Capítulo 23
— Sim, sim! Eu também acho — ele dizia sem parar. Com os braços cruzados, seu movimento amassou o terno, mas ele pouco notou e continuou imerso na conversa.
— Você nem sabe e ainda assim diz isso!
— Realmente?! — Descruzou os braços e voltou a falar, agora ainda mais envolvido.
— Claro, eu vi com meus próprios olhos. — As duas cabeças quase se tocaram enquanto conversavam baixinho, sentados à mesa do escritório.
— Você não viu, você assistiu. Seu idiota — advertiu.
— Dá no mesmo, mas isso não importa. No jornal diz que o índice de criminalidade nesse quarteirão é exorbitante. E ninguém foi preso.
— Espero que sejam pegos logo; afinal, soube que andam furtando especialmente mulheres, crianças e idosos. — Ambos acenaram, concordando. No silêncio, a preocupação permanecia.
Ouvia cada palavra da conversa deles, embora apenas ficasse quieto do lado de fora da porta. Eventualmente, afastei-me silenciosamente. Não costumava ouvir conversas alheias; a maioria das palavras eram boatos, baseadas apenas no que viam do seu ponto de vista, sem se importarem com o que estava além.
Sobretudo, uma pessoa me veio à mente ao ouvir isso. Quando Oscar me vem à mente, lembro-me de que, mesmo residindo na mesma casa, é como se estivéssemos separados por dois mundos inteiros.
Pergunto-me se algum dia eu e ele poderíamos retornar ao nosso estilo de vida original, onde poderíamos conversar normalmente. Mas, diante da nossa circunstância atual, o melhor é ficar longe. Ele se tornou uma cicatriz escondida em meu coração.
Na minha mesa, o aparelho notificou uma chamada perdida. Neste momento, sentia que esquecia algo, mas não lembrava o quê. Então, pequenos fragmentos de memória vieram à tona: mais cedo, prometi algo, mas não lembrava qual era a promessa.
A hora exata em que recebi a chamada perdida foi às 19:58. Novamente, o aparelho tocou.
A ligação durou um longo tempo; embora não atendesse, olhava para o número piscando na tela. Coloquei o telefone em um canto, esperando que a tela escurecesse.
Então lembrei! A ligação era dele; prometi ir buscá-lo. Presumi que era hora de ir encontrá-lo. Ainda assim, deveria ser o CEO racional e calmo, não o companheiro impulsivo e possessivo que havia me tornado diante dele. Tinha uma reunião nos próximos minutos, que não podia ser adiada. Logo iria vê-lo.
Então Helena me notificou que era hora da reunião, no momento em que a tela escureceu. Saí do meu lugar para ir à reunião, deixando o telefone sobre a mesa e meus documentos em mãos. Caminhei ao seu lado e olhei-a de soslaio. Sua postura profissional estava impecável, como sempre, com os cabelos presos. Ela olhou-me de volta, e sua pupila clara refletia minha imagem.
Sabia que tinha sentimentos por mim, assim como ela tinha consciência de que jamais poderia respondê-los. Para mim, meus sentimentos eram como os dois lados de uma moeda; em ambos os lados existia apenas uma pessoa. Não havia espaço para mais ninguém.
Seguimos nosso caminho lado a lado. Não disse nada, nem ela. Segundos depois, houve uma nova notificação no telefone de que chegou uma nova mensagem. No entanto, não pude visualizar.
A reunião durou cerca de 20 minutos. Depois, voltei para meu escritório, sentei-me e estava prestes a chamar o chefe de recursos humanos quando lembrei da mensagem vinda do mesmo número. O conteúdo da mensagem dizia: “Bloco 8”.
Esse lugar não ficava longe do escritório. Não tinha ideia do porquê Oscar havia enviado um endereço, mas sabia que havia algum significado por trás disso. Por isso, queria ligar para perguntar. Só que a voz que soou ao telefone era feminina e fria: “Desculpe, o número para o qual você ligou está desligado.” Recordei o comentário anterior do funcionário; o endereço era perto do lugar mencionado.
Foi quando finalmente percebi que algo estava errado. As mesmas palavras frias foram ouvidas quando liguei para ele novamente, e continuaram soando nos meus ouvidos. Compreendi que algo ruim poderia ter acontecido. Minha cabeça estava uma confusão, com meus pensamentos emaranhados.
Não me atrevia a continuar nessa linha de pensamento e então saí correndo com meu terno. Passei rapidamente por Helena enquanto ligava e corria ao mesmo tempo.
Precisava ir para aquele lugar imediatamente. Algo devia ter acontecido no endereço que Oscar enviou.
Esse pensamento encheu minha cabeça, empurrando qualquer outro para longe enquanto meus passos aceleravam. Quando saí do prédio, percebi que havia começado a chover forte do lado de fora.
A chuva inesperada envolveu toda a cidade na névoa. Gotas pesadas caíam e atingiam as poças de água no chão, enquanto algumas gotas menores espirravam. O som único e alto da chuva permanecia nos meus ouvidos. Podia até ouvir vagamente o som de carros dirigindo pelas ruas molhadas ao longe. O reluzir dos raios e os trovões criavam um show de luzes e sons na cidade.
Parei apenas por um segundo antes de usar o terno para me cobrir vagamente e correr para a chuva. Continuei ligando para Oscar sem parar, embora fosse a mesma voz robótica que respondia todas as vezes.
Estava começando a me sentir frustrado. Quanto mais tempo passava, mais eu corria, e quanto mais ficava sem resposta, mais rápido meu coração batia.
Só queria correr para chegar rápido àquele lugar. Precisava vê-lo agora.