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Doce Inanição

Capítulo 7

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⚠️Aviso de Conteúdo Sensível

Este capítulo contém cenas que abordam relações de poder abusivas, privação de alimento e manipulação emocional, retratadas sob a perspectiva de um personagem que esteve preso em uma dinâmica de dominação e submissão não consensual.

O conteúdo explora o impacto psicológico de traumas passados e a forma como essas experiências moldaram o protagonista. Embora a narrativa trate esses temas com sensibilidade e reflexão crítica, leitores que possam se sentir desconfortáveis com esse tipo de conteúdo devem considerar com cautela a leitura deste trecho.

 

—–

 

O corpo de Cael tremia enquanto observava Arael se afastar — os olhos do mestre reluziam com um orgulho contido, entrelaçado a algo mais denso, faminto.

O silêncio dominava a sala, rompido apenas pelo som irregular de sua respiração, ainda instável pela intensidade do que acabara de suportar. A presença de Arael pairava como uma pressão invisível, uma força espessa que se moldava à pele de Cael, deixando-o exposto. Vulnerável.

— Você se saiu bem — murmurou Arael, a voz baixa, carregada de uma satisfação sombria —, mas nossa lição… ainda está longe do fim.

Antes que Cael pudesse reagir, Arael estalou os dedos. O ar à volta deles tremeu.

Subitamente, os pulsos de Cael foram puxados para trás, amarrados com firmeza. Ele sentiu o toque áspero e frio das cordas contra a pele. Uma venda deslizou sobre seus olhos, mergulhando-o na escuridão. Em seguida, a mordaça preencheu sua boca, abafando qualquer ruído, qualquer súplica. Ele já não pertencia a si mesmo — era inteiramente de seu criador, Arael.

— Paciência, meu querido. — A voz dele ecoou pelo vazio, como um sussurro que arranhava por dentro. — Isso é apenas um teste para sua resistência.

O primeiro toque do vibrador contra sua entrada frontal o fez arfar, o corpo arqueando de imediato. Lentamente, o objeto o penetrou, provocando cada nervo com uma precisão cruel. O prazer vinha em ondas dissonantes — quase o suficiente, mas sempre um pouco aquém, mantendo-o em um limiar insuportável.

Em seguida, veio o dildo, preenchendo-o com firmeza, esticando seus limites até fazê-lo arquear os pés.

Depois, as bolinhas anais, inseridas com uma lentidão meticulosa, cada uma arrancando um novo arrepio.

A respiração de Cael travou quando as correntes, conectadas aos piercings em seus mamilos, foram puxadas levemente — cada movimento provocava um puxão incômodo, uma dor aguda que se misturava à sobrecarga de estímulos.

Seu corpo era uma tela viva de sensações, cada nervo aceso numa dança impiedosa entre o êxtase e a frustração.

O tempo se dissolveu. Horas ou minutos — Cael já não distinguia. Aproximadamente um dia inteiro — foi esse o tempo que passou ali, suspenso entre o êxtase e o desespero.

O vibrador mantinha seu ritmo implacável, o dildo preenchia cada espaço, e as correntes, com seus pequenos choques de dor, completavam a sinfonia. Seu corpo escorregava de suor, tremendo. A respiração era um ofego rasgado. Cael estava exausto, mas não liberto. Implorava em silêncio.

O corpo de Cael estava escorregadio de suor, seus músculos tremiam com o esforço de se manter em pé. Ele estava desesperado para ser libertado, implorando silenciosamente para que Arael acabasse com aquele tormento.

Quando Arael finalmente retornou, foi como se a própria sombra ganhasse forma. Cael sentiu a presença dele antes mesmo de ouvi-lo, uma gravidade que o esmagava por dentro.

— Olhe para você, minha bela criação. — Murmurou Arael, a voz embebida em uma ternura corrompida. — Tão obediente… tão perfeito. Mas já está no limite, não está?

Cael assentiu, fraco, os músculos cedendo contra as amarras. A mordaça abafava seu apelo, mas os olhos, marejados e suplicantes, diziam tudo.
Um a um, Arael retirou os brinquedos — cada remoção deixava um vazio, uma necessidade latente. A venda saiu por último, e Cael piscou contra a luz, a visão embaçada pelas lágrimas que escorriam silenciosas.

A mordaça, enfim, foi retirada. Ele caiu de joelhos, o corpo trêmulo, as mãos agarradas às pernas de Arael.

