Capítulo 4
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- Capítulo 4 - Admissão no Trabalho
Dez da noite.
No distrito de Tianhe, em meio ao mar de luzes e à agitação da vida noturna, Xiang Cheng fazia sua enésima ligação. Finalmente, graças ao esforço incansável do seu celular que já estava prestes a descarregar e desligar sozinho, ele conseguiu falar com o amigo do amigo de seu velho conhecido.
“Ah”, disse a voz do outro lado da linha. “Estou atendendo um cliente agora. Que tal você vir para cá? Vou te mandar por mensagem o número do ônibus e o trajeto.”
“Valeu, cara”, agradeceu Xiang Cheng.
O último ônibus encostou e Xiang Cheng conseguiu se espremer para entrar, mas a enorme mochila que carregava nas costas acabou ficando presa do lado de fora da porta. Ele pagou a passagem enquanto o motorista, com expressão de cansaço, observava-o com impaciência.
Atrás dele, havia cinco ou seis pessoas de Chaozhou que não paravam de conversar. Xiang Cheng achou que elas queriam apressá-lo e chegou a recuar, tentando sair do caminho, mas o grupo fez sinal para que ele entrasse; todos se uniram para ajudar. Contando “um, dois, três”, empurraram a mochila e, finalmente, com o esforço conjunto, conseguiram colocar Xiang Cheng para dentro do ônibus.
Xiang Cheng desceu na Rua Tiyu West; sob a chuva de primavera, o asfalto refletia as luzes de neon dos restaurantes sofisticados da via. Olhando para cima de vez em quando e carregando sua mochila, ele parou em frente a um spa de bem-estar masculino.
“Estou procurando por Li Jincai*”, disse Xiang Cheng ao recepcionista.
(n/t: Li Jincai (李进财) significa literalmente “fazer dinheiro”.)
O recepcionista levantou o braço para detê-lo, sem sequer olhar para Xiang Cheng. Do lado de fora, havia vários carros de luxo estacionados. Xiang Cheng virou a cabeça e reparou no teto de um Audi cinza-prata: havia algumas gotas de sangue ali. Ele se aproximou para inspecionar, passou o dedo pelo sangue já seco e franziu levemente a testa.
Ele espiou o banco do motorista, mas não havia ninguém lá.
Xiang Cheng ficou parado ao lado do estacionamento e ligou para Li Jincai. Li Jincai disse: “Entre pela porta lateral!”
Com isso, Xiang Cheng não prestou mais atenção naquele carro e, sentindo o cheiro misturado de fumaça e escapamento de combustível, encontrou o beco dos fundos. Li Jincai vestia um roupão e chinelos; ele deu uma olhada em Xiang Cheng antes de dizer: “Entra aí. Como você conhece Xiao Sheng?”
“Somos do mesmo vilarejo”, respondeu Xiang Cheng.
Li Jincai não estava vestindo nada por baixo do roupão. Sua pele era muito pálida e ele tinha uma beleza jovem enquanto guiava Xiang Cheng até a área de descanso, perguntando: “Está procurando emprego? Deixe-me ver as suas mãos.”
Xiang Cheng estendeu as mãos para mostrar; as palmas estavam cheias de calos.
“Assim não vai dar”, disse Li Jincai. “Deixe-me perguntar ao gerente. Espere por mim aqui.”
Li Jincai fez com que ele largasse a mochila e trouxe um conjunto de uniformes do clube, dizendo: “Experimente estes. Não, vai tomar um banho primeiro… Pensando bem, troca de roupa antes. Ah, quer saber? Vai tomar um banho primeiro mesmo. Não use roupa íntima por baixo; temos aquecimento aqui. O vestiário dos funcionários fica naquela direção; pode ir.”
Xiang Cheng tirou a roupa, pendurou-a na cadeira e foi tomar banho levando a própria toalha. No meio do banho, Li Jincai entrou acompanhado do gerente. Os dois começaram a avaliar o corpo nu dele. Parado debaixo do chuveiro, Xiang Cheng esfregou o rosto e olhou para o gerente.
“Sua aparência é muito boa”, disse o gerente. “E o seu porte físico também não é nada mau. Você é do interior?”
Xiang Cheng assentiu com a cabeça. O gerente continuou: “Como é a força das suas mãos? Pega um dinamômetro para ele testar.”
Xiang Cheng: “?”
