Capítulo 1
A chave girou na fechadura com um ruído arrastado. A porta se fechou, e o silêncio do apartamento caiu pesado. Denso.
Cael não acendeu a luz.
Deixou os sapatos perto da entrada sem cuidado, os dedos passando pelo próprio pescoço como se tentasse aliviar uma pressão que não cedia. A tensão já estava instalada, profunda, puxando cada músculo.
Ele atravessou o corredor devagar, parando no meio do caminho como se tivesse esquecido o que estava fazendo na própria casa. Fazia tempo desde que ele se alimentara pela última vez.
Se jogou na cama do quarto. O celular vibrou na mão; quando ele o pegou, a tela acendeu, iluminando seu rosto no escuro. A língua passou pelos lábios secos.
Pensou, por um segundo, em abrir conversas antigas. Nomes que não exigiam esforço e gente que atenderia rápido, mas a simples ideia de ter que pedir já o fazia enjoar. Isso o fazia soar desesperado.
Cael soltou o ar pelo nariz, curto e irritado. A mão apertou o celular com mais força antes de bloquear a tela de uma vez.
O silêncio voltou, mais denso do que antes.
E então a campainha tocou. Um som curto, trivial — mas que o deslocou daquele estado. Provavelmente engano ou alguém perdido, mas no instante seguinte, o cheiro bateu em seu olfato como uma brisa quente e irresistível: um homem.
A fome queimava agora de um jeito diferente.
O corpo reagiu antes da decisão. O estômago contraiu, a respiração travou por um segundo e aquela fome — contida até então — se reorganizou em algo mais direcionado.
Com passos lentos, ele atravessou o corredor estreito até a porta. A mão pousou sobre a maçaneta e, por um segundo, hesitou. Sabia o que encontraria e sentia o sangue pulsar nas têmporas.
Abriu a porta e ali estava ele.
Um homem. Jovem, bonito de um jeito que não parecia nem intencional — um pouco desajeitado até. Jaqueta amassada, uma caixa nas mãos, olhar levemente surpreso.
— Boa tarde… Cael, certo? — O sorriso dele era educado, quase tímido.
— Sim…
O corpo de Cael reagiu inteiro, o estômago se contraía em espasmos invisíveis, mas o que realmente tremia era mais profundo. Seus lábios se abriram, involuntariamente. Um som rouco e contido escapou — quase um gemido.
— Preciso que assine para receber a entrega.
Cael mal conseguiu assentir, a mão tremendo enquanto pegava a caneta e rabiscava algo na prancheta.
— Você está… bem? — A voz era hesitante, os olhos atentos demais para alguém que só estava fazendo uma entrega.
Cael demorou um segundo a responder.
Os dedos ainda seguravam a prancheta, mas frouxos. Ele ergueu o olhar devagar, encontrando o de Nathan com uma intensidade que não combinava com a situação.
— Eu… — a voz saiu mais baixa do que deveria, áspera. — Depende do que você considera “bem”.
Um canto da boca dele se moveu, um esboço de sorriso que não chegava a ser leve. Era mais… intencional.
Cael devolveu a prancheta, mas não soltou de imediato. Os dedos dele roçaram nos dele por um instante a mais do que o necessário. Um contato breve… ou talvez nem tanto.
— A entregadora de antes não costumava… se preocupar tanto — Cael murmurou, ainda olhando para ele, a voz mais controlada agora, mas carregada de uma intenção clara demais. — Ela está bem?
O entregador hesitou antes de responder, como se precisasse reorganizar o próprio foco.
— Ah… — ele soltou um pequeno riso sem jeito — Sim, só aconteceu um imprevisto e eu estou cobrindo o turno dela hoje.
— Entendi… — Cael inclinou levemente a cabeça, analisando. — Então você não costuma vir aqui… qual é o seu nome?
Um passo. Sutil, mas suficiente para reduzir o espaço entre os dois.
— Nathan… — Os ombros tensionaram levemente, mas ele não recuou. — E não… é minha primeira vez aqui.
Cael soltou um sopro curto, quase um riso.
O olhar dele desceu por um instante, sem disfarçar.
— Você costuma se preocupar assim com todo mundo… ou eu tive sorte? — Cael continuou, a voz mais baixa ainda, íntima.
Nathan abriu a boca, mas não respondeu de imediato. Havia algo diferente na expressão dele, não era só preocupação agora, mas também curiosidade.
— Eu tento.
— Tão gentil…
E então aconteceu. Os dedos de Cael afrouxaram de vez.
A prancheta escorregou da mão dele e caiu no chão do corredor com um som seco; a caneta bateu logo depois, rolando alguns centímetros para o lado de fora.
Nathan reagiu no susto, o corpo dando meio passo para trás por puro reflexo, mas Cael se moveu antes e se aproximou.
Os braços deslizaram ao redor dele como se já soubessem exatamente onde encaixar, trazendo Nathan contra seu peito. O rosto afundou no lado do pescoço quase imediatamente.
