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Doce Inanição

Capítulo 4

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🟡 Em breve

As risadas abafadas do homem ao seu lado ecoavam de forma dissonante no corredor estreito, ricocheteando nas paredes com um entusiasmo que não era compartilhado por Cael. Os passos deles ritmavam sobre o carpete gasto do prédio — passos ansiosos de um lado, passos contidos do outro. O outro homem — jovem, bonito, atraente de um jeito genérico e funcional — mantinha a mão apoiada na cintura de Cael, como se já fosse íntimo. E, de certa forma, era. Pelo menos o suficiente para não fazer perguntas.

Era esse o tipo de humano com quem Cael estava acostumado: olhos fáceis, desejos prontos, nenhuma resistência.

Seu plano era simples. Levar o homem até o apartamento, conduzir o jogo até o ponto de extração e sair dali saciado o suficiente para apagar qualquer lembrança residual do cérebro do rapaz. Sem traumas, sem rastros.

Era assim que fazia. Era assim que funcionava. Mas hoje… algo estava fora de lugar.

O cheiro do humano era doce demais, quase artificial. Perfume em excesso. Desejo em excesso. Mãos que tocavam como se soubessem — e isso o incomodava mais do que deveria. Cada vez que os dedos deslizavam por sua cintura ou nuca, Cael sentia como se passassem por um tecido que já não lhe pertencia. Como se a pele sob o toque não fosse mais dele. Como se aquele corpo — que sempre fora sua arma, seu artifício — tivesse adquirido um novo propósito. Um que ele ainda não compreendia.

O apartamento estava a poucos metros. A porta de madeira, simples e despretensiosa, iluminada pela luz amarelada do teto, parecia agora um símbolo. Uma fronteira. A linha tênue entre o que ele era e o que fingia continuar sendo.

O homem riu de novo, aproximando-se, os lábios buscando sua pele.

— Você sempre é assim… quieto? — murmurou, puxando Cael pela camisa. — Achei que fosse mais… intenso.

Cael não respondeu. Não precisava. Curvou-se em direção ao homem, oferecendo o toque certo, o olhar certo, os feromônios precisos para fazê-lo esquecer que não era ele quem conduzia a situação.

— Vai me deixar entrar… ou prefere continuar no corredor? — provocou o homem, os dedos alcançando o botão da calça de Cael.

Cael sorriu. Um gesto automático, ensaiado. Mas seus olhos não acompanharam o brilho do sorriso.

— Só um segundo. — A voz saiu baixa, mas firme o suficiente para fazer o outro hesitar.

Ele tocou o peito do homem com dois dedos apenas. A energia correu leve, como uma brisa — não invasiva, apenas o bastante para induzir um torpor tênue.

O humano vacilou, os olhos enevoados, os ombros relaxando sob o toque encantado. Cael já ia alcançar a chave no bolso quando a porta metálica do elevador se abriu no fim do corredor.

Nathan surgiu ali. Carregava uma sacola com um saco de café pendendo de lado, o paletó jogado no ombro. Seus olhos foram direto para Cael. Depois, para o homem ao lado.

O silêncio que se instalou foi curto. Mas cortante.

O humano, ainda sob o efeito suave do encanto, olhou para Nathan com uma expressão vaga, sem reconhecer nada além de um obstáculo inesperado. Cael, porém, sentiu o impacto como um soco seco no peito — não pela presença, mas pelo modo como Nathan o olhava. Não havia grito. Nem raiva. Apenas… decepção.

Nathan se aproximou. O silêncio dos passos contrastava com a tensão que se adensava entre os três.

— Algum problema aqui?

— Não, claro que não. — Cael sorriu, forçando leveza, embora a cauda enroscada no tornozelo o denunciasse. — Só fazendo caridade. Alimentando um perdido.

Nathan lançou um olhar breve ao rapaz, depois voltou para ele.

— Na porta da minha casa?

Cael hesitou. A familiaridade da frase o cortou como gelo. Minha casa. Não nossa. Não depois daquilo.

— Eu… não achei que você fosse voltar tão cedo — murmurou, abaixando os olhos antes de encará-lo de novo, com um biquinho quase teatral. — Podia ter mandado mensagem. Eu estava no meio de uma coisa importante. Alimentação é autocuidado, sabia?