Li Jincai foi buscar o dinamômetro, e Xiang Cheng fechou a torneira. Ele pegou o aparelho e o apertou até o limite.
“Nada mal”, disse o gerente. “Dá um treinamento para ele. Lucas, você treina o rapaz e escolhe um nome em inglês para ele; ele começa amanhã. O salário é de mil e oitocentos por mês, mais comissão. E você também vai ganhar uma comissão em cima de cada atendimento que ele fizer nos primeiros três meses.”
Li Jincai olhou para Xiang Cheng com um olhar misto de inveja e admiração, enquanto Xiang Cheng, de queixo caído, mal conseguia acreditar.
“Obrigado”, disse Xiang Cheng.
O gerente foi embora. Xiang Cheng saiu do banho, e Li Jincai, que tinha recolhido todas as roupas dele, jogou-lhe um roupão e disse: “Vem comigo.”
Xiang Cheng estava completamente nu por baixo do roupão enquanto seguia Li Jincai para fora da sala de descanso dos funcionários. Enquanto caminhavam pelo corredor, um homem de meia-idade passou por eles, olhou para Xiang Cheng e, na mesma hora, não conseguiu mais desviar os olhos.
“Qual é o número dele?” perguntou o homem de meia-idade. “Quero reservá-lo.”
“Ele é um convidado…” sussurrou apressadamente o atendente que acompanhava o homem de meia-idade, nunca tendo visto Xiang Cheng antes e percebendo que ele não tinha crachá.
Xiang Cheng: “???”
Li Jincai o levou para dentro de uma sala. Lá, deitado, havia um boneco inflável masculino com uma expressão lasciva. O corpo do boneco era todo dividido em áreas, cada uma com uma etiqueta colada.
Li Jincai: “Escolha um nome em inglês para si mesmo.”
Xiang Chen: “Eu não sei como.”
Li Jincai: “……”
“Escolhe qualquer um”, disse Li Jincai, impaciente. “Aliás, qual é o seu nome em chinês?”
“Xiang Cheng”, respondeu ele. “Mas eu não sei mesmo nenhum nome em inglês. Meu nome foi dado pelos meus pais, preciso mesmo mudar?”
“Não é para mudar o seu nome”, explicou Li Jincai. “É um nome artístico. Todo mundo aqui se chama pelo nome artístico. Já pensou o cliente escolher alguém e o nome do cara ser ‘Zhang Tianjin’ ou ‘Wang Debao’? É caipira demais, não acha?”
Xiang Cheng pensou um pouco e disse, educadamente: “Escolhe um para mim, então. Eu aceito o que você decidir.”
Li Jincai saiu da sala e voltou logo em seguida com uma carta de vinhos que pegou em algum canto. Tinha um monte de nomes de vinhos tintos ali. Ele folheou por um tempo e disse: “Vai ser Valpolicella², então.”
Xiang Cheng: “O quê? Val-o-quê?”
“Val~ policella~”, respondeu Li Jincai, fazendo uma pose com a mão em formato de orquídea³ e enrolando a língua. “É um nome italiano sofisticado, elegante e de alto nível. Não vai nem me agradecer?” Enquanto falava, gesticulou para que Xiang Cheng se aproximasse do boneco inflável. “Daqui a pouco vou mandar fazer o seu crachá. Agora, massageie, vá em frente e massageie.”
Xiang Cheng já estava completamente atordoado. Desde que tinha chegado a Guangzhou, sentia que aquele não era mais o mundo que ele conhecia. Ele perguntou: “Massagear o quê?”
“O boneco, ué! Faça massagem!” disse Li Jincai. “Se eu estou mandando você massagear, então bota a mão na massa. Põe força, aperta firme. Quando você acertar o ponto, a luzinha dentro dele vai acender.”
Xiang Cheng, com o rosto tomado pela dúvida, pressionou as mãos sobre o boneco inflável.
Um estrondo alto ecoou repentinamente do quarto para o corredor, assustando os convidados do lado de fora.
“Você é idiota! Se explodir, vai ter que pagar!” Li Jincai gritou, furioso, seguido de um pedido de desculpas de Xiang Cheng.
𓆝 𓆟 𓆞
Na manhã seguinte, um mês depois, tudo florescia com a nova vida da primavera. A luz do sol brilhava forte e o céu sobre a Cidade das Flores parecia ter sido lavado.
