Capítulo 02
Capítulo 02
Otávio estudava do outro lado do campus, no prédio de Ciências da Computação .Dois mundos distintos.
Enquanto Eduardo estava rodeado de cores, sons e movimentos, Otávio se fundia ao cinza. Encarando a tela do computador, o único som que ouvia era o dos dedos batendo no teclado.
Os professores eram mais sérios e sem emoção, pareciam ter se tornado parte dos eletrônicos; tudo ficava automático e previsível. Otávio adorava isso: exato, instintivo, programado.
Os professores de Eduardo, por outro lado, prezavam pelo imprevisível, pelo criativo, pela inspiração e pela emoção.
Ao final da tarde, Otávio foi em direção à reunião, como havia prometido.
“Aquele idiota só me arruma confusão, já tô me arrependendo”, Otávio reclamou consigo mesmo. Chegou à porta e deu um suspiro. “Já tô aqui, então vamos acabar logo com isso.”
— Oi, posso te ajudar?
— Vim para a reunião sobre a organização da feira.
— Desculpa, mas é só para o pessoal responsável pelo evento. Você não é do Belas Artes, é?
Rebeca encarou Otávio dos pés à cabeça, com ar de julgamento.
— Não, eu não sou. Mas avisa o Eduardo que eu tentei. Até mais.
Otávio ergueu os ombros enquanto virava as costas com olhar de vitória.
— Até mais nada, pode voltar aqui! Você prometeu que ia me ajudar.
Eduardo saiu em direção à porta enquanto puxava Otávio pelo braço.
— Esse rabugento aqui está comigo, tá tudo bem, Rebeca.
— Viu? Tá tudo bem, Rebeca — Otávio disse em tom sarcástico.
— Para de provocar as pessoas!
— Ela que começou me barrando na porta.
— Você nunca começa nada, né?
— Eu não.
— Sei…
— Que bom que sabe. Cadê o notebook?
— Tá na mesa, no canto da sala.
— Ok, vou ver o que posso fazer.
Otávio continuou no canto da sala, observando a tela em silêncio enquanto beliscava um tira-gosto ou outro. O ambiente estava totalmente agitado, com pessoas falando e mesas batendo, mas Otávio parecia estar em seu próprio mundo, sem fazer parte do quadro geral.
De repente, ele rompeu a barreira entre seu ambiente pacífico e o caos ao redor.
— Eduardo, seu notebook.
— Você conseguiu?! Fala pra mim que conseguiu!
— Eu achei a pasta do relatório.
— Sério?! Você me salvou, sabia que ia conseguir! Onde tava?
— Na pasta com o roteiro do teatro, seu idiota. Você salvou tudo no mesmo arquivo: o relatório, o roteiro, os gastos e o orçamento. Aquilo tava uma verdadeira zona, não me admira você não ter achado.
— Nossa, eu tinha esquecido da pasta do roteiro! Eu tô ficando maluco com a organização.
— Você quer resolver tudo ao mesmo tempo e no fim não consegue resolver nada. Tem que aprender a distribuir as tarefas. Só tem você para resolver as coisas?
As pessoas ao redor encaravam Otávio com um olhar de surpresa, mas ele sequer retribuiu os olhares; manteve os olhos fixos no rosto de Eduardo.
— Eu vou me organizar melhor, tá feliz agora?
— Nem um pouco. Falando em organizar, eu organizei os arquivos por tema e prioridade: Relatório, Documentos, Orçamento e Gastos no topo; Roteiro, Música e Distribuição das Barracas nas pastas de baixo. Vê se tenta manter organizado. E tem uma cópia de tudo na nuvem para você acessar em casa, se precisar.
— É por isso que você é o melhor no que faz! Fico te devendo essa!
— E eu vou te cobrar… Bom, minha parte tá feita, então já vou indo.
De repente, uma voz cortou o diálogo que até então estava apenas entre Eduardo e Otávio.
— Ei, Ciências! Você tá convidado para a nossa feira, vê se aparece por aqui — Matheus disse, provocando.
