Episódio 195: Múltiplos Pensamentos
Cha Eui-jae encarou Lee Sa-young como que em transe, e depois olhou para o próprio “Cha Eui-jae”, que estava em seus braços. Era um rosto familiar, um reflexo de si mesmo, mas não parecia real. Era como se estivesse assistindo a uma cena de filme.
Seu olhar logo se voltou para Lee Sa-young. Um olhar vago e desfocado, tateando o vazio. O rosto à sua frente era estranhamente familiar, mas não era apenas porque ele o vira recentemente. Era de mais longe, de antes… e então Cha Eui-jae soltou uma pequena exclamação.
“Ah.”
“Finalmente posso me libertar.”
Sim. Aquela expressão era a mesma que Ham Seok-jeong tinha quando soube da morte da tia. Cha Eui-jae esfregou os lábios distraidamente. Por algum motivo, sua boca tinha um gosto amargo.
“…”
O mundo oculto sob a utopia. O verdadeiro mundo de Lee Sa-young. Ao contrário da utopia perfeita e impecável, este lugar era árido, silencioso e imutável. Uma vaga sensação de presságio o invadiu.
Talvez essa versão de Lee Sa-young guardasse para sempre Cha Eui-jae. Seu mundo parou no momento em que Cha Eui-jae morreu.
Foi então que ele ouviu um sussurro baixo.
“Continua tão cruel como sempre…”
Passo a passo… Passos se aproximavam de algum lugar. Cha Eui-jae não se virou. Os passos pararam três passos atrás dele. Uma voz, desprovida de emoção, murmurou.
“Destruindo tudo como uma toupeira.”
“…”
Então, você está satisfeito?
“…”
“Você destruiu um mundo inteiro ao se sacrificar.”
Cha Eui-jae virou-se. Lee Sa-young permaneceu ali, inexpressivo, olhando para ele. Seus olhos cor de lavanda carregavam um vazio infinito. Seus lábios ressecados se entreabriram.
“Você já deveria estar satisfeito(a) a esta altura…”
Uma leve melancolia cruzou seu rosto delicado.
“Eu te disse… você não encontraria o que estava procurando.”
“…”
“Não tenho mais nada para te mostrar. Isto é tudo o que resta.”
Lee Sa-young passou lentamente por Cha Eui-jae e parou em frente às duas figuras preservadas. Seu rosto, enquanto contemplava seu eu do passado, não demonstrava nenhuma emoção. Tudo havia sido consumido pelo fogo, restando apenas cinzas. Sua expressão era tão árida quanto o vento do deserto. Cha Eui-jae perguntou abruptamente:
Você parece… diferente?
“Hum?”
“Sabe, quando eu tentei—”
Cha Eui-jae fez um círculo com a mão. Lee Sa-young olhou para trás e respondeu com um casual “Ah”.
“Não consegui evitar. Depois de passar tanto tempo sozinho em um mundo em ruínas.”
“…”
“Até a automutilação fica entediante depois de um tempo. Não há mais emoção, e o mundo não vai mudar. É mais rápido do que você imagina, torna-se como uma pedra ambulante.”
“…”
“Quando entrei em contato com você naquele estado… bem, foi avassalador. Eu não conseguia me controlar. Você ficou surpreso?”
Esse cara não está em seu juízo perfeito.
Cha Eui-jae deu um passo para trás discretamente, mas Lee Sa-young continuou a encarar seu eu do passado. Cha Eui-jae sabia que não podia se deixar perder ali. Ele se forçou a iniciar uma conversa.
“Você disse que queria que a gente dormisse junto. O que você planejava me mostrar então? Algo sobre memórias?”
“Hum? Onde mais seria…”
Os lábios pálidos de Lee Sa-young se curvaram levemente, mas não havia sorriso em seus olhos. O mesmo vazio pairava em seu interior.
“O lugar onde você se destruiu.”
Um pouco de Hong Ye-seong e do repugnante Jung Bin vieram à tona na mente de Cha Eui-jae. Sem perceber, Cha Eui-jae murmurou:
“…Não, aquele lugar foi completamente distorcido ao seu gosto, não foi?”
“Ah, deve ter parecido assim para você. Mas eu me esforcei bastante para juntar as peças…”
Lee Sa-young tocou levemente os lábios com os dedos. Seus cílios projetavam sombras sobre os olhos, como se estivesse perdido em pensamentos.
“Não havia nada que pudéssemos fazer. Todos que eu conhecia estavam mortos…”
“…”
“Eu juntei as peças a partir de lembranças vagas, mas parece que falhei… Desculpe?”
Caramba!
Cha Eui-jae cerrou os dentes. Por algum motivo, essa versão de Lee Sa-young era difícil de lidar. Sua aura, que parecia mais um sistema do que um ser humano, o rosto e a voz sem emoção — ainda assim, havia algo de humano nele. Estava bem ali.
Uma pessoa que descartou todas as emoções para vagar pela eternidade, sozinha. Alegria, raiva, tristeza e fúria — tudo jogado fora. Mas havia uma coisa da qual ele não conseguia se desapegar.
Cha Eui-jae estava encarando o âmago de um ser humano.
Era pesado. Tudo era pesado.
“…”
Cha Eui-jae cerrou e abriu os punhos, seus músculos tensos se movendo rigidamente. Lee Sa-young murmurou.
“Não fique tão tenso.”
“…”
“Você acha mesmo que eu te mataria…?”
Cha Eui-jae fez uma piada descontraída.
“Mas provavelmente você poderia me prender.”
