Capítulo 13
O mundo onde Arael caminhava não seguia o tempo dos homens.
Ali, o céu permanecia imóvel, e os ventos murmuravam promessas antigas — há muito esquecidas por deuses já mortos. Ele cruzava o salão sobre mármore escuro, entre pilares que se erguiam como espinhos de um corpo sagrado em decomposição. As paredes pulsavam com energia. Sempre pulsaram. Mas agora… algo cessara.
Um silêncio cortante atravessou o ar, e por um instante, o universo inteiro pareceu prender a respiração.
Arael parou no centro do recinto. Os olhos dourados se estreitaram. A sensação veio primeiro como um calor agudo sob a pele, uma contração involuntária na base da espinha — como se um fio essencial tivesse sido arrancado. Em seguida, veio o vazio.
Um rompimento.
Ele virou o rosto devagar, como um predador que ouve o estalo de um galho atrás de si. Os dedos deslizaram até a orbe de cristal repousada sobre a mesa ao lado do trono — translúcida, viva, como se respirasse com ele. Era através dela que se comunicava com Cael, que sentia cada fluxo da energia compartilhada. Agora, porém, estava rachada.
Estilhaçada.
Não pela força.
Nem por fuga.
Tampouco por violação de pacto.
Mas por algo infinitamente mais perigoso.
— Amor… — murmurou, entre a surpresa e o desdém.
Inclinou a cabeça, como quem escuta uma sinfonia dissonante pela primeira vez. Algo dentro dele vacilava entre o riso e a cólera. Entre o fascínio e o desprezo.
A energia que antes percorria os selos — que o nutria, que o mantinha entrelaçado aos fios da alma de Cael — sumira como fumaça. Não restava mais o peso do controle, nem a tensão constante da vontade alheia cedendo à sua. Apenas… o silêncio.
O elo se partira.
Arael fechou os olhos por um breve momento. E, na escuridão interior, viu. Não como um homem vê — mas como um senhor de pactos reconhece a quebra de um laço selado com dor.
Cael ajoelhado. Chorando. Entregando o que restava de si a outro.
A outra voz. O toque gentil. O “eu te amo” murmurado com desespero genuíno.
E aquilo… bastou.
Arael abriu os olhos devagar.
— Então é isso… — disse, como quem constata uma ironia inevitável — Ele me escolheu por necessidade. Mas escolheu ele… por amor.
Um sorriso surgiu em seus lábios, fino e cortante. Não era raiva — ainda não. O que havia ali era algo mais letal. A quietude que precede a tempestade.
— Que interessante…
Ergueu a mão. Com um gesto sutil, o santuário tremeu. Não como ruína, mas como se algo sob o chão despertasse, preguiçoso, ancestral.
— Se é assim que deseja morrer… então que morra como um mortal. Livre. Amado. E esquecido.
A orbe despedaçada não era apenas um fim. Era um gesto de desafio.
E Arael jamais ignorava um desafio.
Sentado no trono baixo de pedra escura, Arael mantinha os olhos semicerrados, fixos no vazio — embora estivesse, nitidamente, observando algo além daquele mundo. Seus dedos tamborilavam no braço da cadeira, marcando um compasso sutil entre pensamentos.
A mulher à sua frente se aproximava com a leveza de quem flutua. As vestes diáfanas se desfaziam em fumaça ao redor do corpo, e os olhos — límpidos e fixos — jamais piscavam. Era uma sentinela. Um eco da ordem antiga. Aquela encarregada de vigiar Cael à distância, de monitorar o selo.
Parou a poucos passos dele, as mãos entrelaçadas sobre o ventre, a cabeça levemente inclinada.
— O vínculo foi rompido — disse, sem adornos. Apenas a verdade.
Arael não respondeu de imediato. Pegou uma fruta escura da bandeja ao lado, girando-a lentamente entre os dedos. Quando falou, sua voz era serena demais.
— Não fui eu quem o quebrou. Caelus o fez.
A mulher ergueu os olhos com lentidão, pesando cada nuance daquela afirmação.
— Eu sei. Um selo rompido por escolha… não é algo que simplesmente acontece.
