até o estacionamento.

— Só… tentando digerir tudo. — Ellin olhou para ele com um sorriso fraco, mas genuíno. — Acho que eu estava esperando ouvir algo pior.

Cas fez um ruído de concordância e deslizou o braço pelas costas de Ellin, puxando-o para perto em um gesto protetor, enquanto continuavam caminhando. Não precisava dizer muito – ele sabia que, para Ellin, a insegurança vinha em ondas, e que o melhor que podia fazer era estar ali, firme, como sempre estivera.

Ao entrarem no carro, Ellin soltou um suspiro longo e reclinou a cabeça no banco, observando Cas assumir o volante com sua habitual expressão tranquila.

— E agora? — Ellin perguntou, casualmente.

— Continuamos tentando — disse Cas, com simplicidade, e, naquele instante, Ellin sentiu o peso de suas dúvidas diminuir um pouco mais.

—–

O retorno para casa fora tranquilo, ainda que carregado de um certo silêncio que, embora não fosse pesado, parecia vibrar com as emoções latentes do que haviam vivido no consultório. Ellin encostou a cabeça na janela do carro, o olhar distante enquanto absorvia as palavras do médico.

Não havia nada de errado com ele, e, no entanto, o vazio ainda estava ali – aquela sensação persistente e incômoda de que seu corpo o estava traindo de forma silenciosa e invisível. Não era uma conclusão lógica; ele sabia. Cas dissera o que ele precisava ouvir: que continuariam tentando. E, ainda assim, o vazio permanecia, alojado no fundo do peito como um peso imóvel.

Cas, por outro lado, parecia calmo enquanto guiava. De vez em quando, sua mão se movia até o joelho de Ellin, apertando-o de leve — como se quisesse lembrá-lo, sem palavras, de que estava ali, firme como sempre. Aquilo ajudava. Cas era uma âncora, uma constante, e Ellin sabia que, sem ele, já teria desmoronado sob o peso das expectativas frustradas e das dúvidas que o atormentavam.

Quando chegaram em casa, o sol da manhã já havia aquecido o ar, e a claridade dourada derramava-se pelas janelas do pequeno jardim na entrada. Cas estacionou o carro com a mesma precisão tranquila de sempre e desligou o motor. Ellin soltou o cinto e suspirou, observando Cas antes de abrir a porta.

Dentro de casa, o ambiente familiar parecia envolvê-los em uma bolha de segurança silenciosa. Ele deixou a bolsa de lado e virou-se para Cas, que o seguiu para dentro com passos firmes, fechando a porta atrás de si.

— Você pode marcar o exame que o médico pediu? — Perguntou Cas.

— Posso, vou marcá-lo hoje.

Ellin observou enquanto Cas terminava de se arrumar, e, por um momento, tudo parecia estranhamente normal – como se aquela manhã não tivesse começado com uma consulta médica carregada de incertezas. Talvez fosse isso que ele mais amava em Cas: a capacidade de transformar o caos em algo administrável, de devolver equilíbrio mesmo nos momentos mais turbulentos.

Antes de sair, Cas inclinou-se e deixou um último beijo na testa de Ellin, um gesto terno que não precisava de palavras para transmitir tudo o que ele sentia.

— Volto para casa à noite. Fique bem. — Disse ele, com simplicidade, antes de atravessar a porta.

Ellin ficou parado ali por um instante, ouvindo o som dos passos de Cas se afastando pelo caminho. Quando o silêncio voltou a preencher a casa, ele respirou fundo e passou a mão pelos cabelos, tentando acalmar o turbilhão de emoções que ainda fervilhavam sob a superfície.

Ainda havia muito a ser resolvido, muitos passos a serem dados antes que pudessem ter um bebê.

—–

A luz do início da tarde entrava pelas amplas janelas da cafeteria, filtrada pelas folhas das árvores do lado de fora, criando um padrão delicado de sombras sobre o chão de madeira clara. O ambiente estava tranquilo naquele horário.

O burburinho do café da manhã havia ficado para trás, e a movimentação mais intensa do fim da tarde ainda parecia distante. Havia algo quase meditativo naquela calmaria, algo que normalmente ajudaria Ellin a se concentrar no trabalho.