Nathan largou as chaves no aparador e apontou para dentro.

— Vai entrando. E leva sua “coisa importante” pra casa dele.

O homem piscou, confuso, como se só agora percebesse a tensão real no ar. Cael suspirou, virou-se para o rapaz e sussurrou uma última sugestão, encerrando o encanto com um gesto sutil.

— Pode ir.

O humano desapareceu no corredor. Nathan esperou até que o som dos passos sumisse por completo antes de abrir a porta com um clique seco.

— Você não devia ter interrompido — murmurou Cael, largando-se no sofá com uma dramaticidade irritadiça. — Eu estava tão perto…

Nathan encostou-se à parede da sala, cruzando os braços. O olhar firme. Nenhum traço de humor.

— Sem mais visitas sexuais aqui. Essa é a nova regra.

Cael o encarou por um momento, boquiaberto. Depois riu, quase ofendido.

— Você não pode estar falando sério.

— Eu estou — disse Nathan, aproximando-se. Apoiou as mãos no encosto do sofá e o encarou de cima. — Você quer sair, se alimentar, fazer o que tiver que fazer, tudo bem. Mas não traga pra cá. Essa é a nossa casa agora, Cael. Eu divido esse espaço com você. O mínimo que espero é que ele seja respeitado.

Havia algo no tom de Nathan que era mais grave do que qualquer ciúme. Não era posse — era um limite. Claro. Nítido. Algo que ninguém jamais ousara impor a Cael antes, exceto seu mestre, claro. E, por um segundo, ele não soube como reagir.

Então piscou, fazendo o biquinho crescer em desafio.

— Nossa casa, hein? Que declaração mais… fofa. — Ele deslizou os dedos sobre o encosto do sofá, deixando a ponta da unha arranhar levemente. — Você está com ciúmes?

Nathan riu, mas o som foi curto, frio.

— Isso não tem nada a ver com ciúmes. Tem a ver com respeito. — Ele se afastou, andando em direção à cozinha.

Cael o observou se afastar, os ombros tensos, os passos decididos. A sombra da rejeição cintilou por trás de seus olhos, tão familiar quanto a própria fome. Levantou-se lentamente, os saltos altos tocando o chão com um ritmo suave e ritmado. Cada movimento era estudado — um retorno à persona que conhecia melhor do que a si mesmo.

— Você está mesmo bravo? — A voz de Cael deslizou pelo ar como seda, carregada de doçura venenosa.

Nathan abriu o armário e pegou um copo, sem se virar.

— Estou impondo um limite.

— Que palavra feia. — Cael deu mais um passo, e então outro, o som sutil dos saltos se misturando ao tique-taque do relógio na parede. — E você sabe o que acontece com quem tenta limitar um íncubo?

Nathan finalmente se virou, o copo ainda na mão — mas a expressão não era a que Cael esperava. Nada de fascínio imediato, nada de desejo rendido. Apenas atenção. Como se observasse um animal que podia morder.

Cael, no entanto, não recuou. Em vez disso, os dedos encontraram o fecho do robe que usava. Um gesto lento, preguiçoso, quase distraído — e então o tecido escorregou por seus ombros, revelando a pele quente, marcada com sombras sutis e o brilho de um óleo discreto, que acentuava cada linha do corpo.

O que se via ali, por um instante, era apenas seu corpo envolto por uma peça de lingerie escura — tecido translúcido, tiras justas e provocantes, claramente escolhida para uma noite que não terminara como ele previra. Cada centímetro seu exalava intenção. Era um quadro erótico, desenhado para provocar.

Mas então algo mudou.

O cabelo escuro dissolveu-se no ar, assumindo o tom de lavanda profunda, crescendo até ultrapassar os ombros com a leveza de uma seda etérea. A pele tornou-se mais pálida, quase translúcida, refletindo a luz com um brilho sobrenatural, como mármore sob a lua. E os olhos — ainda heterocromáticos — cintilaram ao se revelarem em novas cores: um dourado intenso, como âmbar líquido, e o outro, um roxo profundo, quase hipnótico.

