Episódio 174: Comprimento de onda
Uma expressão ligeiramente constrangida transpareceu por trás do sorriso gentil de sempre de Jung Bin. Ele cobriu a boca com o punho e pigarreou antes de assentir lentamente.
“Sim, eu vi.”
“O que você acha? Você conhece os dois, não é?”
“Haha, isso não é algo sobre o qual eu deva comentar.”
Gyu-Gyu mordeu o canudo, mostrando os dentes enquanto mastigava.
“Eh? Será que está mesmo rolando alguma coisa entre eles? Todos os caçadores do mundo estão curiosos.”
Jung Bin não respondeu e manteve o sorriso. Depois de observar Jung Bin por um tempo, Gyu-Gyu deu de ombros, como se estivesse perdendo o interesse. Ele jogou o copo vazio para trás com um movimento brusco.
“Ah, que chato.”
Clang—
Rachaduras começaram a se formar no ar, como se uma fina fissura tivesse se aberto. Além da fenda, havia um deserto coberto de cinzas brancas. Logo, uma luz branca irrompeu de dentro e se espalhou em finas cinzas. Gyu-Gyu se equilibrou em um pé sobre o cadáver antes de se endireitar.
“Vamos lá para cima.”
Jung Bin examinou os arredores. Conforme a fenda desaparecia, as pilhas de monstros ao redor deles também começaram a se desintegrar em cinzas, uma a uma. Até mesmo o monstro sob os pés de Gyu-Gyu virou cinzas. Ele saltou levemente para o chão, esticando o pescoço e girando-o de um lado para o outro.
“Mercado de peixe, hein? Faz tempo que não vou lá…”
Gyu-Gyu, que normalmente deixava o país assim que terminava seus negócios, estava permanecendo na Coreia por um tempo incomumente longo. Mesmo que a tarefa de rastrear J tivesse terminado com seu próprio aparecimento. Claramente, o que o fez mudar de ideia foi o Dia da Mudança. O dia em que ele atravessou aquela baleia gigantesca com um único golpe…
Jung Bin, observando Gyu-Gyu se movimentar atarefadamente, finalmente se pronunciou.
“Como você tem estado ultimamente?”
“Interesse repentino na minha vida? Estou vivendo como sempre.”
“Ouvi dizer que você tem frequentado os cultos de domingo regularmente…”
“Eca. Onde você ouviu isso?”
“Sua foto estava estampada bem na página inicial da igreja do seu pai. Era difícil não notar.”
Filho de um pastor, Ban Gyu-min. Pseudônimo de caçador: Gyu-Gyu. Sua foto, exibida com destaque na página inicial da igreja de seu pai, havia se tornado um tanto famosa. Jung Bin conteve o riso na primeira vez que sua equipe lhe mostrou aquela foto.
Era difícil não rir, considerando a visão de alguém que se destacava por uma cabeça inteira entre os outros, sorrindo sem jeito e fazendo um sinal de positivo com o polegar. Ainda mais com aquela túnica de coral.
“Eu disse para eles não publicarem isso…”
Pela primeira vez, Gyu-Gyu coçou a bochecha com uma expressão envergonhada. Jung Bin acrescentou com seu tom gentil de sempre.
“Você parecia um filho bastante obediente.”
“Aff. Se você tem algo a dizer, diga logo. Tenho outros lugares para ir.”
“Certo. Você vai participar da próxima Assembleia Geral?”
“Nossa… Então você veio até aqui só para me perguntar isso?”
Gyu-Gyu mostrou a língua, fingindo engasgar de nojo. Em seguida, coçou os cabelos desgrenhados, resmungando.
“Por que eu iria? É um transtorno, e eu sei que o diretor vai me dar uma bronca daquelas.”
“Mas esta reunião é importante. Você não percebeu o clima de tensão que se instalou ultimamente?”
“…”
Gyu-Gyu continuou encarando Jung Bin com seu sorriso constante, esperando que ele revelasse suas cartas primeiro. Jung Bin mexeu no fone de ouvido e finalmente falou.
