Capítulo 04
O relógio na parede da cozinha marcava pouco mais de oito horas quando o estalo da fechadura ecoou. Dom estava muito adiantado. Fazia um bom tempo que não nos víamos. Zhang, que tagarelava ao meu lado, travou a mandíbula no meio de uma frase. Pela fresta da porta aberta, vi três silhuetas cortarem a sala.
— Ela não é…? — Zhang me cutucou com o cotovelo, os olhos fixos na mulher de terninho impecável que seguia os passos de Dom.
Apertei o braço de minha amiga, sustentando seu olhar com uma súplica silenciosa. Ela bufou, engolindo o que quer que pretendesse dizer, e desviou o rosto.
Dom atirou o casaco sobre o braço do sofá, um movimento fluido e descuidado. Atrás dele, Cassius — que meses antes trabalhava comigo no escritório enquanto eu forjava um pedido de férias para esconder as idas ao hospital — me cumprimentou com um aceno discreto. Helena, a secretária que parecia ser a extensão da sombra de Dom, já abria o notebook na mesinha de centro.
O ar na sala parecia ter engrossado. Dom varreu a cozinha com o olhar, por um segundo, nossas pupilas se cruzaram. Seu rosto era uma máscara dura, ora tingida por um vinco de desdém, ora mergulhada em uma indiferença intransponível. Ele se sentou, o foco migrando instantaneamente para a tela iluminada.
Zhang pegou a bolsa com movimentos bruscos. Beijou minha bochecha e sussurrou: “Não aguento ver você preso a isso”. Ao atravessar a sala, ela passou por Dom como se ele fosse parte da mobília. Ele sequer piscou.
Recuei para o corredor. Dom estava mergulhado em documentos, a cabeça inclinada em direção a Helena. Ela levantou os olhos para mim por um breve instante enquanto eu passava, então falou:
— Oscar, me sirva uma água, por favor.
— A cozinha é logo ali, mande Dominic ir buscar. — Dominic fingiu não ouvir e continuou digitando. Cassius esboçou um sorriso que rapidamente desapareceu.
Ela me lançou um olhar irritado antes de eu fechar a porta do quarto.
No closet, após o banho, deixei a toalha cair. No espelho, as linhas finas ao redor dos meus olhos pareciam mais profundas sob a luz amarela, marcas que vinham com a idade. Tão diferente do meu marido. Dom, com seu corpo esculpido pela disciplina e o hálito que sempre cheirava a saúde e sucesso, pertencia a um mundo onde a fragilidade era um erro de sistema.
Um vulto bloqueou a luz da porta.
Cobri-me apressadamente. Dom se escorava no batente, o nó da gravata frouxo e o cheiro de álcool lutando com seu perfume caro. Ele estava sozinho, os outros haviam partido sem que eu percebesse.
— O que você queria conversar? — A voz dele saiu pastosa, arrastada. Ele parou ali, esperando, mas o silêncio entre nós era um abismo largo demais para ser saltado.
Meus pés ensaiaram um passo em sua direção. O instinto de ampará-lo, de reduzir a distância, ainda queimava como uma brasa velha, mas minhas pernas não obedeceram ao extinto.
Ele fez menção de entrar, o pé hesitando sobre o limite do tapete. Lembrou-se, talvez, das palavras que ainda ecoavam nas paredes daquele quarto, gravadas nos lençóis da cama: corpo de cadáver, você é um homem sem vigor, quase um morto-vivo. Sustentei o olhar, deixando que minha palidez e meu cansaço servissem de resposta.
O desejo turvo nos olhos dele vacilou e apagou. Dom deu um passo para trás, recuperando o equilíbrio precário e virou as costas. O som de seus passos se afastando pelo corredor em direção ao quarto de hóspedes foi o ponto final.
Observei o vazio que ele deixou no batente e girei a chave na fechadura.
Betagem:Arabella
Capítulo 04
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...