Ele respirou fundo. O cheiro o atingiu com força total agora; limpo, vivo e pulsando sob a pele de Nathan de um jeito que fez o corpo de Cael responder inteiro, como se finalmente tivesse encontrado algo que reconhecia.
Nathan ficou rígido no primeiro segundo. As mãos pairaram no ar, sem saber onde tocar, o corpo preso naquele abraço que não fazia sentido, rápido demais, íntimo demais.
— Ei— eu—
A frase morreu antes de nascer, mas Cael não ouviu.
Os lábios roçaram a pele do pescoço dele, primeiro só um contato, quente e demorado demais para ser acidental.
— Você cheira bem…
E então a língua.
Um movimento lento e instintivo, desenhando uma linha breve contra a pele.
Aquilo quebrou o transe.
Nathan puxou o ar com força, o corpo reagindo de uma vez só. As mãos finalmente empurraram, não com agressividade.
— Ei! — ele recuou, a voz falhando no meio do som.
A mão subiu imediatamente até o próprio pescoço, cobrindo o lugar onde tinha sido tocado, ainda sentindo o calor.
Os olhos estavam arregalados agora, não só de surpresa.
Algo mais difícil de nomear.
— Você… — ele começou, sem saber exatamente o que dizer.
Cael piscou, como se estivesse voltando de muito longe. O corpo ainda estava ali, mas o resto… demorava a acompanhar.
Por um segundo ele simplesmente não se moveu. A cabeça inclinou para frente por um instante, os olhos fechando.
Desnorteado.
E então o som de uma porta abrindo no corredor. Os dois olharam ao mesmo tempo e um vizinho apareceu alguns metros adiante, saindo do próprio apartamento. Nathan mal teve tempo de resistir — ou decidir se queria — antes de ser guiado para dentro do apartamento. O corpo atravessou o limiar da porta, ainda meio desorientado.
A porta se fechou logo em seguida, abafando o corredor, o vizinho e o mundo externo. Do lado de fora, a prancheta permaneceu caída no chão e caneta esquecida ao lado.
O corpo de Nathan encontrou a parede logo em seguida, as costas tocando a superfície fria antes que pudesse reagir direito.
O ar pareceu se prender entre eles.
Cael parou perto demais.
Não encostando completamente… mas o suficiente para que qualquer recuo fosse percebido.
Os olhos ainda estavam pesados, escuros, descendo por Nathan com uma atenção que não tinha nada de casual.
— Fica… — a voz saiu baixa, rouca, ainda carregando o resquício do descontrole anterior — só um pouco.
Nathan piscou, tentando acompanhar.
— Eu… não posso — respondeu, mesmo que a voz não tivesse tanta firmeza quanto ele gostaria — ainda tenho outras entregas… Eu devia ir.
Cael soltou um sopro leve, quase um riso.
— Mas você não parece com tanta pressa assim.
Nathan travou.
A cor subiu levemente pelo rosto dele, quase imperceptível, mas ali.
— Isso não — ele tentou, mas a frase perdeu força no meio.
Cael percebeu e dessa vez, o sorriso veio diferente.
Menos predatório, porém… interessado.
— Você gostou de mim? — perguntou, simples e direto. — Então por que não ficar um pouco mais?
Nathan ficou em silêncio por um segundo longo demais. O olhar dele caiu de novo, um misto de constrangimento e honestidade desconfortável passando pela expressão.
— Eu só… — ele respirou fundo, tentando colocar em palavras — Eu teria te chamado para sair, sabe? — admitiu, rindo para si mesmo. — Antes disso.
Isso fez Cael parar.
A atenção dele mudou de foco, como se aquela resposta tivesse sido mais inesperada do que qualquer reação de medo.
— Hmmm… entendo. Você está decepcionado? A maioria das pessoas não costuma reclamar de sexo antes do encontro.
Nathan soltou um pequeno suspiro, passando a mão pelo cabelo em um gesto nervoso.
Agora, sim… havia algo mais leve ali. Ainda intenso e perigoso, mas diferente.
— Você é fofo… entregador substituto. — Cael inclinou levemente o rosto.
Seus olhos percorreram Nathan, agora com algo além da fome: curiosidade.
Nathan finalmente olhou direto para ele, claramente pego de surpresa. Mas então, sem hesitar, ele agarrou a cintura de Cael com mais força.
Cael estremeceu com o toque, um gemido suave escapando de seus lábios. Apertou a camisa de Nathan. Sentia o calor acumulando-se em sua barriga, irradiando por seus membros.
Ele hesitou. Sabia que não deveria, era errado envolver alguém inocente em sua fome. Seu encanto, seu fascínio natural, devia inspirar entrega. Era assim que funcionava, mas aquilo parecia… diferente.
Cael fechou os olhos, sentindo a energia vibrar sob sua pele. Seu feitiço — uma onda sutil, densa e sedutora, infiltrando-se no ar ao redor — fora desenhado para revelar o desejo mais íntimo de Nathan.
Mas quando os olhos de Cael se abriram, viu a si mesmo refletido na mente de Nathan. Não fazia sentido. O feitiço devia mostrar a pessoa que ele mais desejava, não… ele mesmo.
