Episódio 215: Fim
Ela abriu os braços, como se quisesse se exibir.
“As pessoas no poder já arruinaram o mundo duas vezes. Agora, estamos tentando fazer algo a respeito, e você tem um problema com isso? Será que devemos ficar sentados, esperando que os iluminados nos salvem? Sempre colocando-os em primeiro lugar?”
Havia algo estranho em suas palavras. Ela não estava falando como se não fosse uma das despertas? E ela sabia sobre os dois eventos que ameaçavam o mundo. Cha Eui-jae franziu a testa. Ga-young cruzou os braços e balançou a cabeça.
“Bem, pelo menos estou um pouco arrependido~ Não esperava que as coisas acontecessem tão cedo… Se eu soubesse, teria feito com que eles experimentassem o terror do fim antes de libertá-los.”
Uma frase perturbadora. O terror do fim. Cha Eui-jae só a compreendeu depois de ouvi-la de Kkokko. Mas Ga-young a aceitava como se fosse completamente natural. Ela aceitava tudo. Ga-young inclinou a cabeça, parecendo confusa.
“Hã? J, você também não sobreviveu? Pelo jeito que você está se movendo com tanta naturalidade.”
“…”
“Ah, claro… É porque você é um traidor do mundo, não é? Impressionante. Sempre à frente dos outros.”
Ga-young esboçou um sorriso malicioso. Seu sorriso era repleto de uma malícia sombria. Pessoas sendo engolidas inteiras por monstros gigantescos, um homem encharcado de sangue, uivando em desespero — tudo aquilo fez Cha Eui-jae se sentir sufocado. Será que eles também foram arrastados para aquilo contra a própria vontade? Ou sofreram lavagem cerebral para caminharem rumo à morte? Ga-young não demonstrava nenhum sinal de culpa, parada sobre o sangue deles.
“Qual é o seu objetivo?”
“Meu objetivo?”
Ga-young arrancou o crachá que estava pendurado em seu pescoço e o jogou fora. Splat… O crachá caiu no líquido preto e se dissolveu sem deixar vestígios. Gritos ecoaram de todas as direções. Cha Eui-jae apertou o cabo de sua lança com mais força.
“Vocês já não sabem? Impedir o fim do mundo com o poder da humanidade! Chega de deixar isso para os despertos, que já falharam duas vezes.”
“…”
“E para impedir o fim do mundo…”
Ga-young olhou para o céu com uma expressão extasiada. Cha Eui-jae seguiu seu olhar. Monstros jorravam incessantemente de um buraco branco brilhante. Ga-young soltou uma risada estridente.
“…O fim tem que vir primeiro.”
“Pelo jeito que você fala, você não é uma pessoa desperta, não é?”
“Hum? É verdade, eu não sou um desperto.”
“Mas o diretor do hospital…”
“Ah, é? Ah, isso. Haha.”
Ga-young levantou o dedo indicador e sorriu radiante.
“Naquela época, o sistema de registro dos Despertos ainda tinha brechas. Era muito fácil de manipular. Eu nem cheguei a conhecer o diretor durante a entrevista. Ele é um homem muito ocupado!”
A cada voz alegre dela, a raiva de Cha Eui-jae fervilhava. Ele não podia deixar que suas emoções o controlassem. Respirou fundo, e até mesmo seu tom educado se dissipou. Deu um passo à frente.
“…Você o escolheu como alvo desde o início, não é?”
“De jeito nenhum~. No começo, eu nem sabia que ele existia. Ele estava tão bem escondido. Mas eu entrei esperando encontrar algo útil.”
“…”
“E no fim das contas, foi a melhor decisão que já tomei. Não é, meu amorzinho?”
Quando Ga-young perguntou docemente, o humano — seu “querido” — que estava ajoelhado ao lado dela, assentiu lentamente. Mas será que dava para chamar aquilo de humano? Sua pele mutilada lembrava o que Lee Sa-young costumava ser, seus movimentos rígidos imitando os de criaturas mutantes. Cha Eui-jae não conseguia desviar o olhar, reconhecendo instintivamente que aquilo devia ter sido criado com base nos dados de Lee Sa-young. E…
Se Lee Sa-young tivesse tido azar, ele poderia ter acabado assim.
“…”
Cha Eui-jae cerrou os dentes com tanta força que fez um som. Ga-young sorriu para ele.
“Esta é a minha obra-prima. A coisa mais forte e obediente que já criei. Mas…”
Ela suspirou dramaticamente, circulando a figura ajoelhada.
“Se eu o tivesse tido, não seria essa bagunça de remendos. É a única coisa de que me arrependo. Se eu tivesse feito mais alguns experimentos, talvez tivesse encontrado uma maneira de restaurar aquela pele dilacerada.”
Ao mesmo tempo, uma mão forte agarrou repentinamente a garganta de Ga-young. Ela ofegou, o rosto se contorcendo enquanto erguia a palma da mão em direção à humana. A criatura, que estava prestes a saltar sobre Cha Eui-jae, ajoelhou-se novamente. Seus pés agora balançavam acima do chão. Ga-young lutou para sorrir apesar do aperto cada vez mais forte.
“Ah… c-civis… não é suposto… atacá-los?”
“…”
“Muitos olhos… em você.”
“Cale-se.”
