Capítulo 37
“Oh! Isso! Obrigado, obrigado.”
“O competidor Jiang Cheng decidiu aumentar a dificuldade novamente! Ele decidiu aumentar a dificuldade novamente! Uau—”
“Treinador X, você acha que dessa vez foi um erro ou que as habilidades dele ainda não eram boas o suficiente?”
“Acho que ainda há espaço para melhorar as habilidades dele…”
……
O cômodo ainda estava muito silencioso, mas a voz de Jiang Cheng já preenchia completamente a mente de Gu Fei, com várias personalidades divididas, vários tons de voz, uma atuação totalmente comprometida.
Gu Fei, que sempre foi bom em lidar com situações tensas, sentiu naquele momento que estava diante de um beco sem saída, como se pudesse ver diante dos próprios olhos o caminho que levaria a apanhar.
Ninguém sabia que Jiang Cheng tinha um estilingue. A única vez que ele mostrou o estilingue provavelmente foi à beira do lago, vazio. Sem. Uma. Única. Pessoa. À beira do lago.
Ele nem sequer tinha chance de inventar uma desculpa para negar.
Jiang Cheng não disse nada, apenas ficou olhando para ele, sem qualquer expressão no rosto. O choque momentâneo já tinha desaparecido, e desde então ele permanecia completamente inexpressivo.
Gu Fei não conseguia nem imaginar qual era o estado emocional de Jiang Cheng naquele momento.
“Bem…” mas ele ainda precisava falar, “aquele dia…”
Jiang Cheng não falou, parecendo esperar que ele continuasse.
“Eu estava passando por lá.” Gu Fei disse.
“Não existem estradas ao redor daquele lago.” Jiang Cheng respondeu. “Eu dei a volta inteira nele.”
“Eu realmente tinha algo para fazer lá.” Gu Fei finalmente encontrou algo um pouco mais convincente para dizer. “Só vi você brincando com o estilingue lá. Nós não éramos tão próximos naquela época, então fui embora sem cumprimentar.”
Jiang Cheng lançou um olhar para ele, virou o estilingue nos dedos, fazendo-o girar duas vezes antes de voltar para sua mão esquerda. Gu Fei viu a mão direita dele alcançar a mesa ao lado.
Nada bom!
Ele sabia que havia muitos acessórios de roupa naquela mesa e… botões.
O que Jiang Cheng pegou foram botões.
Gu Fei virou-se e saiu correndo em direção ao cenário atrás dele.
Esses não eram botõezinhos comuns. Os designs de Ding Zhu usavam todo tipo de material “voltado à simplicidade”. Aqueles eram botões em forma de contas, simplesmente os companheiros perfeitos para um estilingue.
“É isso que você quer dizer com ser um espectador?” Jiang Cheng disse.
Gu Fei ouviu um zunido e então sentiu dor na coxa onde a conta o atingiu.
Ele olhou para trás e viu Jiang Cheng puxando o estilingue novamente, parado no mesmo lugar mirando nele.
“Você…” Antes que pudesse terminar, Jiang Cheng soltou a mão, e ele gritou:
“Ah!”
Dessa vez o botão acertou sua barriga.
Para ser sincero, Jiang Cheng não usou muita força. Se fosse a mesma força daquele dia no lago, quando acertou o buraco no gelo, provavelmente Gu Fei nem conseguiria gritar agora.
“Você disse que esse estilingue era um produto inferior que não conseguia atirar com precisão!” Gu Fei pulou por cima do sofá, escondendo a metade inferior do corpo atrás do encosto.
“Depende de quem está atirando.” Jiang Cheng respondeu, pegando outra conta e mirando nele. “Eu consigo acertar usando dois dedos e um elástico.”
“Não…” Gu Fei nem terminou de falar. Jiang Cheng soltou a mão outra vez, e o botão acertou seu braço. Dessa vez doeu bastante. Ele esfregou o braço vigorosamente várias vezes. “Droga!”
“O espectador de que você falou…” Jiang Cheng puxou o estilingue, olhando para ele através das duas hastes de madeira. “É isso que você quer dizer com ser um espectador, né?”
“Foi só uma metáfora!” Gu Fei levou três tiros seguidos e realmente não aguentava mais. Levantou a voz. “Você não consegue ser razoável?”