Chi Xiaoduo vinha em sua mountain bike e, com a maior elegância, fez uma curva perfeita na esquina da rua, parando bem na porta da padaria. O atendente olhou para fora e já trouxe o pão e o leite em uma sacola.
“Obrigado”, disse Chi Xiaoduo, abrindo um sorriso para o rapaz alto e bonito do balcão.
Todos os dias, a caminho do trabalho, ele comprava o café da manhã ali só porque o atendente era uma gracinha e super atencioso. Chi Xiaoduo também era muito bonito; embora já trabalhasse há alguns anos, parecia um recém-formado da faculdade; tinha uma aparência bem limpa e jovial. No entanto, mesmo sendo um partidão, ele nunca tinha dado a sorte de encontrar alguém por quem se apaixonasse e que sentisse o mesmo por ele.
“Hoje tem um bolo de aniversário para você”, disse o atendente, sorrindo. “Não esquece de passar aqui para pegar quando sair do trabalho.”
“Ah é?!” Chi Xiaoduo tinha até se esquecido de que hoje era o seu aniversário. Ele ficou um pouco surpreso por eles terem lembrado da data que ele deixou cadastrada quando fez o cartão de fidelidade da loja, e aquilo lhe trouxe um calorzinho ao coração.
“Tô indo trabalhar, tchau!” Chi Xiaoduo acenou para ele. “Bom trabalho aí!”
Como já era de praxe, o chefe do departamento comprou um bolo e os colegas se reuniram para dividir. Já fazia dois anos que ele trabalhava naquele instituto de design arquitetônico. Com todos reunidos ao seu redor pedindo para ele soprar as velinhas e fazer um pedido, Chi Xiaoduo juntou as mãos diante do bolo e pensou: Meu desejo de aniversário… por favor, me dê um namorado normal.
Todo ano, no seu aniversário, o pedido era exatamente o mesmo, e nunca tinha se realizado. Parando para pensar, aquilo era um pouco deprimente.
No entanto, só de pensar na palavra “normal”, a imagem de Wang Ren com uma expressão de fúria total surgiu na mente de Chi Xiaoduo, esbravejando: “O que é que tem de anormal nisso?!”
Chi Xiaoduo tinha esboçado metade de uma planta e assinado algumas outras plantas arquitetônicas quando seu celular tocou novamente. Wang Ren havia reunido vários dos seus antigos colegas de faculdade, e todos estavam aproveitando a oportunidade para encontrar um lugar para comemorar o aniversário dele. Chi Xiaoduo, então, passou na padaria para buscar o seu bolo.
À noite, Wang Ren foi buscá-lo de carro. Depois do jantar, ele levou Chi Xiaoduo até um spa de bem-estar masculino.
Assim que se sentaram, cinco rapazes bonitos se aproximaram para fazer massagem nos pés deles.
Caramba, que gatos!, pensou Chi Xiaoduo. Ele era do tipo que não conseguia desviar os olhos sempre que via um cara bonito. E aquele spa estava lotado deles, cada um com um charme único. Ele deu uma olhada no rapaz que estava massageando seus pés — parecia até um astro de cinema, mas quando o cara sorriu para ele, Chi Xiaoduo ficou nervoso e não teve coragem de sustentar o olhar.
Chi Xiaoduo era sempre assim: cheio de segundas intenções, mas sem coragem nenhuma na hora H. Bastava os amigos começarem a zoar que ele virava um peixe-mola — além de medroso, começava a reagir de forma totalmente exagerada a qualquer coisinha.
Wang Ren também era gay; os outros colegas de faculdade não. Depois de formados, alguns foram trabalhar no mercado imobiliário, outros na área de construção civil, e o pessoal no geral já desconfiava que Chi Xiaoduo gostava de homens.
“Cara, preparei um presente de aniversário para você”, disse Wang Ren. “Já vou logo avisando que o atendimento que você vai receber daqui a pouco vai ser o pacote completo.”
Chi Xiaoduo: “……”
“Espera, o quê? Que tipo de serviço?” Chi Xiaoduo ficou praticamente estupefato.
Wang Ren disse para Chi Xiaoduo: “No mês passado, você não disse que queria ter a experiência? Que não queria mais continuar virgem? Já que todos os seus encontros às cegas deram errado, então passa o rodo logo! Nós, os seus parças, já deixamos tudo esquematizado para você, e o massagista que vai entrar daqui a pouco vai te satisfazer, com certeza!”