Mas naquele dia, sua mente parecia flutuar em uma névoa leve, como se as palavras que tentava digitar em seu computador escorressem por entre seus dedos.

Ele suspirou, apoiando o queixo na mão enquanto a outra deslizava vagarosamente pelo teclado. Estava revisando uma sequência de textos que precisavam ser entregues naquela semana, mas as palavras pareciam se embaralhar diante de seus olhos, perdendo o sentido.

Havia um peso mais denso, algo não resolvido pairando em sua mente, e Ellin sabia exatamente o que era. Desde a consulta pela manhã, não conseguira parar de pensar nas palavras do médico, na sensação de inadequação que, mesmo que infundada, insistia em beliscar os cantos de sua consciência.

Quando o relógio na parede indicou que já passava do meio-dia, ele decidiu que uma pausa seria bem-vinda. Fechou o notebook com um gesto suave e alongou-se ligeiramente na cadeira, sentindo os músculos tensos relaxarem sob a luz morna que banhava o ambiente. Não precisou pedir nada – um dos funcionários da cafeteria já estava a caminho, trazendo um prato com algo leve e nutritivo: uma torta salgada e uma salada colorida, acompanhadas por um copo alto de suco natural.

Ellin agradeceu com um sorriso discreto e se recostou na cadeira, permitindo-se respirar com mais tranquilidade. Ele estava prestes a dar a primeira garfada quando o telefone vibrou sobre a mesa. O nome de Cas apareceu na tela, e um calor familiar espalhou-se pelo peito de Ellin. Atendeu rapidamente, levando o aparelho à orelha enquanto um leve sorriso desenhou-se em seus lábios.

— Cas? — chamou, suavemente, tentando esconder a surpresa. Cas não costumava ligar durante o expediente.

— Ei — a voz grave e firme do outro lado da linha carregava um tom sereno, mas atento —, você está bem?

Ellin franziu levemente o cenho. A pergunta foi direta, mas havia uma preocupação subjacente que ele reconheceu de imediato. Cas era assim – não desperdiçava palavras, mas sempre sabia como atingir o cerne da questão.

— Estou… — começou Ellin, mas parou antes de concluir a frase. Suspirou e desviou o olhar para a janela, onde um par de pássaros descansava em um galho próximo —, quer dizer, estou tentando ficar.

Houve um breve silêncio do outro lado da linha, o tipo de silêncio que não era vazio, mas carregado de compreensão.

— É sobre o que o médico disse? — Cas perguntou, sem rodeios.

Ellin apertou os lábios e assentiu, mesmo sabendo que Cas não podia vê-lo.

— Sim… acho que não esperava que minha condição pudesse ter algum impacto nisso. Não que seja algo grave, eu sei disso, e ele deixou claro que não é o motivo principal… mas ainda assim, é difícil não pensar nisso. — Sua voz saiu mais baixa do que pretendia, quase como se estivesse confessando um segredo.

Cas demorou alguns segundos para responder, e quando o fez, sua voz era suave, mas firme.

— Eu entendo por que isso te deixou triste. É frustrante, eu sei… mas não há nada de errado com você. Nós estamos apenas enfrentando um processo que pode levar tempo. E não importa quanto tempo leve, a gente vai continuar tentando, se isso ainda for o que você quer.

Ellin fechou os olhos por um momento, deixando que as palavras de Cas se acomodassem em seu peito como uma manta quente. Havia algo profundamente reconfortante na forma como Cas falava – uma certeza inabalável que parecia capaz de sustentar Ellin mesmo nos momentos em que ele próprio se sentia à beira de desmoronar.

— Eu sei… e quero, sim. Quero muito. Só… — Ellin hesitou, buscando as palavras certas —, depois de tudo que passei, depois de tudo que passamos, eu só queria que isso não fosse mais uma coisa para atrapalhar.

A confissão pairou no ar, e Ellin sentiu o peso dela como uma verdade que vinha sendo guardada há muito tempo. Ele sabia que sua condição não era a culpada por sua dificuldade em engravidar. Sabia que o tratamento era simples e que não havia nada de errado com ele. Mas, às vezes, a lógica não bastava para silenciar o eco das inseguranças.

— Desculpa… eu sei que não deveria pensar assim. — Acrescentou, baixando os olhos para o prato intocado à sua frente.

