Episódio 233: Fim
Suas pernas tremiam. A mão que segurava a arma tremia. Desde que testemunhara aquela onda negra dissolver um ser humano sem deixar vestígios, constantemente. Ele engoliu em seco. Suor frio escorria por baixo da máscara negra que cobria sua boca e pescoço. Inúmeras armas estavam apontadas para uma única pessoa.
Lee Sa-young.
Ele não usava o colete à prova de balas de costume, nem estava armado com um arsenal de armas ou ornamentos. Simplesmente estava parado ali, vestindo um longo casaco preto. Nenhum sinal de intimidação. Como se armas não representassem ameaça alguma. De pé, com a mão esquerda no bolso do casaco, parecia entediado. Seu rosto pálido e inexpressivo era horrivelmente belo, mas ele acabara de dissolver quatro ou cinco pessoas sem deixar vestígios. Nem mesmo um fragmento de osso foi encontrado. Horrível.
‘…Como era de se esperar, ele nem sequer é humano.’
O homem rangeu os dentes. Claro, esses Despertos eram todos iguais, repugnantes. Monstros disfarçados em pele humana, tratando vidas humanas como se não fossem nada além de moscas…
“…”
Lee Sa-young olhou para a própria mão, como se estivesse inspecionando as unhas, e soprou levemente nos dedos. No mesmo instante, os canos das armas dispararam e se ergueram. Ele arregalou os olhos por um breve momento, depois os estreitou como uma serpente. Seus lábios carnudos se moveram levemente.
“Relatório?”
“…”
“Eu te perguntei. Você relatou isso aos seus superiores?”
Ninguém respondeu. Lee Sa-young soltou um suspiro, alto o suficiente para todos ouvirem.
“Então… eles mandaram vocês calarem a boca, é isso?”
“…”
“Bem… acho que não tenho escolha então…”
Um estalo seco ecoou de seus dedos negros quando seus ossos estalaram. Lee Sa-young estendeu a mão negra para a frente. Um arrepio percorreu a espinha do homem. Sua respiração ficou ofegante. Ele vira com os próprios olhos o que aconteceria no instante em que aquela mão se movesse. Seu dedo tremia no gatilho. O rosto além de seus dedos estendidos estava inexpressivo.
“Devo não ter matado o suficiente de vocês.”
Um cheiro amargo pairava no ar. Quando Lee Sa-young estava prestes a cerrar o punho, o homem fechou os olhos com força. Droga! Diante da morte, a coragem o invadiu. Sim, o monstro à sua frente não passava de uma besta em forma humana. Sem hesitar, o homem,
Bang—
apertou o gatilho.
Não diziam que o primeiro tiro é sempre o mais difícil? Assim que o primeiro disparo ecoou, o som de tiros irrompeu de todas as direções. Droga, droga, droga! O homem continuava apertando o gatilho, repetidamente. Bang, bang, bang… Seu corpo inteiro tremia. Ele não sabia dizer se era pelo recuo ou pelo medo. Click, click, e logo, por mais que apertasse o gatilho, não havia recuo. O ambiente ao redor já estava em silêncio. Sua respiração ofegante foi se acalmando aos poucos. Só então o homem abriu os olhos cautelosamente.
Lee Sa-young ainda estava ali parado. Em cima de uma poça escura. Sua mão, meio fechada em punho, pairava no ar, e seu rosto pálido se inclinou levemente. Ele deu um peteleco em algo brilhante com o polegar e o indicador.
Era uma bala achatada.
“Será ignorância ou apenas uma última luta desesperada…?”
“…”
“Bem… de qualquer forma, não importa muito.”
Lee Sa-young entreabriu os lábios. Um vislumbre de uma língua negra apareceu por baixo. Como se estivesse comendo um doce, ele colocou a bala achatada sobre a língua negra. A bala deformada começou a derreter no ponto em que tocou a língua. Parecia algo de outro mundo. Todos ficaram ali em silêncio atônito, observando a cena se desenrolar. Por fim, a bala derreteu completamente e desapareceu, e Lee Sa-young limpou os lábios com o polegar.