“Estou indo embora”, disse Chi Xiaoduo. “Divirtam-se aí.”
“Peguem ele!”
“Não deixe ele escapar!”
“Espera…”
Wang Ren disse: “Da última vez você não disse isso com todas as letras? Você queria ter a experiência! Por acaso você nunca vai crescer de verdade?!”
“Nem pensar…” disse Chi Xiaoduo, com o rosto coberto de lágrimas que voavam descontroladas com o vento. “De jeito nenhum!”
Ao longo daquele mês, Chi Xiaoduo tinha mudado a estratégia e o teor das suas lamentações. Vivia choramingando no ouvido de Wang Ren, resmungando que, em vinte e seis anos de vida, nunca teve um namorado ou tido intimidade com ninguém, e que isso era a coisa mais deprimente e trágica do mundo.
De tanto ouvir a mesma ladainha, os ouvidos de Wang Ren já estavam calejados e, por fim, sem dizer mais nada, disse: “Deixa comigo, vou te levar para se divertir”. E assim, reuniu aquela cambada de amigos da onça para lhe dar o tal presente de aniversário, arrastando-o até ali. Enquanto Chi Xiaoduo se debatia tentando rastejar para fora da sala, Wang Ren perdeu a paciência de vez: “Você é homem ou não é? Que frescura toda é essa? Não era você que queria ter a experiência? O cara já tá agendado, o que você tá inventando agora?”
“Socorroooo!” Chi Xiaoduo berrou.
O grito de Chi Xiaoduo foi tão alto que quase deu eco na sala, enquanto ele se chacoalhava e tremia inteiro de pavor. O rapaz que estava massageando os seus pés tentou acalmá-lo: “Chefe, nós não fazemos nada ilícito, pode ficar tranquilo.”
Chi Xiaoduo soltou outro grito estridente, fazendo Wang Ren berrar: “Você pode parar de exagerar assim?”
Chi Xiaoduo gritou: “A pressão está muito forte! Eu vou fazer xixi, aaaaahhh!”
O massagista de pés: “……”
O rapaz aliviou a força um pouco, e Chi Xiaoduo, com o rosto vermelho igual a um tomate, tentava recuperar o fôlego, enquanto os outros colegas de faculdade caíam na gargalhada, tirando sarro dele.
“Do que você está com medo? É só um pato macho⁴, não precisa ter medo!”
“Sim, sim, todo mundo já chamou um antes ——”
“Não assuste o garoto, é só uma massagem com óleo.”
“Chi Xiaoduo, você já tem vinte e seis anos e ainda é virgem, não sente vergonha disso não?”
“Pois é, Camarada Xiaoduo⁵, dá para parar de fazer essa cara de quem está num memorial fúnebre⁶?”
“Calem a boca, todos vocês, aaaaah!” Chi Xiaoduo finalmente perdeu a cabeça e berrou. “Eu vou cortar relações com essa cambada de amigos da onça!”
Todo mundo silenciou na hora, olhando para ele. Com o rosto completamente vermelho, Chi Xiaoduo estava morrendo de vergonha, querendo achar um buraco para se enfiar.
Mas, após esse breve instante de quietude, aquela horda de desocupados recomeçou a tagarelar, cada um soltando um palpite para convencê-lo.
“Ah, mas o cara já tá vindo.”
“A técnica de massagem com óleo aqui é muito boa, sabe.”
“É isso aí, é isso aí”, disse Wang Ren, enquanto se sentava no sofá para deixar que massageassem seus pés. “Se você não gostar, peça apenas uma massagem com óleo; não precisa fazer mais nada.”
O sujeito que massageava seus pés finalmente não aguentou mais e acabou deixando escapar uma risadinha.
“Chefe Wang, já dissemos: o nosso spa de bem-estar masculino é sério; não fazemos nada ilícito.”
Wang Ren então disse ao rapaz: “Estou só brincando com ele; esse meu irmão é muito inocente.”
“Então este é o meu presente de aniversário?” Chi Xiaoduo exclamou, exasperado.
“Claro”, disse Wang Ren.
“Claro”, responderam os outros, com expressões inocentes.
As expressões de todos refletiam a mesma emoção: Você já tem vinte e seis anos e ainda é virgem, a gente te pagar uma massagem com óleo de presente de aniversário tem algum problema por acaso?