“Que razão!” Jiang Cheng gritou, a mão tremendo violentamente. “Que razão existe pra conversar? Como é legal da sua parte ficar aí como observador distante, que razão! Não existe razão nenhuma nesse mundo! Existe alguma razão pra eu ter sido adotado? Existe alguma razão pra, no momento em que descobri que não era filho biológico deles, eu ter sido mandado de volta pra essa merda de lugar? Que razão do caralho!”
“Irmão Cheng…” Gu Fei saiu de trás do sofá. “Eu realmente não quis…”
Ele não terminou de falar. O quarto botão de Jiang Cheng acertou seu peito.
“Ah!” Ele pulou e caiu sentado de volta no sofá. Simplesmente ficou ali gritando para Jiang Cheng: “Vai! Vai! Vai, atirador Jiang Cheng! Vai em frente! Continua atirando até se sentir melhor! Se esses botões não forem suficientes, tem mais lá fora! Não só de madeira, tem de pedra também! De ferro e cobre também! Por que você não usa logo os de ferro!”
“Você viu tudo.” Jiang Cheng encarou-o por um tempo antes de abaixar a mão segurando o estilingue e os botões, deixando tudo cair no chão. “É, você viu tudo.”
“Eu vi.” Gu Fei respondeu.
“Desde quando até quando?” Jiang Cheng perguntou.
“Desde você acertando o buraco no gelo até o Treinador X até você chorando.” Gu Fei disse. “Eu vi tudo. Quando você começou a chorar, eu fui embora.”
“Ah.” Jiang Cheng respondeu.
Viu toda aquela maravilhosa performance de múltiplas personalidades, mais a cena extra de um homem adulto chorando desesperadamente.
Jiang Cheng não sabia mais o que sentia naquele momento.
Do choque passou para a vergonha, depois para o constrangimento, depois para a humilhação de ter seu segredo espionado, e finalmente para a raiva.
E agora todos os sentimentos tinham desaparecido, restando apenas tristeza.
Ele lentamente se agachou contra a parede, abaixou a cabeça e abraçou a própria cabeça com os braços.
Apenas aquela postura.
Desde pequeno até agora, não apenas quando chorava, mas sempre que se sentia mal, deprimido ou infeliz, gostava de usar aquela posição, tentando ao máximo se encolher, se esconder e não deixar ninguém vê-lo.
Aquilo o fazia sentir-se seguro.
Parecido com enfiar a cabeça na areia. Não que realmente acreditasse que as pessoas não o veriam daquele jeito, apenas não queria ver ninguém nem nada.
Não ver, não ouvir… isso já bastava.
“Irmão Cheng.” Em algum momento Gu Fei já tinha ido até o lado dele e o chamado.
“Que porra de Irmão Cheng.” Jiang Cheng enterrou a cabeça entre os joelhos e os braços; sua voz abafada saiu dali. “Você é mais novo que eu por acaso?”
“Um mês mais novo.” Gu Fei respondeu.
“Vai se foder.” Jiang Cheng ficou tão chocado que nem conseguiu manter a cabeça enterrada. Levantou-a rapidamente. “Você até sabe meu aniversário?”
“Quando você desmaiou de febre da última vez, eu vi seu RG.” Gu Fei respondeu. “Eu trouxe um desconhecido pra dentro do meu quarto, claro que precisava descobrir quem ele era.”
“Da próxima vez nem se preocupe comigo.” Jiang Cheng enterrou a cabeça de novo entre os joelhos.
“Você quer isso?” Gu Fei perguntou.
Jiang Cheng espiou por entre os braços. Gu Fei segurava um maço de cigarros. Ele fechou os olhos e esperou alguns segundos antes de estender a mão para pegar um cigarro.
“Fumar aqui precisa ser escondido.” Gu Fei também pegou um cigarro e o acendeu, passando o isqueiro para Jiang Cheng. “Esse estúdio é área livre de fumo. Tudo aqui é inflamável.”
Jiang Cheng não respondeu. Acendeu o cigarro e então olhou de relance para a câmera de segurança no canto.
“Tudo bem, normalmente ela nem verifica as câmeras.” Gu Fei disse.
“Você riu?” Jiang Cheng perguntou. Sua voz estava um pouco rouca, como se estivesse profundamente injustiçado. Limpou a garganta desconfortavelmente e perguntou de novo: “Quando estava me espionando?”
“Ri por dentro.” Gu Fei respondeu. “Era bem engraçado afinal. Se eu dissesse que não ri, você não acreditaria, né?”