— Escolha — repetiu Arael, com escárnio sutil — Que palavra frágil, quando os outros acreditam ser donos dela.
Lillithen nada disse. Apenas aguardava.
Ele deixou a fruta cair de volta à bandeja. O som foi seco, oco.
— E a marca? — indagou. — Algum vestígio?
— Nenhum. O selo não deixou traços — respondeu ela, pausadamente — Você sabe por quê, não sabe?
Os olhos de Arael se voltaram para ela. Eram como o éter: escuros, profundos e insensíveis ao tempo.
— A alma dele está completa — a voz da sentinela vacilou, por um instante — Aquilo que antes era apenas um simulacro… agora é inteiro.
Arael se recostou com lentidão.
— Então ele escolheu — murmurou. — De verdade.
— Sim.
O silêncio que se seguiu era espesso, quase físico.
— Sabia que isso era possível? — ele perguntou.
— Sabia que era teórico — ela respondeu, cuidadosa — Mas jamais observado. Um ser como ele, criado artificialmente… não deveria alcançar plenitude por vontade própria.
— E não foi por vontade própria — corrigiu Arael, agora com a voz mais baixa, afiada. — Alguém deu isso a ele. Ou pior… viu isso nele, e amou.
— O vínculo com o humano, talvez… — começou ela, mas calou-se diante do modo como ele a encarava.
— Amor não pode ser imposto. Nem previsto — disse, os olhos semicerrados. — E é exatamente por isso que não podemos mais tocá-lo. Porque agora ele possui o que jamais conseguimos dominar: livre-arbítrio verdadeiro.
— E o senhor… vai deixá-lo ir?
Arael se ergueu do trono com lentidão. Seus movimentos eram contidos, quase cerimoniais, mas carregavam a tensão de uma fera domesticada pelo protocolo.
— “Deixar” implica que ainda tenho algum domínio sobre ele — respondeu, amargo — e não tenho mais. O que me resta… é esperar. Observar se usará essa liberdade como um homem — ou como um tolo.
Fez uma pausa longa, o olhar perdido além das colunas escuras do salão, como se visse o fio da existência de Cael sendo costurado em outro mundo.
— O amor pode libertar. Mas também pode destruir, se mal usado — disse, por fim. — E eu saberei o exato momento em que ele desejar voltar. Todos voltam eventualmente. Mesmo os que têm uma alma.
—–
Um dia depois
A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas com suavidade espectral, espalhando um brilho dourado que dançava preguiçosamente pelo carpete. O silêncio era pleno — não um silêncio vazio, mas o tipo de quietude que embala os sentidos após uma noite de exaustão emocional.
Cael despertou lentamente no sofá, os músculos doloridos e a mente ainda emaranhada. Por um instante, acreditou que tudo o que vivera nas últimas horas havia sido uma invenção febril — uma alucinação moldada pela saudade e pelo desespero. A maciez do estofado sob seu rosto, o calor morno do cobertor que não se lembrava de ter puxado sobre si, pareciam pistas vagas de uma realidade em que não confiava inteiramente.
Mas então, um som: o tilintar da louça, o ruído suave da chaleira no fogão.
A respiração de Cael prendeu-se por um momento no peito.
Ergueu-se devagar, ainda com o cabelo bagunçado e os olhos semicerrados, a cauda arrastando-se no tapete num ritmo lento, preguiçoso — ou talvez vulnerável. Caminhou pela casa com passos nus e cuidadosos, como se qualquer ruído mais forte pudesse desfazer o delicado feitiço que ainda pairava no ar.
Quando chegou à cozinha, viu Nathan de costas, mexendo distraidamente o conteúdo de uma panela. A camiseta cinza caía frouxa sobre os ombros dele, e o cabelo, ainda úmido do banho, denunciava que já estava acordado fazia algum tempo.
Cael não disse nada. Aproximou-se em silêncio e envolveu os braços ao redor da cintura de Nathan, apoiando o rosto em suas costas. A cauda, tímida, enrolou-se lentamente em torno da própria perna, como quem não se atreve a tocar o outro, mas não quer fugir do calor que irradiava dele.
