Capítulo 03
O número do andar brilhou no painel do elevador, mas o que me fez travar foi a fresta de escuridão no fim do corredor. Minha porta estava aberta. O estômago deu um solavanco, eu lembrava do giro duplo da chave, do clique final antes de sair.
Avancei na ponta dos pés, a respiração presa na garganta. O apartamento era um buraco negro que engolia a luz do corredor. Assim que cruzei o batente, um vulto saltou das sombras, braços me envolvendo com força. As sacolas de compras escaparam dos meus dedos, espalhando latas e pacotes pelo chão com um estrondo metálico.
Lutei, os músculos retesados, então notei que essa pessoa era mais fraca que eu. E, antes que eu pudesse agir, sua voz me assustou. Na verdade, eu nem poderia revidar, mesmo que quisesse.
— Zhang?! — exclamei, a voz falhando.
O aperto afrouxou instantaneamente. O clique do interruptor inundou a sala, me fazendo piscar contra a claridade súbita. Zhang estava ali, ofegante, as bochechas coradas.
— Desculpe! — ela começou, curvando-se para juntar as sacolas. — Cheguei e estava tudo apagado… quando vi a sombra entrando, entrei em pânico.
— Como você entrou? — Meu coração ainda martelava no peito.
— A chave embaixo do tapete, sempre fica uma lá. Você não parecia bem ao telefone, Oscar.
Na cozinha, o ritual de amarrar o avental ajudou a acalmar meus dedos trêmulos. Zhang sentou-se à mesa, observando cada movimento meu. Aqueles gestos me levavam de volta à infância no interior, ao cheiro de lenha e aos livros de receitas manchados de gordura que me salvaram do caos do meu padrasto. Ali, entre as panelas, eu sabia quem eu era. Mas hoje, o peso era outro.
Zhang mordeu uma maçã, o som crocante cortando o silêncio.
— Ele vem hoje? — perguntou ela, mas balançou a cabeça antes que eu respondesse. — Esquece. Quero saber de você. O que o médico disse?
Parei de picar os temperos. A lâmina da faca brilhou sob a luz fluorescente.
— Eu não sei por onde começar… — comecei, sentindo o suor frio brotar nas palmas das mãos. — Você sabe que estava quase tudo pronto para a cirurgia de remoção. Quando ele disse que não ia ter, fiquei em choque. Eu não imaginava isso…. Mas, ao mesmo tempo, quando ouvi os resultados dos exames, senti que algumas coisas faziam mais sentido.
— Isso é muito para processar, eu sei — Zhang estendeu a mão sobre a mesa, incentivando o resto do fôlego que me restava. — Tem mais, não tem?
Desviei o olhar para o vapor que começava a subir da panela. O medo de ver nojo nos olhos da minha única amiga fez minha garganta fechar.
— Zhang… — Minha voz saiu trêmula, um sussurro que quase se perdeu no chiado do fogo. — Eu também estou grávido.
A maçã parou no meio do caminho. Os olhos de Zhang se arregalaram, as sobrancelhas subindo em um arco de choque puro. Ela gaguejou algo ininteligível, as emoções lutando para encontrar uma saída. Por fim, ela alcançou minha mão, apertando meus dedos com firmeza.
— Um embrião, Zhang. Pulsando na tela do ultrassom — confessei, sentindo um calor estranho subir pelo meu rosto, pintando de vida minhas bochechas cadavéricas. — O médico perguntou se queria abortar, para fazer a cirurgia de remoção dos órgãos, mas respondi que não. Vou seguir adiante.
— É uma montanha-russa — ela murmurou, suavizando o aperto. — Mas você não vai estar sozinho. Estou aqui.
Um sorriso fraco, o primeiro em dias, surgiu nos meus lábios. Mas Zhang inclinou a cabeça, o olhar tornando-se analítico.
— Oscar… — ela hesitou, escolhendo as palavras como quem pisa em ovos. — Essa decisão… quanto disso é sobre o que você ainda sente pelo Dominic?
Minhas pupilas dilataram. O nome dele era um choque elétrico. Olhei para minhas mãos, imaginando se eu estava apenas tentando segurar um pedaço dele que não queria ficar. Mas, ao sentir o calor no meu ventre, a resposta veio sem esforço.
— Eu nunca planejei ser pai. Sempre foi sobre ele, tudo girava em torno dele. — Olhei diretamente para ela, e havia um brilho novo ali, uma teimosia que eu desconhecia. — Mas agora… eu só quero cultivar esse pequeno grão de luz. Por mim.
O clima pesado se dissipou como o vapor da panela. Voltamos ao ritmo cotidiano, o som de talheres e conversas amenas preenchendo o vazio do apartamento enquanto jantávamos.
Até que o som veio da porta.
Um clique metálico. O movimento seco da maçaneta girando. Não era o toque hesitante de um estranho, mas a confiança de quem ainda possuía a chave.
O ar da sala gelou instantaneamente. Dominic estava ali.
Betagem:Arabella
Capítulo 03
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...