“É.” Jiang Cheng suspirou baixinho. “Eu frequentemente brinco sozinho desse jeito. Antes, quando tocava flauta, fazia a mesma coisa. Agora apresentando para todos nós o flautista não famoso Jiang Cheng.”
Gu Fei começou a rir, rindo tanto que as cinzas caíram do cigarro. Ele puxou uma garrafa vazia e bateu as cinzas nela.
“Você nunca brincou assim antes?” Jiang Cheng perguntou.
“Não.” Gu Fei balançou a cabeça. “Mas deve existir muita gente que alivia o tédio desse jeito. Antes, no fórum da Escola Nº 4, alguém abriu um tópico dizendo que não consegue dormir toda noite sem fazer uma apresentação completa enquanto está deitado na cama, e bastante gente respondeu dizendo que tinha o mesmo hobby.”
“É mesmo?” Jiang Cheng riu.
“Mas é bom que você saiba que eu vi também.” Gu Fei fez um joinha para ele. “Pelo menos agora eu tenho a chance de te dizer: Jiang Cheng, você é o jogador de estilingue mais incrível que eu já vi.”
“……Obrigado.” Jiang Cheng olhou para o estilingue jogado de lado. “Isso provavelmente é só um acessório de cena, não foi feito pra ser usado de verdade.”
“Mas você me acertou com bastante precisão.” Gu Fei disse.
“Não foi preciso, só consegui acertar.” Jiang Cheng respondeu. “Quando atirei na sua perna eu estava mirando na sua bunda.”
“Ah.” Gu Fei virou a cabeça para olhá-lo. “Por quê?”
“Tem mais carne na bunda.” Jiang Cheng respondeu. “Menor chance de machucar.”
“Percebi que você sempre é bem… cuidadoso. Você não deixa a raiva acumular e também não transforma as coisas num desastre enorme.” Gu Fei bateu as cinzas na garrafa.
“Nós, deuses dos estudos, fazemos tudo com moderação.” Jiang Cheng disse segurando o cigarro entre os lábios. “Nunca jogaríamos alguém contra uma árvore.”
“Droga.” Gu Fei riu.
Jiang Cheng encarou a ponta do cigarro por um tempo.
“O que você estava fazendo no lago naquele dia? Estava um frio do caralho, e não havia estrada levando pra lugar nenhum.”
“Aquele dia…” Gu Fei parou. Depois de um longo silêncio, continuou falando em voz baixa: “Aquele dia era o aniversário da morte do meu pai. Eu fui queimar oferendas de papel.”
“Ah.” Jiang Cheng ficou surpreso.
“Ele se afogou lá.” Os dedos de Gu Fei bateram levemente na garrafa.
“Ah…” Jiang Cheng continuou parecendo surpreso, depois acrescentou: “Achei que a água ali não fosse muito funda.”
“Não é funda. Naquele dia ele estava bêbado. Se ele não tivesse bebido…” Os dedos de Gu Fei pararam de bater na garrafa. “…provavelmente quem teria se afogado seria eu.”
Jiang Cheng ergueu a cabeça abruptamente, encarando Gu Fei.
Quando Li Baoguo disse que Gu Fei tinha matado o próprio pai, Jiang Cheng não acreditou nem um pouco. Quando Gu Fei disse que o pai havia se afogado, ele apenas pensou “ah, então foi um acidente”. Mas quando ouviu Gu Fei dizer aquilo, ficou tão chocado que não conseguia acreditar nos próprios ouvidos.
“Meu pai era bem horrível.” Gu Fei falou muito calmamente. “Eu sempre desejei que ele morresse. Se Li Baoguo fosse meu pai, eu não pensaria assim.”
Jiang Cheng ficou em silêncio, com a mente um pouco caótica.
“Ele não apostava como Li Baoguo, mas batia muito mais do que Li Baoguo.” Gu Fei sorriu. “Minha mãe se casou com ele porque achava ele bonito. Depois disso, a vida dela foi só apanhar. Bebia e batia nela, não bebia e também batia nela. Eu sempre senti que a única forma de expressão do meu pai provavelmente eram os punhos.”
“Eu ouvi Li Baoguo dizer…” Jiang Cheng lembrou das palavras dele. “Que ele batia na Gu Miao.”