— Achei que tinha sonhado com você — murmurou contra o tecido da camiseta.
Nathan parou de mexer a panela, respirando fundo antes de responder:
— Eu também achei que você fosse fugir de novo.
Cael apertou um pouco mais o abraço. A cozinha cheirava a café fresco, pão aquecido e algo levemente cítrico — talvez o sabonete de Nathan.
Sentaram-se juntos à mesa depois, a refeição entre eles servida com uma simplicidade doméstica que parecia quase sagrada, como se aquele gesto cotidiano carregasse mais significado do que qualquer cerimônia formal.
— Cael… — Nathan começou, a voz baixa, mas firme — Se você quiser mesmo ficar comigo, precisa entender que não é só uma escolha de momento. — Cael ergueu os olhos, atento. — Você não pode… dormir com outras pessoas. Nem por diversão, nem por fome — Nathan deixou a frase cair como um peso controlado, não com dureza, mas com clareza.
Cael assentiu, sem hesitação.
— Eu sei. E está tudo bem. Eu não quero mais ninguém além de você.
A resposta saiu rápida, sem floreios. Era simples, e por isso mesmo, mais difícil de fingir.
Nathan observou por um instante. O rosto dele não mostrava surpresa, mas havia um cuidado nos olhos, como se ainda buscasse sinais de hesitação.
— Você não se alimentou… aquele tempo todo que eu estive fora? — a pergunta veio com suavidade suspeita, como se Nathan não quisesse pressionar, mas precisasse saber.
Cael desviou o olhar, os dedos brincando com uma migalha de pão sobre a toalha.
— Não. Não consegui — disse. — Eu pensei que não deveria. — Cael mordeu o lábio inferior, uma sombra passando pela expressão. — Eu posso aguentar. Não estou faminto. Só… só com medo. Não quero apressar nada. Não quero estragar tudo de novo.
Nathan ficou em silêncio por um tempo. Depois estendeu a mão por cima da mesa e entrelaçou os dedos aos de Cael. O toque era firme, mas gentil.
— Tudo bem. — Disse, e havia algo incondicional naquela promessa. — Se é isso que você quer, eu respeito. Só quero saber se você está bem.
Cael hesitou, mas assentiu.
— Estou melhor agora.
Nathan sorriu de leve, quase imperceptivelmente.
—–
O quarto estava silencioso, exceto pelo som macio das páginas sendo viradas e pelo ocasional arranhar da caneta de Nathan no papel. A luz dourada da luminária sobre a escrivaninha espalhava um calor suave pelo ambiente, pintando a penumbra com tons acolhedores. Do outro lado do quarto, Cael jazia estirado sobre a cama, o corpo relaxado, os olhos fixos na tela do celular, enquanto sua atenção divagava lenta e preguiçosamente.
Não dizia nada. Não fazia exigências. Era apenas uma presença tranquila, o peso do silêncio entre eles confortável como um cobertor compartilhado.
Nathan lançava olhares ocasionais para ele, uma parte sua estranhamente aliviada pela serenidade que pairava. Havia algo de frágil naquela paz, como o brilho tímido de uma chama recém-acesa — preciosa e ainda sensível ao menor sopro.
Depois de algum tempo, Cael largou o celular de lado, as pálpebras pesadas fechando-se lentamente. A respiração desacelerou, ritmada e profunda, enquanto ele se rendia a um cochilo involuntário, deitado de lado, os cabelos espalhados como seda escura sobre o travesseiro.
Nathan sorriu de leve, sem interromper o próprio ritmo de estudo. Parte dele se perguntava desde quando Cael conseguia simplesmente… existir ao seu lado sem sentir a necessidade de ser algo — de provocar, de seduzir, de desempenhar algum papel para merecer a permanência. Agora, ele apenas era. E isso dizia mais do que qualquer palavra poderia expressar.
Após alguns minutos, Nathan largou a caneta e girou levemente a cadeira para trás, alongando os ombros tensos. Olhou para Cael, indeciso, e então, num gesto impulsivo, bateu de leve nas próprias coxas.