Otávio não gostava muito dele; fingia ser prestativo enquanto deixava o trabalho para os outros.
— Não vou vir. No final de semana eu trabalho.
— Você precisa de diversão também, amigo.
— Não preciso de diversão, preciso de dinheiro. E eu não sou seu amigo.
— Então você trabalha o tempo todo, mas nunca tem dinheiro… Qual é o segredo, Ciências? Em que anda gastando seu dinheiro, hein? — Matheus retrucou de modo sarcástico. Suas “piadas” sempre tinham um tom ofensivo; ele se divertia com o constrangimento alheio.
— Alguns de nós têm que pagar a própria mensalidade, não ficam dependendo do papai. Já ouviu falar em boleto, Belas Artes?
Matheus fechou a cara instantaneamente, fuzilando Otávio com os olhos.
— Tá bom, já chega! Otávio, valeu pela ajuda, eu te levo até a porta. Pessoal, eu já volto para fazer o resumo.
…
— Caramba, você arruma briga com todo mundo, hein!
— Você pediu para eu te ajudar com o notebook, não disse que eu tinha que socializar com esses babacas.
— Quer saber? Deixa pra lá. Você me ajudou muito hoje, então não vou questionar.
— Ok, então eu já vou indo… Eduardo.
— O quê?
— Eu falei sério: distribua as tarefas ou esses folgados vão deixar tudo nas suas costas. Cadê o novato? Ele não ia te ajudar?
— Ele precisou resolver um problema pessoal.
— Não vou nem dizer o que eu penso sobre isso.
— Então não diga, Otávio. Só não diga. Eu preciso voltar para a minha reunião.
Otávio deu meia-volta em direção à saída do campus.
— Não tem ninguém te impedindo.
Eduardo só revirou os olhos e seguiu para dentro.
…
— Porra, Eduardo, seu amigo deixou o clima pesado pra caramba.
— Não começa, Matheus. Você também irritou ele.
— Eu só tentei ser legal, ele que é esquisito e ficou irritadinho.
— Eu achei sexy.
— Nossa, Letícia, você é inacreditável!!! Achou ele sexy?
— O quê? Ele pode ser um nerd desleixado, mas não dá pra negar que é gato. Ele é autoritário, toma a frente e resolve. Isso pra mim é muito sexy.
Aline acenou com a cabeça, concordando com Letícia.
— É sério? Só podem ter ficado loucas. Aquele idiota com cara de delinquente?!
— JÁ CHEGA, MATHEUS!!
Eduardo deu um grito. Dificilmente algo o tirava do sério.
— O OTÁVIO AJUDOU A RESOLVER HOJE O QUE VOCÊ NÃO FOI CAPAZ DE AJUDAR EM UMA SEMANA, E NEM É O DEPARTAMENTO DELE! ENTÃO AGORA CHEGA!
— Eita, eita! O que está acontecendo aqui, pessoal? Tá tudo bem, Dudu? Por que está tão nervoso?
— Tá nervoso porque eu falei mal do namoradinho dele, Arthur!!
— Cala a boca, seu idiota, ele não é meu namorado!
— Namorado? Não entendi… — comentou Arthur.
— O idiota do Matheus caçou briga com o Otávio. Ele fez o favor de arrumar os arquivos para a feira e o Matheus tá arrumando confusão.
— Tá certo. Calma, Dudu, respira. Isso é uma notícia boa, uma coisa já se resolveu
consolou Arthur.
— E você, Matheus, vai buscar os panfletos de divulgação na gráfica!!
— Por que eu?
— Tá com tempo livre pra cuidar da vida dos outros, não custa nada você ir buscar.
— Todo mundo contra mim agora…
— VAI, MATHEUS!!!
— VAI, MATHEUS!!!
— VAI, MATHEUS!!! — os três disseram juntos.
— Tô indo, não precisa gritar.
— Obrigado, Arthur!
— Não precisa agradecer, Dudu.
Capítulo 02
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Será possível imaginar uma primavera sem flores? seria ela pior do que passar pelo inverno ?
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