Capítulo 16
A manhã filtrava-se pela janela da cozinha em feixes tímidos, tingindo o chão de luz dourada. O aroma forte do café recém-passado misturava-se ao cheiro ainda quente da pele de ambos, espalhando-se pelo ar como um testemunho silencioso da intimidade recém-partilhada.
Cael estava encostado no balcão, os quadris presos pelas mãos firmes de Nathan, que o beijava com uma fome quieta, intensa, como se cada toque fosse uma reafirmação silenciosa de algo que ele ainda não ousava nomear.
Quando se separaram, o ar parecia vibrar entre eles. Cael riu, uma risada suave e desarmada, a testa encostando brevemente no ombro de Nathan enquanto recuperava o fôlego.
— Você realmente gosta de beijar, hein? — murmurou, a voz rouca de uma ternura bem-humorada que não combinava com sua fama construída de tentador insaciável.
Nathan respondeu apenas com um meio sorriso, embaraçado, mas satisfeito, antes de se afastar para servir o café.
As xícaras tilintaram suavemente no balcão, pequenos sons domésticos preenchendo o silêncio confortável entre eles.
— Não está com fome? — perguntou Nathan, passando-lhe a xícara.
Cael aceitou, as pontas dos dedos roçando de propósito a mão de Nathan, seus olhos coruscando com uma malícia preguiçosa.
— Não — respondeu, soprando sobre o café, os lábios formando um sorriso de canto. — Por que a pergunta? Você está querendo… alimentar-se de mim?
O tom era leve, mas havia algo sob a superfície — um convite e uma provocação, tão entrelaçados que era difícil separá-los.
Nathan ficou visivelmente sem graça, desviando o olhar para a própria xícara como se ela tivesse se tornado subitamente fascinante.
— Eu… só achei que talvez você estivesse precisando — respondeu, a voz baixa, quase defensiva.
Cael o observou por cima da borda da xícara, saboreando mais o embaraço do que o café.
Desde a noite no hotel, no aniversário de Nathan, eles haviam construído uma convivência tranquila, íntima de uma maneira nova para Cael — nova e perigosamente confortável.
Ele sabia que Nathan andava ocupado: trabalho, faculdade, preocupações típicas de um humano que carregava o peso de demasiadas responsabilidades.
Mesmo assim, ali estava ele, ainda se preocupando com algo que poucos sequer ousariam perguntar a Cael.
Depois do café, Nathan juntou suas coisas com pressa, praguejando baixinho por ter esquecido uma apostila, o tênis torto, a mochila pesando no ombro.
Parou à porta, o olhar demorando-se em Cael, como se quisesse dizer algo que não sabia como formular.
— Volto mais tarde — disse, simples.
Cael apenas acenou com a mão, um sorriso preguiçoso nos lábios, e o viu partir, o som dos passos desaparecendo escada abaixo.
A casa mergulhou num silêncio mais denso, íntimo de uma maneira diferente.
Cael terminou o café devagar, saboreando a solidão como se ela fosse uma velha amiga. Depois, subiu para seu quarto — um refúgio quase intacto, onde as paredes ainda guardavam as sombras de antigas perturbações.
No canto, sobre a cômoda, repousava sua orbe: uma esfera de vidro leitoso, opaca e quase esquecida.
Ele não a tocava há tempos. Desde que o vínculo com Arael fora quebrado, não sentia mais necessidade. Mas agora…
Cael estendeu a mão, os dedos pairando por um instante, antes de pousarem sobre a superfície fria.
Um murmúrio sussurrado em uma língua que não existia nos registros humanos, e a orbe brilhou, viva de novo.
Do outro lado da conexão tênue, a presença de Lilithen manifestou-se quase de imediato: uma energia densa, antiga, que parecia expandir e comprimir o espaço ao redor de Cael.
— Meu pequeno Cael… — disse ela, a voz soando não em seus ouvidos, mas diretamente em sua mente, tingida de um afeto raro e sombrio.
Cael sentiu um aperto no peito que não sabia nomear.