“A desconfiança pública em relação aos caçadores está aumentando a cada dia. É sobre isso que trata esta reunião.”
“Então, todo mundo está se reunindo para tramar como voltar às boas graças das pessoas? Hmm~”
Gyu-Gyu cruzou os braços, fingindo estar pensando profundamente, antes de sorrir.
“Não vou!”
“Você realmente não vem? Vai se arrepender.”
“Não vou. Prefiro mergulhar no Lago Baikal.”
“Que pena.”
Jung Bin soltou um suspiro exagerado, certificando-se de que Gyu-Gyu o ouvisse. Ele se virou com passos deliberadamente pesados. Sua voz, embora suave, era alta o suficiente para ser ouvida.
“Ouvi dizer que J estará presente pessoalmente desta vez…”
“…”
“Bem, não posso obrigá-lo a vir. Vou indo então, preciso buscar Hong Ye-seong também.”
Ele mal tinha dado dois passos quando — zás! — uma fina trepadeira surgiu de trás, enrolando-se no pulso de Jung Bin. Com calma, Jung Bin começou a desembaraçar a trepadeira com a outra mão, fio por fio.
“Você não está indo para o Lago Baikal?”
“Bem, não é como se eu estivesse morrendo de vontade de ir.”
A trepadeira que se enrolara levemente em seu pulso agora desabrochava em uma pequena flor silvestre branca. Jung Bin olhou para trás. Gyu-Gyu, meio de costas, fingia olhar para o celular. A trepadeira brotara do chão sob os pés de Gyu-Gyu. Olhando para cima, Gyu-Gyu deu um sorriso malicioso.
“Eu estava pensando em dar uma olhada na programação~”
***
Cha Eui-jae piscou por um instante, perdido na luz branca ofuscante que preenchia sua visão.
Figuras borradas passaram correndo por ele, ocupadas demais para perceber. Mais uma vez, ele se viu parado no corredor do antigo Escritório de Gerenciamento dos Despertos. Estava em frente a uma porta, com a mão já estendida para a maçaneta. Cha Eui-jae ergueu os olhos e leu a placa com o nome ao lado da porta.
Gabinete do Diretor. Este era o quarto de Ham Seok-jeong.
‘Será que isso é uma lembrança de um encontro com Ham Seok-jeong?’
Que tipo de informação ele poderia extrair da conversa deles? Seria bom encontrar uma pista sobre o apocalipse. Sua mão, que se estendia em direção à maçaneta, hesitou. Cha Eui-jae deu um passo para trás, afastando-se da porta.
Bem ao lado do gabinete do diretor havia outra porta preta.
‘Existia uma porta assim antes?’
Era uma porta que não existia na memória de Cha Eui-jae. A porta, que aparecera de repente, estranhamente chamou sua atenção. Não havia nenhuma placa com nome. Da fresta embaixo da porta, uma energia negra emanava, ondulando levemente. Parecia estranhamente familiar.
‘O que é isso?’
Alguém sussurrou: Abra a porta. Como que hipnotizado, Cha Eui-jae estendeu a mão e agarrou a maçaneta. Estava tão fria que lhe causou arrepios. Lentamente, girou a maçaneta. Um rangido — a porta abriu com mais facilidade do que o esperado. Cha Eui-jae espiou para dentro. Uma escuridão total o recebeu.
‘Isso é estranho.’
Ele já havia lido as memórias de ‘Cha Eui-jae’ diversas vezes usando o relógio, mas esta foi a primeira vez que uma anomalia como essa ocorreu. Algo mudou? O que poderia ter causado essa alteração? A única diferença entre o passado e o presente era—
‘Lee Sa-young acordou…’
Pum! O espaço tremeu. Uma força poderosa o empurrou através da porta. Instintivamente, ele tentou resistir, mas a força era muito grande para que ele pudesse lutar. Ele foi impelido, impotente, para o centro da escuridão.
Bang! A porta bateu com força atrás dele. Cha Eui-jae encarou o vazio com uma expressão incrédula.
‘Droga, será que me deixaram levar tão facilmente?’