As orelhas afinaram-se, alongando-se em pontas elegantes, enquanto os olhos se tornavam verticais, lembrando os de uma serpente. Quando abriu levemente os lábios, as presas se revelaram com discrição, brancas e letais. A língua bifurcada passou pelos dentes, lenta, como um lembrete venenoso de sua natureza. Garras substituíram as unhas, longas e curvas, com um brilho lustroso. A cauda surgiu por trás, sinuosa, equilibrando o movimento do corpo com um toque felino, uma ameaça sutil que se arrastava sobre o chão com o peso de séculos.

Cael estava ali — mas não como antes.

Era mais que humano, mais que sensual: era um lembrete antigo, esculpido na carne e desejo, de que o belo nem sempre era seguro. Havia algo hipnótico naquela transfiguração, como a dança de um incêndio que devora sem pressa.

E ainda assim, mesmo em sua forma verdadeira, cada gesto seguia envolto pela mesma languidez calculada. Como se o inferno usasse perfume e se vestisse para impressionar.

Por baixo das roupas, ele usava uma peça de lingerie escura — tecido translúcido, tiras justas e provocantes — claramente escolhida para a noite que não terminara como ele previra. Cada centímetro dele gritava intenção. Era um quadro erótico, desenhado para provocar.

Nathan virou apenas o rosto — e foi o suficiente.

Seu queixo caiu meio centímetro.

— O quê… — pigarreou, desviando os olhos —, o que é isso?

— Um presente visual. — Cael sorriu, caminhando até o balcão. Apoiou um cotovelo na pedra, arqueando a coluna para acentuar o contorno do corpo. — Eu estava vestindo isso pra outro homem. — Parou na soleira da cozinha, inclinando-se contra a parede. A voz suavizou, ganhando aquele tom mais baixo, carregado de promessas não ditas. — Mas, já que você está bravo, acho que merece uma distração.

— Isso é… — Nathan esfregou os olhos com a mão. — Isso é completamente inapropriado.

Nathan colocou o copo na pia com um leve estalo. Cael inclinou a cabeça para o lado, os olhos faiscando.

— Vamos, diga… Só um pouquinho. Estou lindo, vai. Você não precisa mentir.

— Você é lindo. E insuportável.

— Aceito.

Cael deu a volta no balcão, seus saltos fazendo um som suave no piso de madeira. Parou atrás de Nathan, a distância entre eles preenchida por uma eletricidade tênue.

— Quer saber o que fiz com o homem com quem saí hoje?

Nathan manteve a postura, mas a tensão na mandíbula era evidente. Cael inclinou a cabeça, os cabelos caindo para o lado.

— Quer saber para onde fomos? — Suas mãos escorregaram até a lateral do corpo, prendendo-se às tiras da lingerie. — O que ele tocou… ou o que não pôde.

— Cael. — A voz de Nathan cortou o ar, baixa, tensa.

— Você pode dizer “não”. — Cael se aproximou mais, os lábios quase tocando o pescoço de Nathan. — Mas então vai passar a noite se perguntando se deveria ter dito “sim”.

O silêncio entre eles se esticou como um fio de prata prestes a romper.

Nathan, com as orelhas em chamas, abriu a boca para retrucar — mas Cael deu um passo à frente e tocou de leve sua camisa. Apenas os dedos, como se testasse os limites do que podia ser dito sem palavras.

— Você é tão… fofo.

— Isso foi um elogio?

— Foi o melhor elogio que um íncubo pode dar a um humano estando com tesão, depois de ser proibido de transar.

Nathan bufou uma risada curta. E então, numa atitude impulsiva, estendeu a mão e puxou Cael pela cintura — não para beijá-lo, mas para envolvê-lo num abraço desajeitado e quente, o rosto escondido no ombro do outro.

— Só… se lembre do que eu disse, tá? Sem mais parceiros sexuais aqui — murmurou.

Cael repousou o queixo no ombro dele e, pela primeira vez naquela noite, não havia nenhum jogo em sua voz.

— Tudo bem. Só… não me peça pra não te querer.

Nathan apertou os braços em torno dele, mas não respondeu.

A campainha interrompeu o momento. Nathan se levantou com um suspiro contido e pediu que Cael se vestisse enquanto ia atender. Demorou mais do que o esperado. Do sofá, Cael conseguiu ouvir a conversa abafada com uma garota — havia familiaridade na voz de ambos, uma intimidade que incomodava.

