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Doce Inanição

Capítulo 10

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🟡 Em breve

Nathan não esperou por despedidas. Nem olhou para trás.

A boate tornava-se insuportável — o calor, as luzes pulsantes, a música que agora soava como zumbido dentro de uma garrafa trincada. Tudo parecia amplificado pelo álcool, cada passo um pequeno tropeço na própria dignidade. Mas ele manteve o que pôde da compostura, caminhando para fora como quem foge de um lugar onde não era bem-vindo.
Onde nunca foi.

O ar noturno estava frio, e isso deveria ter ajudado. Mas só serviu para tornar mais clara a ardência na garganta — e o nó na barriga.

Ao chegar em casa, largou as chaves em algum canto que não viu. Retirou os sapatos com movimentos imprecisos e deixou-se cair no sofá, como se o corpo enfim tivesse recebido permissão para ceder.

A escuridão era bem-vinda. Silenciosa. Impessoal. O mundo, por fim, não o olhava de volta.
E foi ali, entre o entorpecimento e a raiva muda, que ele começou a falar.

— Ele é só um maldito demônio… — murmurou, com a cabeça apoiada no encosto, os olhos semiabertos. A voz saiu mais suave do que imaginava, como se confessasse para o teto.

Riu, breve. Um riso desmanchado, quase infantil.

— E mesmo assim… eu fico preso nisso. Fico preso nele.

Sua mão caiu sobre o peito, sentindo o coração ainda acelerado, como se o corpo se recusasse a esquecer o que os olhos viram. O toque. A entrega.

— Ele nem sente de verdade. Não como a gente sente, né? Só reage. Seduz porque é o que ele é. Não é pessoal… — os lábios se torceram, e ele balançou a cabeça num gesto vago — Mas então por que parece tão pessoal?

O silêncio permaneceu, pesado.

Nathan continuou, os olhos quase fechando.

— Ele me olha como se… como se estivesse ali. De verdade. Às vezes acho que ele só me olha daquele jeito porque eu fui o primeiro a dizer — não — pra ele. Só isso. O desafio. E agora ele fica aqui, como uma maldita sombra quente, bagunçando tudo… — riu de novo, mais amargo — E eu fico fingindo que entendo os limites. Que está tudo sob controle.

Por um momento, o silêncio pareceu ainda mais denso. Nathan girou a cabeça devagar, sentindo o couro frio do sofá contra a pele do pescoço.
Foi quando o viu.

De pé, encostado no batente da sala, Cael observava em silêncio.
Não estava sorrindo. Nem provocando. Seus olhos — agora menos luminosos, mas não menos intensos — acompanhavam Nathan com uma expressão estranha: como se não tivesse certeza se deveria estar ouvindo aquilo. Como se não soubesse o que fazer com o que ouvira.

Nathan piscou algumas vezes. A embriaguez distorcia o tempo, as distâncias, até mesmo a lucidez.

— Você… já tá aqui? — Perguntou, como se não fosse óbvio.

Cael se aproximou lentamente, quase sem som.

— Cheguei agora. — Respondeu, em tom baixo.

Nathan recostou a cabeça, os olhos pesados de sono e álcool.

— Ótimo. Pode rir. Eu sou patético mesmo.

Cael se agachou ao lado dele, os olhos fixos nos seus.

— Eu não acho você patético.

Nathan soltou um suspiro longo, cansado. Seus olhos tentavam se manter abertos, mas era difícil. Muito difícil.

— Eu só queria que você… — a frase morreu na garganta, afogada pelo álcool e pela vergonha tardia. Ele esfregou o rosto com a mão, tentando dissipar o calor que subia pelas orelhas — Esquece.

Mas Cael não se moveu. Nem mudou de expressão. Apenas o olhava.

— Queria o quê, Nathan?

A pergunta ficou suspensa.

Nathan riu de novo, arrastado.

— Que você ficasse. Que fosse meu. Mesmo que não soubesse o que isso significa. Mesmo que fosse uma mentira.

Havia sinceridade demais naquele desabafo bêbado. E dor demais para que Cael fingisse que não ouvira.