— Mestre… por favor… — A voz saía rouca, quebrada. — Eu preciso de você. Me alimente…

A mão de Arael acariciou a bochecha de Cael, um gesto que era ao mesmo tempo terno e possessivo.

Arael passou os dedos pela bochecha de Cael, o toque suave com um peso possessivo.

— Você tem sido um bom garoto, Cael. — Murmurou, inclinando-lhe o queixo. — E bons garotos… merecem sua recompensa.

Com facilidade e prática, Arael abriu a calça, liberando seu pênis Cael não hesitou. Suas mãos trêmulas guiaram-no enquanto os lábios se fechavam ao redor do membro. Cael o chupava com voracidade, a boca ávida, a língua deslizando em círculos lentos ao redor da glande, como se buscasse arrancar não apenas o gosto, mas o reconhecimento de seu mestre.

A mão de Arael afundou nos cabelos dele, guiando seus movimentos com um domínio silencioso — o aperto firme dizia mais que qualquer palavra.

Enquanto isso, o corpo de Cael reagia com impaciência.

Sua intimidade latejava, úmida e pulsante, umedecendo suas coxas com o desejo represado. A cauda, inquieta, serpenteava no ar atrás dele, denunciando a tensão acumulada.

Instintivamente, sua mão deslizou para entre as pernas — um gesto automático, faminto — os dedos se enterrando na própria carne.

Mas o gesto não passou despercebido.

Num movimento brusco, Arael puxou seu cabelo para trás, afastando sua boca do pênis com um estalo molhado.
Cael arfou, confuso, a expressão tomada por um súbito desespero.

— Eu não te dei permissão para isso. — Rosnou Arael, a voz baixa, mas carregada de autoridade.

Cael estremeceu. A vergonha e a necessidade se misturavam como veneno sob a pele. Seus olhos, arregalados e suplicantes, buscaram os de Arael, e ele balbuciou, a voz rouca e entrecortada:

— Mestre… por favor… eu só… estou faminto. Me deixe comer… por favor…

Lentamente, Arael afrouxou o aperto nos cabelos, avaliando-o por um instante — como quem observa uma criatura que implora pelo próprio castigo.

— Então prove que sabe esperar — disse, com um meio sorriso curvando os lábios —, e talvez eu permita que continue.

Cael recuou a mão, os dedos tremendo com o esforço de obedecer.

Quando Arael, enfim, empurrou seu rosto de volta, guiando-o para o que desejava, Cael se lançou com ainda mais fervor — agora, não apenas faminto… mas obediente.

— É isso, meu querido. — Arfou Arael, os quadris começando a se mover. — Beba tudo.

Cael obedeceu. Os movimentos tornaram-se mais urgentes à medida que sentia o membro pulsar em sua boca.

Ele engoliu avidamente, seu corpo tremendo com o esforço de agradar seu mestre. Quando Arael finalmente gozou, ele engoliu cada gota, o sabor quente preenchendo-o de forma quase sagrada. Seu próprio desejo se acalmava — não saciado por completo, mas anestesiado pela sensação da essência que agora o preenchia.

Arael soltou os cabelos de Cael. O íncubo tombou sobre o chão frio, exausto, ofegante. Ainda não satisfeito.

— Você se saiu bem. — Murmurou Arael, a voz baixa, mas carregada de aprovação.

A câmara permanecia em silêncio, exceto pelo som entrecortado da respiração de Cael.

— Mais… — A palavra pulsava em sua mente, não como um pensamento, mas como um instinto, um apelo primitivo que ele não conseguia calar.

Ele precisava. Não apenas do toque, mas do domínio de Arael. Da dor que beirava o prazer, do controle que o despedaçava e, paradoxalmente, o completava.

— Mestre… — sussurrou, a voz rouca de urgência. Levantou os olhos, arregalados, famintos, buscando o olhar impassível de Arael. — Por favor… preciso de mais.

Os lábios de Arael se curvaram, um sorriso tênue e cruel brincando ali — não de zombaria, mas de antecipação. Ele avançou com lentidão calculada, a silhueta alta lançando uma sombra que engoliu Cael por completo.

— Mais? — Repetiu, a voz baixa, aveludada. — E o que exatamente você precisa de mim?

Cael hesitou. O rosto queimava, o corpo exposto denunciava cada desejo que ele tentava esconder. Mas não havia espaço para vergonha ali.

