Capítulo 18
Depois de algumas semanas, a decoração do apartamento chegou ao fim. Receber a opinião profissional de Anne acelerou o projeto. Tudo estava mobiliado, incluindo o meu quarto e o da criança. Tornou-se um ambiente familiar, diferente de antes, quando tinha cores escuras, típicas de Dominic.
Fiquei ansioso para ver a reação dele. Entretanto, ele veio uma ou duas vezes depois do incidente com o bêbado, como se quisesse ter certeza de que eu ainda estava aqui, que não tinha ido embora.
Depois disso, ele apenas me notificou que havia contratado uma auxiliar para cuidar de mim durante e após a gestação. Não ficaria surpreso se descobrisse que ele também havia dado ordens para ela me vigiar.
A mulher era mais velha que eu e cuidava da minha dieta e do meu dia a dia. Ela sempre dizia para me alimentar bem, alegando que eu era muito magro, o que às vezes a tornava irritante. No entanto, era uma boa pessoa. Ela lembrava minha mãe, que, por influência do meu padrasto, se afastou de mim.
Meu padrasto a obrigou, dizendo que eu era uma vergonha pela minha orientação sexual. No passado, minha mãe costumava ser tão gentil. Eu realmente sinto falta dela.
Comecei a chamar Luciana de tia Lu. No primeiro dia, disse que a chamaria de Sra. Luana, mas ela insistiu que a chamasse de tia Lu, dizendo que seríamos como tia e sobrinho.
Às vezes ela também era muito calorosa. Todas as manhãs, ela me dá um abraço carinhoso. Ela é muito afetuosa, e seus cuidados me fazem bem.
Luciana provavelmente sabia que meu casamento com Dom não ia muito bem; deve ter percebido, nas poucas vezes que ele veio aqui, que não foi para me ver, e sim para pegar algumas roupas.
Mas ela não disse nada, apenas desviou o olhar, sem saber como lidar com a situação. Ela tinha o costume de fazer expressões engraçadas sempre que estava entre ele e eu, sem ter ideia de como deveria agir. Presumi que fosse sua primeira vez conhecendo um casal assim.
— Meu querido, seu celular não para de tocar — disse tia Lu, aproximando-se com o aparelho. Eu estava deitado no sofá, assistindo a um filme de suspense. — Quer que eu atenda a ligação para você?
Neguei. Sentei-me e peguei o aparelho que não parava de vibrar; o número era desconhecido. A voz que ressoou no aparelho estava enfurecida, então coloquei a ligação no viva-voz.
Uma mulher gritou palavras duras e exigiu que eu me divorciasse de Dominic. Ela estava me repreendendo, cada sílaba cuspida com severidade.
Aquilo não me deixou nem um pouco triste ou zangado; era o oposto. Sinto-me apático, estoico. Não estava ávido para nada do que ela exclamava.
Não via Dominic há um tempo. Ele andava bastante ocupado com a agenda de viagens, e sua secretária não perdeu a chance de se incluir. Essa garota não me parecia muito velha, sua voz era de uma mulher jovem, de uns vinte anos, e dizia coisas tão nocivas.
Se essa criança quisesse me intimidar, teria que usar palavras piores que essas.
— Você ligou errado. Ligue para Helena, esse é o nome da mulher que está com ele — disse, enquanto tia Lu soltou um “nossa”, surpresa com a minha atitude.
Ela estava ouvindo a ligação, parada ao lado do sofá. Tia Lu era uma mulher tradicional do interior; para ela, o respeito dentro do matrimônio era sagrado, por isso sua reação era compreensível.
Estava massageando minhas têmporas quando a mulher encerrou a ligação.
Essa não é a primeira vez que me acontece isso; tanto homens quanto mulheres me ligavam para fazer reclamações. No início, troquei de número algumas vezes, mas, com o passar do tempo, percebi que isso não adiantaria. Então, passei apenas a bloquear o número.
— Você está bem, querido? — Luciana perguntou, sentando-se ao meu lado no sofá, preocupada.
Dei um sorriso para ela enquanto bocejava preguiçosamente.
— Sim, tia Lu, estou bem. Você quer assistir ao filme comigo? — Depois de me analisar e perceber que eu estava esquivando-me da pergunta, ela desviou a atenção de mim e avaliou o que estava assistindo por um momento, então concordou.
Deixei as lembranças de minutos atrás de lado, tentando reter meu bom humor.