Mas ele não respondeu. Ainda não. Apenas estendeu a mão e afastou uma mecha do cabelo de Nathan, com uma delicadeza surpreendente.

Nathan fechou os olhos. Um gesto simples — e ainda assim, doeu mais do que o silêncio.

Fez uma pausa, os olhos rosa claro fixos nos de Cael. Havia algo incomum naquele olhar.

— Você tem ideia do quanto é difícil ver as pessoas flertando com você? — murmurou, as palavras arrastadas, mas carregadas de frustração — De como elas tocam você?

Cael piscou, pego desprevenido. Não esperava aquilo — o ciúme de Nathan, sua possessividade. Foi… inesperado. E, no entanto, despertava algo dentro dele. Algo que Cael não sabia se queria nomear.

— Nathan — começou ele, em tom calmo — elas não significam nada pra mim. Eu apenas… existo pra me alimentar. Não importa com quem.

Os olhos de Nathan se tornaram mais intensos. Ele se aproximou, até que seus corpos quase se tocassem.

— Mas importa para mim — disse, com a voz baixa, crua.

As palavras provocaram um arrepio em Cael. Não foi o tom possessivo que o desestabilizou — foi a forma como Nathan disse aquilo. Como se não fosse apenas desejo. Como se fosse real.

Antes que Cael conseguisse responder, Nathan começou a se despir. Seus movimentos eram lentos, deliberados. Cada botão, cada peça de roupa, parecia tirar o ar de Cael junto com o tecido. Quando o torso de Nathan ficou exposto, os músculos definidos sob a luz suave, a boca de Cael secou.

“Ele é perfeito. Cada linha, cada músculo… como se tivesse sido esculpido só para me torturar. E ele me olha como se eu fosse o bonito?”

Nathan estava diferente naquela noite: confiante, seguro, e ao mesmo tempo entregue de um jeito que só era possível quando ele decidia confiar no próprio instinto. Empurrou Cael com calma até que ele se deitasse no sofá, as costas afundadas entre as almofadas, o corpo exposto em rendição.

Permaneceu em pé entre suas pernas, a sombra projetada sobre ele, os olhos escurecidos de fome.

“Ele vai me devorar… Porque, quando ele me olha assim, eu não consigo me importar com nada além do que ele vai fazer comigo… E isso é assustador. Porque eu nunca me entreguei assim para ninguém.”

O coração de Cael disparou quando as mãos de Nathan deslizaram por suas coxas, provocando ondas de prazer com um único toque. Nathan puxou suas calças e a roupa intima de uma vez só, deixando a pele à mostra sob seu olhar faminto.

Os dedos dele se firmaram nos quadris de Cael, puxando-o para a beirada do sofá, como se quisesse acomodá-lo onde pudesse alcançá-lo inteiro. Os lábios roçaram a parte interna da coxa do íncubo — um toque leve, quase tímido, que fez suas pernas ameaçarem ceder mesmo naquela posição.

Quando a língua de Nathan encontrou a marca em seu abdômen, Cael soltou um gemido rouco, involuntário. Suas mãos escorregaram para os lados, procurando apoio enquanto os músculos tremiam, incapazes de lidar com a combinação de delicadeza e intenção.

A boca de Nathan era um labirinto de calor e paciência. Um arrepio atravessou a espinha de Cael quando sentiu os dedos dele descendo outra vez, explorando a parte interna de suas coxas; provocando antes mesmo de tocar onde ele mais precisava.

Um toque. Dois. E então, um deslizar mais ousado, firme e convidativo.

Um círculo lento, quase reverente, e então o menor dos movimentos — uma pressão firme. Cael arqueou-se, os lábios entreabertos num suspiro que roçava o desespero. A penetração foi cuidadosa, profunda na medida certa — um dedo, depois outro — abrindo espaço em ondas que apertavam seus pulmões tanto quanto seu corpo.

— N-Nathan… — A voz de Cael quebrou, os dedos se cravando nas almofadas do sofá como se aquilo pudesse ancorá-lo à realidade. — Você não precisa fazer isso…

Nathan ergueu os olhos, e o silêncio que se seguiu foi mais eloquente do que qualquer palavra. Não havia dúvida ali. Não havia hesitação. Apenas um desejo tão claro que Cael sentiu o próprio corpo responder antes mesmo que Nathan o tocasse.

