capítulo 09
Quarta-feira de manhã
Passaram-se alguns dias desde o ocorrido. Tenho evitado ver os vizinhos, e isso tem me ajudado; acho que estou lidando bem com a situação. Não sei por que me preocupei tanto.
A primeira aula começou: Geografia. Sempre fui péssimo nessa matéria, mas minhas notas estão melhorando ultimamente. Nossa nova professora ajudou muito nessa mudança. Letícia era mais nova que as outras, mas tinha um jeito calmo e paciente de ensinar.
— Pessoal, parem um pouco com o barulho. Eu queria revisar alguns pontos da página 72.
De repente, escutam-se três batidas na porta.
— Pode entrar.
— Desculpe o atraso, professora. Eu me perdi um pouco.
— Fique tranquilo, o primeiro dia de aula é sempre assim. A diretora me avisou que você era desta sala. Galera, este é o Timy, o novo colega de vocês!
Não, não, não… Eu não posso acreditar nisso! De todas as salas possíveis, por que ele tinha que cair justo na minha? Eu vou mesmo ter que olhar para a cara dele todo santo dia? Bem dizem que o destino pode ser cruel.
— Tem uma cadeira vazia ali na frente do Wil. Senta lá. Sua mãe me disse que vocês se conhecem; isso já vai te ajudar a se familiarizar com a classe. O Wil te ajuda se precisar de alguma coisa, né, Wil?
A Bia me lançou um olhar cortante. É lógico que ela sabia o que eu estava pensando e ficou tão surpresa quanto eu.
— Claro, professora. Ajudo sim, sem problemas — tentei dizer do modo mais formal possível, mas, por dentro, eu estava negando com todas as minhas forças.
— Ótimo! Sabia que podia contar com você, Wil. Senta lá, Timy, preciso continuar a aula. Wil, puxa a carteira para o lado da dele para vocês dividirem o livro. Na minha segunda aula, depois do intervalo, eu pego um livro reserva para ele no armário.
É, realmente: nada está tão ruim que não possa piorar. Agora eu vou ter que sentar ao lado dele. O universo deve realmente me odiar, não é possível.
Timy se sentou. Enquanto ele arrumava a mochila e pegava o caderno e o estojo, fui ajeitando minha carteira com as minhas coisas e puxando a cadeira.
— Oi, Wil! Que bom que você está aqui. Primeiro dia é sempre um saco, é bom ver um rosto conhecido.
Ele abriu um sorriso aliviado. Parecia um pouco ansioso, e sua voz tinha um leve tom trêmulo. Como eu poderia ficar com raiva dele ou tratá-lo mal? Ele só estava tentando fazer amizade. A culpa era minha por não saber lidar com meus sentimentos, não dele.
— Primeiro dia é difícil mesmo, mas relaxa, eu vou te ajudar.
Seus olhos brilharam quando eu disse isso. Eu não tinha chegado tão perto dele antes. Seu rosto, bem de frente para o meu, exibia aquele sorriso que me desestabilizava.
Como é possível alguém ter uma aparência tão harmoniosa? Ele tinha um charme e, ao mesmo tempo, era doce e angelical. Perdi pelo menos uns quinze segundos focado nos olhos dele.
Ele tinha esse dom de me tirar da realidade por alguns instantes. Consegui ouvir, ao fundo, o som dos meus batimentos cardíacos aumentando aos pouquinhos. De repente, senti a capa do livro deslizar entre meus dedos. Eu estava suando frio de novo.
“William, você tem que se recompor, precisa focar na aula”, aconselhei a mim mesmo.
Desviei o olhar abruptamente para a frente. Timy levou um susto com a minha atitude.
— Vou abrir aqui na página 72, tá? Faz um resumo no caderno, depois te empresto o meu para você acompanhar a matéria.
Timy assentiu com a cabeça. Soltei o livro em cima da mesa dele enquanto procurava meu caderno de Geografia.
— Wil?
— Que foi?
— A capa do seu livro está um pouco molhada… acho que a sua garrafa está vazando.
Puta merda! Eu estava suando tanto assim?
— Vou dar uma olhada na mochila aqui. Obrigado por avisar.
Pelo jeito, essa aula vai ser bem longa. Fiquei boa parte do tempo em silêncio. Evitei o máximo que pude o contato visual, mas só o fato de ele estar do meu lado já me deixava ansioso.
— Virem na página 74, por favor. Vou aproveitar o tempo sobrando e revisar as questões A e B.
Levei a mão à página em modo automático. Timy também teve esse instinto. A mão dele ficou sobre a minha. Era quente e calorosa; passou-me uma sensação aconchegante, ao contrário da minha, que estava fria e úmida.
Pareciam pequenos cubos de gelo derretendo lentamente, enquanto meu corpo parecia pegar fogo. Eu me sentia trêmulo, como se estivesse com febre.
Timy percebeu o contraste e fez uma expressão de surpresa.
— Desculpa, Wil. Força do hábito.
— Tudo bem, sem problemas.
— Sua mão está gelada… quer minha jaqueta emprestada?
— Não precisa. Minha mão fica gelada com frequência mesmo.
Mentira. Minha mão nunca tinha ficado assim antes. E por que ele era tão prestativo e amável? Ele definitivamente não facilitava em nada a minha vida.
Finalmente a primeira aula acabou. Entreguei meu caderno de Geografia para o Timy e mudei de lugar o mais rápido que pude.
capítulo 09
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A tarde de Sexta que mudou a minha vida
Sipnose:
Conta a história de Wil um garoto tímido, sempre rodeado de amigos, que de repente vê sua vida virada de cabeça para baixo com a chegada de um novo vizinho,...