— Eu… preciso de você. — Murmurou, quase inaudível.

Com gestos suaves, Cael se inclinou, abrindo uma das pernas com cuidado. Os dedos tocaram sua entrada úmida com uma delicadeza lasciva, instintiva. Um som delicado tilintou ao seu pescoço — a corrente etérea que pendia da marca mágica de Arael, como a guia invisível de uma coleira.

O sorriso de Arael se alargou. Era o de um predador diante de uma presa que não só se oferece, mas implora.

— Que honestidade brutal. — Ele ronronou, afastando uma mecha do rosto de Cael. — Honestidade assim… é rara. Preciosa. Mas me diga… tem certeza do que está pedindo?

O coração de Cael martelava no peito. Ele assentiu com fervor

— Sim, mestre.

— Então abra suas pernas.

Cael obedeceu de imediato, usando as mãos para manter as coxas bem afastadas. O ar frio acariciou sua pele úmida, fazendo sua entrada latejar.

O olhar de Arael percorreu lentamente sua forma exposta.

— Lindo… — Murmurou, e havia um peso reverente em sua voz. — Você é minha obra-prima, Caelus.

O peito de Cael se ergueu com o elogio, inflado por um orgulho que ardia sob sua pele.

— Obrigado, mestre. — Sussurrou, a voz trêmula.

Arael ajoelhou-se diante dele, sua presença tão avassaladora quanto o toque que veio a seguir. Os dedos deslizaram sobre o peito de Cael, leves como brisa, mas com um calor cortante.

— Você quer que eu o tome? — Perguntou ele, voz baixa, grave. — Que o domine completamente?

— Sim… por favor, mestre.

As mãos de Arael desceram pelos quadris de Cael, contornando seu corpo antes de alcançar sua entrada. Um toque, e Cael ofegou — seu corpo inteiro retesou.

— Tão ansioso — murmurou Arael, com diversão velada. — Tão desesperado por mim.

— Sempre por você, Mestre — Cael respondeu, quase arfando.

Os olhos de Arael escureceram. Seu controle vacilou por um instante.

— Bom — rosnou. — Então vou lhe dar o que precisa.

Com firmeza, posicionou-se entre suas pernas, segurando seus quadris com autoridade. A respiração de Cael disparou quando sentiu a ponta do membro de Arael pressionar sua entrada.

— Relaxe — ordenou, com uma doçura cortante. — Deixe-me entrar.

Cael obedeceu, forçando o corpo a ceder. A penetração foi lenta, quase cruel em sua precisão. Cael cravou as unhas no chão, tentando se ancorar. O estiramento era intenso, mas exato. Doloroso… e perfeito.

— Isso… — Arael murmurou, a voz vibrando de desejo. — Tome tudo de mim.

Cael gemeu, tremendo quando Arael o penetrou por completo. Um preenchimento que tocava algo além do corpo.

— Mestre… isso é… bom. — Balbuciou.

— É o que você precisa, não é?

— Sim… sim, mestre.

A cada investida, lenta no início, Arael desenhava um novo ritmo. O corpo de Cael respondia com fluidez, se entregando, se arqueando, se perdendo.

— Você é meu. — Rosnou Arael. — Minha criação.

— Seu… — repetiu Cael, o corpo convulsionando —, sempre seu, mestre…

O ritmo se tornou errático, selvagem. O controle de Arael escorria como areia entre os dedos, enquanto Cael implorava:

— Por favor…

As mãos de Arael apertaram seus quadris com mais força, e então ele veio— derramando-se dentro de Cael. O calor espalhou-se por seu corpo como fogo líquido.

Mesmo depois, Cael permaneceu imóvel. Levou os dedos à própria entrada, empurrando de volta qualquer resquício que ousasse escapar — determinado a reter até a última gota.

Arael o observava, os olhos escuros e satisfeitos.

— Tanta devoção… — Murmurou. — Você é, de fato, minha obra-prima.

Cael ergueu o olhar, olhos ainda marejados de prazer e entrega.

— Eu vivo para servi-lo, Mestre. — Sussurrou, com a voz embargada de adoração.

—–

Nathan despertou como se tivesse sido puxado violentamente de um abismo — o corpo ainda preso à memória do que viu, a mente oscilando entre a ilusão e a realidade que se insinuava através da penumbra do quarto. Sentou-se devagar, o peito arfando com uma urgência surda, como se estivesse tentando respirar por entre as sombras de um sonho que não queria soltá-lo. A claridade fraca que entrava pela janela mal desenhava contornos no ambiente, mas sua atenção estava em outro lugar. Ou melhor, em alguém.