Por um momento, os dedos de Nathan se afastaram. Cael respirou, achando que ele recuaria, que tudo terminaria ali. O alívio veio rápido, mas a frustração veio mais rápido ainda — e ambos se desfizeram quando as mãos voltaram, mais firmes, abrindo suas dobras sensíveis com uma delicadeza que beirava a devoção.

O ar frio roçou sua pele úmida, e então veio a primeira carícia quente: a língua de Nathan, decidida, traçando um caminho lento da entrada pulsante até o clitóris adornado pela joia.

O toque inicial foi amplo, investigativo, como se Nathan estudasse cada detalhe antes de ousar ir mais fundo. Cael sentiu a língua deslizar por cada dobra, cada reentrância, até se deter no piercing.

Um arrepio forte percorreu sua espinha quando os lábios de Nathan envolveram a carne sensível, o metal frio contrastando com o calor insistente da boca. Nathan girou a língua ao redor, saboreando-o, antes de sugar com mais firmeza — tirando de Cael um gemido rouco, quase um soluço sufocado.

— Nathan… — O nome escorreu da boca de Cael, trêmulo, enquanto as mãos de Nathan apertavam suas coxas, impedindo-o de fechá-las. Não havia fuga possível. E ele não queria fugir.

Nathan mergulhou de novo, desta vez com intenção clara. A parte plana da língua pressionou a entrada, e Cael sentiu os músculos internos vibrarem, como se seu corpo reconhecesse aquele toque antes mesmo de entendê-lo. Um movimento lento, uma penetração breve, apenas o suficiente para fazê-lo perder a respiração e buscar mais, com os quadris reagindo sem controle.

Nathan não o deixou esperando — empurrou a língua mais fundo, em investidas contínuas e precisas, encontrando o ângulo exato que o fez arfar alto, quase um choro de prazer. Era quente, úmida, e cada toque enviava ondas de prazer pelo corpo de Cael.

Ele nunca tinha se sentido tão exposto, tão vulnerável. Mas, ao mesmo tempo, nunca tinha se sentido tão seguro. Porque Nathan não estava apenas tocando-o — ele estava adorando cada parte dele.

Era íntimo demais. Profundo demais. Real demais.

— Nathan… eu não aguento… eu vou… — As palavras saíram em um suspiro trêmulo, o corpo de Cael tremendo, os músculos abdominais se contraindo com força.

Nathan não parou. Nem quando introduziu dois dedos de uma vez, curvando-os para tocar o ponto onde o prazer se tornava luz, onde tudo se desfazia. Nem quando Cael arqueou, o corpo inteiro rendido a ondas tão intensas que chegavam a doer. Nem quando o êxtase jorrou quente contra sua boca, abundante, devastador, e sua língua continuou trabalhando, implacável, tirando cada espasmo, cada tremor, cada gemido que Cael já não conseguia conter.

“Tão fundo… Como se ele soubesse exatamente o que eu preciso. Eu nunca deixei ninguém me tocar assim. Mas com ele… eu não consigo me segurar. Porque isso é bom. Tão bom que dói.”

Cael chorava agora. As lágrimas escorriam pelas têmporas, sumindo nos fios lilases, enquanto o corpo desabava — consumido e sem forças. E mesmo assim, Nathan não se afastou. Lambeu com suavidade os últimos resquícios de prazer, como se quisesse prolongar o momento, como se quisesse guardar o sabor dele para sempre.

Só quando os tremores começaram a ceder é que Nathan subiu e o envolveu nos braços, como se temesse que Cael se desfizesse no ar. Cael se deixou fechar naquele abraço, sentindo cada respiração de Nathan aquecer sua pele sensível. Sentia-se desmontado. Refeito. Exposto até o fundo da alma.

E não soube o que dizer.

“Ninguém nunca fez isso por mim. Nunca… nunca se importou o suficiente para me dar prazer assim. E isso é… é demais. Porque eu não sei o que fazer com isso. Não sei como lidar com alguém que me toca como se eu fosse valioso.”

Ninguém jamais o tratara como algo além de um demônio faminto, uma criatura moldada para dar prazer — não para recebê-lo.