— Lilithen — respondeu, formal, mas a suavidade traía sua gratidão.
A entidade se fez visível de maneira etérea — a forma de uma mulher de traços afilados, cabelos negros derramando-se como névoa, olhos de um carmesim profundo.
Ela o estudou por um longo momento, como uma mãe que reencontra um filho teimoso.
— Por que me chama, querido? — perguntou, embora o soubesse.
Cael respirou fundo, sustentando aquele olhar que parecia atravessá-lo.
— Eu quero os registros — disse, sem rodeios. — Tudo sobre mim. Desde que fui… criado.
Lilithen inclinou a cabeça levemente, um gesto que misturava pesar e orgulho.
— Finalmente deseja saber quem é. — Sua voz soou como a de quem vê um pássaro aprender a voar após inúmeras quedas. — Pode tê-los, é claro. Já passou da hora.
Ela se aproximou, os contornos do corpo oscilando, como se fosse feita da própria essência do mundo noturno.
— Há algo em especial que queira saber antes de receber tudo? — indagou, o tom quase gentil.
Cael hesitou, o orgulho travando-lhe a língua por um instante.
— Eu não sinto fome como antes — confessou. — Desde o rompimento do selo. Mesmo depois de dias sem… me alimentar.
Lilithen sorriu, e havia um traço de ternura verdadeira em seu rosto — rara, preciosa.
— É natural — disse ela. — Antes, cada energia que absorvia era dividida. Uma parte seguia para você. Outra, para Arael. Ele se alimentava de você, meu doce Cael, como um parasita se banqueteando daquilo que deveria ser seu.
A voz dela soava com um leve veneno ao pronunciar o nome de Arael.
Cael abaixou os olhos por um instante, absorvendo a informação. Não era surpresa — não realmente —, mas ouvi-la em voz alta era como arrancar uma lasca antiga cravada na carne.
— Agora — prosseguiu Lilithen —, toda energia é sua.
Ele ergueu os olhos novamente, firme.
— Quero os registros mesmo assim. Quero tudo.
Lilithen assentiu, a mão translúcida estendendo-se como quem oferece algo invisível.
O vidro esbranquiçado da orbe brilhou em tons de âmbar e vermelho, pulsando como um coração em transe.
Então, sem aviso, as linhas do chão começaram a se iluminar, traçando um selo intricadamente desenhado embaixo de seus pés — círculos concêntricos, símbolos antigos que dançavam e serpenteavam como serpentes vivas.
O ar ficou espesso, carregado de eletricidade, e no centro do selo, Lilithen materializou-se, como uma chama surgindo da própria sombra.
Cael recuou um passo, surpreso.
— Não precisava ter vindo pessoalmente — disse ele, a voz baixa, mas não fria.
Lilithen sorriu — um sorriso que não era completamente humano, nem completamente cruel.
Vestia-se com a mesma matéria nebulosa de antes, mas ali, diante dele, parecia ainda mais real, mais tangível.
— Eu quis vê-lo — respondeu, sua voz vibrando com algo próximo de nostalgia. — Faz muito tempo.
O silêncio se estendeu entre eles, preenchido por uma corrente de entendimentos não ditos.
Lilithen deu alguns passos em sua direção, os pés descalços pairando milímetros acima do chão.
— E talvez — acrescentou — possa ajudá-lo a interpretar o que encontrará. Nem tudo foi escrito para ser compreendido facilmente.
Cael assentiu, aceitando a presença dela como se fosse uma extensão natural daquele momento.
Lilithen ergueu a mão e, de sua palma aberta, uma série de projeções se ergueu no ar: documentos antigos, tabelas, diagramas de anatomia, relatórios friamente objetivos descrevendo cada etapa da criação de Cael.
— Então, vamos começar — disse ela suavemente.
Cael se aproximou, os olhos percorrendo os textos que flutuavam diante de si.
A maioria estava escrita na linguagem antiga dos demônios — mas, instintivamente, ele a compreendia, como se cada sílaba tivesse sido entranhada em seu ser desde a concepção.