Nathan, por sua vez, permaneceu imóvel por um instante — os olhos escuros fixos nos dele, como se alguma peça dentro dele tivesse acabado de se encaixar.
Cael não esperou. As mãos empurraram Nathan contra a parede. Os lábios desceram pelo pescoço, dentes arranhando a pele quente.
O coração de Nathan disparou. Os dedos de Cael já estavam na fivela do cinto. A pele formigou sob o toque.
— O que você…? — tentou falar, mas a voz falhou quando os lábios de Cael tocaram seu ouvido.
A voz falhou quando a boca de Cael tocou a orelha.
— Só me deixa provar um pouco. Eu preciso disso.
O encanto veio como uma onda sedosa. O corpo de Nathan respondeu antes da mente.
— Então prove — sussurrou. — Se é isso que você quer.
Os dedos de Cael soltaram a fivela. A calça escorregou. A boxer foi puxada. O pênis de Nathan saltou, rígido, latejando.
A mão quente o envolveu. Nathan prendeu a respiração.
— Você está tão duro… fui eu que fiz isso?
— É… sim.
— Que bom. — Cael sorriu. Os olhos não se desviaram enquanto se ajoelhava. — Você é grande…
Ele não provocou nem começou com beijos ou lambidas lentas. A fome era uma fera frenética.
Inclinou-se para a frente, os cabelos lilases caindo como uma cortina. A boca engoliu a cabeça de uma vez e a língua envolveu a ponta e desceu.
Um gosto quente inundou seus sentidos.
Nathan gemeu rouco. As mãos voaram para a cabeça de Cael, dedos se enroscando nos fios.
O íncubo contraiu as bochechas e chupou com força.
O calor da boca era um tormento. A língua explorava cada centímetro, arrancando ar. Os quadris de Cael balançavam leves, excitação visível em cada movimento. Ele afundava mais, levando Nathan junto.
— Seu gosto é incrível — gemeu ao redor dele.
Era um gosto que não conseguia definir com precisão, mas que já sabia ser único. Doce, quente e profundo… perigosamente viciante.
Nathan cravou os dedos nos cabelos. Os quadris avançaram sozinhos, compelidos a se enterrar naquele calor úmido e faminto.
— Eu… eu estou quase.
Cael não parou. Acelerou. A mão acompanhou o ritmo da boca. A mandíbula abriu. A garganta relaxou com a habilidade prática de um íncubo.
Uma contração muscular deliberada puxou Nathan mais um centímetro para dentro.
Nathan gritou, os dedos se apertando.
Cael recuou até só a ponta restar entre os lábios. Banhou-a com a língua. Depois avançou de novo, até a raiz, nariz pressionando os pelos loiros.
Espasmos percorreram o corpo inteiro de Nathan.
A onda escaldante atingiu a língua de Cael. Ele engoliu instinto, ávido, a garganta trabalhando para acomodar o volume. Sugou com força, ordenhando, extraindo cada gota. Não deixou escapar nada. A língua girou, recolhendo, engolindo até as contrações virarem só um gotejamento suave.
Mesmo assim não se afastou. Manteve Nathan na boca, agora mais macia, e limpou com lambidas lentas.
Só então soltou com um estalo úmido. Um fio de saliva conectou os lábios à glande brilhante. A testa encostou na coxa trêmula.
Nathan estava encostado na parede, peito arfando. As mãos deslizaram dos cabelos de Cael para o rosto, polegares limpando rastros de lágrimas e resíduos pegajosos.
— Deus… — a voz saiu rouca. — Você… você estava…
— Faminto.
Cael aconchegou-se no toque. Um sorriso lento e satisfeito apareceu. Lambeu os lábios, capturando o último resquício.
— Mas acho que você ainda não terminou.
Nathan olhou para baixo. Continuava duro. Um calor estranho borbulhava na barriga. O corpo pedia mais.
— O quê…? Como…?
— Minha boca te deixou assim? Acho que minha saliva ajudou na verdade.
— Sua saliva?
Cael riu, um som baixo e sensual. Ao tocar a pele, a saliva agia como um afrodisíaco. Nas zonas mais sensíveis, o efeito era ainda mais intenso.
A calma profunda e saciada que corria nas veias de Cael era algo precioso, frágil e novo.
Com um movimento rápido puxou Nathan pelos pulsos e o deitou no chão de madeira polida. Os quadris dele começaram a balançar num ritmo lento, ainda saboreando o calor na boca. As mãos de Nathan repousaram na cintura de Cael, firmes e hesitantes ao mesmo tempo.
— Mais — sussurrou Nathan, voz embargada. — Eu preciso de mais. Por favor… ainda estou com tanta fome.
Cael encurtou a distância. A pele tinha a maciez da seda. O cheiro — almíscar e encantamento — fez a resistência de Nathan evaporar.
— Confie em mim.
Guiou as mãos de Nathan até a própria cintura.
Nathan hesitou. O peito subia e descia rápido. A pele brilhava úmida sob a luz.