Alguém bateu na porta e um homem entrou, perguntando: “Com licença, qual dos chefes vai fazer a massagem com óleo?”
Chi Xiaoduo: “??”
Era um massagista alto e forte que estava parado à porta, sorrindo.
“Ele!” disseram todos na mesma hora, apontando em coro. “Ele, ele, ele!”
“É ele mesmo, é ele!”
“Vai fundo, Chefe Chi!”
“Pede o pacote completo! Vai lá!”
“Pacote completo?” perguntou o homem, com toda a educação. “Por aqui, por favor.”
Chi Xiaoduo: “……”
“Vou ficar te esperando na sala ao lado”, disse o massagista, com um sorriso. “Não precisa ficar nervoso, eu já tomei banho.”
Todo mundo caiu na gargalhada, e o rapaz saiu na frente.
Chi Xiaoduo: “!!!”
“Ele faz o seu tipo?” Wang Ren perguntou.
A expressão de Chi Xiaoduo se contraiu quando ele disse: “Ele é só ok…”
“Como assim, só ok?!” Wang Ren exclamou, irritado. “O cara preenche todos os seus requisitos! Tem um metro e oitenta e dois, não é gordo nem magro, e ganha vinte e cinco mil por mês…”
“O quê?!” Chi Xiaoduo gritou. “Como você sabe disso?!”
“Claro, né? Ser massagista dá muito dinheiro”, os outros amigos acrescentaram, concordando que sim, que a profissão dava uma boa grana.
O rapaz que massageava seus pés sorriu: “Ai, ai, por favor, parem de brincar, chefes.”
“…O trabalho dele não exige que ele viaje a negócios e ele faz bem o estilo esportista”, continuou Wang Ren. “Ele costumava fazer arremesso de peso na Faculdade de Educação Física, e ele não é bem divertido e espirituoso? Tenta bater um papo com ele para ver se vocês têm algum assunto em comum! Disseram até que ele sabe cozinhar. Não fuma, não joga…”
Chi Xiaoduo gritou: “Você enlouqueceu, aaaaaahhh——!”
Wang Ren continuou a disparar como uma metralhadora: “E o cara ainda é assumido, é responsável, tem bom coração… O David até me falou que ele ama animaizinhos e que tem um Labrador em casa! É cheio de ambição, o sonho dele é virar o funcionário número um do spa…”
Todo mundo quase caiu das cadeiras de massagem de tanto rir com as palavras de Wang Ren.
“Hã?” Wang Ren fez um gesto com a mão antes de dizer para o resto do grupo: “O David disse que ele é até um homem culto, que gosta de ler.”
Todos caíram na gargalhada. Wang Ren acrescentou: “Ele gosta de poesia Tang e Song e tudo mais — basicamente o seu tipo ideal, Chi Xiaoduo.”
“Hahahahahaha!!!”
Uma série de “haha” em letras gigantes⁷ irrompeu do quarto, atingindo incessantemente a cabeça de Chi Xiaodu, que estava prestes a enlouquecer.
“Estou só brincando”, disse Wang Ren com a maior seriedade. “David é meu amigo — ele é um cara muito legal. Pode ir lá; ele não vai te obrigar a nada.”
Só com essa garantia dada por ele é que Chi Xiaoduo, com a maior má vontade do mundo, se levantou e saiu da sala.
A porta do quarto 702 se abriu e David colocou a cabeça para fora. “Você está aqui? Entre.”
Então, tomando coragem, Chi Xiaoduo entrou.
Os atendentes desse spa masculino eram todos homens, e a equipe de massagem nos pés era um verdadeiro desfile de caras bonitos. Corria o boato de que eles atendiam tanto clientes homens quanto mulheres e, para um cara caseiro que nunca tinha namorado, os amigos encomendarem um serviço de massagem corporal completa com óleo logo em sua primeira vez era realmente demais, demais, deeeemais… intenso até demais.
Wang Ren foi atrás dele, dizendo logo atrás: “Deixa ele te atender, não precisa ficar nervoso, ele é super experiente.”
Wang Ren tinha inclusive reservado especialmente o melhor profissional para atendê-lo, o que deixou Chi Xiaoduo sem saber se agradecia ao amigo ou se o esganava até a morte.