O sonho… não, aquilo não parecia um sonho.

As imagens permaneciam nítidas demais: o chão negro sob os pés de Cael, o brilho opaco de correntes que não se via, mas se sentia. E o homem — ou algo próximo disso — parado à frente dele. Havia algo errado naquele olhar, um tipo de frieza que não era ausência de emoção, mas o completo domínio sobre ela. Um olhar de posse.

Cael, de joelhos, as mãos trêmulas estendidas, o corpo abatido pela fome. Mas não era uma fome física. Era algo mais profundo, mais antigo. Aquele tipo de necessidade que distorce a vontade até que ela se curve. Nathan sentiu o estômago se revirar ao lembrar da forma como Cael implorava. Havia uma humilhação silenciosa na cena, uma intimidade desconfortável, como se o ato de assistir fosse, por si só, uma violação.

Levantou-se com um impulso inquieto, varrendo o quarto com o olhar.

— Cael? — chamou em voz baixa, quase esperando que ele estivesse ali, debaixo da cama ou atrás da porta, como em tantas vezes anteriores, pronto para sorrir e fingir inocência.

Nada.

Nathan passou pela cozinha, pela pequena área de serviço, abrindo portas como se temesse encontrar algo que confirmasse o que vira. Mas só encontrou silêncio. Um silêncio espesso, irregular. Como se a casa mesma contivesse a respiração.

Foi só ao alcançar a sala que seu passo hesitou.

Cael estava no sofá, envolto no cobertor, mas não havia tranquilidade alguma naquela figura adormecida. O corpo se revirava como se lutasse contra correntes invisíveis, os punhos cerrados, os lábios entreabertos murmurando palavras sem sentido. A testa suada, o peito ofegante, e uma expressão… de dor. Ou pior: de submissão.

Nathan se aproximou em silêncio, como se qualquer movimento brusco pudesse romper o feitiço que mantinha aquele momento suspenso. Ajoelhou-se ao lado do sofá, o coração golpeando as costelas.

— Cael… — sussurrou, embora soubesse que não seria ouvido.

Observá-lo ali, vulnerável, tão distante da criatura provocadora e irônica que invadia seu quarto ou se enroscava em seu colo, era quase insuportável. Havia algo de profundamente errado naquele estado. Um descompasso entre a imagem que Cael projetava e a verdade que ele ocultava — talvez até de si mesmo.

Cael se contorceu novamente, um gemido baixo escapando de sua garganta, como se lutasse contra alguma lembrança que se recusava a desaparecer. Nathan, num impulso contido por hesitação, estendeu a mão e tocou-lhe a testa, tentando acalmá-lo. A pele estava quente — quente demais.

— Está tudo bem… está tudo bem agora — murmurou, mais para si do que para o outro.

Seus dedos traçaram um caminho suave pelas têmporas de Cael, buscando algum ponto de alívio — um gesto que, talvez, pudesse ancorá-lo à superfície.

Cael não acordou. Mas o tremor nos ombros diminuiu. E por um breve instante, os lábios entreabertos deixaram escapar um nome que Nathan não reconheceu.

Ele recuou lentamente, sentando-se no chão ao lado do sofá, os olhos fixos na figura adormecida. Tentava ordenar os próprios pensamentos, mas eles escapavam como areia entre os dedos. A visão ainda ecoava na mente. Cael de joelhos. A fome imposta. A súplica silenciosa. E aquele homem — Arael, talvez? — assistindo com a indiferença de um criador observando sua obra se dobrar.

Por que sonhara com aquilo? Cael nunca contara detalhes de seu passado. Havia mencionado um “mestre”, uma figura que o moldara, mas sempre em tons velados, com risos que escondiam muito mais do que revelavam. Mas agora, tudo isso parecia mais concreto — como se uma parte daquela história tivesse escorrido através de algum vínculo invisível entre eles.

Nathan apoiou a cabeça nos joelhos, os olhos ainda presos a Cael.

Ele não sabia como ajudar. E isso o corroía por dentro.

Porque, naquele instante, percebeu que não se tratava apenas de um íncubo caprichoso com um gosto estranho por livros e roupas desconfortáveis. Cael era mais. Era alguém que carregava sombras antigas — feridas que talvez nem soubesse nomear.