“…Um preço deve ser pago.”
Pá! Uma pressão terrível esmagou o corpo do homem. Ele soltou um suspiro sufocado e se curvou. Suas pernas tremiam incontrolavelmente. Ele não ousava nem olhar para frente. A arma escorregou de sua mão. Pequenos gritos irromperam aqui e ali. Um jato de líquido preto escorria em sua direção, como uma serpente. Se aquele líquido o tocasse, ele acabaria como seus camaradas. Ele queria correr, mas suas pernas não se moviam…
Naquele momento.
“Ei, o que você está fazendo aqui!”
Uma voz distorcida perfurou seus ouvidos agudamente. No instante em que ouviu aquela voz, sua cabeça virou-se sozinha. Um homem de cabelos negros e casaco branco corria em direção a eles vindo de dentro do prédio. Seu rosto estava escondido atrás de uma máscara preta lisa. Embora suas vestes fossem diferentes do habitual, ele o reconheceu imediatamente. Era J.
Num instante, a pressão sufocante desapareceu. O homem arquejou e caiu no chão. Olhou para Lee Sa-young, com o olhar vago. Aquele rosto inexpressivo começou lentamente a esboçar um sorriso. Um leve rubor surgiu em sua pele pálida. Lee Sa-young escondeu as mãos atrás das costas. Um pequeno suspiro chegou aos seus ouvidos, como se estivesse aliviado.
…Aliviado? Aquele monstro?
Infelizmente, seus pensamentos não foram além. O homem revirou os olhos e desmaiou. Um baque, uma nuvem de poeira se levantou. A última coisa que ele viu foi…
um único rastro de líquido preto deixado para trás como um aviso.
***
“Que situação é essa?”
Cha Eui-jae olhou em volta com uma expressão meio atordoada. O chão estava coberto de areia e cascalho, e vendo o caminhão de carga estacionado à distância, ele imaginou que aquele devia ser o lugar onde fora arrastado e jogado. De vários lugares, ele podia ouvir o som de corpos desabando com um baque surdo. Lee Sa-young estava parado no meio dos soldados caídos. Com as mãos cruzadas atrás das costas, ele sorriu abertamente.
“Você está atrasado.”
“Ei, é mesmo isso que você deveria estar dizendo agora?”
Cha Eui-jae mal conseguiu conter a crescente frustração. Todos os soldados caídos estavam armados. Considerando quantos tiros ele ouvira no caminho até ali…
‘Ele está ferido?’
CHa Eui-jae examinou Lee Sa-young rapidamente da cabeça aos pés. Felizmente, não parecia haver nenhum ferimento visível. Ele ainda tinha aquele rosto irritantemente perfeito e repugnantemente bonito. Lee Sa-young passou a mão pelos cabelos como se estivesse se exibindo.
“Hum, seu olhar é intenso…”
Cha Eui-jae olhou para as pessoas ao seu lado. Seo Min-gi parecia indiferente, como se já esperasse por esse desfecho, enquanto Ivan ainda recuperava o fôlego, com uma expressão de completo atordoamento. Compreensível, considerando que tinham corrido todo o caminho desde o laboratório subterrâneo. Para uma pessoa normal, era natural estar sem fôlego.
Cha Eui-jae caminhou em direção a Lee Sa-young.
“Como diabos você chegou aqui?”
“Você tem ideia de quão preciso é o rastreamento de localização hoje em dia?”
“Você rastreou minha localização?”
“Hum? Não. Eu já te disse, isso é só o seu ego inflado…”
Lee Sa-young gesticulou com o queixo na direção de Seo Min-gi. Seo Min-gi levantou dramaticamente uma mecha de cabelo para revelar um fone de ouvido intra-auricular. Uma pequena luz piscou no aparelho.
“Por motivos de segurança, uso um dispositivo de rastreamento. Parece que me esqueci de mencionar isso.”
