Capítulo 27
Simplesmente vivi no meu próprio mundo, pus o véu da ignorância e convivi com ele.
Quando soube desse emprego, pensei que seria uma boa chance. Porém, a pessoa que conheci era amarga, séria e autoritária. Então, ela ordenou que eu vigiasse seu parceiro. Parceiro? Pensei.
Até então, eu só conhecia e via casais heterossexuais, aquilo me causou estranheza. Desconhecia outras orientações sexuais.
Foi então que decidi sair da minha zona de conforto. De forma receosa, mas saí. Quem conheci a seguir foi Oscar. Ele era um jovem magro, doente e deprimido.
Para ele, o amor era como uma escravidão. Diante de uma submissão tão completa, tive dificuldade em ajudá-lo. Dentro de mim, despertou um sentimento que eu nunca havia conhecido. Era um sentimento que não enxergava cor, raça, gênero, e muito menos status social. À medida que o conhecia melhor, descobri que ele tinha problemas. Aos poucos, ele se tornou meu amigo. E eu aprendi a amar sem preconceitos ou regras.
Compartilhar o dia a dia dele me deixou abalada, ociosa, amuada, enfurecida… todo dia aprendia uma emoção nova. Sua convivência com o Sr. Dominic era de brigas ou silêncio total, como uma guerra fria. Essas cenas se desencadeavam e se acalmavam rapidamente, como ondas.
Sua interação com Dom era estranha e penosa. Oscar suportava o insuportável pelo seu marido, um sentimento interminável e cansativo.
Quando voltei da minha folga, estranhei a ausência dele. A ligação de Dominic me fez fraquejar: Oscar estava no hospital.
Assim que amanheceu, já estava ao lado dele. Não consegui ficar tranquila até estar perto dele.
Pobre menino, cuidadosamente o cobri com o cobertor. Afaguei seus cabelos. Ainda não tinha acordado. Fiquei contente que ambos estavam bem, principalmente sua criança.
Depois de encerrar a ligação da empresa, o Sr. Dominic ponderou por um momento antes de ligar para a polícia. Observava-o atentamente. Se não houvesse um vínculo entre eles, ele não estaria ali. Significava que os sentimentos de Oscar haviam chegado até ele. Deveria ficar contente? Não sei dizer.
— Delegado Marcos, por favor, me ajude com uma coisa. — Fiquei um pouco surpresa, pois Dominic normalmente não pedia ajuda a outras pessoas.
— O que é?
— Algo aconteceu com meu parceiro. Ele está no hospital agora.
— O que aconteceu com ele?
— Alguns homens o cercaram em um beco ontem à noite. Eles bateram nele e quase… — Fez uma pausa antes de continuar: — Por favor, ajude-me a subjugá-los.
— Não pensei que os envolvidos fossem vocês! A investigação se tornou pública, todos estão sob prisão preventiva, pegos em flagrante.
— Eu os quero sem direito a fiança ou jure de defesa — sua voz era imaculada.
— Tudo bem, eu entendo. Nesse caso, vou pedir a alguns policiais para irem ao hospital registrar o depoimento do seu parceiro depois que acordar.
— Não acho que seja possível. Ele pode estar emocionalmente instável agora. Relembrar o ocorrido não vai ser fácil.
— Então onde aconteceu o incidente? Que horas eram? Mesmo que já saiba desses detalhes, eu tenho que perguntar. Todos devem prestar depoimento.
— Foi no Bloco 8, depois das 19h. Ainda deve haver alguns vestígios.
— Tudo bem, entendi. — Estava explícito que Dominic queria encerrar a ligação, embora o policial Marcos perguntasse curiosamente: — Sobre seu parceiro, como… estão os ferimentos?
Dominic ficou quieto por um tempo enquanto se encostava na parede.
— Ele… ainda não acordou… foi apenas um ferimento atrás da nuca e alguns arranhões. — Depois que encerrou a ligação, respirou fundo várias vezes enquanto se encostava na parede.
Ficamos calados; podia ver com clarividência sua preocupação.
— Luciana, cuide dele. Estou de saída.
Perguntei se voltaria; não falou nada. Me olhou por um longo tempo enquanto parecia pensar em algo, até que negou.
Seus olhos profundos pareciam extremamente charmosos e exaustos. Ele não dormiu a noite inteira.
No momento em que chegou à entrada, não consegui me conter e o abordei. As palavras vieram como o vento, livres, castas e impossíveis de conter.
— Obrigado por cuidar dele.
Antes de sair, ele acenou com a cabeça e disse “Até logo”.
Depois de uma hora e meia, Oscar abriu os olhos. Uma onda de alívio e gratidão me atingiu. Ele parecia extremamente desconfortável, com as sobrancelhas franzidas. Ainda assim, não falou nada.
Olhei para o copo d’água e perguntei se queria, Oscar assentiu com a cabeça.
Ajudei-o a sentar-se ao lado da cama. Fui buscar um copo limpo e o enchi de água, levando-o à boca dele. Oscar bebeu a água em pequenos goles, não duvidaria que sua boca estivesse ressecada e áspera. Foi então que sua expressão relaxou, ele olhava para mim com os olhos entreabertos.
— Onde ele está? Por quanto tempo dormi? — sua voz era árida e seca, embora misturada com um leve humor.
Carinhosamente, enxuguei as gotas de água restantes perto de sua boca. Seus lábios se esticaram em um minúsculo sorriso enquanto ele ficou quieto. Quando comecei a amá-lo? Não sei. Mas meu coração amava-o e muito.