Cael afastou os joelhos, puxou a camisa pela cabeça. O peitoral liso e definido apareceu, as curvas generosas. Desabotoou o short e o deslizou pelas pernas.
Nathan prendeu a respiração. As dobras suaves e úmidas entre as coxas estavam ali, expostas.
Então a mudança começou.
O cabelo preto clareou até o lilás. Os olhos brilharam — roxo intenso e dourado. Pequenos chifres surgiram na testa, curvando-se para trás. Uma cauda longa e sinuosa enrolou-se na perna. As orelhas ficaram pontudas. Presas brancas apareceram. As unhas viraram garras.
Nathan recuou levemente.
— Eu quero que você use algo melhor do que a minha boca — sussurrou Cael, aproximando-se. — Você não quer me sentir? Não quer estar dentro de mim?
— O que… o que você é?
Cael riu, baixo e rouco.
— Confuso? — Os dedos traçaram a linha do maxilar de Nathan. — Eu sou um demônio. Um íncubo.
— Íncubo… demônio do sexo?
— Isso. A versão masculina.
— Então… porque você…
Nathan olhou para Cael, sua mente tentando processar o que estava vendo. Mas seu corpo ainda respondia ao desejo que queimava dentro dele.
— Você é hétero?
— Não, eu gosto de homens também.
— Hm… então isso deve estar mexendo com você. Eu fui criado artificialmente e quem me criou deve ter misturado os projetos. É minha teoria.
Nathan riu, o que também fez Cael sorrir.
— Mas você me deseja, não é?
Nathan engoliu em seco. A garganta apertou. Os olhos voltaram a explorar cada curva de Cael.
— Sim — respondeu, as mãos agarrando os quadris do íncubo. — Eu quero você.
— Então me alimente — sussurrou Cael, os olhos brilhando. — Você faria isso por mim?
— Sim.
A entrada de Cael já escorria, lubrificando a ereção de Nathan enquanto ele se posicionava.
Nathan soltou uma respiração pesada. Os olhos presos nos dele. Por um instante ficou imóvel, como se decidisse algo. Então os dedos deslizaram devagar pelas coxas, puxando-o para mais perto.
Cael estendeu a mão. Os dedos roçaram o comprimento de Nathan, sentindo-o inchar e firmar sob o toque. Deu uma carícia lenta antes de erguer os quadris.
Com um controle que mal disfarçava o tremor nas coxas, ele se abaixou. A cabeça pressionou a entrada e foi como a primeira vez… Ou melhor.
O gemido de Cael foi baixo. A sensação de ser preenchido empalideceu a visão por um segundo. Ofegou — um som de choque e prazer.
O corpo estava hiper-sensível. Cada saliência, cada curva era mapeada contra as paredes internas com clareza quase dolorosa.
— Você é tão grande… — arfou.
A fome fazia tudo mais intenso. O prazer subiu como uma maré desde o primeiro contato. Cael respirou fundo e afundou mais.
O deslizamento lento foi uma revelação. Profundo. Uma dor plena e deliciosa que se espalhava pela barriga, tocando lugares que pareciam intocados.
Ele gemeu longo e baixo. A cabeça caiu para trás enquanto levava Nathan até a raiz. Os quadris encontraram as coxas dele.
Cheio. Completamente cheio.
Se balançou levemente. O atrito desencadeou uma reação em cadeia. Os dedos dos pés se curvaram contra o chão. Começou a se mover — ritmo surpreendentemente calmo no início. Ergueu-se quase até a ponta escapar, saboreando a penetração, depois cedeu, levando-o fundo outra vez. Mais rápido. Um pouco mais forte.
Nathan observava absorto. As mãos deslizaram pelas coxas de Cael e agarraram os quadris.
— É tão bom… você está tão fundo… consigo sentir tudo…
Os quadris de Cael aceleraram, desesperados. Cada investida enviava choques pela espinha, fazia o clitóris pulsar, os músculos internos se contraírem ao redor de Nathan.
— Estou quase lá — avisou Nathan, a voz tensa.
— Me dê… goze dentro de mim — implorou Cael. O clímax pairava fora de alcance.
As palavras acertaram Nathan em cheio. Os quadris se ergueram. Ele se enterrou o mais fundo possível, o corpo arqueando.
Cael sentiu a primeira convulsão. Um fluxo escaldante o invadiu, pintando as paredes internas, respingando nos recessos mais profundos. O corpo respondeu sozinho, tentando puxar o sêmen ainda mais fundo.
O próprio clímax veio logo em seguida, desencadeado pela invasão.
Enquanto as estocadas de Nathan diminuíam, Cael permanecia sensível. Cada pequeno movimento enviava arrepios. Nathan ainda estava duro, balançando levemente dentro dele. As mãos de Cael repousaram no peito de Nathan, sentindo o coração acelerado.
Finalmente ele se inclinou para a frente, repousando sobre o corpo quente. Suor e fluidos se misturaram.
A consciência caiu como um peso.
Estavam na porta da frente. Com um humano que mal conhecia.
Cael se levantou. O rubor do prazer cedeu lugar à vergonha. As bochechas queimaram. A excitação ainda pulsava sob a pele, agora misturada com culpa.