Você se esqueceu de mencionar algo importante o tempo todo? Cha Eui-jae o encarou com raiva. Seo Min-gi virou o rosto, fingindo não notar. Lee Sa-young cruzou os braços como se exigisse atenção. Um aroma doce e enjoativo emanava dele.
“Então… J, o que exatamente você estava fazendo aqui?”
O jeito como ele pronunciou “J” soou estranhamente desconfortável. Cha Eui-jae tentou ignorar, mas continuou observando o rosto e o corpo de Lee Sa-young. Sua tez estava um pouco pálida, mas não parecia haver nada de grave.
“Uma estudante chamada Ga-eul foi sequestrada, então eu fui junto. Eu precisava descobrir onde ficava a base deles.”
“Aquela garota Ga-eul… parece que ela é sequestrada todos os dias… Então, onde ela está?”
“Justo quando eu ia descobrir, fiquei sabendo que você causou toda essa confusão, seu idiota!”
“Como isso é culpa minha… Não é sua culpa por aparecer aqui sem avisar?”
“Calma, calma. Vou intervir antes que isso se transforme numa discussão sem fim.”
Seo Min-gi se colocou entre Lee Sa-young e Cha Eui-jae. Em seguida, lançou um olhar para Ivan, que ainda estava curvado, recuperando o fôlego.
“Líder da Guilda, aquela pessoa ali parece ser quem toma as decisões em Prometheus. Ele nos fez uma proposta.”
“Uma oferta?”
“Ele sugeriu cooperação. Para evitar o apocalipse. Ele pediu a J que informasse o diretor.”
“Cooperação?”
“Sim. Embora, francamente, não pareça haver muita vantagem em cooperar. Provavelmente poderíamos lidar com ele aqui mesmo, sem contar ao diretor—”
“Não, concorde com isso.”
“O que?”
“Huh?”
“Eles não fizeram a oferta primeiro?”
“…Líder da Guilda, você está louco—”
“Aguentar!”
Cha Eui-jae rapidamente tapou a boca de Seo Min-gi. Ele se debateu como um servo leal tentando dar conselhos, mas não foi o suficiente para vencer o aperto firme de Cha Eui-jae. Cha Eui-jae chegou a tapar o nariz dele, pensando que estava salvando sua vida.
Um leve traço de exasperação brilhou nos olhos violeta de Lee Sa-young. Ele observou Cha Eui-jae com os olhos ligeiramente semicerrados.
“Vocês dois parecem próximos?”
“Perto? Estou salvando ele.”
“Parece mais que você está matando ele com as próprias mãos. Enfim.”
Lee Sa-young falou calmamente, com as mãos ainda nos bolsos do casaco.
“Não me lembro de muita coisa da época em que fui cobaia de experimentos, sabe…”
“…”
“Eu cheguei a mencionar isso? Não me lembro. Enfim, só me resta o ressentimento. Mesmo sem me lembrar.”
Era a primeira vez que Lee Sa-young mencionava suas experiências passadas com os experimentos. Cha Eui-jae permaneceu em silêncio, aguardando. Ele sentia que, se dissesse algo errado, Lee Sa-young poderia nunca mais tocar no assunto. Lee Sa-young girou uma mecha de seu cabelo com os dedos negros.
“Achei que não valia a pena lembrar, já que não era uma boa lembrança… Jung Bin e Bae Won-woo disseram que também não valia a pena me forçar a recordar.”
Cha Eui-jae sentia o mesmo. Ele respondeu sem rodeios, sem pensar muito.
“Que benefício haveria em lembrar disso? Não seria melhor simplesmente esquecer?”
“Hum…”
Lee Sa-young cobriu a boca com a mão e riu. Seus olhos se estreitaram como os de uma serpente.
“A vingança é mais doce quando você sabe por que a está fazendo, não acha?”
Episódio 233: Fim
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The Hunter’s Gonna Lay Low
O caçador Cha Eui-jae, que fora enviado para selar uma fenda que se abriu sobre o Mar Ocidental, foi arremessado para fora assim que fechou a fenda e...