Quando Nathan retornou, carregava uma caixa de transporte.

Um som abafado veio do interior da caixa, já repousada no chão, e só então Cael percebeu sua presença.

— Isso é um gato? — A pergunta veio arrastada, carregada de um incômodo que contrastava com a suavidade habitual de seu tom.

Nathan levantou o olhar.

— Sim, é o meu gato. Estava na casa da minha irmã por um tempo.

Cael se encolheu sob o cobertor, sentando-se de pernas cruzadas sobre o sofá, como se a simples presença do animal tivesse acionado algum alarme ancestral. Ergueu o queixo em desafio — embora a expressão lembrasse mais uma criança prestes a recusar legumes do que um ser com séculos de existência.

— Você devia ter me avisado — disse, num tom entre o ferido e o ultrajado. — Isso é demais pra mim, Nathan. Demais.

Nathan arqueou uma sobrancelha.

— Demais? É um gato. Não um exorcista.

— Gatos sabem, Nathan. Olham dentro de você, julgam e depois tentam te matar enquanto você dorme. — Cael apontou com firmeza, como se a criatura fosse uma ameaça cósmica.

Nathan soltou uma risada curta.

— Isso é ridículo. Vincent é tranquilo.

Vincent, impassível, lambeu a pata e se acomodou na almofada mais próxima, completamente alheio ao drama existencial que se desenrolava diante dele.

Nathan revirou os olhos.

— Vou para o meu quarto — anunciou com dignidade afetada. — Quando esta casa for segura para seres não felinos, me avise. Até lá… estarei recolhido.

E sem mais palavras, saiu da sala com passos curtos e indignados, envolto no cobertor como se fosse uma toga dramática. A cauda — visivelmente contrariada — se arrastava atrás dele com um balançar preguiçoso. A porta se fechou com um clique suave: a última palavra de sua birra teatral.

Nathan ficou por alguns segundos parado, braços cruzados, o olhar fixo na porta. Depois olhou para Vincent, que ronronava satisfeito na almofada.

— Você nem fez nada — murmurou. — Mas parabéns. Acho que encontrou o calcanhar de Aquiles dele.

O gato apenas se espreguiçou, indiferente, como se dissesse que já sabia disso o tempo todo.

Nathan sorriu, balançando a cabeça. Pela primeira vez em muito tempo, o peso dos dias pareceu um pouco mais leve.

 

—–

 

O quarto de Nathan estava mergulhado em uma penumbra amena, cortada apenas pela luz morna do abajur sobre a escrivaninha. Livros abertos se empilhavam como pequenas fortalezas de papel, e o som seco do lápis riscando uma folha preenchia o silêncio disciplinado que ele cultivava sempre que precisava se concentrar. O mundo, naquele instante, parecia reduzido ao foco estreito das palavras impressas — até que um movimento sutil sob a mesa capturou sua atenção.

Nathan franziu o cenho, inclinando-se para o lado. A princípio pensou que fosse Vincent, mas então reconheceu a forma esguia de Cael, encolhido com os joelhos abraçados contra o peito, envolto apenas em uma camiseta comprida e meias. Seus olhos dourados, normalmente brilhantes com ironia ou desejo, agora brilhavam com algo muito mais mundano: puro desconforto.

— Cael? — Nathan ajeitou os óculos no rosto, a voz baixa, quase incrédula. — O que você está fazendo aí?

— Você trouxe um gato para casa, o que queria que acontecesse? — murmurou Cael, como se a resposta fosse tão óbvia que sequer merecia ser dita.

Nathan piscou, tentando manter a seriedade. Havia algo absurdamente cômico em ver um íncubo que enfrentara criaturas que ele sequer ousava nomear, agora comprimido debaixo de uma mesa como uma criança amedrontada com trovões.

— E não podia se esconder no seu quarto?

— E por que eu faria isso, se posso ter companhia aqui? — Cael ergueu o queixo com uma dignidade precária, como se tentar justificar a própria covardia fosse um exercício de charme.

Nathan suspirou, voltando os olhos para a folha à sua frente, mas era difícil manter o foco com o peso suave do olhar de Cael fixo em sua perna. Por um instante, imaginou o que passava pela cabeça dele — não o jogo constante de provocações e insinuações, mas aquele lado estranho, quase ingênuo, que aparecia raramente, escondido sob camadas de sedução ensaiada.