— Eu… — a voz saiu arranhada. — Me desculpe. Isso não deveria ter sido assim…
Nathan o encarou com um leve franzir de sobrancelhas — não irritação, só dúvida. Antes que Cael pudesse se encolher, as mãos dele subiram devagar e tocaram o rosto do íncubo com uma delicadeza que o imobilizou por completo.
O gesto não tinha pressa. Era terno.
E então veio o beijo.
Nathan levantou-se, com Cael ainda sentado no seu colo, e beijou-o como se estivesse recebendo algo precioso que precisava ser guardado com cuidado.
Não um choque de corpos, não o ardor impulsivo que Cael aprendera a oferecer — mas algo profundamente humano. Um toque cálido e firme, que parecia querer conversar com a boca dele.
Ele ficou imóvel como alguém que não sabe se está sonhando ou sendo enganado. Seu corpo respondeu primeiro com um congelamento súbito; os olhos escancarados demais, a respiração presa num ponto frágil da garganta.
O beijo continuou — suave, paciente. Um convite.
De repente a tensão nas costas se dissolveu. O ar escapou num tremor involuntário. Os lábios cederam, depois responderam num ritmo hesitante, como se ele temesse estragar o momento. Beijou de volta com uma doçura quase tímida.
Seus olhos estavam ligeiramente úmidos, embora ele não percebesse.
Quando se separaram, Cael piscou rápido. Passou a língua pelos lábios, buscando o gosto.
— Por quê…? — a voz saiu baixa, quebradiça. — Por que você fez isso?
Nathan sorriu. Sincero e surpreendentemente calmo.
— Porque eu quis te beijar. Porque eu gosto de você.
As palavras acertaram mais fundo que qualquer toque. Cael soltou um riso seco, sem humor, desviando o olhar.
— Você… está inebriado. Vai passar.
Nathan não esperou. Aproximou-se de novo — lento, consciente — e o beijou outra vez.
Esse segundo beijo não teve hesitação. Foi resoluto.
Cael sentiu o peito apertar de um jeito quase doloroso, como se algo antigo estivesse sendo desenterrado à força — um pedaço antigo de si mesmo que não sabia que ainda existia.
Nathan ainda estava duro, querendo continuar. A realização veio como uma onda. Um calor novo subiu.
veio como uma onda. Um calor novo subiu.
Quando se afastaram, Cael ficou parado. Respirando como quem tentava reaprender um gesto simples. Olhou para Nathan com uma vulnerabilidade que raramente deixava transparecer.
Nathan segurou o rosto dele. Os olhos cheios de uma sinceridade que o íncubo não estava acostumado a ver.
— Você sente isso também?
Cael não respondeu. Em vez disso se inclinou para a frente e capturou os lábios de Nathan de novo — desta vez com mais confiança e necessidade.
Nathan gemeu. As mãos desceram para a cintura de Cael e o puxaram mais perto.
—–
Nathan acordou devagar, como se estivesse emergindo de algo denso demais para ser apenas sono. A luz da manhã atravessava as cortinas em faixas suaves, aquecendo o quarto, mas o corpo dele não acompanhava aquela calma. Havia um peso estranho, uma sensação residual que não se dissipava. Calor, pressão, e fragmentos soltos demais para ignorar. Toques. Um corpo contra o dele. Um beijo intenso demais para simplesmente desaparecer ao abrir os olhos.
Ele fechou os olhos por um segundo, tentando organizar aquilo. Um sonho. Tinha que ser. Um sonho vívido, talvez alimentado pelo cansaço, pelo turno longo, ou pela forma como aquele cara — Cael — tinha olhado pra ele na noite anterior. Nada além disso.
Nathan soltou o ar pelo nariz e virou o rosto contra o travesseiro antes de se obrigar a sentar. Foi então que viu o celular. A tela acendeu assim que ele pegou, revelando o horário. Tarde demais.
— Merda…
O coração acelerou na hora, arrancando o resto do sono. Havia várias notificações. Mensagens. Alex.
Ele abriu a conversa, passando os olhos rápido pelas mensagens acumuladas: perguntando onde ele tinha sumido, se estava bem, por que não tinha aparecido na aula. Nathan passou a mão pelo rosto, ainda tentando encaixar a própria memória em algo coerente. Os dedos pairaram por um instante antes de digitar:
“Apaguei depois do trabalho ontem. Devia estar mais cansado do que pensei. Não foi nada demais, só perdi a hora.”
Enviou.
Deixou o celular cair ao lado na cama, soltando um suspiro mais longo enquanto passava a mão pelo cabelo. Nada demais. Só um sonho estranho.
Ainda assim, quando se levantou, o corpo não parecia totalmente convencido. Havia uma sensação persistente, difícil de ignorar, como se algo tivesse realmente acontecido e só a mente estivesse tentando negar. Ele caminhou até a porta do quarto, abrindo sem pressa.
E então parou.
No meio da sala, havia um corpo.
