Capítulo 17
Por que você não pode me amar como uma pessoa normal? Não ousei lhe perguntar isso.
Como se tivesse ouvido meus pensamentos, Dominic olhou para mim, fazendo-me dar um sobressalto. Não sei desde quando, mas percebi que estava prendendo a respiração.
Nossos olhares se encontraram; ele parou o que estava fazendo. Parecia que, mais uma vez, o tempo estava absorto no silêncio da noite e havia congelado.
Por impulso, me abaixei o suficiente para encostar minha testa na sua. Não tenho ideia do porquê fiz isso, mas pude sentir sua respiração batendo contra meu rosto, seu calor corporal envolvendo o meu e sua fragrância me absorvendo.
Não fizemos nada; ele apenas congelou no lugar, surpreendido com minha atitude enquanto nos olhávamos.
Suas íris claras me analisavam, suas pupilas se dilatando conforme ele olhava para os meus olhos. Seus cílios longos se mexeram quando ele piscou lentamente.
Dom finalmente soltou minha perna, erguendo as mãos para tocar minhas bochechas, segurando meu rosto.
A brisa fria da noite invadiu o apartamento, colidindo contra o calor que nossos corpos emitiam, agitando o cabelo bagunçado de Dominic.
— Não tenha — eu o interrompi, colocando meu dedo sobre seus lábios e revirando os olhos.
— Cala a boca, já sei o que vai falar. Você às vezes é repetitivo demais.
Ele ficou surpreso; contudo, acatou a ordem.
O rosto dele curvou-se sobre o meu em câmera lenta, como um sonho vivido e lúcido. Então se intensificou quando percebi que seus lábios estavam entreabertos e se aproximando lentamente dos meus. Meu prazer se intensificou ao vê-lo umedecer os lábios com a ponta da língua, em um convite silencioso para unirmos nossas bocas.
A pequena lacuna entre nós desapareceu quando senti seu hálito quente sob meus lábios e o invadi em um beijo profundo e delicado.
Mordisquei seu lábio inferior com deliberada ousadia, ouvindo um leve gemido de prazer do idiota, tornando sua sensação sensualmente dolorosa. Sua respiração chegava aos meus lábios, beijando minha boca em um sopro quente.
Ele inclinou levemente a cabeça, roçando seus lábios com mais intensidade nos meus, contornando minha boca com sua língua, enquanto ela se entrelaçava com gentileza na minha. Meus olhos estavam abertos, guardando na memória seus gestos e sensações.
Sentindo o sabor doce de seus lábios desenhados pela minha língua, bailando em sincronia com a sua.
Um beijo que traduziu, sem palavras, todo o sentimento de desejo, excitação, luxúria, amor e desespero! Um deleite de sensações e prazeres guardados, onde apenas um beijo seria pouco para saciar nossos desejos secretos.
Cedendo a uma ternura que Dom tem evitado, sem nem se dar conta.
Um simples beijo cheio de promessas não cumpridas e de juras de eternidade. Cheio de fantasia, sonhos e desejos. Como se estivesse sendo apenas mais um de vários, como um casal normal, cheio de amor e paixão, intenso e real em um mundo de faz de conta.
Suas mãos deslizaram com gentileza do meu rosto até minha cintura, explorando cada centímetro meu. Não era luxúria ou caprichos que seus toques mostravam; era cuidado, carinho e saudade.
Até que seus braços me entrelaçaram em um abraço quentinho, em um movimento delicado.
Quando senti a criança dentro de mim, o vento frio penetrou na minha pele, causando calafrios onde o calor de Dom era ausente.
A bolha imaginária à nossa volta se estourou, trazendo-me de volta à realidade. O silêncio que inundava o lugar não existia mais; o som de carros, as vozes e os ruídos banharam o cômodo.
Foi nesse momento que um sorriso travesso surgiu nos meus lábios.
No ápice do beijo, quando nossas línguas se entrelaçaram e ele estava lambendo meus dentes em êxtase, molhando minha boca em um prazer íntimo… Mordi sua língua com força e brutalidade! Seu lábio inferior não se safou; no meio do ato, meus dentes o cortaram como uma lâmina amolada e fria.
Com um sobressalto seguido por resmungos, ele abriu os olhos, soltando-se de mim e se afastando por puro reflexo. Pasmo com minha atitude rebelde, jamais imaginou que eu faria algo assim.
Seu lábio e sua língua estavam sangrando; ele levou a mão até a boca, sujando-a com um pouco de sangue. Fiz uma expressão de horror, fingindo não ter feito de propósito.
— Desculpa. — Levantei-me e fui até ele, verificando-o. — Não precisa se preocupar; nenhum pedaço foi arrancado. Já já vai estar cicatrizado. — Ele não disse nada, apenas cuspiu o sangue no chão.
Era óbvio sua desconfiança, e também não fiz a menor questão de esconder minha satisfação.
O que ele pensou? Que apenas por amá-lo eu iria fingir amnésia e esquecer suas ameaças de dias atrás? Ele estava enganado! Deveria ter ameaçado somente a mim e não à criança; não deixarei ninguém tocá-la.
— Não minta; você fez isso de propósito — ele falou, mesmo com dificuldade.
— Talvez? Não sei.
Estava claro como água que os sentimentos dele estavam confusos.
Desconcertado, ele foi para o banheiro cuidar dos machucados. Quando fui para a cozinha, peguei o prato com os pastéis.
Acomodei-me na cadeira da mesa com satisfação e comecei a comê-los. Dom não voltou mais para a sala e muito menos para a cozinha. Ele tinha um semblante de dor, e, apesar disso, não me importei com a possibilidade de deixá-lo gago e continuei comendo.