Muito menos para ser cuidado.

Aquilo não deveria estar acontecendo. Íncubos não eram feitos para ser amados. Não recebiam carinho. Não ganhavam braços que os segurassem quando tremiam.

E ainda assim, Cael estava ali, rendido aos braços de Nathan, sentindo nascer dentro de si algo que jamais conhecera. Algo que não sabia se podia ter.

— Nathan… — murmurou, a voz trêmula, frágil de uma forma que nunca permitira a si mesmo ser. — Eu… não sei como ser amado. — A confissão escapou como um segredo arrancado da alma. — Eu não fui criado para isso…

O sorriso de Nathan foi tão suave que machucou. Com cuidado, afastou uma mecha lavanda do rosto de Cael, os dedos roçando sua pele como se temesse quebrá-lo.

— Não fala assim… — sussurrou. A voz baixa, quente, cheia de algo que parecia mais antigo que qualquer desejo. — Você vai ser amado. — Sua mão pousou sobre o peito do íncubo, pressionando-o devagar, como se marcasse cada batida. — Deixa eu te mostrar… o que é ser amado.

O pensamento atravessou Cael como um choque:

“Isso não é real… Não pode ser. Íncubos não merecem isso… Não merecem ser olhados assim, como se fossem algo além de um corpo, além de um desejo. Mas ele está aqui. E está falando sério…”

E então sentiu — quente, insistente — a protuberância de Nathan pressionando sua intimidade. O som do zíper se abrindo cortou o silêncio, e Cael estremeceu quando o membro de Nathan roçou sua entrada já sensível; a carne rosada e úmida, latejando com a memória do prazer anterior. Suas pernas foram empurradas para trás, abertas sem resistência, as mãos de Nathan segurando-o atrás dos joelhos, expondo cada centímetro seu à luz suave da tarde.

A claridade pouca claridade desenhava cada tremor em sua pele. Cada respiração descompassada.

— Olha pra mim… — pediu Nathan, baixa firmeza na voz. — Cael tentou virar o rosto, mas Nathan apenas acariciou sua bochecha, leve, paciente. — Eu quero te ver.

O toque quente voltou a roçar sua entrada — lento, torturante, provocando uma fricção úmida que arrancou dele um gemido abafado. A glande deslizava contra sua carne inchada, enviando relâmpagos de prazer por cada nervo exposto.

“Ele vai me preencher… E eu não sei se vou conseguir sobreviver a isso. Porque isso não é só sexo. Isso é… isso é algo que eu não consigo nomear.”

Era quase insuportável. Não pela sensação física, mas pelo que ela representava. Porque Nathan não estava só buscando prazer — ele estava buscando ele.

Cael escondeu o rosto com os braços, envergonhado. Não queria que Nathan visse as lágrimas escorrendo, não queria que ele visse o quão quebrado ele estava.

— Por favor… — Cael arfou, choroso. Não de dor, mas de algo muito mais perigoso: a sensação de ser visto. De ser desejado.

Quando Nathan finalmente o penetrou, o mundo pareceu se dobrar ao redor deles. Um único golpe lento, profundo, demolidor.

O corpo de Cael arqueou involuntariamente, um soluço de prazer deixando sua garganta. A sensação o partiu ao meio — o calor, o peso, a pressão. O ângulo perfeito, o preenchimento total, pressionando pontos que faziam estrelas explodirem atrás das pálpebras de Cael.

“Tão fundo… Como se ele fosse feito para caber dentro de mim.”

A protuberância em sua barriga denunciava o quão fundo ele estava, como se Nathan o ocupasse até onde Cael jamais imaginara ser possível.

Nathan permaneceu imóvel por um momento, enterrado dentro dele, deixando Cael sentir cada pulsação, cada centímetro. O íncubo gemeu alto, um som agudo, quebrado, incapaz de controlar a própria reação.

Só então Nathan começou a se mover.

Não com brutalidade, mas com uma firmeza constante, quase reverente.

Cada investida parecia calculada para gravar na pele de Cael a própria existência de Nathan. O sofá rangeu sob eles, a sala encheu-se de sons obscenos — o choque dos corpos, os estalos úmidos, sua respiração entrecortada.

