Capítulo 24
A primeira impressão, a sensação, o primeiro olhar, o primeiro toque… dizem que eles sempre ficam. Se isso é verdade, não sei, sei apenas que podem ser substituídos ao longo do tempo.
Ainda lembro da primeira vez que assisti a um filme de terror. A impressão foi inesquecível. Eu ia completar oito anos, minha mãe não estava em casa e fiquei sozinho. Meus olhos tremiam, nervosos. Fixos na tela, naquele ambiente escuro. Não havia mais ninguém além de mim, eu estava aterrorizado e sentia que algo se aproximava, algo grande e sombrio que se escondia ali.
Em um ato de rebeldia, quis provar a mim mesmo que era forte, que tinha coragem. Aquela primeira impressão horrível foi substituída quando fui pego por aquele homem. Seu agarrão deixou em mim fragmentos da sua pele, copiosamente e silenciosamente grudados. Jamais esqueceria isso.
A sensação era indescritível. Ele se aproximou, então joguei minhas sacolas nele. Distraído por um instante, chutei-o com força no estômago, e ele caiu no chão. Não lhe dei chance de se levantar. Com força, impeli outro chute, o homem caiu ao lado do poste próximo a ele.
Se fosse apenas um, minhas chances talvez fossem maiores e eu não teria sido pego pelo parceiro dele. Ele me forçou a deitar, e fiquei incapaz de me mover.
Gritei, lutando com todas as minhas forças, tentando afastar a pessoa que me segurava.
Meus pulsos queimavam de dor. Eles tinham expressões ruins, eram mais velhos que eu, com idade para serem meus tios. Estava claro que eram pessoas intolerantes.
— Garoto estúpido! Fica parado! — O homem me prendeu contra o chão; a dor que senti foi incalculável. Ele me pressionou no soalho, com minhas mãos presas ao lado do corpo para que eu não pudesse fugir. — Esse pirralho impertinente! — disse à pessoa parda ao lado dele.
A chuva pesada caía, e eu estava completamente encharcado. Sentia que cada parte do meu corpo fedia por estar deitado na água suja e barrenta. Na sequência, o homem levantou-se e aproveitou a situação para me dar um tapa.
Demorou muito para que eu pudesse voltar a mim depois do tapa. Virei a cabeça para o lado, respirando pesadamente. Meu abdômen, cintura e pernas estavam em extrema dor. Era tão doloroso que tremia o tempo todo e não conseguia ouvir quase nada.
— Merda! Não era só pegar ele? Por que é tão difícil?! — O homem em quem dei um chute cuspiu no chão, segurando o abdômen, visivelmente incomodado.
— Está chovendo muito, por isso a dificuldade! — justificou outro. — Ele achou que podia andar livremente como uma mulherzinha grávida. — Sua risada continha o mais puro escárnio, zombando de mim, diminuindo-me como pessoa e como homem. — Com uma coisa dessas, por que não veste logo um vestido? Você já deixou de ser homem. — Olhou para meu abdômen.
Lutava para me afastar. Usei minha força para morder o homem que estava em cima de mim. Eles eram pessoas preconceituosas, insatisfeitas com o governo atual, que defendia a igualdade de gênero. Não aceitavam conviver na mesma sociedade onde existiam pessoas como eu.
Desconheciam ou negavam a igualdade de direitos e a liberdade humana.
O homem que estava em cima de mim me deu outro tapa após a dolorosa mordida, antes de agarrar meu pulso e apertá-lo ainda mais. Uma onda de dor percorreu meu braço. Sabia claramente que meus braços ficariam doloridos.
Meus dentes batiam de dor enquanto minha testa estava coberta de suor frio, embora a chuva forte tivesse lavado o suor. A única sensação que eu tinha era de um frio extremo, como se cada parte do meu corpo estivesse submersa no gelo.
— Se apresse! Está chovendo muito forte aqui! Temos que levá-lo para outro lugar, alguém pode nos ver!
— Ir aonde?! Você não vê que tem movimentação logo ali? Vamos nos meter em problemas.
— Então devemos resolver isso aqui mesmo. Vamos discipliná-lo, apenas uma lembrancinha. Uma coisa como ele me enoja!
— Ei… — Um deles chamou a atenção do outro e avaliou meu olhar, sua visão percorreu todo o meu rosto. — Eu acho que esse garoto tem boa aparência. Que tal nos divertirmos primeiro? — sugeriu, agachando-se e acariciando meu rosto.
— Faça como quiser — seu parceiro autorizou.
— É tão emocionante fazer isso ao ar livre em um dia chuvoso! Eu não me importo com mais nada; vamos conversar depois que eu me divertir. — Com isso, o homem já havia empurrado e substituído seu comparsa que originalmente me segurava. — Nunca tentei com um homem. Ainda mais um como ele — disse, com prazer insaciável. Avaliou meu abdômen; seu olhar parecia o de uma besta sedenta por carne.
Quando aquele homem tocou em mim, fiquei enojado. Poderia vomitar, principalmente quando usou a mão para estrangular meu pescoço. Seus dedos longos restringiram toda a minha pele; o oxigênio parecia recuar. Meus únicos companheiros eram os maus pensamentos, os mais negros e maléficos, levando-me a odiar todas as coisas e toda a humanidade.
O homem soltou meu pescoço. Ele então tirou o cinto da calça e o usou para amarrar minhas mãos. O homem se inclinou, querendo me beijar. Dei-lhe uma cabeçada, obrigando-o a recuar. Cuspi em seu rosto. Balancei a cabeça desesperadamente enquanto gritava incontrolavelmente.
Seu parceiro apenas observava, esperando o show acabar, junto com mais outros dois.
— Vá embora! Seu louco! Vá-AH! — O homem segurou minha cabeça e a bateu no chão com força. Minha consciência ficou um pouco vaga após o forte e violento impacto.
Tudo o que sentia era que minha cabeça parecia ter uma rachadura enquanto um líquido escorria. Não podia mais sentir dor. Tive que assistir insensivelmente enquanto o homem sentado em mim desejava fazer coisas comigo; não podia fazer nada. Meu corpo não me obedecia mais.
— Garoto insolente, vou ficar com um galo na testa! — O homem desabotoava minha calça enquanto os outros riam. — Se ninguém soube te disciplinar, eu vou. Fica brincando por aí de ser mulher! — O que ele disse fez seus parceiros rirem mais.
A noite estava escura e gelada, fazendo-me ofegar pesadamente, deitado no chão lamacento, enquanto um par de mãos revoltadas percorria meu corpo sem quaisquer reservas. Tive minha boca beijada e cada parte do meu pescoço mordida por ele. Estava imobilizado. Sentia como se não houvesse mais chance de resistir. Perguntei-me por que estava sofrendo tudo isso. Era difícil até respirar.
Um terror supersticioso subiu gradativamente à minha alma. Poderia morrer depois que tudo passasse. Não sentiria nenhuma dor depois que morresse. No meio disso tudo, estava em transe, perdido em ilusões fantasiosas. Minha consciência começou a se desintegrar. Sentia como se todos os meus sentidos tivessem desaparecido. Parecia que minha alma havia deixado meu corpo e estava flutuando no ar.
Deveria recuperar meus sentidos o quanto antes, ou realmente me perderia nas correntes de ar que se formaram no meu subconsciente e transcorriam para o consciente.