“Sim.” Gu Fei mordeu os lábios. Até então ele estava muito calmo; só demonstrou expressão quando mencionou Gu Miao. “Gu Miao era um pouco diferente das outras crianças desde que nasceu. Provavelmente porque ele estava sempre bêbado… claro que ele não pensava assim. Só achava que ela era um grande incômodo, que não conseguia falar direito, que não conseguia aprender.”
“Então ele batia nela?” Jiang Cheng começou a ficar irritado ouvindo aquilo.
“É.” Gu Fei virou o rosto para o lado. “Ele a agarrava e a jogava contra a parede. Depois daquela vez, Gu Miao nunca mais falou.”
“Porra!” Jiang Cheng gritou. Naquele momento ele sentiu vontade de desenterrar o túmulo do pai de Gu Fei e chicotear o cadáver.
Gu Fei não falou mais nada. Os dois ficaram silenciosamente olhando para a garrafa.
Depois de muito tempo, Gu Fei voltou a falar suavemente:
“Eu jogar pessoas contra árvores… provavelmente aprendi com ele…”
“Não fala besteira.” Jiang Cheng interrompeu imediatamente.
“Esse tom…” Gu Fei riu. “Por que parece tanto com o Velho Xu?”
“Que tom eu deveria usar então? O do Velho Lu? Eu não tenho essa energia.” Jiang Cheng encostou-se na parede, suspirando. “Esse lugar realmente é insano.”
“Seus pais adotivos na verdade te protegeram muito bem.” Gu Fei disse. “Apesar de você ser igual um canhão sem trava, você ainda é… puro.”
“Provavelmente.” Jiang Cheng respondeu baixinho, depois tentou perguntar: “Por que Li Baoguo disse que você… esquece.”
“Que eu matei meu pai?” Gu Fei disse.
“Ah.” Jiang Cheng de repente sentiu que era inadequado perguntar aquilo naquele momento. “Você não precisa se importar, eu também não acreditei nisso. Eu só… esquece, finge que eu não falei nada. Não liga.”
“Nem um pouco direto.” Gu Fei fez um joinha para ele. “Na verdade não tem muito mistério. São só rumores, todo tipo de rumor aqui. Depois eu te conto mais quando tiver tempo.”
“Mm.” Jiang Cheng assentiu.
“Quando meu pai me arrastou até o lago naquela época, algumas pessoas viram.” Gu Fei disse. “Quando elas chegaram, meu pai já estava dentro do lago. Ele não se mexia mais e eu estava parado na margem. Parecia muito uma cena de assassinato. O assassino nem chorava. Era perverso demais.”
“Isso provavelmente foi porque… você ficou paralisado de medo.” Jiang Cheng franziu a testa, sem ousar imaginar aquela cena. Quantos anos Gu Fei tinha naquela época?
“Não sei, talvez.” Gu Fei acendeu outro cigarro. “O que vou dizer agora talvez te assuste.”
“Vai em frente, me assusta.” Jiang Cheng respondeu.
“Eu não conseguia salvá-lo. Eu não sabia nadar e estava quase congelando.” Gu Fei abaixou a voz. “Mas eu simplesmente desejava que ele morresse. Fiquei ali vendo ele parar de se mover aos poucos. Vi ele afundar. Apenas… fiquei olhando de olhos arregalados.”
Jiang Cheng de repente sentiu um pouco de falta de ar. Tentou respirar fundo duas vezes, mas não conseguiu, como se alguma coisa estivesse apertando seu peito.
“Assustador, né?” A voz de Gu Fei era muito baixa, com um leve tremor. “Eu estava com muito medo. Se eu salvasse ele, tinha medo de que ele ainda tentasse me matar. Medo de que matasse Er Miao, matasse minha mãe… Eu não o salvei. Só fiquei olhando enquanto ele morria lentamente… todo ano, no dia em que ele morreu, parece que minha pele está sendo arrancada. Eu nunca vou superar isso pelo resto da vida…”
A mão trêmula de Gu Fei segurando o cigarro tremia violentamente, e até a fumaça subindo parecia estar lutando.
“Gu Fei…” Jiang Cheng não esperava que Gu Fei tivesse uma história dessas. Ele já estava chocado e perdido, e vendo Gu Fei num estado completamente diferente da calma habitual, sua própria mão também começou a tremer. Não sabia o que fazer. “Gu Fei…”
Gu Fei virou a cabeça para olhá-lo.
Não chorou.