O primeiro arquivo era sobre combinações genéticas, infusões de energia de planos inferiores, moldagem física ajustada para atratividade máxima…
E também listas de limitações — restrições intencionais para evitar que sua criação escapasse do controle de Arael.
Cael observou, de fora e de dentro, enquanto vias energéticas, padrões de fluxos internos e estruturas de absorção sexual eram descritas com precisão fria.
Seu corpo fora moldado para a eficiência: projetado para seduzir, capturar, consumir.
Outros registros se abriam como flores negras ao seu redor.
Via imagens de si mesmo enquanto ainda era só uma junção de celular sem forma. Depois nos primeiros anos de sua existência, Frágil, pequeno, mantido sob a vigilância obsessiva de Arael.
Cada toque, cada olhar que recebera não fora expressão de afeto, mas de propriedade. Ele era o projeto mais precioso de seu criador: a fusão impossível de alma e carne demoníaca, um híbrido que não deveria existir.
Cael viu anotações em caligrafias diferentes — Lilithen, Arael, outros nomes que ele não conhecia — debatendo-se entre orgulho e temor diante do que haviam criado.
“possibilidade de sustentar uma alma própria.”
“Sensibilidade emocional acima do previsto. Potencial para autonomia perigosa.”
Essas frases batiam nele com mais força que qualquer outra coisa. Porque nelas havia um reconhecimento velado de que ele não era apenas um recipiente.
Era alguém.
Uma existência que escapava às amarras para as quais fora desenhado.
Uma anotação, pequena e quase escondida no rodapé de um relatório, chamou sua atenção.
Ele estendeu a mão, tocando a projeção com a ponta dos dedos.
Lilithen observava em silêncio, deixando que ele conduzisse a própria descoberta.
A nota dizia:
“Implantação de estruturas reprodutivas secundárias: falha parcial.
Apesar da presença de receptores sensoriais altamente desenvolvidos, a ausência de matriz uterina funcional impede a fertilização.
Indivíduo incapaz de gestação.
Compensação sugerida: aumento da capacidade de absorção energética e adaptação psíquica para substituição da função reprodutiva emocional.”
Cael leu uma, duas vezes, com uma sensação morna e indiferente escorrendo por sua mente.
Não era uma revelação dolorosa; era simplesmente um fato, mas era estranho ver isso escrito com tamanha indiferença, como se ele fosse apenas um experimento que havia falhado em algum parâmetro projetado.
Lilithen, como se percebesse o que ele sentia, aproximou-se um pouco mais.
— Era necessário para proteger você — disse, a voz baixa, quase um sussurro de veludo. — Se pudesse gerar vida, Arael teria usado isso contra você de formas que não posso sequer descrever.
Cael permaneceu em silêncio, absorvendo a informação.
Era apenas mais uma prova — se é que precisava de outra — de que seu corpo, sua vida, haviam sido moldados para servir propósitos alheios.
Mas agora… agora, ele pertencia apenas a si mesmo.
— Então, ele realmente queria isso.
— Sim — completou Lilithen, a palavra caindo entre eles como uma sentença irrevogável.
Sua voz, antes aveludada, agora carregava uma gravidade sombria. Ela se moveu lentamente, os contornos de sua forma ondulando como fumaça viva, e continuou:
— Arael ficou obcecado por você desde o momento em que percebeu seu potencial. Era diferente de qualquer outro experimento que já havíamos tentado. Você… era uma criação perfeita demais para os olhos dele ignorarem.
Cael deixou o pergaminho de anotações repousar sobre suas coxas. Sua mão, ainda pousada sobre o papel, tremia quase imperceptivelmente.
O quarto parecia se tornar pequeno, abafado, como se o ar em torno de si tivesse ficado mais denso.
Lilithen prosseguiu, com a frieza meticulosa de quem sabe que há verdades que precisam ser ditas, mesmo que arranhem.
— Quando ele começou a falar em gerar descendência, soube que precisava intervir. — Seus olhos carmesins se estreitaram, cintilando como brasas. — Se você pudesse conceber, ele teria usado isso como mais uma corrente para mantê-lo acorrentado a ele. Não apenas como fonte de energia. Não apenas como brinquedo. Mas como algo mais profundo… e perverso.