— Não tem por que se desculpar — Cas respondeu, com uma paciência que parecia infinita —, você tem o direito de se sentir assim. Mas, se isso te ajudar, a gente pode começar a tentar de verdade agora. Voltar ao médico, seguir o tratamento que ele sugeriu… o que você acha?

Ellin abriu os olhos, surpreso. A proposta de Cas soava quase casual, mas havia algo profundo ali – um compromisso renovado, uma disposição genuína de seguir em frente e transformar aquela experiência em algo positivo.

— Eu adoraria isso. — Respondeu Ellin, com um sorriso que, desta vez, alcançou seus olhos.

Cas riu do outro lado da linha, e o som era tão familiar e aconchegante que Ellin sentiu a tensão finalmente começar a se dissipar.

— Então é o que vamos fazer. Tente não se preocupar tanto, tudo bem? Vamos dar um jeito nisso.

— Tudo bem… obrigado, Cas.

— Sempre, amor.

Quando a ligação terminou, Ellin pousou o telefone sobre a mesa e respirou fundo. O peso que carregava parecia um pouco mais leve agora. Havia um longo caminho pela frente, mas, com Cas ao seu lado, ele sentia que poderiam enfrentá-lo juntos.

—–

O aroma suave de alho e ervas frescas pairava no ar, espalhando-se pelo pequeno apartamento enquanto Cas mexia delicadamente o conteúdo de uma panela sobre o fogão. O som sutil da espátula raspando o fundo metálico se misturava ao crepitar da frigideira e ao burburinho baixo vindo da televisão ligada na sala. A noite caía com serenidade, trazendo consigo um vento morno que atravessava as janelas entreabertas e fazia as cortinas de linho balançarem em movimentos quase imperceptíveis.

Ellin estava recostado no sofá, uma manta fina sobre as pernas, os dedos longos deslizando pelas páginas gastas de um álbum de fotos. Seus olhos percorriam cada imagem com uma atenção quase melancólica, como se buscassem em cada rosto capturado uma lembrança mais viva, um detalhe esquecido. Não era a primeira vez que ele revisitava aquele álbum, mas, naquela noite, algo parecia diferente. Talvez fosse o silêncio confortável que preenchia a sala, ou talvez o peso acumulado das emoções que ele vinha tentando manter sob controle nos últimos dias.

Do outro lado do cômodo, Cas lançava olhares ocasionais na direção do sofá, atento a cada suspiro que Ellin soltava enquanto folheava o álbum. Havia uma tranquilidade aparente no rosto delicado do companheiro, mas Cas conhecia bem demais aqueles olhos para ser enganado. Algo estava se formando sob a superfície – uma névoa tênue de pensamentos e sentimentos que Ellin ainda não havia colocado em palavras.

Quando o jantar ficou pronto, Cas desligou o fogão e cuidadosamente arrumou duas porções em pratos fundos. O aroma do molho encorpado se intensificou, preenchendo a cozinha e alcançando o corredor como um convite discreto. Ele apoiou os pratos sobre a mesa e limpou as mãos no pano antes de seguir até a sala, onde Ellin ainda estava folheando o álbum.

— O jantar está pronto. — Disse ele com um sorriso discreto, mas seus olhos permaneceram fixos em Ellin por alguns segundos, captando a expressão distante no rosto do ômega.

Ellin piscou, como se estivesse despertando de um devaneio, e fechou o álbum com delicadeza, deixando-o repousar sobre a mesa de centro antes de se levantar. Caminhou até a cozinha ao lado de Cas, e ambos se sentaram frente a frente, o calor da comida subindo em pequenas ondas de vapor.

— Obrigado… Parece ótimo. — Murmurou, embora seu tom de voz estivesse um pouco mais baixo do que o normal.

Cas inclinou a cabeça ligeiramente, analisando-o em silêncio por um instante antes de voltar a atenção ao prato diante de si. Ele não precisava de palavras imediatas; sabia que Ellin falaria quando estivesse pronto.

E, de fato, bastou alguns segundos de silêncio compartilhado antes que o ômega soltasse um suspiro longo e entrelaçasse as mãos sobre o colo, os olhos presos ao álbum fechado que deixara para trás.

— Você… se lembra de quando a gente era criança? De uma vez que fomos no parque perto da sua casa e brincamos com seus pais? — a voz soou suave, quase hesitante, mas carregada de uma expectativa silenciosa.