— Vem cá — chamou em voz baixa, um convite suave, quase tímido — estou em pausa.
Cael não se moveu imediatamente. Piscou devagar, a mente ainda enredada no torpor do sono, antes de se levantar, arrastando os pés com uma lentidão deliciosamente preguiçosa até Nathan. Sem uma palavra, acomodou-se no colo dele, o corpo ainda quente e mole de sono.
Nathan ajeitou os braços ao redor de Cael com um cuidado instintivo, como se receasse quebrá-lo. O peso dele sobre suas pernas era confortável, familiar de uma forma que aquecia lugares esquecidos em seu peito.
Cael suspirou, aninhando-se mais contra ele — a cabeça repousando contra seu ombro, o rosto escondido na curva do pescoço. Nathan sorriu, quase sem perceber, e passou a mão devagar pelos cabelos macios de Cael, sentindo a respiração tranquila contra sua pele.
Pouco a pouco, o corpo de Cael cedeu completamente ao sono, o calor dele se mesclando ao seu de maneira tão natural que Nathan sequer pensou em afastá-lo. Apenas voltou ao caderno aberto sobre a mesa, virando as páginas com movimentos cuidadosos, estudando com Cael adormecido em seu colo.
—–
Cael despertou lentamente no sofá, os olhos ardendo pela noite mal dormida e o corpo encolhido como se quisesse desaparecer entre as almofadas.
Sem pressa, puxou o cobertor até o peito e permaneceu ali, imóvel, como se o simples ato de levantar exigisse mais força do que possuía. O ar da sala estava levemente perfumado com o café que Nathan havia preparado mais cedo, e o som distante da água escorrendo pela pia denunciava que ele ainda se preparava para sair.
Foi então que sentiu um peso delicado ao lado.
O gato — aquele mesmo que costumava ignorá-lo solenemente — pulou para o sofá com a leveza de quem não precisa pedir permissão. Esticou o corpo num espreguiçar preguiçoso e, ao se virar em direção a Cael, soltou um leve miado, curto e desinteressado.
Cael se encolheu imediatamente, um reflexo que não soube controlar. Seus ombros tremeram levemente enquanto recuava para o canto do sofá, os olhos fixos no animal com uma tensão quase infantil. O gato não se afastou. Apenas observou com aquela expressão serena e insondável que os felinos pareciam dominar tão bem. Em silêncio, começou a se aproximar novamente, com passos suaves, quase cerimoniais.
Quando sua pata tocou o braço de Cael, ele respirou fundo, hesitando… mas não afastou o membro.
O gato então deu uma cabeçada sutil em sua mão, como se dissesse — agora. Cael, ainda relutante, estendeu os dedos com lentidão, e a criatura se esfregou contra eles com um ronronar discreto, porém audível. Aquela textura quente e viva, aquele contato sem expectativas, fez algo dentro dele se mover. Uma memória longínqua de ternura, talvez. Ou apenas a lembrança do que era ser tocado sem medo.
Por um instante, esqueceu-se de estar em estado de alerta.
Foi quando Nathan apareceu na porta do corredor, os cabelos ainda úmidos, vestindo uma jaqueta leve e tênis nos pés. Ele parou ao ver a cena — Cael sentado no sofá, o gato pressionando-se contra sua mão. O rosto de Nathan não mudou de imediato, mas havia um enrijecer sutil na mandíbula.
Sem dizer nada, caminhou até eles e se abaixou ao lado do sofá, afastando delicadamente o gato com um gesto firme. O felino miou em protesto e saltou para o chão, deixando Cael sozinho novamente. Mesmo que não estivesse exatamente apavorado, um alívio inegável escorreu por seu corpo com a saída do animal — um alívio que ele odiava sentir, mas não podia negar.
Nathan não comentou nada sobre isso.
— Eu vou para a faculdade agora — disse, enquanto se erguia e ajustava os botões da jaqueta — volto mais tarde.
Sua voz era calma, neutra. O tipo de tom que não deixava margem para desentendimentos, mas também não oferecia afeto.
Cael assentiu com um pequeno gesto de cabeça, incapaz de formular uma resposta.
