Capítulo 02
Quando Zhang perguntou onde eu estava, olhei para o prédio do outro lado da rua. O reflexo do hospital nas janelas espelhadas do prédio à frente parecia me julgar. Apertei o celular contra o ouvido, sentindo a frieza do aparelho contra a minha pele.
— Em casa… — a mentira saiu automática, deslizando pela minha garganta úmida. — Qual o problema?
— O seu projeto, o chefe aceitou! — A voz de Zhang transbordava uma energia que eu já não possuía. Eu conseguia imaginá-la do outro lado, gesticulando, com o mesmo entusiasmo de quando éramos jovens. — Logo você estará aqui no escritório comigo. Um novo recomeço após o divórcio.
Forcei um som que deveria parecer um riso, mas que morreu como um suspiro rouco. Zhang sempre foi muito boa comigo. Nos conhecemos logo depois que ela chegou da China com sua avó, que faleceu anos atrás. E desde então, somos amigos.
Balancei rapidamente a cabeça para me livrar dos pensamentos extras, eu queria poupá-la. Já havia despejado sombras demais sobre os dias ensolarados dela.
— Estou contente — murmurei.
Houve um hiato na linha. Apenas o som da respiração dela e, ao fundo, o rugido dos pneus no asfalto e o murmúrio dos pedestres que me atropelava na calçada.
— Onde você está de verdade? — O tom dela mudou, perdendo o brilho e ganhando o peso da suspeita. — Estou ouvindo o trânsito, o barulho de gente. Não minta para mim.
Fechei os olhos, derrotado. O cheiro do hospital parecia impregnado nas minhas roupas.
— No hospital — confessei, a voz falhando. Olhei para a lixeira de metal, onde o papel amassado guardava o diagnóstico que mudaria tudo. — Zhang… eu não vou mais me divorciar. E não posso fazer a cirurgia.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, como se o mundo tivesse prendido o fôlego.
— Você ia fazer em segredo — ela sussurrou finalmente, a voz carregada de urgência. — Se não fizer agora, o Dom vai descobrir sobre a sua… condição. O que você planeja fazer?
— Vou lidar com ele. Você pode ir lá em casa?
— Claro. Vou assim que puder. Estou com você, não importa a reação dele.
Desliguei. O tráfego continuava fluindo, indiferente ao caos dentro de mim. Com os dedos trêmulos, disquei o número que eu sabia de cor, mas que evitava teclar. A primeira chamada caiu na caixa postal. Na segunda, após o terceiro toque, a linha estalou.
— Há algo errado? — A voz de Dominic era uma lâmina de gelo, polida e distante.
Meu coração tropeçou. Aquela voz já tinha sido meu porto seguro, o som que me recebia com risadas após o expediente, antes que o silêncio se instalasse entre nós como um muro de concreto.
— Preciso… eu… nós precisamos conversar — gaguejei, as palavras tropeçando umas nas outras.
— Não entendi. Se não tem nada a dizer, vou desligar. — Ouvi o som dele afastando o aparelho, mas ele hesitou. — Os advogados já entraram em contato. Como não há impedimentos, o divórcio sai em um mês. Eles vão te procurar em dois dias. Espere em casa.
— Pode me encontrar hoje? — perguntei depressa, antes dele desligar. Ele não respondeu. — Eu não me arrependo! — exclamei para o silêncio.
Eu não me arrependia. Nem da escolha, nem do que pulsava agora dentro de mim, desafiando a lógica e a medicina.
O celular vibrou na minha mão segundos depois. Uma notificação curta, cortante:
“Nos vemos hoje à noite. Às dez em ponto.”
Um calafrio percorreu minha espinha. Guardei o aparelho e caminhei até o ponto de ônibus. Quando o ônibus da linha dois parou, subi e encostei a testa no vidro frio da janela. O trajeto até meu apartamento nunca pareceu tão curto, e o futuro, nunca tão vasto e aterrorizante.
Betagem:Arabella
Capítulo 02
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A DÉCADA DEPOIS DA PRIMAVERA
“Quando você confia na pessoa errada, tudo pode acontecer.”
Oscar é...