A pélvis de Nathan, a cada avançar, pressionava a joia no clitóris de Cael, provocando choques elétricos de prazer que subiam por sua coluna e explodiam em sua nuca.

— Eu… eu não consigo… — Cael chorou, arqueado em prazer.

— Consegue, sim — murmurou Nathan, a voz rouca, carregada de desejo quente o bastante para marcar. — Você é lindo… forte. — Inclinou-se, a respiração colando-se à pele de Cael. — Tão perfeito que dói.

Nathan tomou suas mãos, dedos entrelaçados, prendendo-as acima da cabeça de Cael. Era uma âncora e uma rendição ao mesmo tempo. Agora Cael não podia esconder o rosto; Nathan via tudo.
Os olhos dele estavam abertos, atentos, como se cada tremor de Cael importasse.

— Deixa eu te amar — disse Nathan, sem desviar o olhar.

As palavras acertaram Cael no lugar mais vulnerável.
O íncubo desviou o rosto, mas Nathan puxou-o de volta num beijo quente — o sabor salgado de suas lágrimas misturando-se ao gosto do humano. Era um beijo que parecia querer segurá-lo inteiro, impedir que ele se despedaçasse.

O ritmo de Nathan vacilou — um aviso físico da proximidade do clímax.

O orgasmo de Cael chegou silencioso e devastador, um colapso interno que o consumiu por completo. Seu corpo apertou Nathan com força, espasmos rítmicos que o ordenhavam sem piedade.

“Isso é demais… Tão bom que dói. Ahh… eu não consigo respirar. Isso é… isso é algo que eu nunca soube que existia. Algo que eu nunca soube que poderia sentir.”

Foi isso que quebrou Nathan.

Com um gemido grave, ele o penetrou fundo uma última vez, enterrando-se todo antes de derramar-se dentro dele. Cada pulso quente enchia Cael mais, mais, mais — até ele não conseguir distinguir o que era prazer e o que era terror de sentir tanto.

Cael gritou, um som estrangulado.

“Eu não posso ficar aqui. Não posso me permitir sentir isso. Porque se eu sentir, eu vou querer mais. E eu não mereço mais. Mas ele não me deixa ir…”

Tentou se afastar por reflexo — não do corpo de Nathan, mas da intimidade emocional que aquilo representava.

Mas Nathan o segurou firme.

— Não — sussurrou contra sua orelha. — Você não vai fugir de mim, Cael.

A respiração de Cael vacilou.

Nathan desabou sobre ele, ainda dentro, o peso quente pressionando-o no sofá, o sêmen mexendo-se devagar com cada mínima respiração.

— Amo você… — Nathan repetiu, desta vez contra os lábios de Cael, antes de beijá-lo novamente, com uma doçura que fazia o coração do íncubo doer.

“Ele está falando sério… Ele realmente está.”

E Cael não fazia ideia de como sobreviver àquilo.

 

—–

 

O mundo estava silencioso quando Cael abriu os olhos.

A luz filtrava-se pelas frestas da cortina da sala com uma delicadeza cruel, tingindo o espaço com um tom pálido, quase cinzento. As formas ao redor eram familiares — o contorno das prateleiras, as sombras projetadas no chão, a manta caída do encosto do sofá. O estofado afundava sob o peso de dois corpos entrelaçados, e o ar parecia espesso, saturado do cheiro de suor, esperma e álcool.

Nathan ainda dormia sobre ele.

Seu corpo cobria o de Cael com um calor opressivo, porém estranho e — contra toda lógica — reconfortante. Os braços envolviam-no de forma frouxa, um deles escorregado sob seu pescoço, o outro ainda enlaçando sua cintura, como se recusasse a deixá-lo escapar mesmo em sonhos. A respiração de Nathan era lenta e quente contra sua clavícula, com pequenos roncos abafados surgindo de tempos em tempos.

Cael tentou se mover.

Foi um gesto ínfimo, quase involuntário — uma tentativa de ajeitar as pernas dormentes, de buscar ar fresco sob aquele calor adormecido. Mas bastou. Uma sensação se acendeu em seu corpo com uma clareza incômoda: a tensão tênue de músculos forçados, a pressão interna persistente… e, então, o escorrer morno entre suas coxas, viscoso, lento, íntimo demais.