Mas aquele spa masculino realmente tinha um ambiente excelente. Talvez fosse apenas pelo fato de terem uma clientela de alto poder aquisitivo, tanto a decoração requintada quanto o nível de profissionalismo dos funcionários faziam total jus à fama grandiosa do lugar.
“Só um minutinho”, disse David, estendendo a toalha de banho sobre a maca. “Pode deitar aí, gatinho. Vou resolver uma coisinha e já volto.”
“T-tudo bem”, respondeu Chi Xiaoduo — com uma expressão que claramente desejava que David não voltasse — acrescentou rapidamente: “Fique à vontade; não tenho pressa.”
David saiu novamente, sumindo como uma rajada de vento.
Chi Xiaoduo começou a maquinar seus planos: e se ele simplesmente desistisse da massagem e fugisse de volta para casa de fininho? O problema é que suas roupas tinham ficado com o Wang Ren, então com certeza seria pego no flagra e arrastado de volta. Mas, afinal, quanto custaria uma noite inteira de massagem com óleo daquelas? Barato é que não devia ser.
𓆝 𓆟 𓆞
David passou pela porta do quarto, caminhou em passos firmes por alguns metros e, de repente, apertou o passo, correndo em direção ao banheiro no fim do corredor.
“Valpolicella!” David disse apressadamente: “Substitua-me por um momento, quarto 702.”
Xiang Cheng estava vestindo uma camiseta e calças compridas, sentado na área de descanso lendo Coletâneas de Contos, e então olhou para cima para olhar David.
O rosto de David estava com uma cor nada saudável, e era evidente que ele não estava se sentindo bem. Assim que terminou de falar, ele entrou rapidamente no banheiro. Xiang Cheng guardou o livro e levantou-se para bater à porta do banheiro.
“Está tudo bem?” Xiang Cheng perguntou.
“Estou bem…”, disse David de dentro, cerrando os dentes, antes que se ouvisse uma sequência confusa de ruídos estranhos.
Xiang Cheng: “……”
“Aqueles três clientes agora há pouco foram muito cruéis…” disse David. “O fio do vibrador se rompeu, mas eles nem sequer o tiraram. Talvez eu precise ir ao hospital…”
Xiang Cheng: “???”
“Devo chamar uma ambulância para você?” perguntou o gerente, batendo na porta.
“N-não… está tudo bem. Vou ver se consigo tirar sozinho…” respondeu David.
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Notas:
1 几号 (Jǐ hào) Em spas, casas de massagem e estabelecimentos do tipo na China, os terapeutas e atendentes são chamados e identificados pelos clientes por números, e não pelos nomes reais.
2 Valpolicella: É uma famosa região vinícola da Itália que produz vinhos tintos.
3 Esse é um gesto muito tradicional na dança e na cultura chinesa (chamado Lan Hua Zhi), onde os dedos se dobram de forma elegante, lembrando uma pétala.
4 No jargão e nas gírias da internet chinesa, a palavra “pato” (鸭子 – yazi) é usada popularmente como um eufemismo para se referir a profissionais do sexo masculinos (da mesma forma que “galinha” ou “peixe” às vezes é usada no contexto feminino).
5 Essa expressão foi herdada da era de Mao, agora adaptada como gíria para se referir a um camarada. Também é uma forma de um homem se referir ao seu parceiro de mesmo sexo, o que não é este caso!
6贞零 (Zhen ling): É um trocadilho impagável no jargão LGBT chinês. A palavra original é 贞节 (Zhenjie – Castidade/Pureza), se referia a antigas estruturas memoriais erguidas em homenagem a mulheres solteiras (seja por escolha, viuvez ou outros motivos). Nesse caso, na comunidade gay a pessoa que é shou é chamado de “0” (零 – líng), e gongs são “1”.
7 一号字大小 Na tipografia chinesa tradicional (sistema Zihau), o tamanho “Número 1” (一号) é uma fonte gigantesca, usada para títulos enormes em jornais e cartazes.
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Flor: O David não merecia isso!
Queria tanto uma massagem do Xiang Cheng!
Capítulo 4
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Aviso de Pós-Treinamento de Qualificação Para Exorcista Registrado de Primeira Classe Nacional
Chi Xiaoduo é um homem solteiro que busca uma profunda conexão e qualidade interior em um parceiro. Aos vinte e seis anos, seu histórico amoroso ainda estava...