A palavra ficou suspensa no ar, pesada, indizível.
Cael sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha, como se dedos invisíveis tivessem deslizado pela sua pele.
Arael… queria mais do que controlá-lo. Queria moldá-lo completamente — queria invadir até a possibilidade mais íntima de sua existência.
Grávido.
O pensamento era tão grotescamente absurdo que por um instante sua mente simplesmente recusou-se a absorvê-lo.
Mas a imagem se impôs com uma violência surda: seu corpo alterado, domado, usado… para gerar algo que pertenceria não a si, mas ao seu criador.
Cael apertou o pergaminho entre os dedos, o estalar do papel soando alto no silêncio.
Lilithen se inclinou um pouco mais, a sombra de sua presença envolvendo-o num gesto estranho de proteção.
— Manipulei os resultados — admitiu, sem orgulho, mas também sem arrependimento. — Fiz parecer que a implantação havia falhado além do reparo. Convenci Arael de que, apesar de tudo, você era incapaz de gerar vida. Foi a única maneira de lhe dar uma chance.
Uma chance de ser mais do que aquilo que ele queria fazer de você.
Cael desviou o olhar, encarando o vazio por um longo momento.
Não sentia tristeza.
Não sentia ódio.
Sentia uma espécie de cansaço primordial, como se estivesse diante de uma verdade tão antiga quanto o próprio tempo: que seu corpo nunca havia sido realmente seu — não até agora.
E, ainda assim, saber que Lilithen — uma criatura cuja natureza era, por definição, voltada para os próprios interesses — havia conspirado para lhe dar essa liberdade…
Isso aquecia algo quebrado e adormecido dentro dele.
— Obrigado — disse ele, por fim, a voz rouca e contida.
Lilithen sorriu, um sorriso pequeno, quase imperceptível.
— Não agradeça — murmurou. — Apenas viva. Viva da maneira que ele tentou impedir que você vivesse. Isso será punição suficiente.
Cael fechou os olhos por um instante, respirando fundo, deixando o peso da revelação assentar-se dentro de si.
Quando voltou a abri-los, havia uma nova firmeza ali, um brilho de determinação que Lilithen reconheceu — e aprovou.
Ele não seria um eco do desejo de outro.
Não seria a lembrança deformada de uma obsessão.
A partir dali, cada respiração, cada escolha, cada toque que aceitasse ou negasse… seriam dele.
Só dele.
E isso, pensou Cael enquanto recolhia o pergaminho e o guardava junto à orbe, era a mais perfeita e cruel forma de liberdade que poderia conquistar.
Lilithen moveu a projeção para o lado com um gesto, revelando outro conjunto de registros: anotações sobre seu crescimento emocional, observações sobre sua ligação precoce com figuras dominantes, hipóteses sobre como poderia reagir à liberdade.
Ela inclinou a cabeça levemente, estudando-o.
— E o humano? — perguntou, com uma suavidade que soava estranha vinda dela. — Como ele o trata?
Cael não respondeu de imediato.
As imagens da manhã lhe vieram à mente: Nathan o beijando com aquela sede silenciosa, perguntando sobre sua fome com um embaraço doce, quase juvenil.
Preocupando-se.
Querendo tocá-lo sem possuí-lo, querendo cuidar sem prender.
— Ele é… gentil — disse, finalmente, a voz embargada por uma emoção que não nomeou.
Lilithen sorriu de modo tênue, como se algo nela se acalmasse ao ouvir aquilo.
Ela pousou uma mão breve em seu ombro — um toque leve como uma brisa noturna — e, por um instante, Cael sentiu algo que quase poderia ser chamado de bênção.
— Estarei observando — disse ela, antes de recuar para dentro do selo.
As linhas no chão começaram a apagar-se lentamente, como se nunca tivessem existido, e com elas, a presença de Lilithen dissipou-se.