Nathan ainda estava dentro dele.

A constatação atingiu algo que não tinha nome — fundo demais, humano demais. Uma pontada aguda atravessou seu peito, e a vontade de chorar se misturou a uma náusea vaga, como se seu corpo estivesse tentando rejeitar a memória e, ao mesmo tempo, implorando para se agarrar a ela.

O corpo de Cael reagiu com uma rigidez involuntária, uma contração sutil que arrancou um leve suspiro de seus próprios lábios. A carne ao redor do ponto de contato estava sensível, como se tivesse sido usada até o limite — mas não havia dor, apenas um desconforto surdo, pulsante, como uma lembrança cravada em sua pele.

E aquilo o devastou mais do que qualquer punição.

Um calor inesperado subiu até seus olhos antes que ele pudesse contê-lo. Não era prazer, nem alívio — era algo cortante, bruto, como se tivessem enfiado a mão dentro de seu peito e apertado o que encontrassem ali até esgarçar. As lágrimas surgiram silenciosas, traiçoeiras, ardendo como se seu corpo não soubesse processar aquele tipo de dor. Ele tentou sufocá-las, mas cada esforço apenas fazia a respiração falhar, trêmula, expondo uma vulnerabilidade que ele jamais permitiria em vigília.

O silêncio da sala parecia zombar dele. Não havia gritos, nem súplicas, nem os comandos frios de Arael. Apenas o som do outro respirando, sereno, vulnerável. E o peso. O maldito peso daquele corpo bom demais, gentil demais, inteiro demais para estar deitado sobre algo tão… errado.

Ele poderia contar, em silêncio, as vezes em que tentara ir embora. E as vezes em que não tentara de verdade.

Nathan não o deixou partir — mas Cael também não se moveu para fazê-lo. Havia dito que precisava ir, que não era uma boa ideia, que o corpo precisava descansar. Mas as palavras eram frágeis, inconsistentes. Carregavam um peso superficial, quase como uma desculpa automática. E, cada vez que Nathan o puxava de volta, murmurando palavras doces, dizendo que queria fazê-lo sentir-se amado, querido… Cael cedia.

Era fácil culpar o outro. Muito mais difícil reconhecer o quanto aquela entrega — aquela absurda, insensata ternura — o afetava.

Porque não fora apenas sexo.

Cael fechou os olhos. Por um instante, quis que aquele instante desaparecesse. Mas também quis preservá-lo — mantê-lo suspenso no tempo, antes que a consciência o obrigasse a romper com tudo.

Nathan não o odiava. Estava ali, ainda unido a ele da forma mais íntima possível, como se seu corpo tivesse se recusado a soltar mesmo durante o sono. Como se quisesse dizer, de forma muda: não te deixo ir, mesmo quando você tenta.

E isso… isso foi novo.

Cael não deveria estar ali. A união entre seus corpos não era só física — era uma falha estrutural em tudo que ele acreditava ser. Ele não era feito para isso. Não para a lentidão do afeto, para o depois do prazer.

Não para a permanência.

As lágrimas voltaram a descer, mais lentas agora, escorrendo pelas têmporas e molhando o tecido do sofá. Não havia soluços — apenas aquele silêncio devastado, como se cada gota fosse o eco de algo que ele perdera há tanto tempo que já sequer sabia identificar. Uma dor antiga, profunda, que se retorcia por não encontrar saída.

Ele já havia sido desejado de mil maneiras. Já fora tomado por humanos com a urgência egoísta de quem queria consumir um delírio. Já conhecera as mãos de Arael, frias e cruéis mesmo no prazer. Já vira o reflexo de sua forma se dissolver em olhos vazios, ofuscados pela luxúria que ele próprio invocava.

Mas aquilo? A forma como Nathan o segurou, como se ele pudesse escorregar e se partir em mil fragmentos se fosse deixado sozinho por mais um segundo?

Aquilo foi um erro. Um erro que o corroía de dentro para fora.