E ele, Nathan, queria entender. Queria descobrir como iluminar aquelas sombras — não com promessas vazias, mas com presença. Com escuta. Com toque.

Quando finalmente se levantou, puxou o cobertor com mais cuidado sobre o corpo de Cael, protegendo-o como pôde daquele pesadelo que não tinha nome. Depois, sentou-se na poltrona próxima, onde pudesse observá-lo. Esperaria ali, em silêncio.

Não havia mais espaço para fingir que aquele laço entre eles era leve.

Algo dentro dele — algo que não sabia nomear — já havia sido tocado. E não havia volta.

—–

O som abafado das patinhas contra o piso foi o primeiro sinal. Um segundo depois, um movimento súbito — quase desesperado — percorreu o corredor.

Cael surgiu na cozinha como uma onda desgovernada de coberta e cabelos desalinhados, os olhos arregalados e o corpo ainda encolhido de sono mal digerido. Quando viu Nathan junto ao fogão, largou o tecido que arrastava atrás de si e correu até ele, como se o mundo estivesse prestes a desabar.

— Nathan, ele me olhou — disse com o tom de quem acabara de escapar de uma caçada épica. — Com aqueles olhos estreitos, julgadores… cheios de desdém felino.

Nathan mal teve tempo de reagir antes que os braços de Cael se enroscassem em sua cintura, a testa se apoiando em suas costas como um pedido silencioso de abrigo.

— Você está falando do meu gato? — perguntou, tentando manter o tom neutro enquanto servia o café, embora um sorriso surgisse, discreto, no canto dos lábios. — Ele estava só sentado no tapete da sala.

— Sentado… vigiando — murmurou Cael contra a camisa dele, com um arrepio dramatizado. — Estou dizendo, ele não é como os outros. Tem alguma coisa errada naquele olhar. Talvez seja um espírito encarnado. Ou pior… um crítico literário reencarnado.

Nathan soltou um riso breve, baixo, e se virou parcialmente, o bastante para lançar um olhar de canto para o outro.

— Você está exagerando. Ele só não gosta de barulho. Ou talvez não goste de criaturas demoníacas invadindo o território dele.

Cael soltou um suspiro melodramático, mas havia uma hesitação estranha por trás da encenação. A forma como ele se mantinha colado ao corpo de Nathan, a leve tensão nos ombros… Nathan percebeu. Não porque Cael demonstrasse — muito pelo contrário — mas porque ele estava tentando esconder demais.

Algo havia mudado desde a noite passada.

Nathan não mencionou o sonho. Nem o nome que escutara escapando dos lábios de Cael no sono febril. Nem o modo como o viu se contorcer no sofá, como se revivesse algo preso entre lembrança e pesadelo. Ele apenas continuou mexendo o café, como se tudo estivesse exatamente como sempre foi. Porque, às vezes, respeitar o silêncio era uma forma mais delicada de cuidado.

Foi nesse instante que percebeu: Cael estava só enrolado em um cobertor — sem usar roupas — e parte do tecido já ameaçava escorregar de seu ombro com o menor movimento.

— Isso não conta como roupa, Cael.

— Tecnicamente… estou coberto — retrucou Cael, com uma leve ondulação de cauda preguiçosa, sem nem erguer os olhos.

Nathan o observou por um instante, o café esquecido na caneca, e então soltou um longo suspiro, cruzando os braços com a expressão de quem já começava a perder a batalha antes mesmo de entrar nela.

— Isso é um cobertor, Cael. Não é vestimenta. Você poderia, sei lá, ao menos fingir que respeita as normas sociais básicas de convivência?

Cael virou o rosto devagar, os olhos ainda pesados de sono, mas brilhando com aquele misto de provocação e sinceridade crua que sempre o desarmava de formas imprevisíveis.

— Não é como se eu não gostasse de roupas — disse, com um tom inesperadamente contido. — Elas só… apertam. Puxam. Me lembram que meu corpo foi feito pra fingir ser algo que não é. É desconfortável.

Nathan piscou, pego desprevenido. A franqueza nas palavras de Cael sempre chegava assim — como um estalo súbito no meio de uma tempestade de teatralidade.

Ele inspirou fundo.

— Eu entendo — respondeu, com suavidade. E não era apenas uma frase vazia; ele tentava, de fato, entender. Havia tanto não dito naquela simples queixa sobre roupas. Uma história inteira costurada por silêncios.