Cael ficou sozinho novamente, mas desta vez, a solidão não parecia tão pesada.
Com os registros armazenados em sua orbe, e com a estranha paz trazida pela visita de Lilithen, ele sentou-se à beira da cama, olhando para o teto, onde a luz fraca projetava sombras móveis.
Talvez ele nunca pudesse criar vida como os humanos criavam.
Mas ali, naquela pequena existência construída entre beijos roubados na cozinha e olhares cúmplices à porta, Cael sentia que estava, pela primeira vez, aprendendo o que era realmente estar vivo.
E isso era mais do que qualquer projeto ou selo poderia lhe negar.
—–
Quando Nathan chegou em casa, a porta rangeu suavemente ao fechar-se atrás de si, abafando o burburinho distante da rua. Ele retirou os sapatos, sentindo a madeira fria sob os pés, e lançou um olhar automático para a sala — vazia. O sofá estava impecavelmente arrumado, a televisão desligada.
Franziu o cenho, uma pontada de inquietação se aninhando sob a pele.
Chamou por Cael, num tom despreocupado. Nenhuma resposta.
Seguiu então para o quarto, esperando encontrá-lo enrolado nos lençóis desfeitos. Mas o cômodo estava tão ordenado quanto a sala — o silêncio denso, quase suspenso no ar.
Foi só então, ao passar pelo corredor, que notou a luz tênue filtrando-se pela fresta da porta do quarto de visitas — um cômodo que, há meses, havia caído em desuso.
Com passos silenciosos, Nathan empurrou a porta, e a cena diante de seus olhos arrancou-lhe um sorriso involuntário.
Cael estava jogado sobre a cama de hóspedes, dormindo de qualquer jeito, as pernas dobradas de um lado, o corpo meio torcido em um ângulo desconfortável. Em torno dele, pergaminhos antigos e livros de capa de couro escura espalhavam-se como testemunhas silenciosas de sua pesquisa tardia.
Nathan se aproximou, ajoelhando-se ao lado da cama. Passou a mão suavemente pela linha do cabelo prateado de Cael, desalinhando os fios já bagunçados.
— Ei, dorminhoco — murmurou, a voz baixa, como quem desperta alguém querido de um sonho tranquilo. — Não devia dormir desse jeito… Vai acordar todo dolorido.
Cael franziu o cenho, as pálpebras tremulando antes de se abrirem em fendas enevoadas de sono. Demorou um segundo para se situar, piscando devagar.
— Eu… nem percebi que dormi — resmungou, a voz rouca e arrastada.
Nathan riu baixinho, aliviado. Apoiou o cotovelo no colchão, observando a bagunça de pergaminhos ao redor.
— E o que é tudo isso? — perguntou, genuinamente curioso, deixando o olhar correr pelas páginas marcadas por escritas elegantes e símbolos desconhecidos.
Cael se espreguiçou preguiçosamente, puxando um dos pergaminhos para si como quem resgata um pedaço esquecido de memória.
— São… os registros sobre mim. Desde que fui criado.
— Você foi atrás disso? — A surpresa na voz de Nathan veio tingida de um orgulho discreto. — Você realmente foi.
Cael sorriu de canto, um sorriso pequeno, sonolento, mas genuíno.
— Segui seu conselho — admitiu, sem pressa. — Achei que… talvez fosse hora de saber.
Nathan ajeitou-se no chão, cruzando as pernas como um estudante atento.
— Descobriu algo interessante?
Cael hesitou por um momento, os olhos dourados descendo para o pergaminho aberto sobre o colo. Seus dedos deslizaram pelas palavras gravadas ali, como se absorvê-las mais uma vez tornasse mais fácil verbalizar.
— Descobri… muitas coisas.
A voz de Cael tinha um tom pensativo, quase melancólico.
— Algumas confirmações. Outras… surpresas.
Nathan inclinou a cabeça, atento, mas sem pressioná-lo.
Cael respirou fundo, o gesto tão humano que doeu de ver.
— Por exemplo — disse, casualmente, como quem compartilha um detalhe trivial —, descobri que… não posso engravidar.