— Você não pode ficar aqui, Cael. Eu preciso estudar.

— Eu prometo que vou ficar quieto — disse, já acomodando melhor a cabeça sobre os braços, como se se preparasse para um longo exílio.

Nathan balançou a cabeça, ainda sem olhar diretamente para ele, mas o canto de sua boca denunciava o esforço para conter o sorriso. Era ridículo — e ainda assim, inesperadamente adorável.

— Um gato? Isso é o seu limite?

— Gatos são o cúmulo do desrespeito silencioso. Você olha pra eles e já está condenado. Eles te ignoram. Te desprezam. São como… como versões peludas do meu criador.

Nathan não riu. Havia algo genuinamente vulnerável em Cael — algo que ia além da graça do momento. Talvez não fosse medo, exatamente. Mas um desconforto sincero, raro nele. E isso mexeu com Nathan, de um jeito que ele não esperava — uma ternura quieta que se insinuava no peito.

— E eu achando que você era a criatura sobrenatural aqui.

— Eu sou. — Cael resmungou, sem se mover. — Mas isso não significa que eu seja imune ao julgamento de uma bola de pelos.

Nathan voltou a escrever, deixando que o silêncio entre eles se estendesse, confortável e denso. Ele podia sentir os toques sutis — a respiração quente contra sua coxa, o ocasional roçar dos cabelos escuros no tecido da calça, a forma como Cael parecia se acomodar cada vez mais próximo.

Por mais estranho que fosse, não era intrusivo — era como uma presença que ele, de alguma forma, havia começado a aceitar.

A caneta deslizou mais algumas linhas até Nathan fazer uma pausa, apoiando a testa na mão. De vez em quando, sentia o leve roçar do cabelo de Cael contra sua perna.

O tempo escoava devagar, como se a presença dele sob seu pequeno esconderijo, alterasse o ritmo natural das horas.

Vencido por uma distração que beirava o afeto, Nathan cedeu à vontade involuntária e levou a mão aos fios sedosos que se espalhavam pelo seu colo. Seus dedos deslizaram lentamente por eles, notando a forma como o íncubo reagia — o corpo antes tenso, agora quase derretendo sob o toque.

Era irônico. Para alguém que alegava temer um gato, Cael estava agindo exatamente como um.

— Você percebe que está se comportando como um gato, certo? — murmurou, sem tirar os olhos da página, embora um leve sorriso puxasse os cantos de sua boca.

— Isso é injusto — veio a voz abafada sob a mesa. — Os gatos são indiferentes e traiçoeiros. Eu sou… afetuoso e honesto com meus desejos.

— Ah, claro. E absolutamente despretensioso também.

A resposta veio em forma de um leve riso, que fez o corpo de Cael vibrar contra sua perna.

— Ei, me dá um beijo?

As sobrancelhas de Nathan se ergueram.

— Não. — Respondeu, virando a página lentamente.

— Porque não?

— Você quebrou as regras.

— Regras?

— Você não pode invadir meu quarto assim. Esse foi o acordo. E a presença de Vincent não muda isso.

Cael suspirou de forma exagerada, rolando os olhos como um adolescente frustrado.

— Eu só queria um abrigo neutro, não estou nem com tanta fome assim. — Ele afundou o rosto de novo contra a perna de Nathan, como se isso encerrasse o assunto.

— Então não precisa de um beijo. — Retrucou Nathan, divertido.

— Não, mas eu quero. É diferente. — A voz dele agora saía em um tom quase manhoso.

Nathan soltou uma risada baixa, finalmente largando o lápis e cruzando os braços.

— Se eu te beijar, você fica quieto?

— Sim. Eu prometo. — Cael ergueu a mão como quem fazia um juramento solene.

Nathan observou o rosto dele por alguns segundos. A expressão era brincalhona, mas havia algo naquele pedido — algo genuinamente simples. Não a fome insaciável de um íncubo caçando energia. Só o desejo quase humano por proximidade.

— Tá bem — disse por fim. — Só um.

Antes que completasse a frase, Cael já se movia. Deslizou para fora do esconderijo sob a mesa e se colocou suavemente no colo de Nathan. As mãos quentes tocaram o rosto dele com uma reverência inesperada, embora tremessem levemente; como se ainda não acreditasse que podia tocar daquele jeito.

