Capítulo 04
Capítulo 04
Eduardo estava tenso. Não via seu pai desde o dia em que saiu de casa. Só de pensar no rumo da conversa, seu corpo já estremecia.
— Relaxa, Eduardo… você vai conseguir. Só respira — repetiu várias vezes, encorajando a si mesmo.
Eduardo parou seu carro na portaria do condomínio. Não lembrava do quão grande e luxuoso ele era.
— Boa noite! Em que posso ajudar?
— Oi, boa noite. Casa 305, bloco 3, por favor.
— Ah, é você, Duduzinho? Há quanto tempo, hein?!
— Bastante tempo mesmo. O senhor está bem?
— Tô bem! Ano que vem eu aposento.
— Aí sim! Quem sabe assim o senhor descansa, seu Olavo.
— Que nada, vou abrir uma vendinha pra ocupar a cabeça.
— Tá certo, o senhor não consegue ficar parado mesmo.
— Não consigo! Fio, vou parar de te enrolar, tá liberada a entrada. Vai lá.
— Obrigado, seu Olavo. Uma ótima noite!
— Pra você também!
Eduardo seguiu em frente. Conhecia aquele lugar como a palma da sua mão. Seu corpo continuava rígido, tenso, e sua mente implorava para aquela noite acabar o mais rápido possível. Chegou em frente à mansão dos Burany ,sobrenome esse que Eduardo carregava como um fardo.
Aqui estava ele, em frente à porta de entrada.
“Vamos acabar logo com isso.”
— Oi, seu Eduardo! Entra aqui, seu pai está te esperando.
— Obrigada, Dona Janete! Como vai? Tudo bem?
— Estou sim, querido.
— Que bom!
Eduardo chegou à sala de estar. Seu pai estava sentado na poltrona, sempre de terno e gravata, o mais social possível. Seu olhar era imponente, intimidante. Voltou os olhos para Eduardo, que sentiu um arrepio, mas se manteve neutro.
— Por que deixou seu carro na rua lateral? Custava muito colocar na garagem?
— Achei que você pagasse caro nesse condomínio pra ter segurança na rua. Eu também não pretendo demorar.
— Você sempre faz as coisas do jeito que quer!
— E você sempre quer controlar tudo!
— Tá bom, Eduardo, chega. Eu não quero discutir com você, não te chamei aqui pra isso.
— E por que me chamou, então?
— Quero saber se já desistiu dessa loucura e quer vir trabalhar comigo.
— Não é loucura, é minha vida. E eu não desisti de nada.
— Eduardo, você passou com louvor no exame da Ordem pra jogar sua carreira no lixo?!
— Eu só fiz isso para provar que eu era capaz. Você duvidou das minhas capacidades, achou que eu queria entrar no Belas Artes porque eu não era competente o suficiente para ser um advogado.
— Você desistiu da sua carreira para brincar de fazer “festinha”? Quando vai ter responsabilidade? Você acha que vai durar até quando nisso? Eu já tive que te aceitar assim, desse seu jeito diferente… Agora, ver você jogar sua vida na lama é demais pra mim.
— Eu organizo eventos e shows, eu não brinco de fazer “festinha”! Sou responsável por diversas coisas e, se quer saber, eu sou bom em todas elas. Não estou jogando minha vida na lama, estou vivendo minha própria vida sem precisar de nada de você!
— E quanto ao escritório? E o nome da família? Você vai simplesmente abandonar?
— A Marcela é uma ótima advogada e é competente o suficiente para assumir o escritório. Você não precisa de mim.
— Você quer que eu deixe a sua irmã, sendo mulher, assumir o comando do escritório? Comando esse que foi passando por gerações, só porque você não quer assumir as responsabilidades?
— Realmente, não dá pra conversar com você. Qual a diferença de ela ser mulher ou não? Ela tem mais culhão que boa parte dos advogados que têm naquele escritório! Sem falar na porcentagem que só tá lá porque foi indicada pelo “papai”. Por mim, aquele escritório afundava, mas a Marcela ama aquele lugar. Pena que você não entende e não reconhece o valor das pessoas que tem à sua volta.