Nathan piscou uma, duas vezes, processando a informação.
Então soltou uma risada breve e abafada, como se aquilo fosse tão evidente que nem soubera que era uma dúvida real.
— Bem, isso explica bastante — comentou, relaxando ainda mais contra a beira da cama. — Se pudesse, já teria acontecido há muito tempo, considerando nosso histórico.
Cael soltou uma risadinha curta, um som baixo e rouco que carregava mais alívio do que humor propriamente dito.
Havia, em sua postura, uma tensão que se desfazia pouco a pouco, como gelo derretendo ao sol.
— Achei que talvez… você se importasse — confessou, sem encará-lo diretamente, como se falasse com o vazio entre eles.
Nathan estendeu a mão e entrelaçou os dedos aos dele, puxando-o com suavidade até que Cael deslizou da cama para sentar-se no chão, ao seu lado.
— Eu me importo com você — disse Nathan, firme, a sinceridade crua em sua voz. — Não com a ideia de… ter filhos, ou não. Nunca foi sobre isso.
Cael encostou a testa no ombro de Nathan, o calor do contato mais eloquente do que qualquer palavra.
Não era apenas a ausência de expectativa que o confortava, mas a aceitação silenciosa de quem ele era — todo o passado esculpido em dor e desejo, todas as lacunas e imperfeições que carregava.
Nathan não precisava que ele fosse mais.
Não precisava que ele fosse menos.
Só precisava que ele fosse… Cael.
Ficaram assim por um tempo, respirando no mesmo ritmo, as palavras se esvaindo como névoa.
Lá fora, o dia começava a tingir o céu de tons dourados e lilases — uma promessa silenciosa de que, independentemente do que o passado revelasse, o futuro era um espaço que poderiam construir juntos: um gesto, um toque, um momento de cada vez.
E naquela manhã morna e preguiçosa, entre pergaminhos esquecidos e livros de memórias que não mais os aprisionavam, Cael soube, com uma certeza tranquila, que havia encontrado algo que nem todos os experimentos do mundo poderiam criar:
Um lar.
Um pertencimento.
Um amor que, finalmente, era só seu.
Depois de um tempo, Nathan sugeriu, com um sorriso gentil, que levassem os pergaminhos e livros para o quarto principal.
Cael apenas assentiu, deixando que Nathan recolhesse alguns volumes, enquanto ele mesmo abraçava outros contra o peito, como se fossem frágeis demais para o descuido.
No quarto, a luz suave da tarde entrava pelas cortinas entreabertas, lançando padrões dourados no piso de madeira. Nathan ajeitou tudo sobre a cama com cuidado meticuloso, como se manuseasse algo sagrado.
— Quer ler mais agora? — perguntou ele, sentando-se com as costas contra a cabeceira, puxando Cael para junto de si.
Cael hesitou por um instante, os olhos percorrendo os títulos gravados em línguas antigas. Então, lentamente, acomodou-se ao lado dele, deitando-se de lado para melhor apoiar a cabeça no colo de Nathan.
Sentia o calor do corpo dele através da roupa fina, o som do coração batendo firme e constante sob sua orelha.
Nathan abriu um dos livros, as páginas amareladas liberando um cheiro de pergaminho envelhecido e tinta adormecida.
Cael ouvia enquanto Nathan lia trechos em voz baixa — fragmentos de relatórios, observações clínicas, descrições quase cirúrgicas de seus processos de formação. Havia palavras frias como viabilidade, adaptação sensorial, modificações genéticas.
Mas havia também momentos em que Lilithen intervinha nas anotações, deixando registros mais humanos, quase ternos, em meio à objetividade crua. Pequenas notas nas margens, como sussurros de preocupação disfarçada: “Ajustar protocolo de alimentação para evitar colapso emocional”, “Monitorar reações afetivas emergentes”, “Limitar exposição a estímulos negativos — vulnerabilidade inesperada detectada.”
Nathan passou os dedos devagar pelas notas, como se pudesse tocar a intenção por trás delas.