Mas, ainda assim, ele precisava estabelecer um limite.

— Só que… você mora comigo agora. E eu tenho vizinhos. E olhos. E um senso básico de dignidade pública que ainda tento manter.

Cael soltou um suspiro sofrido, deixando-se afundar no sofá como se o tecido do mundo estivesse tentando engolir suas vontades.

— Você é tão exigente, Nathan.

— Você anda pelado pela casa — retrucou ele, com mais exasperação do que raiva — e deixa feitiços nos espelhos do banheiro.

— Ah, aquele era só pra deixar a água na temperatura ideal — respondeu Cael, com a voz melosa e inocente demais para ser crível.

Nathan massageou a têmpora, o dia longo pesando nas costas como uma pedra.

— Só… por favor. Pelo menos vista uma camisa. E uma cueca. Só isso. Pelo bem da paz doméstica.

Cael o olhou com ar de julgamento, como se Nathan tivesse proposto uma atrocidade moral. Avaliou o pedido com o drama de um príncipe exilado e, por fim, puxou o cobertor mais para cima, com um suspiro resignado.

— Você está me podando — disse, indignado. — Vai me transformar em um humano funcional. Qual será o próximo passo? Pagar impostos?

Nathan arqueou uma sobrancelha, já a caminho da cozinha novamente.

— Você já vive de graça aqui. Eu aceitaria uma camisa em troca.

Cael, por fim, riu. Baixo, mas com aquele som que vibrava mais fundo do que o habitual. Um som que carregava algo raro: conforto. E talvez… pertencimento.

— Você não dormiu bem, não é? — observou com naturalidade, passando a xícara para si.

— Pesadelos — respondeu Cael com simplicidade, como quem conta que choveu de madrugada. Seus olhos evitaram os de Nathan por um breve momento, e depois voltaram a brilhar com a provocação ensaiada que tão bem sabia vestir. — Preciso de energia. Urgentemente. Um petisco, pelo menos. Por que não alimenta seu demônio favorito?

Ele se inclinou, os olhos lânguidos e a voz arrastada de propósito. Os dedos desenharam linhas preguiçosas nas costas de Nathan, a encenação voltando com força. Como se quisesse varrer da superfície qualquer sombra de fraqueza que pudesse ter escapado antes. Mas Nathan o conhecia um pouco melhor agora.

— Você realmente precisa se alimentar com tanta frequência assim? — perguntou ele, lançando-lhe um olhar de lado, cauteloso.

Cael deu um passo atrás, mas só o suficiente para colocar a expressão de drama romântico em pleno palco. Seus lábios se curvaram num biquinho sutil, os olhos semicerrados em uma súplica felina.

— Não é uma questão de necessidade. É de desejo… prazer. E, claro, uma pequena dose de gula… — inclinou-se de novo, sussurrando com voz aveludada junto ao ouvido de Nathan — você não gosta quando sou guloso?

Nathan manteve o rosto virado para a pia, mas sua mão vacilou ligeiramente ao colocar a xícara sobre a superfície. Ele respirou fundo, com controle.

— Eu tenho que sair em menos de meia hora — disse com firmeza, embora o tom não soasse ríspido. — E você prometeu que não faria cena pela manhã.

— Cena? Isso não é cena — protestou Cael com fingida indignação, mas os olhos já sorriam. — É um pedido carinhoso, vindo de alguém abandonado à própria sorte num apartamento hostil, com um gato rondando os corredores.

Nathan se virou, cruzando os braços e finalmente o olhando nos olhos. O sol, filtrado pelas cortinas, revelava as olheiras suaves sob os olhos de Cael — vestígios de um sono inquieto que nem toda a ironia conseguia esconder.

— Eu compenso depois — disse Nathan, com gentileza. — Prometo.

Por um segundo, Cael não respondeu. Apenas o observou, como se procurasse alguma fissura naquele gesto de negação que, curiosamente, não era um afastamento. Seus olhos escureceram brevemente — não por desejo, mas por algo mais próximo de… necessidade. Como quem se lembrava de uma ausência antiga demais para ser nomeada.

Mas o momento passou, e ele se recostou na bancada, braços cruzados sobre o peito nu, os quadris projetados num abandono casual. O sorriso retornou, agora mais preguiçoso.