Nathan atravessou a sala, pegou a chave do aparador e saiu. A porta se fechou com um clique baixo, e o apartamento mergulhou novamente em silêncio — o mesmo silêncio que Cael conhecia bem, cheio de lacunas que só Nathan parecia saber preencher.
O gato, do outro lado da sala, ainda o observava. E, por um momento, Cael pensou que talvez estivessem aprendendo, lentamente, a coexistir com suas cicatrizes.
—–
Ele passou os dedos por um tecido cor de vinho, acetinado, que deslizava entre seus dedos com um peso quase luxuriante. Era uma camisa que deixava os ombros à mostra e sugeria mais do que cobria. Tinha sido usada em uma noite que ele mal queria lembrar — não porque tivesse sido terrível, mas porque pertencia a uma versão dele que agora soava… dissonante.
O telefone vibrava suavemente sobre a cama, iluminando a colcha com a tênue luz das notificações. Outra mensagem de Nathan.
Nathan: “Estou no intervalo. Como você está?”
Cael: “Estou bem”
Cael demorou a responder. Seus olhos voltaram à camisa. Ele a puxou do cabide, levou contra o corpo, tentou se imaginar com ela. O espelho à sua frente lhe devolveu a imagem de um desejo fabricado. Um molde. Um reflexo.
Ele largou a peça sobre a cama e se virou, frustrado, cruzando os braços. Caminhou até a cômoda, abriu a gaveta onde mantinha as roupas mais simples — moletons, camisetas largas, algumas com estampas desgastadas. O dedo hesitou sobre uma camiseta preta, de algodão comum. Havia algo reconfortante em sua neutralidade. Algo honesto.
Mas mesmo então, enquanto a puxava, ouviu a própria voz sussurrar, meio rindo, meio irritado:
— Não, não, não… isso não é hora de pensar em seduzir ele, sua vadia estúpida…
A frase caiu em voz baixa, quase como uma bofetada em si mesmo. Ele se calou na sequência, os olhos fixos no tecido em sua mão. O silêncio que se seguiu foi grosso, pesado. Um silêncio de autoanálise, de vergonha… e de revelação.
Ele não estava pensando em o que vestir para Nathan por puro vaidade ou fome. A questão era mais sutil. Mais íntima. Estava tentando antecipar como ser amado. Como tornar mais fácil para Nathan continuar escolhendo ele.
“Ele me ama, não importa o que eu use.”
A verdade do pensamento o desarmou. Doeu um pouco, até. O amor de Nathan não parecia se basear naquilo que Cael podia oferecer — nem na performance, nem na entrega, nem na beleza calculada com que havia aprendido a sobreviver. Nathan o olhava e via… o que exatamente?
Cael ainda não sabia. Mas desejava descobrir. E, mais do que isso, desejava ser digno de ser descoberto.
Sentou-se na beirada da cama, puxando a camiseta preta por sobre a cabeça. O tecido era quente, reconfortante. Familiar. Não havia nada de tentador ou provocante nela — e, por alguma razão, isso o fazia se sentir mais verdadeiro. Como se finalmente tivesse permissão para existir fora do espetáculo.
O celular vibrou novamente.
Nathan: “Conseguiu dormir depois que eu saí?”
Cael sorriu, pequeno, um calor morno apertando o peito. Os dedos pairaram sobre o teclado por um momento antes de digitar:
Cael: “Tentei. A cama ficou fria. Seu gato não é um bom substituto.”
Poucos segundos depois, a resposta chegou:
Nathan: “Ele é temperamental. Herdou isso de você.
Cael riu sozinho, de um jeito que nem lembrava ser possível.
Nathan: “Quer que eu leve alguma coisa quando voltar? Estou pensando em fazer waffles.”
Ele sorriu, pequeno, involuntário. Digitou com rapidez:
Cael: “Eu gostaria disso”
Houve uma pausa, e então a resposta:
Nathan: “Ok.”