Sua respiração se acelerou quando os lábios de Nathan ficaram a centímetros dos seu. Houve hesitação — não por medo, mas pela estranheza de ser desejado.

Isso é loucura… Eu não deveria gostar tanto disso…

Os lábios se encontraram num toque simples e curioso.

As mãos de Nathan encontraram a cintura de Cael e o puxaram para mais perto. O íncubo não resistiu ao impulso de sugar o lábio inferior, como se quisesse provar cada suspiro. A língua bifurcada deslizou para fora, tímida a princípio, depois se enroscou na de Nathan com precisão instintiva.

Eu nunca entendi por que os humanos se beijam tanto. Até agora… Agora eu entendo… Cada toque dos seus lábios queima mais do que qualquer energia que eu já absorvi. Isso é perigoso.

O gosto quente, doce e intoxicante o fez gemer baixinho.

Nathan se deixou afundar. A mão deslizou pela nuca de Cael, puxando-o ainda mais perto. Havia algo nos beijos dele que desarmava — habilidade sobrenatural misturada a uma sinceridade improvável.

Não restou espaço para pensamentos. Só sensações.

Isso é ruim… muito ruim. Minha mente está em branco. Só consigo sentir a boca dele. Se ele parar agora, eu vou implorar. Não. Não posso implorar por um beijo… seria patético.

Quando se afastaram, Cael ainda mantinha os olhos fechados. Os lábios, levemente inchados, tremiam. Ele os tocou com a ponta dos dedos — um gesto rápido, como se precisasse confirmar que aquele beijo tinha sido real.

Mas a verdade explodiu fundo demais para ser disfarçada.

Cael se ajeitou e escondeu o rosto no ombro de Nathan. Uma tentativa falha de esconder o quanto aquele beijo o deixara faminto de um jeito dolorosamente humano.

Nathan permaneceu em silêncio, tentando recuperar o equilíbrio que o beijo arrancara de sua alma. O cheiro de pele e desejo no ar dificultava respirar normalmente.

— Ah… que droga.

Ele travou por um segundo, levando a mão ao rosto e refletindo sobre a burrada que cometeu.

Cael não precisou olhar diretamente para confirmar. Sentiu as mudanças sutis, a tensão e o calor que se acumulava.

Ele está tentando ignorar… mas eu sinto o coração dele acelerado. Se eu mexer um pouco os quadris, ele vai ceder… eu quero sentir ele.

— Hm… — murmurou contra o ombro, a voz baixa e divertida. — Você é realmente sensível…

Nathan fechou os olhos com força.

— Cala a boca. — Respirou fundo. — Você me enganou.

Cael ergueu o rosto, apoiando o queixo no ombro dele, observando de perto, claramente satisfeito.

— Enganei? — repetiu, inocente demais. — Eu pedi um beijo. Você aceitou.

— Você sabia — Nathan respondeu, ainda com a mão no rosto. — Sabia exatamente o que ia acontecer.

O sorriso de Cael se alargou.

— Só percebeu depois de me pegar de jeito.

— Eu não fiz nada.

— Tem razão — corrigiu ele, com um brilho nos olhos. — Isso vem depois.

Nathan soltou o ar, passando a mão pelo rosto de novo, dessa vez mais devagar. A vergonha ainda estava ali, mas agora vinha misturada com outra coisa — irritação leve, e uma consciência incômoda do próprio corpo.

Havia se esquecido completamente o que a saliva de incubo causava.

— Você não está jogando limpo…

O sorriso irônico voltou aos lábios de Cael enquanto os dedos deslizavam pelo peito de Nathan.

— Nunca disse que jogaria limpo.

O aperto na cintura se intensificou. Os olhos semicerrados.

— Você prometeu que me deixaria focar.

— Prometi ficar quieto. Nunca disse que ia facilitar sua concentração. — Ele se inclinou, os lábios roçando a orelha de Nathan num sussurro quente. — Você está duro. É minha culpa?

As bochechas de Nathan arderam. Um arrepio percorreu a espinha.

— Claro que é culpa sua!

— Então deixe que eu ajude. Você não vai conseguir estudar desse jeito.