— Tudo bem — disse com um suspiro teatral. — Mas espero que sua “compensação” esteja à altura do sofrimento que estou sendo forçado a suportar.

— Não deveria ser difícil — disse Nathan, recolhendo a caneca e pegando as chaves. — Você parece ter um talento especial para drama.

Cael piscou devagar, o sorriso se ampliando.

— E você parece ter um talento especial para me provocar sem perceber. Deve ser seu charme involuntário.

Nathan sacudiu a cabeça com um pequeno riso e passou por ele. Quando a porta se fechou atrás de si, Cael ficou por um instante imóvel.

O sorriso, ainda pendendo nos lábios, parecia mais frágil agora — como se mantê-lo no rosto fosse uma forma de não permitir que certas lembranças voltassem à tona. Ele olhou pela janela, depois lançou um olhar cuidadoso para o canto da sala — onde o gato de Nathan agora dormia tranquilamente, alheio ao teatro matinal.

Cael mordeu o lábio inferior, pensativo.

— Eu não vou passar fome — murmurou para si mesmo. Mas havia um leve tremor na frase, uma incerteza velada que ninguém ouvira.

Pelo menos, era o que ele acreditava.

— Você realmente precisa se alimentar com tanta frequência assim? — perguntou ele, lançando-lhe um olhar de lado, cauteloso.

Cael deu um passo atrás, mas só o suficiente para colocar a expressão de drama romântico em pleno palco. Seus lábios se curvaram num biquinho sutil, os olhos semicerrados em uma súplica felina.

— Não é uma questão de necessidade. É de desejo… prazer. E, claro, uma pequena dose de gula… — inclinou-se de novo, sussurrando com voz aveludada junto ao ouvido de Nathan — você não gosta quando sou guloso?
Nathan manteve o rosto virado para a pia, mas sua mão vacilou ligeiramente ao colocar a xícara sobre a superfície. Ele respirou fundo, com controle.

— Eu tenho que sair em menos de meia hora — disse com firmeza, embora o tom não soasse ríspido. — E você prometeu que não faria cena pela manhã.

— Cena? Isso não é cena — protestou Cael com fingida indignação, mas os olhos já sorriam. — É um pedido carinhoso, vindo de alguém abandonado à própria sorte num apartamento hostil, com gatos rondando os corredores.

Nathan se virou, cruzando os braços e finalmente o olhando nos olhos. O sol, filtrado pelas cortinas, revelava as olheiras suaves sob os olhos de Cael — vestígios de um sono inquieto que nem toda a ironia conseguia esconder.

— Eu compenso depois — disse Nathan, com gentileza. — Prometo.

Por um segundo, Cael não respondeu. Apenas o observou, como se procurasse alguma fissura naquele gesto de negação que, curiosamente, não era um afastamento. Seus olhos escureceram brevemente — não por desejo, mas por algo mais próximo de… necessidade. Como quem se lembrava de uma ausência antiga demais para ser nomeada.

Mas o momento passou, e ele se recostou na bancada, braços cruzados sobre o peito nu, os quadris projetados num abandono casual. O sorriso retornou, agora mais preguiçoso.

— Tudo bem — disse com um suspiro teatral. — Mas espero que sua “compensação” esteja à altura do sofrimento que estou sendo forçado a suportar.

— Não deveria ser difícil — disse Nathan, recolhendo a caneca e pegando as chaves. — Você parece ter um talento especial para drama.

Cael piscou devagar, o sorriso se ampliando.

— E você parece ter um talento especial para me provocar sem perceber. Deve ser seu charme involuntário.

Nathan sacudiu a cabeça com um pequeno riso e passou por ele. Quando a porta se fechou atrás de si, Cael ficou por um instante imóvel.

O sorriso, ainda pendendo nos lábios, parecia mais frágil agora — como se mantê-lo no rosto fosse uma forma de não permitir que certas lembranças voltassem à tona. Ele olhou pela janela, depois lançou um olhar cuidadoso para o canto da sala — onde o gato de Nathan agora dormia tranquilamente, alheio ao teatro matinal.

Cael mordeu o lábio inferior, pensativo.

— Eu não vou passar fome — murmurou para si mesmo. Mas havia um leve tremor na frase, uma incerteza velada que ninguém ouvira.

Pelo menos, era o que ele acreditava.

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Doce Inanição

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        Capítulo 2 Um Incubus no Meu Sofá
      • Capa
        Capítulo 1 Me Deixe Provar um Pouco

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