Imóvel, jogado no tapete como se tivesse caído ali sem cerimônia. Nathan travou, o olhar percorrendo a cena devagar demais, tentando forçar aquilo a fazer sentido. Braços estendidos, pernas desalinhadas, pele exposta. E então os detalhes começaram a se impor.
Os chifres, curvando-se a partir das têmporas com um brilho escuro e quase vítreo. A cauda, relaxada, enrolada de forma solta ao redor da própria perna. E os olhos — fechados, mas não completamente inertes. Havia movimento ali. Vida.
Nathan não se mexeu. Não disse nada.
Porque, naquele instante, qualquer tentativa de chamar aquilo de sonho simplesmente deixou de funcionar.
— Cael…? — disse, a voz saindo num tom esganiçado que ele mal reconheceu.
Silêncio.
Ele se aproximou com cautela, como se estivesse prestes a acordar um animal selvagem ou um funcionário público mal-humorado. Quando se ajoelhou, percebeu que o corpo de Cael estava quente.
— Ei… Cael.
Nesse instante, os olhos de Cael se abriram.
Luminosos. Felinos. E completamente perdidos.
Ele piscou várias vezes, a respiração acelerando. Tentou se levantar, mas os chifres bateram na quina da mesinha de centro, arrancando um “ai” quase ofendido.
— O que…? — a voz dele soava rouca, sonolenta, como se tivesse acordado de um transe. — Como eu… cheguei aqui?
Nathan encarou aquela cena por um longo segundo, o cérebro tentando se conectar com a realidade, como um modem discado tentando acessar um vídeo em HD.
— Não sei! Eu é que devia perguntar isso! — exclamou, jogando as mãos para o alto. — Ontem você me puxou para dentro do seu apartamento! EuAsó estava substituindo meu amigo nas entregas, vim trazer sua encomenda e a gente… Ah, não… — a voz falhou, corando. — Eu não sonhei aquilo!…
— Por que você está gritando?
— Eu não estou… acho. Desculpe.
Cael levou a mão à testa, massageando as têmporas.
— Merda… isso não devia ter acontecido — murmurou, olhando para si mesmo.
Cael piscou mais uma vez, agora com um leve toque de embaraço. A cauda se mexeu discretamente, tentando esconder algo entre as pernas — sem muito sucesso.
Percebeu então que estava em sua forma completa.
— Você é um íncubo! — Nathan apontou dramaticamente, como se só agora estivesse processando o óbvio.
— A gente já estabeleceu isso.
— Eu… dormi com um demônio.
— Tecnicamente, você transou com um demônio. Dormir veio depois. — Cael desviou o olhar, claramente constrangido.
— Isso não tá ajudando.
Cael se sentou, com um leve gemido de dor — o tipo que faria qualquer um corar. A cauda se enroscou nos tornozelos e os chifres brilharam à luz do sol como ornamentos perversos. Ele esfregou as têmporas, como quem ainda estava acordando de um coma energético.
— Oh, meu Deus. E agora? EU Estou amaldiçoado? Eu vou virar uma oferenda? Meu espírito vai ser sugado pelos seus olhos infernais?
Cael o olhou, genuinamente confuso. E um pouco divertido.
— Que tipo de livro de fantasia você anda lendo?
Nathan bufou, passando as mãos pelo cabelo em desespero.
— Isso é sério! Você é um ser infernal! Eu deveria estar em choque. Ou rezando. Ou… ligando para o exorcista!
— Por favor, não chama um exorcista. Eles são péssimos em atendimento ao cliente.
Nathan soltou um ruído indignado, quase um grito abafado de descrença.
— Você está fazendo piada?!
— Eu só estou tentando não surtar, tá? Eu também não sei como vim parar aqui. Minha cabeça está latejando. Eu estava em casa, e então… tudo apagou. — Cael tentou se levantar, cambaleou e caiu de novo, sentando-se no tapete. A cauda enrolou-se ao redor de uma perna, como uma criança tentando se proteger.
Nathan o encarou por um tempo. O demônio. O sedutor. A criatura mágica caída no meio da sala como um gato doente.
— Você quer água? — perguntou, finalmente.
Cael piscou, surpreso.
— Ah. Sim, por favor.
Nathan voltou minutos depois com um copo. Sentou-se ao lado dele, ainda atordoado, e observou Cael beber como se tivesse passado um século no deserto.
— Então, você realmente é um íncubo?
Cael assentiu com um suspiro.
— Sim. E você é um humano adorável.
Nathan ainda tinha um quê de incredulidade nos olhos enquanto se levantava do tapete, as mãos nos quadris e a respiração pesada, como se esperasse acordar a qualquer momento em sua cama com a almofada babada ao lado. Mas Cael estava ali, encolhido no chão da sala, a cauda enrolada numa das pernas, os chifres curvando-se suavemente em direção ao teto — um traço demoníaco que agora lhe parecia… quase melancólico.
Sem dizer nada, Nathan foi até o sofá, pegou o cobertor amassado no encosto e voltou. Ajoelhou-se ao lado de Cael e, com gestos cuidadosos, cobriu seus ombros, deixando o tecido deslizar pelos braços, escondendo sua nudez com a discrição de quem não sabia onde colocar os olhos.
