Episódio 293: O Fim Predeterminado
Não doeu essa morte. Bem, talvez.
Cha Eui-jae estava em um vazio escuro. Um lugar de nada. Estendeu as duas mãos. Que bom, ele podia vê-los— sua visão deve ter voltado ao normal. Cha Eui-jae traçou as cicatrizes em suas palmas. Correntes douradas tremeluziam sobre eles.
O contrato ainda está valendo. Isso significa que tanto eu quanto Lee Sa-young estamos vivos.
“…”
Mas não havia nada que pudesse fazer. Não conseguia abrir o inventário, invocar uma janela do sistema, nem mesmo se movimentar livremente. Só lhe restava derivar sem rumo no vazio. No final, foi obrigado a pensar no que vinha evitando.
‘Parece que ficar com Lee Sa-young me impediu de morrer completamente, mas…’
Sinceramente, pensara que morrer o deixaria voltar ao seu mundo original. Esta era uma Masmorra Memorial— as memórias de alguém deveriam terminar ali após a morte. No entanto, em vez de retornar, Cha Eui-jae estava preso neste lugar estranho.
‘Isso é uma falha?’
Eu estava originalmente destinado a morrer aqui? Da última vez, encontrei Hong Ye-seong num lugar como este.
‘Ele não virá…’
O pensamento dos últimos momentos de Hong Ye-seong o deixou pesado. Cha Eui-jae se encolheu e fechou os olhos. O que Lee Sa-young estava fazendo agora? Ele não aparecera nem enquanto Cha Eui-jae era engolido por monstros e dava o último suspiro. Deve ter assistido todo o processo, mesmo assim não fez nada.
‘Que frio…’
‚…
Ele queria ver Lee Sa-young.
Fazia tanto tempo que não via seu rosto. Só tocá-lo não bastava. Ele queria olhar para Lee Sa-young corretamente— com seus próprios olhos sem nuvens…
Naquele momento que.
Tique-taque. Toca.
O som dos ponteiros de um relógio se mexendo chegou aos seus ouvidos. Cha Eui-jae estalou a cabeça. Um relógio maciço surgiu no vazio escuro como breu. Parecia exatamente com seu relógio de pulso quebrado. Os ponteiros do relógio começaram a girar rapidamente.
E instintivamente, entendeu.
‘Tempo…!’
Estava rebobinando. Luz dourada engoliu o vazio. Cha Eui-jae fechou os olhos.
Ele abre os olhos.
Cinzas brancas derivam pelo ar.
Cha Eui-jae piscou lentamente. Diante dele estendia-se um vasto terreno baldio branco. Era uma visão familiar. Ele estendeu as mãos.
Sem cicatrizes.
Apressado, tocou-lhe o rosto. Uma máscara lisa cobria.
Nesse momento, uma voz soou, clara e distinta.
“Esse tipo de fenda… É minha primeira vez vendo um.”
Uma voz conhecida. No—, alguém que ele nunca poderia esquecer.
Cha Eui-jae virou-se em direção à fonte. Uma caçadora de cabelos curtos, arco em punho, varria os dedos pelas cinzas do chão.
“Não há realmente nada aqui. Nenhum ecossistema, nada se formou.”
Ela sempre se interessara pelos ecossistemas dentro das fendas. Antes do mundo ficar assim, ela havia trabalhado para o Serviço Florestal. Ela estava sempre curiosa— sobre por que cada fenda e masmorra tinha seu próprio ambiente único.
Um caçador musculoso se aproximou dela e perguntou,
“Talvez a equipe avançada já tenha limpado tudo?”
“Hah, não entendeu, não é? Nada pode sobreviver num ambiente como este. Sem água, sem criaturas que possam servir de alimento— não há nem mesmo uma única folha de grama.”
“Então, a equipe avançada…”
“Muito provavelmente morto. E também não podemos nos dar ao luxo de ficar muito tempo por aqui. Morreremos de fome.”
Ela falou sem rodeios. O silêncio se abateu sobre o grupo. Cha Eui-jae agarrou suas mãos trêmulas. Sua mente poderia ter esquecido, mas seu corpo lembrou.
Isso foi logo depois que entraram na fenda do Mar Oeste.
‘Não quero isso.’
“A saída também se foi, então…”
‘não quero isso!’
“Devemos nos mover o mais rápido possível, J.”
‘Não quero…’
Mas sua boca se movia sozinha.
“Entendido.”
Sua missão oficial era procurar e resgatar sobreviventes, mas o objetivo real era a recuperação de cadáveres. J sabia disso. Só não tinha abandonado a esperança ainda.
Ainda que, ao final, aquela esperança tivesse sido enterrada sob cinzas brancas.
Um braço firme envolveu o ombro de J.
“Mas pelo menos temos J conosco!”
O caçador musculoso tinha uma habilidade relacionada com a terra. Mais especificamente, ele poderia cavar. Ele estava classificado como B, mas como seu poder não estava diretamente relacionado ao combate, ele trabalhava principalmente com empreiteiras. Como ele se chamava? Uma pá humana? Ele mesmo dissera.
J se virou. A entrada pela qual tinham vindo se foi sem deixar rastros.
Não tinha volta. Sem jeito de escapar.
“Então… O que devemos fazer?”
Todos os olhares estavam voltados para ele. Era hora de atender. Hora de assumir a responsabilidade pela vida de todos. Sua voz alterada saiu naturalmente. Seu corpo lembrava. As palavras, as ações— tudo.
“Primeiro, protegeremos a área e montaremos um acampamento base. Feito isso iniciaremos a busca. Nos dividiremos em duas equipes.”