— Nisso nós concordamos: é impossível conversar com você. E você não se esqueça de que só conseguiu organizar esses seus “eventos” por causa do seu sobrenome e da imagem da nossa família!
— ISSO FOI POR MÉRITO! EU ME DEDIQUEI E DEI MEU SUOR PARA SER RECONHECIDO, NÃO PRECISEI DO SEU NOME!!
— Um apartamento alugado e um carro a prestações… Achei que você queria vencer na vida, mas pelo jeito não. Quando se arrepender, espero que venha me pedir desculpas de joelhos.
— PODE ESPERAR SENTADO! Nunca vou precisar de mais nada que venha de você.
Eduardo saiu batendo a porta. Colocou as mãos sobre os joelhos tentando puxar o ar, mas seus pulmões pareciam de aço; sentia um gosto amargo subir pela garganta. Enquanto tentava controlar a raiva que sentia, veio uma imensa vontade de chorar, mas, a essa altura, nem o choro conseguia ser processado.
“Eu preciso me acalmar. Não posso deixar ele me abalar desse jeito, não dessa vez. Eu vou provar que sou capaz… Não por ele, mas por mim. Eu sei que sou capaz, sei disso.”
Eduardo foi se acalmando aos poucos até a respiração ir desacelerando. Ainda estava ofegante, mas não ficaria nem mais um segundo naquele lugar. Pegou seu carro e saiu.
“Preciso da minha casa… Preciso do meu lugar de paz.”
Era só o que ele pensava enquanto seguia seu caminho de volta.
{……………}
— Ei, Otávio!
— Oi!
— Aqui seu pagamento da semana. Tem certeza de que já vai embora? Hoje o movimento tá grande, dá pra ganhar uma boa grana.
— Eu sei, mas eu preciso descansar. Já faz uns dias que eu não durmo direito, não vou aguentar mais um dia.
— Tá certo. A gente morre e o dinheiro fica, vai descansar.
— Você vem amanhã?
— Se eu estiver vivo, sim.
— Vish, vira essa boca pra lá!
—Até amanhã, Marcelo, até amanhã.
Otávio seguiu em direção à sua casa. Não sentia mais os nervos das mãos e seu raciocínio estava lento.
“Puta merda, até parece que eu fiquei de porre.”
Sentia os olhos e o corpo pesados.
“Eu realmente preciso descansar.”
Otávio morava em uma pequena kitnet: quarto pequeno, cozinha pequena, mas na frente tinha um espaço para guardar a sua moto, o que para ele já era o “suficiente”.
Chegou guardando as roupas espalhadas e olhou sua estante de livros, que por sinal era maior do que o seu guarda-roupa.
“Preciso organizar isso urgente”, pensou enquanto planejava o que iria cozinhar. Sentiu um certo alívio; o ambiente era pequeno, mas era seu momento de paz e descanso.
{………….}
Eduardo teve a mesma sensação ao finalmente avistar o prédio e a janela do apartamento em que morava.
Subiu o elevador e o ar era mais puro, era respirável novamente.
Morava em um apartamento mediano, porém aconchegante: dois quartos, sala e cozinha conjugadas, e um quarto extra que Eduardo planejou fazer de escritório, mas que nunca saiu do papel. A locatária era amiga de escola de sua mãe. “Pra você o preço é especial”, ela dizia.
Seu apartamento tinha um toque especial: quadros coloridos espalhados pelas paredes, cortinas feitas de crochê e mantas bordadas à mão. Era seu “lugar de paz”, onde ele podia se sentir bem consigo mesmo.
— Finalmente vou descansar…
disse enquanto se jogava na cama sem pensar em mais nada.
Capítulo 04
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A primavera sem Flores
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Nessa história você vai acompanhar a vida e as emoções, de dois jovens completamente...