Cael o observou por um segundo, as pupilas felinas estreitas, e depois arqueou uma sobrancelha.
— Você já me viu inteiro… — disse, com um sorriso enviesado. — E ainda assim quer me cobrir? Vai me dizer que está com vergonha agora?
Nathan desviou o olhar, o rosto levemente corado.
— Só achei que… sei lá, você estava vulnerável. Desmaiado no meu chão, parecendo um gato de estimação possuído. Achei que seria… decente.
O íncubo soltou uma risada baixa, mas seus olhos logo perderam o brilho brincalhão. Ele apertou os dedos contra o cobertor, sentindo o calor do tecido contra a pele, mais pelo gesto do que pela temperatura.
— Desculpa pelo que eu fiz. — Murmurou. — Eu estava faminto. E quando fico assim… não penso direito. O cheiro me desorientou. Você estava ali, tão perto… e eu…
— Ei. Tudo bem. — Nathan o interrompeu, com um aceno de mão e um tom que buscava ser firme, mesmo com o coração ainda correndo. — Não é como se eu tivesse resistido.
Cael o olhou de lado, uma expressão mais suave no rosto. A cauda se desenrolou preguiçosamente de sua perna, traçando um padrão lento no tapete, quase como um gesto inconsciente de relaxamento.
— Você tem namorada? — perguntou de repente. — Um namorado, sei lá… alguém?
Nathan franziu a testa, surpreso.
— Não. Nada disso. Nem paquera no momento.
O alívio foi visível. Cael suspirou com certo exagero dramático e recostou-se na parede, os olhos voltados para o teto.
— Ainda bem. Isso seria… complicado. Lidar com ciúmes humanos é uma coisa que aprendi a evitar a todo custo. São piores do que alguns infernais.
Nathan riu, e por um instante o clima ficou mais leve. A estranheza da cena — um demônio coberto com um cobertor de lã azul e um humano ainda tentando aceitar que dormira com uma criatura mitológica — pareceu se dissolver num breve e inesperado momento de intimidade.
— O que você disse antes — Cael começou, virando o rosto para encará-lo. — Sobre… gostar de mim. Era verdade?
A pergunta veio baixa, quase casual, mas havia algo mais por trás dela. Um sutil traço de incerteza. Vulnerabilidade demais para alguém com chifres e olhos que brilhavam como brasas.
Nathan hesitou por um segundo, mas então assentiu.
— Sim. Eu gostei de você. Gosto, quer dizer… ainda estou tentando entender o que você é… mas eu esperava que pudéssemos nos ver de novo.
Cael soltou um riso abafado, balançando a cabeça.
— Você está mesmo sob meu feitiço.
Mas seu sorriso murchou um pouco quando disse isso. Porque ele sabia que aquilo não era verdade. O feitiço devia mostrar ao humano a imagem da pessoa que ele mais desejava — não a realidade. Devia fazer Nathan perder o controle ao vê-la, se entregar como se fosse hipnotizado pela figura ideal do seu desejo.
Mas ele viu Cael. Não uma ilusão. Não uma projeção. Cael. Em sua forma mais crua, faminta e quebrada.
Ainda assim, Nathan o quis.
— Eu gostei de você também. — Cael confessou, mais baixo, a voz deslizando como seda molhada de prazer mal resolvido.
“Gostei do jeito que você me tocou. Do jeito que olhou para mim… como se eu não fosse só um corpo faminto”, completou em pensamento.
Nathan encarou o rosto dele, e viu ali um tipo de verdade que não dependia de feitiço algum.
— E você queria… fazer de novo?
— Eu ainda estou me recuperando. Não costumo desmaiar depois do sexo, sabia? Você é surpreendentemente bom nisso. — Cael sorriu, mordendo de leve o lábio inferior.
Nathan ficou vermelho novamente.
— Eu quis dizer… em algum momento. Quando você não estiver… nu e desacordado no meu tapete.
Cael inclinou-se para a frente, os olhos brilhando com aquele fogo felino e travesso.
— Então vamos combinar uma próxima vez. Mas dessa vez, eu te espero no sofá. Com cobertor e tudo.
Nathan riu, balançando a cabeça, ainda atordoado com tudo aquilo — mas, curiosamente, não com medo.
—–
Arael estava reclinado em sua cadeira, os dedos longos cruzados diante do rosto, os olhos semicerrados diante da penumbra dourada que preenchia o escritório como névoa espessa.
As janelas arqueadas estavam cerradas, mas ainda assim a luz filtrava-se por entre as frestas das cortinas pesadas, tingindo o espaço com tons quentes de âmbar e sangue envelhecido. Havia uma quietude cerimonial naquele lugar, um silêncio que parecia conter vozes adormecidas — memórias enrijecidas no tempo como mármore esculpido.
À sua frente, repousava uma mesa. Sobre ela, entre documentos, havia uma orbe de cristal, alojada em um suporte de metal negro em forma de serpente enroscada.
A luz pulsou.