“…”
Estranhamente, não houve negação. Mesmo depois de tanto tempo de espera. Será que ele realmente planejava prendê-lo? Os olhos de Cha Eui-jae se arregalaram.
“Você realmente planejou fazer isso?”
Os olhos cor de lavanda desviaram-se ligeiramente.
“Não era confinamento… eu estava planejando te abrigar.”
“Abrigo?”
“O fim está próximo, até mesmo para esse mundo.”
“…”
“Eu poderia ter te acolhido. No mundo que eu criei.”
Cha Eui-jae pensou naquele mundo estranhamente perfeito. Um mundo obsessivamente comprometido em replicar a realidade, a um nível quase compulsivo. Um mundo com apenas um lugar vazio, à espera de Cha Eui-jae. Sua utopia estaria completa no instante em que Cha Eui-jae chegasse.
Lee Sa-young falou sombriamente.
“Mesmo que você mesmo o tenha destruído.”
Cha Eui-jae mordeu o lábio com força. Havia tanta coisa que ele queria dizer, mas as palavras não vinham com facilidade. Ele hesitou por um longo tempo antes de finalmente conseguir perguntar uma coisa.
“Você realmente achou que eu iria lá?”
“Você não teria feito isso.”
“…”
“Claro que não.”
“…”
“Até eu sei disso. Mas mesmo assim…”
Seu olhar, que estava fixo no chão, de repente se prendeu a Cha Eui-jae. No vazio de seus olhos, o reflexo de Cha Eui-jae se destacava nitidamente. Apenas Cha Eui-jae.
“Foi um grande conforto pensar que você poderia vir. Isso me ajudou a suportar.”
“…”
Por mais estranho que pareça, Cha Eui-jae entendeu o que ele queria dizer. Havia dias em que só pensar no que faria se voltasse já era suficiente para mantê-lo motivado.
A princípio, ele pensou em voltar em segurança com sua tia e seus companheiros caçadores. Depois de perder sua tia, pensou em voltar com seus camaradas. E depois de perdê-los também…
Ele pensou em morar com o menino. Era tudo o que lhe restava.
Pensar em que tipo de casa comprar, como decorar os cômodos e como o menino reagiria tornava a solidão um pouco mais suportável. Só um pouco.
Foi por isso que Cha Eui-jae entendeu ‘Lee Sa-young’.
E Lee Sa-young não perdeu esse momento de compreensão.
Uma mão negra segurou cautelosamente a manga de Cha Eui-jae. Uma voz vazia falou.
“Não vá. Fique aqui. Podemos reconstruir o mundo.”
“…”
“Não desperdice sua vida sem sentido.”
“…”
“Você já se sacrificou o suficiente…”
Sua voz foi ficando cada vez mais fraca, e sua cabeça se abaixava enquanto falava. Era a visão mais insignificante e lamentável que Cha Eui-jae já tinha visto dele.
Será que Lee Sa-young alguma vez disse algo assim para Cha Eui-jae? Não. Ele não teria dito. Provavelmente, essas eram as palavras que ele se arrependia de nunca ter dito, finalmente escapando agora. O peso por trás delas demonstrava isso, palavras ruminadas repetidamente.
No entanto,
Cha Eui-jae respirou fundo. Então, ele segurou delicadamente o braço de Lee Sa-young.
“Lee Sa-young.”
Olhos vazios encaravam Cha Eui-jae fixamente.
“Talvez eu não seja exatamente a mesma Cha Eui-jae que você conheceu, mas vou te dizer uma coisa.”
“…”
“Eu sei o que você está dizendo. Eu sei o que te preocupa. Sou muito grato por isso. Mas eu vou conseguir.”
“…”
“Na verdade, não tenho nenhuma confiança. Já falhei duas vezes.”
“…”
“Mas tenho certeza. Graças a você, tenho certeza.”
Cha Eui-jae apertou o braço de Lee Sa-young com mais força. Seus olhos brilhavam em azul.
“Hong Ye-seong disse que esta é a última chance. Que tudo deveria ter terminado no último mundo. Mas você se agarrou ao mundo e criou esta chance.”
Cha Eui-jae pronunciava cada palavra cuidadosamente, como se as estivesse mastigando.
“Esta é a última chance que você me deu. Não vou deixá-la escapar. Vou impedir o fim.”
“…”
Os olhos lilases vazios brilharam fracamente. Seus lábios pálidos se moveram silenciosamente. Cha Eui-jae soltou-o. Ele não havia percebido o quão tenso estava até agora, respirando pesadamente. Suspirou baixinho, esfregando a nuca sem jeito.
Antes, ele não teria tentado ter uma conversa dessas com esse cara. Ele teria pensado que era inútil sequer tentar.
Mas…
“Eu gosto de nós… porque somos especiais.”
“Mais do que qualquer outra Lee Sa-young e Cha Eui-jae.”
“Você me prometeu que voltaria.”
“Eu apenas cumpri minha promessa.”
“Faça o que quiser. Porque agora, a hesitação criou raízes em você.”
Graças àquelas palavras que o mantiveram firme, Cha Eui-jae encontrou a coragem para enfrentar isso. Porque alguém o manteve seguro em seu terreno instável. Porque alguém suportou uma espera interminável.
Só havia uma maneira de pagar aquela pessoa.
Cha Eui-jae estendeu a mão.
“Me ajude.”
Ele teve que impedir o apocalipse. Pelos dias que passarão juntos.
Episódio 195: Múltiplos Pensamentos
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The Hunter’s Gonna Lay Low
O caçador Cha Eui-jae, que fora enviado para selar uma fenda que se abriu sobre o Mar Ocidental, foi arremessado para fora assim que fechou a fenda e...