—–
O cheiro quente de waffles recém-preparados preenchia o pequeno apartamento, misturado ao perfume adocicado de chocolate derretido e frutas frescas. Nathan trabalhava com uma concentração quase exagerada na cozinha, espalhando o chantili com precisão quase cerimonial, como se aquele gesto simples carregasse um significado maior — como se estivesse preparando uma oferenda para algo sagrado.
Cael, sentado na bancada, balançava os pés como uma criança ansiosa, os olhos brilhando com expectativa. Assistia a tudo em silêncio, o que, para ele, era raro. Ainda havia aquela leve tensão em seus ombros, a ansiedade mal disfarçada de alguém que tentava se comportar, tentava ser — bom — como se temesse quebrar algo que ainda era frágil demais.
Quando Nathan colocou o prato à sua frente — uma pilha perfeita de waffles dourados, cobertos de chocolate, chantili e frutas —, os olhos de Cael brilharam como duas pedras preciosas capturando a luz da manhã.
— Isso é… — Cael começou, mas a voz falhou, embargada por uma gratidão que ele não sabia muito bem como expressar.
Nathan apenas sorriu, sem pedir palavras, puxando uma cadeira para se sentar diante dele.
Cael não esperou mais. Pegou um pedaço com o garfo e, num segundo, já estava com a boca cheia, o chantili manchando o canto dos lábios, um filete de chocolate descendo perigosamente pelo queixo. Lambeu os lábios com rapidez, mas não a tempo de evitar o olhar divertido de Nathan.
— Você é inacreditável — disse Nathan, rindo baixo.
Cael deu de ombros, um pouco envergonhado, mas ainda sorrindo de boca cheia.
Nathan o observou comer por um momento, com um misto de ternura e uma preocupação que não conseguia mais disfarçar. A cena diante dele — Cael, vulnerável e natural, saboreando algo tão simples — era ao mesmo tempo reconfortante e inquietante. Como se cada gesto escondesse um peso que ainda precisava ser dividido.
Nathan largou o garfo, entrelaçou os dedos sobre a mesa e, com um cuidado que parecia medir cada palavra antes de soltá-la, disse:
— Você não está com fome agora?
A pergunta veio sem segundas intenções. Era só cuidado.
Cael sorriu, pequeno.
— Estou. Mas não desesperado. Posso esperar. — Virou-se de leve, olhando-o nos olhos. — Não quero confundir carinho com necessidade. Não com você.
— Cael… — chamou, baixo, o tom calmo, quase como se temesse espantar algo selvagem — você não precisa me contar se não quiser. Mas… — os olhos buscaram os dele — o que aconteceu enquanto você esteve fora?
O garfo de Cael parou no ar. O chocolate escorria vagarosamente do canto da boca, e, por um instante, ele pareceu pequeno, muito menor do que seu corpo sugeria, como uma criança pega no meio de uma travessura que não queria admitir.
Mas Nathan não o pressionava. Não havia censura, nem exigência em seu olhar. Apenas espaço. Um convite silencioso.
Cael respirou fundo, colocou o garfo de lado com cuidado e limpou o rosto com o guardanapo, ganhando tempo. Ele sabia que não queria mentir. Não queria esconder nada. Mas também não queria que Nathan pensasse que estava tentando se justificar.
Quando ergueu o olhar novamente, seus olhos estavam sérios, límpidos.
— Eu… — começou, a voz mais rouca do que pretendia — eu não sei bem como falar sobre isso sem parecer uma desculpa — admitiu, com uma honestidade dolorosa.
Nathan balançou a cabeça, um pequeno gesto de encorajamento.
— Se você disser a verdade, não vai ser uma desculpa. Só… fala comigo — disse, suave.
Cael fechou os olhos por um momento, como se buscasse as palavras no escuro.
— Você sabe que eu não… — começou, com a voz baixa, pausada. Nathan ergueu os olhos. Cael hesitou. — Não sou bom com verdades… Eu aprendi cedo que a verdade às vezes machuca mais do que o silêncio.
Nathan permaneceu quieto. Esperando.
— Mas eu não quero que você pense que o que eu senti por você começou só quando eu voltei. Ou que eu escolhi você só depois de ter sido descartado. Porque… não foi assim.
Nathan fechou o livro devagar. O olhar atento agora preso nele.