Ótimo. Jiang Cheng suspirou aliviado. Embora sentisse que Gu Fei provavelmente não choraria facilmente como ele, chorando à toa igual uma velha frágil, ainda estava um pouco preocupado.
Gu Fei olhando para ele o deixou ainda mais perdido. Jiang Cheng ergueu a mão hesitantemente, pairou no ar por muito tempo antes de finalmente pousá-la no ombro dele, abraçando-o.
“Irmão Cheng vai te dar um abraço.”
Gu Fei não resistiu, apenas abaixou a cabeça, apoiando a testa nos joelhos… claro, a maioria das pessoas não recuaria de um simples toque como ele fazia, como se tivesse sido esfaqueada.
“Na verdade… esquece, eu também não sei o que dizer.” Jiang Cheng nunca tinha consolado ninguém antes. Também não queria consolar pessoas com quem não tinha intimidade. Pan Zhi, que era a pessoa mais próxima dele, nunca precisava de consolo; ele era tranquilo o suficiente para superar qualquer coisa e conseguia dormir depois de comer um monte de merda.
Ele só pôde continuar dando leves tapinhas nas costas de Gu Fei e esfregando-as algumas vezes.
“Tá tudo bem. Já passou… é normal sentir medo, mas agora tudo já passou.”
Gu Fei permaneceu imóvel, de cabeça baixa.
“Então…” Jiang Cheng abraçou os ombros dele e esfregou seu braço algumas vezes. “Com essa experiência, agora você é alguém que passou por muita coisa, certo? Minha mãe… quer dizer, minha mãe adotiva, ela sempre dizia que toda experiência da vida tem valor, seja boa ou ruim…”
Gu Fei continuou de cabeça baixa.
Jiang Cheng estava desesperadamente tentando encontrar palavras na própria mente, ansioso porque seu estoque de conhecimento para consolar pessoas claramente não combinava com o título de aluno exemplar.
Justo quando já estava sem palavras, conseguindo apenas continuar acariciando as costas e os braços de Gu Fei, quase soltando palavras infantis como “pronto pronto, não tenha medo”, Gu Fei finalmente se mexeu, virando o rosto de lado.
“Você…” Jiang Cheng olhou rapidamente para ele. No primeiro instante ficou chocado: Gu Fei estava sorrindo, os lábios curvados para cima. Jiang Cheng retirou os braços imediatamente e gritou: “Você não tem humanidade! Você tá rindo mesmo?”
“Ah…” Gu Fei começou a rir ainda mais. “Foi minha primeira vez experimentando um consolo tão nível iniciante. Eu realmente não consegui segurar. Antes eu tava tão triste…”
“Vai se ferrar!” Jiang Cheng gritou, levantando-se do chão de um salto. “Não ache que eu não vou te deixar triste agora mesmo na porrada!”
“Não não não…” Gu Fei também se levantou, chutando rapidamente o estilingue para longe.
“Não, eu estava realmente preocupado com você agora há pouco! Eu fiquei tão ansioso que quase comecei a fazer carinho em você, sabia!” Jiang Cheng estava sem palavras. “Você realmente gosta de brincar com as pessoas. Quer que eu bata palma pra você…?”
“Obrigado.” Gu Fei respondeu.
“De nada.” Jiang Cheng respondeu por reflexo. Quando percebeu o que tinha dito, nem queria mais falar. “…..Vai se foder.”
“Sério.” Gu Fei ergueu a mão e deu um leve tapinha no ombro dele.
Jiang Cheng não respondeu, olhando inexplicavelmente para o próprio ombro.
“Obrigado.” Gu Fei inclinou-se e o abraçou. “Sério.”
Diferente do abraço comemorativo na quadra de basquete, Gu Fei o abraçou com bastante força dessa vez. Os reflexos lentos de Jiang Cheng nem tiveram chance de reagir.
“E também…” Gu Fei falou baixinho enquanto o abraçava. “Pensa no que eu quis dizer com ‘espectador’ usando esse cérebro inteligente seu. Não continua entendendo errado.”
“Eu definitivamente não entendi errado.” Jiang Cheng respondeu. Ele conseguia sentir o leve cheiro de tabaco de Gu Fei misturado ao abraço e, de repente, achou aquele abraço muito confortável. Não conseguia explicar exatamente se esse conforto era descarado, reconfortante ou alguma outra coisa completamente diferente. De qualquer forma, não tinha vontade nenhuma de afastar Gu Fei. “Quando você me viu no lago, você se sentiu como um espectador, vendo os outros chorarem, rirem e desmoronarem.”