Caspian ergueu os olhos devagar, estreitando-os ligeiramente. Ele deixou a pergunta pairar entre eles por alguns segundos, como se percorresse as próprias lembranças antes de responder.

— Não exatamente… Nós fizemos muito isso — admitiu, o timbre baixo e umedecido por um traço de nostalgia. — Por quê?

Um pequeno sorriso curvou os lábios de Ellin, e o ar em torno dele pareceu se aquecer levemente com a lembrança.

— Eu estava pensando no dia… quando a gente resolveu brincar de se esconder dos seus pais. — Ele riu baixo, um riso envergonhado que trazia algo da criança que ainda morava dentro dele. — Eu acabei subindo em uma árvore e depois não conseguia mais descer.

Cas arqueou uma sobrancelha, o canto da boca se erguendo num sorriso discreto.

— Agora que você falou… sim, lembro disso. — Ele balançou a cabeça, um suspiro quase divertido escapando. — Eu tentei te convencer a pular, não foi?

Ellin assentiu, o olhar perdido na memória, como se a cena estivesse diante dele novamente.

— Foi. E você dizia com tanta convicção que ia me segurar… — ele deixou escapar uma risada, sacudindo a cabeça. — Eu quase acreditei.

Cas apoiou o braço sobre a mesa, inclinando-se um pouco mais para perto, os olhos presos nos dele com uma centelha de ternura divertida.

— Quase? Então você não confiava em mim?

— Eu estava aterrorizado lá em cima. Se seus pais não tivessem aparecido naquela hora, talvez tivesse pulado mesmo… e nós dois acabaríamos no hospital. — Retrucou Ellin, com um sorrisinho que misturava diversão e ternura.

Caspian deixou escapar uma risada curta, abafada, como se não quisesse quebrar o clima intimista que os cercava.

— Possível. Mas eu teria tentado — disse com simplicidade, e a firmeza em sua voz fazia parecer que ainda hoje ele seguraria Ellin, em qualquer altura.

Ellin ficou em silêncio por um momento, observando-o com olhos suaves. O riso leve que compartilhara desapareceu aos poucos, substituído por uma expressão mais contemplativa, carregada de uma afeição silenciosa que sempre surgia quando relembravam o passado.

— Sua mãe encontrou algumas fotos daquele dia… e de outros também. Mandou para mim. — disse, a voz calma, quase nostálgica. — Fiquei tão feliz. É como se eu tivesse dado sorte de guardar tantas memórias assim. As coisas mudaram tanto desde então.

Sua voz soou calma, mas havia uma nota de amargura subjacente que Cas imediatamente percebeu.

— Mudaram para melhor, eu espero. — Respondeu Cas, com um tom gentil, mas Ellin balançou a cabeça levemente, como se estivesse ponderando sobre o comentário.

— Sim… Mudaram, mas… ainda há coisas que às vezes me deixam… frustrado. — Ele mordeu o lábio inferior, hesitante, antes de continuar: — Não sei… acho que fiquei um pouco nostálgico e, ao mesmo tempo, meio decepcionado comigo mesmo.

Cas franziu levemente o cenho, inclinando-se um pouco mais para perto.

— Decepcionado? Por quê? — Sua voz era suave, mas carregava uma seriedade genuína.

Ellin ficou em silêncio por um momento, seus dedos agora brincando com a borda do álbum. Quando finalmente voltou a falar, sua voz estava mais baixa, quase um sussurro.

— Acho que… eu gostava mais da época em que ainda não sabia da hiperprolactinemia. Antes da adolescência. Eu imaginava como seria o futuro… expectativas; ideias sobre o que queria ser. — ele fez uma pausa, respirando fundo. — E então, quando minha condição começou a se manifestar… eu me senti diferente, estranho, como se houvesse algo errado comigo. Eu achava que nunca seria visto como… normal. — Sua voz falhou ligeiramente na última palavra, e ele desviou o olhar, como se estivesse envergonhado por admitir aquilo.

Cas permaneceu em silêncio, permitindo que Ellin expusesse o que sentia sem interrupções. Ele sabia que esses pensamentos não surgiam do nada; eram ecos de um passado difícil, marcado por inseguranças e experiências dolorosas que ainda deixavam cicatrizes sutis.