Ele cerrou o punho, depois o abriu novamente; algo parecia errado.
‘…Espere, o quê?’
O poder que sempre sentira como seu havia desaparecido. Ele não percebera o quão fraco estivera antes de despertar. Sentia-se desorientado, como uma formiga entre gigantes. Encarou a escuridão com um olhar vago.
‘Cha Eui-jae’ sussurrou: Isto não é meu, por isso.
‘O que você está falando…?’
Então, aconteceu.
No vazio onde nada se podia ver nem ouvir, uma voz ecoou.
“…Você disse que voltou no tempo?”
Uma voz grave e profunda, mais animalesca do que humana. Rangido, rangido, o som de passos num piso de madeira. Estrondo, o som de uma gaveta a abrir. Um relógio antigo flutuou no ar.
“Então, isso significa que eu também posso reverter a situação…”
“…”
Quando Cha Eui-jae abriu os olhos novamente, uma escuridão total e uma estranha sensação de estar sendo observado o receberam.
Antes que pudesse compreender o que o rodeava, endireitou-se num sobressalto, instintivamente apalpando o rosto. A máscara tinha desaparecido.
O que é isso? Onde estou? A presença sinistra continuava a seguir cada movimento seu. Não fazia nenhum esforço para se esconder. Quando Cha Eui-jae estava prestes a desferir um soco na direção da presença invisível, uma voz familiar falou.
“Você não precisa se assustar tanto.”
Era a voz de Lee Sa-young. Clique — o som de um botão sendo pressionado. Uma fraca luz avermelhada acendeu. Apertando os olhos, Cha Eui-jae olhou ao redor e viu o quarto familiar que vinha frequentando há meses — o quarto de Lee Sa-young.
Ao lado, na cadeira onde Cha Eui-jae costumava sentar, estava Lee Sa-young, agora sentado casualmente com as pernas cruzadas. Sentindo o olhar dele, Lee Sa-young descruzou os braços.
“Parece que eu te acordei.”
“…”
“Você teve um bom sonho?”
“…Você.”
Cha Eui-jae o encarou, o rosto sombreado mostrando um lampejo de reconhecimento em seus olhos piscantes. Olhos que refletiam tudo como um espelho. Ele cerrou o punho com força.
“Você não é ele.”
“Sim… você tem razão.”
Surpreendentemente, Lee Sa-young concordou sem hesitar.
“Você acordou depois de dois dias.”
“O que?”
Dois dias? Era difícil de acreditar. Instintivamente, ele tentou verificar as horas, mas não havia como fazê-lo naquele quarto — ele havia esvaziado tudo. Até mesmo o celular havia sumido.
Certo, o relógio. Ele levantou o pulso, mas o pulso também estava nu.
“Está procurando por isso?”
“…”
O relógio agora estava na mão de Lee Sa-young. Seus dedos negros o manipulavam com destreza.
“Está bastante desgastado.”
“…”
“No entanto, de alguma forma, ainda funciona.”
Ele estava dizendo a verdade ou mentindo? Cha Eui-jae tentou decifrar algo em sua expressão, mas seu rosto permanecia inexpressivo como sempre. Essa inexpressividade o deixava mais ansioso do que qualquer outra coisa. Afinal, o Lee Sa-young que ele conhecia era sempre bastante expressivo.
Olhando fixamente para Cha Eui-jae, Lee Sa-young deu um leve toque na têmpora.
“Parecia que você estava tendo um sonho interessante.”
“…”
“Como foi?”
Um vazio envolto no fim de um longo sonho. Uma voz vagamente familiar que já havia sido ouvida. O dono daquela voz era inconfundivelmente Lee Sa-young. Um sorriso mecânico se espalhou por seu rosto, desprovido de escárnio, alegria ou qualquer outra emoção.
Episódio 174: Comprimento de onda
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The Hunter’s Gonna Lay Low
O caçador Cha Eui-jae, que fora enviado para selar uma fenda que se abriu sobre o Mar Ocidental, foi arremessado para fora assim que fechou a fenda e...