Ele chamou os nomes daqueles sob sua responsabilidade. Antes de entrar na fenda, ele havia memorizado todos eles…
Cenas passavam diante de seus olhos como um panorama. Memórias que um dia haviam sido fragmentadas e embaralhadas, que haviam permanecido apenas em pedaços—
lembranças que trancara começaram a ressurgir, uma a uma.
A primeira refeição deles juntos, animada pela tagarelice. Façamos o melhor. Vamos fazer isso e voltar para casa. Copos de água tilintando, sono agitado. J estava acordado, incapaz de se afastar em meio ao farfalhar, aos roncos e roncos ocasionais.
No dia seguinte, começaram a busca pra valer.
Um dia, não encontraram nada. Ta bem. Ainda dá tempo.
Dois dias, nada. Ta bem. Ainda dá tempo.
Três dias, nada. Ta bem. Ainda dá tempo.
Uma semana, nada. Ta bem. Ainda dá tempo.
Duas semanas, nada. Ta bem. Por enquanto.
Vinte dias, nada. Ta bem.
Trinta e cinco dias. Encontraram os restos de uma equipe de reforço. Sem sobreviventes. A comida estava acabando.
Não havia saída.
Não havia tempo para lamentar a perda daqueles que ele estimava. J não podia se dar ao luxo de sofrer. Ele tinha pessoas para cuidar. Ou talvez, simplesmente lhe faltasse coragem para enfrentar a morte da tia.
Haviam encontrado restos, mas não o mestre da fenda. Nesse ritmo, eles nem conseguiriam sair com os restos— eles morreriam, presos dentro da fenda. A cada dia que passava, o grupo falava cada vez menos. As menores coisas os colocam no limite.
Em algum momento, seu objetivo havia mudado da busca por sobreviventes para simplesmente sobreviver. Peneiravam através das cinzas brancas, em busca de alimento. Uma única folha de grama, uma gota de água— qualquer coisa. Mesmo com as amplas provisões que haviam embalado, os suprimentos só podiam durar tanto tempo.
Alguém deve ter pensado.
Tinha gente demais em comparação com a quantidade de comida.
Um dia, alguém relatou ter encontrado o mar. J e outros quatro foram investigar. O que eles encontraram foi uma praia coberta de cinzas brancas, e um mar com manchas de cinzas flutuantes à deriva no topo da água. Afastaram as cinzas e beberam um gole. J virou as costas e bebeu um bocado por baixo da máscara. Não tinha cheiro, mesmo assim o gosto era enjoativo. Alguém amordaçou. A caçadora de cabelos curtos balançou a cabeça.
Isso não vai funcionar como água potável.
Alguém fez uma piada.
Se desse a um morto, aposto que ele acordaria bem.
Algumas risadinhas sem vida se seguiram. Alguém murmurou baixinho.
Bem, pelo menos poderíamos usá-lo para lavanderia.
J pensou ter visto algo nadando sob o mar de Ashen. Deve ter sido imaginação dele. Não tinha como nada viver num mar como este.
Acabou o estoque de comida. As rações não eram mais distribuídas uniformemente. J reduziu sua própria parte. Ainda não foi o bastante. Alguém teve que morrer de fome. Então eles se revezavam.
Um grito quebrou o silêncio. Como vocês podem se chamar humanos?! O caçador musculoso tinha alguém pelo colarinho, sacudindo-o violentamente. Naquele dia, um grupo de quatro saiu em missão escoteira. Três voltaram. Onde fora parar o último?
Os sentidos aguçados de um Desperto eram uma maldição. J sentiu o cheiro de algo que não sentia há muito tempo. O perfume da carne assada. O fedor de sangue. Um cheiro enjoativo e revoltante… Alguém desabou, soluçando.
O que mais deveríamos fazer?! Eu me recuso a apenas sentar aqui e morrer de fome!
J. Antes que haja outra vítima…
Uma voz pesada chamou seu nome. J assentiu. Olhos injetados de sangue o encaravam. Uma boca gordurosa gritou para ele. Bastardo inútil! E daí que você é herói?! Heróis não colocam comida na mesa!
Naquele dia, J manchou sua lança com sangue humano.
A hora das refeições era silenciosa. Apenas o som de latas sendo colhidas enchia o ar. J calculou quanto de comida e água ainda tinham. Não durariam muito mais. Ele tinha certeza disso. Isso aconteceria de novo. E quando isso aconteceu— Ele teria que manchar sua lança novamente? O fedor de carne assada não saía de seu nariz.
Sentiu falta da tia.
Sentiu falta do garoto.
Cha Eui-jae inclinou a cabeça.
Ele queria ir para casa.
Um monstro branco apareceu.
Eles arrasaram com isso.
A comida estava acabando.
Depois de uma longa discussão, decidiram comer o monstro.
Era melhor do que comer um ao outro.
A caçadora de cabelos curtos, com o rosto magro, disse,
“Todos nós já comemos carne de monstro pelo menos uma vez antes. Pode não ser tão ruim quanto pensamos.”
“Você acha que podemos beber seu sangue? Não é vermelho… mais para translúcido.”
“Quem sabe? Acho que vamos descobrir.”
O sangue não tinha gosto. Era de se suportar.
Um monstro branco apareceu.
Eles arrasaram com isso.
A comida estava acabando.
Resolveram comer o monstro. Era melhor do que comer um ao outro.
‚…
Um dia, J foi ao mar morto limpar sua lança manchada de sangue. Varria as cinzas brancas. Na água ondulante, seu reflexo o encarava de volta.
Cabelos grisalhos.
Episódio 293: O Fim Predeterminado
Fonts
Text size
Background
The Hunter’s Gonna Lay Low
O caçador Cha Eui-jae, que fora enviado para selar uma fenda que se abriu sobre o Mar Ocidental, foi arremessado para fora assim que fechou a fenda e...