— E agora… mesmo depois de tudo que superamos, mesmo depois de termos decidido ter um bebê juntos… às vezes eu ainda sinto aquele medo irracional de que algo vai dar errado, de que talvez eu não seja… suficiente. — Ele fechou os olhos por um instante, como se estivesse tentando dissipar aquele pensamento.

Cas estendeu a mão e pousou-a suavemente sobre a de Ellin, entrelaçando seus dedos com firmeza.

— Ellin… você é mais do que suficiente. Sempre foi. — Sua voz era firme, mas havia uma ternura profunda em suas palavras que fez Ellin abrir os olhos e encontrar o olhar sério do alfa.

— É só que, às vezes, esses sentimentos voltam. E acho que preciso aprender a lidar com eles de forma melhor… sem deixar que eles me dominem. — Ellin esboçou um sorriso triste, mas Cas apertou sua mão com mais força.

— Você não precisa lidar com isso sozinho — disse Cas, inclinando-se para frente e encostando a testa levemente na de Ellin —, estamos juntos nisso. E eu vou estar aqui para te lembrar, todas as vezes que você precisar ouvir, que você é perfeito exatamente do jeito que é.

Por um momento, eles ficaram ali, em silêncio, apenas respirando juntos. O peso das palavras não ditas parecia se dissipar lentamente, substituído por uma sensação de segurança e conexão que preenchia o espaço entre eles.

Quando finalmente se afastaram, Ellin sorriu, dessa vez com mais sinceridade.

Cas apenas retribuiu o sorriso.

—–

A sala de espera estava silenciosa, preenchida apenas pelo leve farfalhar de revistas sendo folheadas e pelo murmúrio distante da recepção. As luzes brancas e frias refletiam no piso impecavelmente limpo, enquanto as paredes lisas em tons pastel projetavam uma atmosfera clínica, quase estéril. Ellin estava sentado perto da janela, o olhar absorto no céu cinzento. Não havia muito movimento, apenas o vento balançando a copa das árvores, apenas o vento balançando a copa das árvores. Um dia comum, como tantos outros, mas algo em seu peito não estava completamente tranquilo.

Ele segurava o celular com uma das mãos, e seus dedos tamborilavam levemente contra a tela. Tinha acabado de mandar uma mensagem para Cas, algo simples, só para avisar que estava esperando ser chamado. Cas não pôde acompanhá-lo naquela manhã – uma reunião inesperada o prendera no escritório –, e Ellin, tentando parecer mais despreocupado do que realmente estava, garantiu que poderia ir sozinho. Era só mais uma consulta de rotina. Nada demais.

A resposta de Cas chegou rápido.

Cas: Está tudo bem por aí?

Ellin esboçou um sorriso discreto ao ler a mensagem, sentindo aquele calor reconfortante que sempre vinha quando Cas se preocupava com ele. Respondeu com um breve Sim, só esperando agora.

O tempo se esticava em um ritmo lento e arrastado. O dedo de Ellin escorregou pela tela enquanto ele tentava se distrair com mensagens antigas, fotos salvas, qualquer coisa que afastasse a ansiedade que sempre parecia se infiltrar quando ele estava sozinho em lugares como aquele. Sua mente vagava entre lembranças dispersas, quando um som inesperado o trouxe abruptamente de volta à realidade.

— Ellin?

A voz soou baixa e próxima, e o simples som do próprio nome fez seu estômago afundar em um frio desagradável. Ele piscou algumas vezes, como se precisasse se convencer de que ouvira direito, e, quando finalmente ergueu o rosto, seu coração tropeçou dentro do peito.

Eric.

Ele estava ali, parado bem à sua frente, com aquele mesmo olhar frio e calculista que Ellin se lembrava tão bem – os olhos ligeiramente semicerrados, como se estivesse sempre avaliando tudo à sua volta, buscando um ponto fraco. O cabelo estava mais curto do que antes, e havia algo no semblante dele que parecia mais amadurecido, mas não o suficiente para mascarar o traço de arrogância que ainda pairava sob a superfície. Ele vestia um jaleco branco impecável, e o crachá preso à lapela confirmava o que Ellin já temia: Eric era um médico ali.