— Ela realmente se importava — comentou, com um leve tom de admiração.
Cael fechou os olhos, absorvendo a sensação daquela descoberta como quem permite que a água quente de um banho penetre na pele fria.
Não era algo que ele havia compreendido antes, mas agora… fazia sentido. Lilithen, com sua frieza elegante, havia feito o que pôde dentro das circunstâncias para protegê-lo — mesmo que de formas sutis, mesmo que disfarçadas.
Um silêncio confortável se estendeu entre eles.
Até que, numa voz quase inaudível, como se a noite exigisse confidências sussurradas, Cael disse:
— Sabe… — Pausou, buscando as palavras no vazio. — Durante muito tempo, achei que só existia para servir a um propósito que nem era meu. — Sentiu Nathan deslizar a mão por seus cabelos, um toque lento e reconfortante. — Não conseguia imaginar que pudesse querer algo para mim. Algo que não fosse imposto, que não fosse exigido.
Nathan continuou acariciando pelos fios lavanda, paciente, silencioso, a presença dele uma âncora firme.
— Mas agora… — Cael continuou, com a voz embargada de algo que nem ele sabia nomear. — Agora eu quero. Quero escolher. Quero viver.
As últimas palavras foram quase um suspiro, e Nathan apertou-o mais contra si, sem pressa, sem promessas vazias. Apenas estando ali, ouvindo, sustentando o peso invisível da confissão.
— Você pode — disse Nathan, enfim, a voz grave e serena. — Você já está fazendo isso, Cael.
Cael ergueu o rosto para olhá-lo, e naquele momento havia algo cru e belo em seus olhos dourados — uma ferida aberta que começava, pela primeira vez, a cicatrizar sem pressa.
Nathan sorriu, aquele sorriso pequeno e imperfeito que Cael aprendera a reconhecer como a coisa mais verdadeira do mundo.
E inclinou-se para beijá-lo, devagar, um toque casto e demorado, como quem sela uma promessa sem precisar de palavras.
Ali, entre as páginas de um passado quebrado e a esperança tímida de um futuro próprio, Cael percebeu que não precisava ser definido pelas cicatrizes que carregava.
Ele era mais.
Muito mais.
E Nathan via isso.
Aceitava isso.
Amava isso.
O beijo se quebrou num suspiro partilhado, e Cael escondeu o rosto no pescoço de Nathan, deixando-se embalar pela respiração dele, pelo calor, pela certeza silenciosa de que, pela primeira vez, sua vida era sua.
Não havia selos.
Não havia grilhões.
Apenas duas pessoas, dois corações batendo lado a lado, aprendendo — lenta e dolorosamente — a serem livres.
E, no âmago daquela noite tranquila, Cael permitiu-se, pela primeira vez, acreditar: talvez o amor, em sua forma mais pura, não fosse sobre posse, dor ou sacrifício.
Talvez fosse apenas isso: permanecer.
E Nathan permanecia.
Sempre.
—–
A sala era vasta e silenciosa, construída em torno de colunas de mármore negro que pareciam se perder nas sombras do teto abobadado. Velas altas ardiam em suportes de ferro, lançando uma luz trêmula e dourada sobre os vitrais distorcidos — fragmentos de cenas antigas, agora irreconhecíveis, como se a própria memória do lugar tivesse sido corrompida pelo tempo.
Arael caminhava pelo centro da sala, a capa de tecido escuro deslizando atrás de si como um espectro obediente. Seus passos eram inaudíveis, mas a tensão que exalava saturava o ar como eletricidade antes de uma tempestade.
Ele parou diante de Lilithen, que estava reclinada em uma poltrona baixa, as pernas cruzadas com uma graça preguiçosa, os olhos semicerrados como os de um gato entediado. O sorriso que brincava em seus lábios era uma obra de arte em si: algo entre a indiferença e a provocação calculada.
— Você entregou os registros para ele — disse Arael, sem elevar a voz. Não precisava. Sua simples presença era uma lâmina pressionada contra a garganta do ambiente.