— Você é um maldito pervertido.

— Mas você gosta de mim — ronronou Cael, os lábios deslizando pelo maxilar.

A respiração de Nathan tropeçou. O corpo se inclinou ao toque como se fosse inevitável.

Não aguento mais só beijos…

— Então me deixa cuidar de você. Só um pouquinho.

Os olhos de Nathan se fecharam. Qualquer resistência se dissolveu.

— Tudo bem — sussurrou, quase inaudível.

O sorriso de Cael se alargou, satisfeito. As mãos já se moviam para a calça.

Corando, as mãos de Nathan agarraram a beirada da mesa, tentando manter algum controle. Mas era inútil. Cael já estava ajoelhado à sua frente, as mãos repousando com suavidade provocadora sobre suas coxas.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa — não que pretendesse impedir — o íncubo deslizou os dedos por sua calça, desatando a corda e puxando para baixo.

O pênis de Nathan saltou, rígido e úmido. Cael prendeu a respiração ao vê-lo.

— Tão bonito… — murmurou, a voz pesada de admiração, como se fosse um segredo revelado só a ele.

Ele não o agarrou imediatamente.

Levantou a mão e acariciou o comprimento com a palma, sentindo o calor e a dureza sob os dedos. Depois inclinou-se.

A língua bifurcada deslizou para fora, tímida a princípio, traçando o contorno. Os lábios se fecharam em torno da ponta e sugaram suavemente o líquido pré-ejaculatório.

A língua se enroscou ao redor do comprimento com uma habilidade ao mesmo tempo sobrenatural e íntima. A ponta de uma bifurcação deslizou pela veia pulsante. A outra traçou círculos lentos na base.

As costas de Nathan se arquearam, sua respiração se tornando ofegante, errática, enquanto era explorado com uma habilidade que o fazia tremer.

As ações de Cael eram um ritual de adoração.

— Isso… Cael… — murmurou, a voz trêmula, embriagada de prazer.

íncubo se afastou por um breve instante, ainda com os lábios envolvendo-o, os olhos fixos nos de Nathan — havia neles uma mistura de brincadeira e ternura.

Sem esperar resposta, voltou o ritmo. Mais fundo.

Só um pouco… se eu me tocar só um pouco…

A mão livre deslizou pelo próprio abdômen, o toque quase reverente seguindo o contorno dos músculos tensos. Quando alcançou a roupa íntima, moveu-a só o suficiente para alcançar o piercing.

Tocou de leve. Depois puxou.

O pequeno som que escapou da garganta — abafado e doce — pareceu incendiar o ar.

Os dedos encontraram a própria umidade. O corpo reagindo como se o prazer que dava e o que recebia fossem a mesma coisa. Abriu-se com cuidado. A respiração falhou quando a carne pulsante se mostrou. Os quadris começaram a se mover, buscando um atrito que não chegava.

Não consigo controlar… meus quadris não param. Só de sentir ele na minha boca já estou tão molhado. Isso é patético… mas não consigo parar. Preciso de mais…

— Cael… — arfou Nathan, num fio de voz entre urgência e desespero.

Cael ergueu os olhos e o soltou com um estalo úmido. O sorriso era enviesado.

— Quer que eu pare?

— Perguntou, a voz rouca, carregada de desejo.

Nathan balançou a cabeça, frenético. Os dedos apertaram ainda mais os fios de Cael.

— Não… não pare, Cael…

O sorriso do íncubo se ampliou.

Sem dizer mais nada, Cael o engoliu de novo, mais fundo. A garganta se fechou ao redor da cabeça sensível, coletando o líquido que se acumulava. Os movimentos tão precisos que tiravam qualquer pensamento coeso.

Os dedos do íncubo deslizaram para dentro de si num gesto lento, cuidadoso. O som úmido foi abafado pela boca ocupada, mas o tremor que percorreu o corpo entregou o impacto.

Estava apertado, quente, faminto.

A pressão interna o fez gemer contra Nathan, e o som vibrou direto nele, intensificando tudo.

A língua se tornou mais ousada. Traçou um caminho que arrancou de Nathan uma rajada de ar, quase um lamento.

O gosto dele… é intoxicante. Minha mente está em branco. Só consigo pensar em como é bom tê-lo aqui. Se eu sugar mais fundo, ele vai gemer de novo. Quero ouvir isso… Quero que ele goze.

