Capítulo 16
— Quem é você? — A expressão de Otávio tornou-se solene.
— Meu nome é Oscar — disse com tom seco.
— Qual é a sua relação com a vítima?
— Nenhuma. Eu estava passando e o descobri acidentalmente — respondi.
— Este é um canto tão escondido. Como você chegou aqui acidentalmente? — As perguntas do policial começaram a se intensificar.
— É minha primeira vez neste bairro, não sou daqui. Vim apenas para um encontro com uma conhecida na confeitaria aqui perto. Estava voltando para casa, mas me perdi tentando encontrar o ponto de ônibus — expliquei.
— Há alguém que possa provar isso?
— Sim, minha amiga. As câmeras da confeitaria, os clientes e os funcionários do lugar. — Olhei para o policial, que me fitava como se eu fosse um criminoso.
Não pude deixar de perguntar:
— Policial, você está pensando que sou o criminoso que o machucou? Tente acordá-lo e pergunte a ele se sabe de algo, nunca o vi antes.
— Qualquer um pode ser suspeito. Buscamos sua cooperação — respondeu Otávio com convicção e agressividade.
— Por favor, pense antes de suspeitar de mim. Olhe ali e ali, veja: tem câmeras públicas que gravaram o momento em que cheguei aqui e tropecei nele, quando ele já estava desmaiado na grama. Em segundo lugar, olhe para sua estatura física e olhe para mim, um homem magro e fraco. Como eu poderia ter força para atacá-lo?
Otávio ficou mudo com minhas palavras. Ele viu que meus pensamentos eram meticulosos e que eu apontei problemas que muitos outros teriam ignorado.
Ele fitou meu abdômen, estudando-o, ainda sem dizer nada.
Não queria mais lidar com a polícia. Olhando para o relógio, percebi que já eram dez e meia. Dom talvez já tivesse terminado o trabalho e trazido para casa os meus pastéis; estou com fome e sem paciência.
— Como a pessoa que denunciou este caso, você terá que vir à delegacia para responder a mais perguntas — disse Otávio, fazendo-me revirar os olhos.
Um pouco distante de nós, o bêbado despertou e interrompeu nosso diálogo.
— Não foi ele, policial. Foi a cachaça! — O bêbado ensanguentado olhou entre mim e o policial, meio aéreo, enquanto era socorrido por outros policiais.
Então o homem voltou a perder a consciência.
No momento em que ambas as partes estavam em um impasse, Dom se aproximou de longe. Ele olhou de relance para mim enquanto se colocava entre Otávio e eu.
— Sinto muito. Ele é um pouco imprudente e não sabe o peso de suas palavras. Por favor, não se ofenda, policial — sua voz era gentil.
— O que você faz aqui? — Fiquei inquieto enquanto olhava para Dom. — Não esperava te encontrar novamente por aqui.
— Estava passando no momento em que te vi conversando com o policial, então decidi parar. Já estava indo para casa — explicou, de costas para mim, olhando o policial.
— Você deveria ficar doente mais vezes — comentei, observando seus ombros largos e sentindo sua fragrância marcante.
Dominic ficou em silêncio por alguns segundos e logo disse: “Não confunda as coisas”, fazendo-me dar de ombros, indiferente.
Então o cutuquei e disse: “Obrigado, marido, também te amo”, ironizando sua resposta e provocando-o.
O policial olhou para Dominic, que usava um terno de corte requintado. Dom era alto e bonito, com um corpo esguio. Seu leve sorriso o fez parecer indiferente.
Era óbvio que ele era da elite. O policial sentiu uma pressão invisível quando Dom parou na sua frente, mesmo ele vestindo o uniforme de policial.
— E você é…? — perguntou o policial.
— Sou Dominic, empresário e marido dele — respondeu no automático.
O nome pareceu incrivelmente familiar para o policial, como se já o tivesse ouvido em algum lugar.
— Você é o CEO de quem o delegado Marcos está sempre falando? — Seus olhos brilharam de repente.
— Você conhece o delegado Marcos? — Dom pareceu ter intimidade com o nome.
— O delegado Marcos é meu amigo. Ele me orienta no trabalho da delegacia — Otávio sorriu e coçou a cabeça enquanto falava. — Ele mencionou que o CEO chamado Dom o ajudou a resolver um problema complicado alguns anos atrás. Como resultado, ele é muito grato a você — O policial riu sem graça. — Sinto muito. Não sabia que ele era seu parceiro. Na verdade, não há muito mais a fazer aqui. Vocês podem ir para casa — disse, lembrando-se do que seu mentor havia lhe dito sobre Dom. Observei-o, meio desconfiado, pensando no que o dinheiro não faz.
— Obrigado. Se houver algum problema, sinta-se à vontade para entrar em contato comigo a qualquer momento. O delegado Marcos tem meu número de telefone. Certamente faremos o nosso melhor para ajudar a polícia — respondeu Dom.
Dominic despediu-se de Otávio antes de me levar de volta para casa.
— Onde está meu salgado? — Assim que entramos na sala de estar e acendemos as luzes, perguntei impacientemente. — Estou com fome.
Dom parecia sem palavras com o fato de que eu ainda conseguia pensar em meus pastéis em um momento como aquele.
— Na cozinha.
Dom percebeu que minhas mãos ainda tinham sangue seco quando se virou para me olhar.
Franziu as sobrancelhas, pegou minhas mãos e as examinou cuidadosamente.
— O que há com suas mãos? — perguntou.
— Não é nada. Eu tropecei no pobre homem e caí numa poça de água suja — puxei minhas mãos depois de olhar para elas.
Dom olhou para mim, verificando meu corpo, apenas para descobrir que também havia alguns vestígios de sangue nos meus tornozelos.
— E suas pernas? — arqueou as sobrancelhas.
Somente quando Dom mencionou isso foi que senti uma dor no tornozelo; acho que por causa da adrenalina não sentia dor alguma. Provavelmente arranhei o tornozelo quando tropecei e caí.
— Vou ficar bem depois de limpá-los — disse com desinteresse, já que não doía tanto assim.
Sua atenção ainda estava nos meus arranhões quando ouvi meu estômago roncar de tanta fome que eu estava. Por causa do incidente, não pude voltar mais cedo para casa e comer.
Então decidi me limpar rapidamente para poder jantar algo.
Fui até o banheiro para remover as manchas e caminhei até o meu quarto para pegar o frasco de remédio, antes de voltar para a sala e sentar no sofá com as pernas apoiadas na mesinha de centro.
Abri o frasco e comecei a aplicar o remédio na ferida, todo desajeitado por conta das minhas costas, que doíam toda vez que apertava minha barriga; era um incômodo me curvar sobre ela.
— Você sabe como limpar uma ferida? — Dom me interrompeu, depois de me observar por um tempo.
— Sei, mas não estou conseguindo — falei em tom cético. Olhei para ele com desdém, chateado por ele não perceber o óbvio.
Dom caminhou resignado até mim e pegou o frasco de remédio.
Ele se agachou perto do sofá, segurando meus pés sem dizer uma palavra. Derramou o remédio na bola de algodão com cuidado, antes de esfregá-lo na minha ferida.
Suas ações foram tão gentis que foi impossível não estranhar sua atitude.
Sua palma era áspera, com calosidades. A leve coceira do aperto de Dom nos meus pés me deixou ligeiramente desconfortável. Quis retrair os pés nervosamente, mas Dom segurou-os com mais força.
— Pare de se mexer. Estou aplicando o remédio! — reclamou Dom, concentrado no que fazia.
Meus olhos só conseguiam seguir cada movimento que ele fazia enquanto aplicava o remédio no meu arranhão.