De início, foi apenas um brilho tênue, como uma vibração mal contida, mas em segundos transformou-se numa onda espessa e viva, que percorreu a superfície da esfera e fez as sombras na sala se curvarem como se tivessem vida própria.
Arael ergueu os olhos. Sua expressão não se alterou de imediato — ele era velho demais para se entregar a reações precipitadas. Mas havia algo no brilho daquela orbe que o desconcertava: uma oscilação que não era apenas energética, mas emocional. Uma carga pulsante, vibrando em ressonância com algo que ele ainda não conseguia nomear.
Ele se inclinou para frente, repousando as pontas dos dedos sobre a superfície lisa da esfera. Sentiu o calor. Sentiu a fome. Sentiu o prazer. E algo além.
— Caelus… — murmurou, sua voz grave e baixa como o rumor de uma corrente subterrânea.
Fazia mais de um século que Caelus estava na Terra. Para qualquer um da corte inferior, cem anos seriam uma vida inteira. Mas para Arael, era pouco mais que um batimento de coração.
Ainda assim, aquilo… aquilo não era comum.
A porta diante dele rangeu, discreta. Arael sentiu a presença da outra entidade antes mesmo de ela entrar.
— Você sentiu também? — Perguntou ele, sua voz sem pressa, carregada de algo que se parecia com uma suspeita discreta.
— Sim. — Respondeu a mulher que surgiu à sua direita. Alta, esguia, com uma beleza aguda como lâmina recém forjada. Os olhos dela não tinham cor, apenas reflexos. O vestido era negro como carvão polido, e movia-se em torno de si como se respirasse.
Chamava-se Lilithen — e poucos ousavam pronunciar seu nome sem uma camada de reverência.
— Ele nunca havia coletado tanta energia de uma só vez. — Continuou ela, aproximando-se da mesa.
Arael passou a língua pelos lábios, lentamente. Ainda tocava a orbe, mas agora com mais firmeza.
— Há algo errado… Isso não é apenas fome saciada. É… uma quebra de padrão.
— Emoção?
— Talvez.
Lilithen arqueou uma sobrancelha, apenas o suficiente para mostrar o quanto aquilo a incomodava.
— Ele foi criado para seduzir, para se alimentar do desejo de outras criaturas. E com o seu selo no pescoço, parte da energia que ele colhe nem é dele. Se ele está criando laços afetivos, isso compromete tudo.
— Ou acelera… — murmurou Arael, finalmente retirando a mão da esfera. Ela ainda brilhava. Vibrava em tom grave, como um coração batendo sob o vidro.
— O que quer dizer? — Ela cruzou os braços, as unhas curvadas como garras escondidas.
— Emoção é energia. Ligação emocional, então, é um nó, um ponto de pressão. Pode ser fraqueza, mas também pode ser uma alavanca. — Ele se levantou, alto e esguio. — Se Caelus está se prendendo a alguém, isso pode ser usado. Ou pode destruí-lo por completo, caso saia do controle. O selo no pescoço dele permanece. A energia que ele coleta ainda chega até mim. Mas… ele tem agido de forma instável.
Lilithen caminhou até a outra extremidade da mesa. Seu olhar se fixou na esfera.
— Instável como?
— Ele… resistiu.
Lilithen encarou Arael com mais atenção agora.
— Isso não deveria ser possível.
— E, no entanto, aqui estamos. — Arael se virou, os passos lentos, as mãos cruzadas nas costas. — Talvez… a matéria que usamos não fosse tão inerte quanto julgamos. Talvez a alma que se formou naquele corpo seja mais do que um mero acidente.
O silêncio caiu denso por alguns segundos. A orbe, agora menos intensa, ainda lançava pulsos de luz. Como se o eco do que quer que tivesse ocorrido ainda vibrasse entre planos.
— Você se apegou muito a ele. — Acusou Lilithen, embora sua voz não tivesse raiva. Apenas uma análise afiada.
Arael não respondeu. O olhar fixo na estante à frente, onde livros de pergaminho ardiam em palavras invisíveis.
— Caelus foi o único experimento viável. O único que sobreviveu, o único que aprendeu. Ele carrega minha essência. E agora… algo o tocou. Algo o desestabilizou. Um humano, talvez.
— Vai interferir?
Arael se virou lentamente. Um sorriso seco apareceu em sua boca, sem alcançar os olhos.
— Ainda não. Quero ver até onde ele vai por vontade própria.
— E se ele quebrar?
Arael se aproximou novamente da esfera, os dedos roçando o cristal com delicadeza.
— Então reconstruiremos com as cinzas.
Mas em sua voz havia algo mais. Uma nota tênue de dúvida. De… fascínio. Porque, no fundo, mesmo Arael — o mestre, o criador, o calculista — sabia que algo havia saído do previsto.
E parte dele queria ver onde isso terminaria.
Capítulo 1
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Doce Inanição
Nathan jamais esperou encontrar o amor na forma de um íncubo. Muito menos descobrir que ele tinha um lado doce, um senso de humor duvidoso e uma tendência incorrigível a usar lingerie como forma...