— Quanto tempo. — A voz dele soava amistosa, mas havia um fio de ironia subjacente que Ellin reconheceu instantaneamente.

Ellin não conseguiu responder de imediato. O choque o paralisou por alguns segundos. Não esperava vê-lo, e menos ainda em um lugar como aquele. Sentiu o celular escorregar levemente entre os dedos antes de ajustá-lo na mão novamente, como se aquilo fosse sua única âncora para o mundo real.

— Eric… – murmurou, a voz mais baixa do que pretendia, quase inaudível.

— Você ainda se lembra de mim, pelo visto. – Eric sorriu, mas era um sorriso cheio de intenções não ditas, de palavras que não precisavam ser expressas para serem compreendidas. — Que coincidência, hein? Não achei que te veria aqui.

Ellin forçou um sorriso vazio, tentando se recompor, mas a garganta parecia seca, e seu coração batia com força contra as costelas, como se quisesse escapar dali.

— Pois é… coincidência… – respondeu, com um tom vago.

Ele queria encerrar aquela conversa ali mesmo, antes que fosse longe demais. Queria desaparecer naquele instante, fugir para algum lugar onde Eric não pudesse alcançá-lo. Mas Eric não parecia disposto a deixá-lo ir tão facilmente.

— Está tudo bem com você? – perguntou Eric, inclinando ligeiramente a cabeça, como se a preocupação fosse genuína. Ellin não se deixou enganar. Aquela era uma pergunta carregada de intenções, uma provocação velada.

— Está sim… – Ellin desviou o olhar, tentando encontrar algum ponto na sala onde pudesse fixar a atenção. — Só uma consulta de rotina.

— Que bom… – A resposta veio em um tom arrastado, quase insinuante. Eric cruzou os braços, observando Ellin com uma intensidade desconfortável, como se pudesse enxergar as camadas de desconforto que ele tentava esconder.

Antes que a conversa pudesse continuar, uma voz chamou pelo nome de Eric. Ele deu um passo para trás, ajustando o jaleco e lançando um último olhar para Ellin.

— A gente se vê por aí. – O tom era leve, mas havia algo sombrio em suas palavras, uma promessa não dita.

Ellin ficou parado ali, em silêncio, até que Eric desapareceu pelo corredor. Só então soltou a respiração que nem percebera estar prendendo. As mãos tremiam levemente, e apertou o celular com mais força, como se aquele gesto pudesse afastar a sensação sufocante que se instalara em seu peito.

A consulta foi rápida e sem novidades. O médico analisou os novos exames e confirmou que estavam no caminho certo, pedindo que Ellin continuasse com o acompanhamento periódico. Mas, durante todo o tempo, a mente de Ellin estava distante, presa no encontro inesperado com Eric, nas lembranças que isso havia trazido à tona.

Quando finalmente deixou o consultório, ele fez o possível para evitar cruzar com Eric novamente. Caminhou apressado pelos corredores, mantendo o olhar fixo à frente até alcançar o estacionamento.

Ao entrar no carro, Ellin soltou um suspiro longo e fechou os olhos por alguns instantes. Era como se estivesse tentando expulsar o peso daquele encontro, mas as emoções estavam ali, latentes, e ele não conseguiu conter as lágrimas que começaram a escorrer silenciosamente por seu rosto.

Pegou o celular novamente e viu várias mensagens de Cas. Ele não havia respondido mais desde que Eric apareceu, e Cas, preocupado, queria saber se estava tudo bem. Ellin enxugou rapidamente as lágrimas e digitou uma resposta.

Ellin: Desculpe… fui chamado e não consegui responder antes. Já estou indo para casa.

A resposta de Cas veio quase imediata.

Cas: Está tudo bem. Me avisa quando chegar.

Ellin deixou o celular de lado e suspirou novamente, dessa vez mais profundamente. Não queria contar a Cas sobre Eric. Não queria reviver aquele passado, não queria parecer fraco ou vulnerável. Ele queria ser mais forte. Queria superar aquele trauma sozinho, sem que isso afetasse ainda mais sua vida.

Mas, enquanto dirigia de volta para casa, a imagem de Eric ainda estava lá, como uma sombra persistente em sua mente, e Ellin sabia que aquilo não seria tão fácil de apagar.

Capítulo 13
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Fragmentos de Nós

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