O silêncio que se seguiu não era incômodo. Era expectativo. Quase sagrado.
— Arael… ele me levou para um lugar. Eu não sei se você chamaria de — clube — ou de — mercado — ou de — templo. Era tudo isso e nada disso. Um lugar onde corpos não têm nome, só função.
A voz de Cael estava rouca, como se cada palavra precisasse atravessar cacos de vidro para sair.
— Ele me fez servir outras pessoas. Como um teste. Ele queria ver se eu ainda iria implorar como antes. Se eu me curvaria, mesmo depois de tudo. Ele me deixou lá por dias.
Fez uma pausa longa, como se escutasse o próprio coração doer. Nathan não se moveu. Os olhos estavam cravados nele, sem julgamento, mas com uma dor silenciosa que começava a se formar atrás do olhar.
— Eu fiquei faminto, mas não comi — Cael continuou, os lábios trêmulos — eu queria provar que podia ter uma escolha. Que a fome não era mais maior do que o que eu sentia por você.
Sua voz falhou no final da frase, e ele engoliu seco. O ar estava denso, úmido da emoção que ele lutava para não deixar transbordar.
— Arael me observava. Às vezes de perto, às vezes por outras bocas e outros olhos. — Cael olhou para o chão — e mesmo quando eu… caí. Mesmo quando cedi… eu pensava em você. Não como desculpa, mas como âncora. Como lembrança de que eu era mais do que aquilo.
Nathan fechou os olhos. O maxilar contraído, como se contivesse alguma resposta que ainda não tinha forma. Mas não se afastou. Não o tocou. Apenas permaneceu.
— Eu… eu queria te contar antes, mas tinha medo de parecer que estava tentando justificar. Porque nada justifica. Nem o que eu sou, nem o que eu fiz — Cael levantou o rosto, encarando Nathan. Seus olhos estavam úmidos, mas firmes — mas eu não sou mais o mesmo desde aquele dia. Quando o selo quebrou… eu soube. Eu soube que era porque te amei sem pedir nada em troca. Só te amei. Pela primeira vez.
Nathan respirou fundo. E exalou devagar, como quem processa um mundo inteiro entre os pulmões.
— Você acha que isso muda o que aconteceu? — perguntou, a voz baixa, grave.
Cael balançou a cabeça.
— Não. Não muda. Mas talvez explique. Um pouco. Ou… talvez ajude a entender quem eu sou agora. Não só o que eu fui.
Nathan assentiu lentamente, e seus olhos se suavizaram, embora ainda carregassem as cicatrizes recentes do que tinham ouvido. Nathan se levantou sem dizer nada. Deu a volta na mesa e puxou Cael para seus braços com uma firmeza gentil, sem urgência. Apenas presença.
Cael deixou-se envolver, sentindo o calor humano que parecia capaz de afugentar todos os fantasmas.
— Você não está mais preso — Nathan murmurou contra seus cabelos — nunca mais.
Cael soltou um suspiro trêmulo, sentindo, pela primeira vez, o peso do passado começar a ceder.
Nathan olhou para ele. Por um segundo, pareceu à beira de alguma decisão — mas, em vez disso, apenas estendeu a mão, pousando-a sobre a de Cael. O toque era firme, quente. Um fio tênue de ligação em meio à ruína.
— Eu não vou embora — disse, com simplicidade — mas agora você entende, não entende? O que significa estar aqui. Escolher estar aqui.
Cael olhou para a mão entre as suas. E, então, olhou para Nathan.
— Entendo. E é por isso que eu não vou correr. Nem esconder nada mais.
O silêncio voltou, mas agora era menos denso — mais íntimo, como um cobertor compartilhado entre dois corpos cansados. Ainda havia mágoa. Ainda havia sombras. Mas, entre elas, um fio tênue de luz começava a existir.
E, para Cael, isso era liberdade.
Capítulo 13
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Doce Inanição
Nathan jamais esperou encontrar o amor na forma de um íncubo. Muito menos descobrir que ele tinha um lado doce, um senso de humor duvidoso e uma tendência incorrigível a usar lingerie como forma...