Gu Fei riu por um bom tempo.
“Tudo bem. Eu estava observando um pouco. Não pensei em mais nada e também não estava zombando de você.”
“Assim tá melhor.” Jiang Cheng disse. “Ser sincero deixa o mundo mais brilhante.”
Gu Fei bateu nas costas dele e o soltou.
“Por um segundo eu achei que você ia me matar hoje.”
“Também não é pra tanto.” Jiang Cheng suspirou. “Mas estou um pouco preocupado… acho que sei coisas demais…”
“Sem problema.” Gu Fei pegou a câmera e conferiu-a. “Eu tenho fotos suas de cueca.”
“O quê?” Jiang Cheng arregalou os olhos para ele.
“Tenho.” Gu Fei sacudiu a câmera. “Suas fotos de cueca. Com o seu rosto. HD sem censura.”
“Seu sem vergonha.” Jiang Cheng apontou para ele. “Eu não devia ter te consolado agora há pouco. Seus colegas sabem que você é tão pervertido?”
“Meu colega de mesa sabe.” Gu Fei sorriu.
Jiang Cheng manteve o rosto sério, mas depois de um tempo acabou caindo na risada.
Gu Fei bateu novamente nas costas dele. Se Gu Fei realmente tinha ou não fotos dele de cueca não era algo tão importante para Jiang Cheng. Afinal, eram só fotos de cueca, não como se estivesse completamente nu. Comparado a isso, o que realmente o preocupava mais era…
“Também tenho fotos de você correndo igual uma galinha.” Gu Fei disse.
“Apaga isso!” Jiang Cheng gritou.
Isso mesmo — comparado às fotos de cueca, ele se importava muito mais com a foto dele correndo igual uma galinha. Seria humilhante demais se alguém visse aquilo.
“Claro.” Gu Fei concordou prontamente. “Me ajuda a escrever minha autocrítica de segunda-feira.”
Jiang Cheng lançou um olhar para ele e então falou, meio sem forças:
“Você nem consegue escrever uma autocrítica? Pelo seu histórico, deve ter escrito incontáveis desde pequeno.”
“Eu realmente não consigo escrever uma. Antes eu fazia Li Yan e Zhou Jing escreverem pra mim. Já usei todas as pessoas que consegui pegar.” Gu Fei respondeu.
“Hah.” Jiang Cheng bebeu um pouco de água. “Pra ser sincero, eu realmente admiro você. Só levando a vida desse jeito, até fazendo os outros escreverem suas autocríticas… o que você vai fazer sobre o vestibular?”
“Você pensa muito longe. Ainda falta mais de um ano.” Gu Fei disse. “Nunca pensei no vestibular. Só quero enrolar até pegar o diploma.”
“Não seria melhor ir pra uma escola técnica?” Jiang Cheng lançou um olhar para ele. “Pelo menos aprenderia alguma habilidade.”
“Mas eu tenho habilidades.” Gu Fei sacudiu a câmera novamente, depois sorriu ao pensar nisso. “No ensino fundamental eu até pensei em entrar numa universidade, mas depois achei que não fazia sentido.”
Jiang Cheng não respondeu. Ele sentia que Gu Fei não realmente achava aquilo sem sentido, mas, considerando a situação familiar dele, provavelmente não tinha como sair dali para estudar numa universidade. Também não existiam universidades decentes por perto para tentar entrar…
“Você provavelmente consegue entrar numa universidade ótima.” Gu Fei disse. “Mas depois de dois anos numa escola lixo como a Nº 4, isso não vai te afetar?”
“Não vai.” Jiang Cheng bebeu o restante da água. “É só conhecimento de livro didático. Não importa quem ensina.”
Gu Fei fez um joinha para ele.
“Talvez seja pra irritá-la… minha mãe adotiva.” Jiang Cheng franziu levemente a testa. Embora ela nunca fosse saber disso. “Eu não vou apodrecer não importa onde me joguem. Vou sair bem longe desse lugar.”
“É.” Gu Fei espreguiçou-se preguiçosamente. “Ninguém quer ficar nesse buraco.”
Capítulo 37
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Quando Jiang Cheng foi mandado a voltar para uma família que ele nunca conheceu ou com quem teve um relacionamento, ele nunca imaginou que acabaria conhecendo uma garotinha e, eventualmente, seu...