O rosto de Cha Eui-jae se aproximou, sua voz monótona, desprovida de qualquer emoção.
“Estou me contendo, então cale a boca.”
“…”
“Se eu pudesse seguir meus instintos…”
A mão dele apertou, e o rosto de Ga-young empalideceu.
“Eu já teria te matado.”
De repente, Cha Eui-jae a soltou, e Ga-young cambaleou, agarrando a garganta enquanto lutava para respirar. Após alguns instantes ofegante, ela ergueu a cabeça, encarando Cha Eui-jae com os olhos vermelhos. Sua voz rouca destilava veneno.
“Então por que você simplesmente não me mata? Ah, espere… Você não consegue se obrigar a matar ninguém, consegue?”
“…”
“Hipócrita. Você se apoia no seu poder e se contenta com ameaças fracas!”
Ignorando-a, Cha Eui-jae checou o celular novamente. Ainda sem resposta de Lee Sa-young. Será que ele havia desmaiado de novo? Sua mente era um turbilhão de preocupações — as palavras de Ga-young, a preocupação com Lee Sa-young, os monstros que caíam do céu sem parar, tudo misturado. Ele mordeu a língua com força. O gosto de sangue o trouxe de volta à realidade.
‘Preciso levar essa mulher a algum lugar. Ao Departamento de Gestão dos Despertos, ou à Guilda Pado… Talvez eu devesse pedir a Hong Ye-seong. Não… até o mercado de peixe serviria.’
Havia muito o que aprender com Ga-young, não apenas sobre Lee Sa-young, mas também sobre Prometeu. Cha Eui-jae rolava a tela do outro celular rapidamente. Enquanto isso, Ga-young cambaleava em direção à sua criação. Ela murmurou para si mesma.
“Ele me foi muito útil.”
“…”
Os dedos de Cha Eui-jae pararam na tela. Ga-young olhou fixamente para o vazio, como se estivesse relembrando o passado.
“Ele não gritou nem se debateu como os outros. Ele suportou a dor muito bem.”
“…”
“Sabe? Ele me seguiu por conta própria.”
Ga-young riu, com os ombros tremendo. Mentiras. Isso é impossível. Lee Sa-young havia prometido esperá-lo. Ele esperou todo esse tempo. Cha Eui-jae não disse nada, recusando-se a reconhecer suas palavras. Mas ele não conseguia ignorar a sensação perturbadora que ela despertava nele.
“Sabe, J… Você estava na ativa naquela época, então você se lembra, certo? Quando civis ficavam presos em uma fenda e perdiam membros ou estavam à beira da morte, você sabe o que acontecia com eles?”
A maioria não sobreviveu, sem conseguir receber o tratamento adequado. Mesmo após a criação do Departamento de Gestão dos Despertos, o sistema médico nunca se recuperou completamente. Havia muitas baixas e poucos profissionais de saúde. A prioridade era tratar os despertos que podiam lutar contra os monstros.
“Então, o que você acha que aconteceu com ele, enquanto você esteve fora?”
“…”
Um arrepio percorreu a espinha de Cha Eui-jae, como se alguém tivesse jogado água fria na raiva fervente que fervia em seu peito.
Tratar um menino moribundo como Lee Sa-young exigia enormes quantias de dinheiro e materiais raros. Quando Cha Eui-jae não estava de plantão, ele vasculhava incansavelmente masmorras repletas de monstros venenosos para coletar ingredientes para o antídoto. Ele pagava somas exorbitantes ao hospital em nome de doações beneficentes para a sociedade.
Esse tipo de luxo só era possível para alguém como J.
Se J desaparecesse…
Crack… A tela do celular na mão de Cha Eui-jae trincou. Ga-young deu uma risadinha.
“Se eu não o tivesse socorrido, ele teria morrido lentamente. Sem nenhum tratamento…”
“…”
“Durante dois meses, ele esteve bem. As pessoas ainda acreditavam que você voltaria até lá. Os recursos e o dinheiro que você deixou para trás eram suficientes. Mas, no terceiro mês, tudo acabou.”
“…”
“Foi aí que eu percebi o quão importante você era. O mundo começou a desmoronar só porque você se foi. Havia falta de pessoal, mais feridos, mais despertados se machucando, mais recursos sendo usados para tratá-los e civis sendo deixados para trás…”
“…”
“Não é ridículo? Tudo desmorona só porque uma pessoa se foi.”
Ga-young estremeceu ao rir. Ela ajeitou seus óculos tortos.
“Mesmo no hospital, eles não conseguiam continuar cuidando de uma criança de graça, por mais que você confiasse nela. A equipe estava sobrecarregada. E não era como se ele fosse um desperto, apenas uma criança civil morrendo. Então, cada vez menos pessoas cuidavam dele, até que apenas o mínimo necessário fosse feito.”
“…”
“Então eu o levei comigo. E perguntei diretamente a ele.”
Cha Eui-jae olhou fixamente para Ga-young em silêncio. Ela murmurou as próximas palavras lentamente.
“Você gostaria de vir comigo para encontrar J?”
Episódio 215: Fim
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The Hunter’s Gonna Lay Low
O caçador Cha Eui-jae, que fora enviado para selar uma fenda que se abriu sobre o Mar Ocidental, foi arremessado para fora assim que fechou a fenda e...