Lilithen soltou um suspiro preguiçoso e inclinou a cabeça, fitando-o como se ele fosse uma criança irritada.
— Pediu — respondeu, como se o fato fosse trivial. — E não havia nada ali que ele não devesse saber.
Arael não respondeu imediatamente. O silêncio que caiu foi denso, como se sugasse o ar das velas, fazendo as chamas tremeluzirem. Seus olhos, de um dourado antigo e profundo, ardiam com uma chama contida — não de raiva, mas de uma curiosidade sombria e meticulosa.
— Ele nunca demonstrou interesse antes — murmurou Arael, mais para si do que para ela. — Por que agora?
Lilithen deu de ombros, um gesto pequeno, mas cheio de uma arrogância sutil.
— Talvez porque agora ele pertença a si mesmo — disse ela, com um sorriso enigmático. — Talvez porque agora ele tenha algo… ou alguém… que o faça querer entender quem ele é.
Arael estreitou os olhos, avaliando-a, pesando as palavras não ditas mais do que as faladas.
Ele sabia.
Sentia a mudança em Cael como um som agudo demais para os ouvidos mortais — uma vibração tênue que ressoava através dos véus que separavam suas existências. Cael estava diferente. A fome desenfreada que sempre o acompanhara havia diminuído, domesticada por algo que Arael não controlava.
Algo humano.
Algo perigoso.
O íncubo que ele moldara com tanto cuidado começava a escorregar por entre seus dedos — não mais uma criatura faminta e maleável, mas uma entidade que ousava desejar, escolher, viver.
Ainda assim, Arael sorriu. Um sorriso lento, feito de sombras líquidas e intenções veladas.
Ele não pretendia intervir.
Não ainda.
Não diretamente.
Seria inútil forçá-lo; Cael resistiria.
Não, o jogo exigia mais sutileza agora, mais paciência. Cael teria de vir a ele por vontade própria — com perguntas que Nathan não poderia responder, com angústias que a vida comum não poderia silenciar.
Talvez, pensou Arael, plantando a ideia como uma semente venenosa em sua mente, fosse hora de lembrar Cael do que ele era feito.
Não com violência.
Não com ameaças.
Mas com uma ausência cruel, uma carência refinada.
Bastava tocar sutilmente nas bordas do mundo de Cael. Semeando pequenas rupturas — sonhos estranhos, lembranças antigas aflorando sem aviso, a sensação sutil de que algo dentro dele ainda pertencia a um domínio mais profundo e terrível.
Sim. Cael viria até ele.
De olhos baixos, talvez.
Ou de punhos cerrados.
Não importava.
O que importava era que, no final, Cael lembraria: certas raízes, uma vez fincadas, nunca poderiam ser arrancadas completamente.
Arael virou-se, a capa ondulando como fumaça densa ao seu redor, e começou a caminhar para longe.
Lilithen observou-o ir com um olhar frio e pensativo.
Ela sabia, como sabia desde o princípio, que Arael não desistiria tão facilmente de sua criação favorita.
Cael era uma peça única — não apenas uma experiência bem-sucedida, mas algo que ultrapassava o entendimento comum do que era um íncubo.
Algo que tocava a própria essência da alma, desafiando leis que nem mesmo os antigos ousavam romper.
Ela poderia avisar Cael.
Poderia dizer-lhe para ter cuidado, para se proteger.
Mas sabia também que, no fundo, essa era uma estrada que Cael teria de trilhar sozinho.
Que a verdadeira liberdade exigia encarar seus próprios fantasmas — e derrotá-los, ou ser consumido por eles.
Lilithen reclinou-se ainda mais na poltrona, um sorriso pequeno curvando seus lábios enquanto fechava os olhos.
Arael estava em movimento.
O jogo recomeçava.
E Cael, queira ou não, logo teria de fazer uma escolha.
Capítulo 16
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Doce Inanição
Nathan jamais esperou encontrar o amor na forma de um íncubo. Muito menos descobrir que ele tinha um lado doce, um senso de humor duvidoso e uma tendência incorrigível a usar lingerie como forma...