Cael acelerou o toque no clitóris. Os gemidos ficaram mais altos, mais desordenados, enquanto curvava os dedos até encontrar aquele ponto que o fazia perder o fôlego.

A garganta se apertou ao redor de Nathan, como se o próprio prazer o fizesse perder o controle por um instante. Um tremor percorreu o corpo. A sucção se tornou mais intensa, quase desesperada, como se quisesse arrastar Nathan consigo para aquele abismo.

O orgasmo de Cael chegou de forma súbita. Selvagem. Não veio — rompeu.

Uma onda quente escorreu pela mão, pelas roupas. O corpo se arqueou num tremor profundo e involuntário. O aperto na garganta intensificou-se, como se o prazer o fizesse devorar Nathan por instinto.

Eu gozei… só por ele estar na minha boca. Isso é tão bom… mas não é suficiente. Quero mais. Quero que ele dentro de mim.

Cael engoliu Nathan com mais profundidade, como se quisesse sugar cada gota de prazer dele também. Um gemido abafado vibrou na garganta, transmitindo-se pela pele hipersensível.

Nathan sentiu seu limite ruir de uma vez.

— Cael, eu vou…

A frase se dissolveu num gemido rouco e contido. O clímax o atingiu em cheio. O corpo estremeceu. A liberação escorreu pela garganta de Cael.

O íncubo engoliu cada gota, ainda o provocando gentilmente enquanto o deixava passar por tudo. Um gemido baixo e contínuo de satisfação vibrava contra a pele.

Quando a onda finalmente recuou, Nathan estava exausto. Os pulmões buscavam ar entre suspiros descompassados.

Cael se afastou com lentidão. Lábios vermelhos e úmidos. Olhos brilhando com algo mais do que simples satisfação.

Nathan o encarou, os dedos ainda entrelaçados em seus cabelos. O coração trovejando no peito.

Cael sorriu, suave. Os olhos levemente lacrimejantes e tensos. Os dedos deslizavam pelas coxas de Nathan, buscando reconforto naqueles músculos ainda trêmulos.

A cabeça permaneceu apoiada na coxa. A língua estendida capturou as últimas gotas que escorriam. O sabor doce e quente o fez fechar os olhos por um instante, saboreando não só o líquido, mas a essência do desejo que ainda pulsava no ar.

Ele já está acabado… não vai aguentar mais. Vou precisar do meu vibrador extra grande hoje… E da próxima vez, vou trabalhar na resistência desse humano.

Capítulo 4
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Doce Inanição

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Nathan jamais esperou encontrar o amor na forma de um íncubo. Muito menos descobrir que ele tinha um lado doce, um senso de humor duvidoso e uma tendência incorrigível a usar lingerie como forma...

Chapters

  • Vol 1
      • Capa
        Capítulo 18 Uma Tarde Na Praia
      • Capa
        Capítulo 17 Pais, esse é Meu Namorado Incubus
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        Capítulo 16 De Onde Vim, Afinal
      • Capa
        Capítulo 15 O Presente Perfeito Para o Aniversariante
      • Capa
        Capítulo 14 Sim, Eu Sou o Namorado Dele
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        Capítulo 13 Você Sobreviveu. Agora Vai Viver
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        Capítulo 12 O Amor Dito Pela Primeira Vez
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        Capítulo 11 Eu Quis Te Esquecer, Mas Só Soube Te Procurar
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        Capítulo 10 A Primeira Vez Que Você Foi Amado
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        Capítulo 9 Manual Paranormal de Como Reagir a um Incubus
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        Capítulo 8 Memórias que Não Dormem
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        Capítulo 7 Entre o Pecado e a Paz
      • Capa
        Capítulo 6 Dias de Fome, Noites de Amor
      • Capa
        Capítulo 5 Como Seduzir e Motivar um Universitário em 3 Passos
      • Capa
        Capítulo 4 Uma Versão Peluda do Meu Criador
      • Capa
        Capítulo 3 Onde Moram as Fomes Antigas
      • Capa
        Capítulo 2 Um Íncubo no Meu Sofá
      • Capa
        Capítulo 1 Me Deixe Provar um Pouco
 

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