Ele era uma fenda. Um experimento. Um fragmento de fome revestido de carne bonita. E, no entanto, ali estava ele, com o corpo ainda marcado, ainda aberto, ainda tomado. O coração em disparada, a garganta apertada.

Ele sentia.

Sentia demais.

A garganta se fechou, e o choro tomou um tom mais cru — não alto, mas profundamente quebrado, como o som de alguém tentando manter o controle enquanto o próprio coração se despedaça. A sensação era física, quase palpável: como se dedos invisíveis estivessem arrancando algo vital de dentro dele.

A fome não doía assim. O desejo não doía assim. Só a perda — ou a possibilidade dela — tinha esse tipo de garras.

A inclinação absurda de querer que Nathan acordasse e não o soltasse. De querer ouvir outra vez aquela voz rouca, entorpecida, dizendo que ele era querido. Que era importante. Que era… dele.

E essa urgência — esse desejo insano de permanecer — era mais assustadora do que qualquer comando que Arael tivesse imposto.

Nathan murmurou algo inaudível contra sua pele, e se moveu levemente, o que arrancou outro escoar lento entre as pernas de Cael. Ele fechou os olhos com força. Quis fugir. Quis gritar. Quis — por um instante cruel — acreditar que poderia ficar.

Mas não podia.

As lágrimas continuavam a cair, silenciosas, envergonhadas, tão fora de lugar quanto o próprio sentimento que as provocava. Cada uma parecia denunciar a falha fundamental de sua existência: ele queria aquilo. Queria aquele corpo quente sobre o seu, aquela respiração na clavícula, aquele “fica” mudo que Nathan murmurava até mesmo dormindo. E querer doía mais do que qualquer ferida que Arael lhe infligira.

Se ficasse, se admitisse aquilo, teria de aceitar que era mais do que fome e função. Que era capaz de sentir. De amar. De ser amado.

E isso… isso era o verdadeiro abismo.

 

—–

 

A escuridão do escritório de Arael era espessa como óleo antigo — não ausência de luz, mas sua corrupção deliberada. As velas negras, alinhadas em castiçais de ferro enferrujado, queimavam com chamas imóveis, que não tremulavam com vento algum, pois ali o ar se recusava a mover-se sem permissão. O tempo também não ousava atravessar aquele espaço. Tudo era suspensão. Controle. Expectativa.

As paredes, de pedra escura, estavam cobertas por tapeçarias com símbolos arcanos e estantes densas, repletas de pergaminhos enfeitiçados, grimórios encadernados em couro de origem incerta e frascos que ainda pulsavam com vestígios de almas domadas. Um enorme mapa etéreo se mantinha projetado no teto, revelando os fluxos instáveis do mundo dos vivos — veias de luz e sombra serpenteando sobre continentes como artérias do caos.

No centro da sala, sobre um pedestal de obsidiana cuidadosamente entalhado com runas do esquecimento, repousava a esfera cristalina — translúcida, vítrea, perfeita. No entanto, o que havia dentro dela era tudo menos pureza: imagens distorcidas, emoções turvas e memórias que se agitavam como água fervente. Um artefato antigo, conectado aos vínculos dos pactos selados sob sangue e dor. E agora, em convulsão.

Arael permanecia imóvel diante dela, os olhos dourados reduzidos a fendas estreitas, como se atravessassem camadas de realidade com um único olhar. Não observava apenas imagens. Ele sentia.

Sentia a energia de Cael fluindo, escorrendo lentamente em direção a outro ser — não por dever, mas por escolha. Sentia o calor do toque, o prazer da entrega, mas também algo mais denso. Algo… perigoso.

Afeto.

O lábio inferior de Arael crispou-se, como se o gosto daquela palavra lhe queimasse a boca.

Dentro da esfera, uma cena tomou forma com nitidez desconcertante: o corpo de Cael encolhido contra o humano, Nathan, os dois entrelaçados como se formassem um único organismo. A respiração sincronizada. Os corpos serenos.

A aura de Cael estava… cálida. Sem fome. Sem cálculo.

Apenas paz.

Um ruído metálico ecoou na sala quando Arael apertou o pedestal com força contida — um trinco cortou a superfície da pedra, ainda que ele mal tivesse se movido.

Cael estava se apaixonando. Ou pior — já estava.

Sem saber. Sem entender. Como uma criatura que nunca foi ensinada a nomear os próprios sentimentos, ele se lançava no abismo do afeto, guiado apenas pelo instinto de proximidade.

E Arael sabia. Sentia. Cada variação na frequência do desejo de Cael.

O laço entre eles ainda existia, embora enfraquecido. Era ele quem recebia os resíduos daquela energia — mas ela já não trazia o sabor habitual.

Agora, era espessa. Doce.

Quase… devotada.

O problema não era Nathan.

O problema era o que Cael estava se tornando ao lado dele.

— Tolo… — murmurou Arael, a voz dissolvendo-se nas sombras como fumaça rarefeita.

A esfera mostrou mais: Nathan falando com ternura, tocando a cauda de Cael como quem acaricia algo sagrado. E Cael… rindo.

Não aquela risada dissonante que escapava entre dor e prazer.

Era uma risada limpa. Inofensiva. Humana.

E isso o incomodava.

Cael fora moldado para desejar, sim — mas também para corromper. Para subjugar. Ele não nascera do amor, e sim da intenção.

Era a extensão do próprio Arael. Um projeto refinado, um fragmento da vontade soberana que regia o submundo.

E agora ele se dissolvia em sentimentos que não lhe pertenciam.

Num mundo que não era seu.

Arael ergueu a mão sobre a esfera. As visões estremeceram. Um simples comando e o vínculo poderia ser rompido. Cael esqueceria. O humano se tornaria um estranho. O amor — um eco sem nome.

Mas Arael hesitou.

Não por piedade. Mas por um desejo mais antigo:

Observar.

Queria ver o que aconteceria quando Cael compreendesse, quando o nome daquele sentimento tomasse forma clara em sua mente.

Queria saber o que faria.

E o que aconteceria com o humano.

Arael virou a cabeça lentamente, observando seu próprio reflexo distorcido na esfera. Um meio-sorriso curvou-lhe os lábios. Um gesto sem alegria.

Apenas expectativa.

— Então descubra, meu doce erro — sussurrou. — Descubra o que é isso que pulsa em seu peito. E depois venha rastejar até mim, pedindo para esquecê-lo.

A chama da vela mais próxima vacilou — não por vento, mas por respeito.

Arael retirou a mão da esfera, recostando-se em sua poltrona de couro escurecido, encimada por espinhos de osso.

E deixou Cael continuar amando.

Só um pouco mais.

Só até doer o suficiente.

Capítulo 10
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Doce Inanição

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Nathan jamais esperou encontrar o amor na forma de um íncubo. Muito menos descobrir que ele tinha um lado doce, um senso de humor duvidoso e uma tendência incorrigível a usar lingerie como forma...

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  • Vol 1
      • Capa
        Capítulo 18 Uma Tarde Na Praia
      • Capa
        Capítulo 17 Pais, esse é Meu Namorado Incubus
      • Capa
        Capítulo 16 De Onde Vim, Afinal
      • Capa
        Capítulo 15 O Presente Perfeito Para o Aniversariante
      • Capa
        Capítulo 14 Sim, Eu Sou o Namorado Dele
      • Capa
        Capítulo 13 Você Sobreviveu. Agora Vai Viver
      • Capa
        Capítulo 12 O Amor Dito Pela Primeira Vez
      • Capa
        Capítulo 11 Eu Quis Te Esquecer, Mas Só Soube Te Procurar
      • Capa
        Capítulo 10 A Primeira Vez Que Você Foi Amado
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        Capítulo 9 Manual Paranormal de Como Reagir a um Incubus
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        Capítulo 8 Memórias que Não Dormem
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        Capítulo 7 Entre o Pecado e a Paz
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        Capítulo 6 Dias de Fome, Noites de Amor
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        Capítulo 5 Como Seduzir e Motivar um Universitário em 3 Passos
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        Capítulo 4 Uma Versão Peluda do Meu Criador
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        Capítulo 3 Onde Moram as Fomes Antigas
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        Capítulo 2 Um Íncubo no Meu Sofá
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        Capítulo 1 Me Deixe Provar um Pouco

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