Kiss The Stranger

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🟡 Em breve

O jipe veio em alta velocidade, levantando uma nuvem de poeira pela duna de onde o homem com o camelo havia surgido.

Sem esperar o carro se aproximar, dei alguns passos à frente. Ele parou a uma distância não muito distante de onde eu estava.

“A-ah, olá.” Devido ao nervosismo, acabei gaguejando ao falar.

No entanto, para a minha sorte, o homem no banco do motorista desceu do carro sem demonstrar nenhuma suspeita em particular.

Enquanto o mensageiro enviado pelo meu tio descarregava as coisas que havia trazido no carro, eu esperei segurando a tapeçaria que tinha feito com tanto esforço ao longo do último mês.

Depois de retirar do carro a pequena quantidade de suprimentos, o mensageiro virou-se para mim. Seu olhar fixou-se na tapeçaria que eu segurava.

Ele a pegou rapidamente das minhas mãos sem dizer nada e por um segundo pareceu examiná-la de um lado para o outro, logo franzindo o cenho. No mesmo instante, encolhi os ombros de nervoso.

“Poxa. Pense também no meu lado, que tenho que colocar uma coisa dessas para vender.”

A fala dita para si mesmo como um resmungo foi alta o suficiente para ecoar com clareza nos meus ouvidos. Envergonhado, pedi desculpas.

“E-eu… Eu sinto muito. Eu tentei o meu melhor para fazer, mas…” Ao me ver hesitar no fim da frase, o mensageiro estalou a língua.

“Esforçar-se não é tudo, o que importa são os resultados. Francamente, como é que eu vou vender isso e ganhar algum dinheiro? Olhe aqui, jovem mestre. As coisas também não estão fáceis para o Lorde Jarwal ultimamente. Sabia que isso daqui também é o máximo que ele consegue enviar, hein?”

“Hum… E-entendo. Me desculpe.” Pedi desculpas novamente.

Eu na verdade não entendia ao certo, mas ele devia ter razão. 

Seja como for, o simples fato dele se lembrar de cuidar de mim mensalmente, sem falta, já era motivo de imensa gratidão. Gurab, o mensageiro, balançou a cabeça novamente e tirou uma muda de planta da parte traseira do carro. Era a muda de figueira que eu havia pedido. Soltei um suspiro de alívio, mas ele não me entregou a muda; em vez disso, manteve-se firme diante de mim e declarou:

“Você vai ter que fazer mais uma tapeçaria.”

“Como?” Surpreso com a proposta inesperada, olhei para ele, que continuou a falar com uma expressão cheia de insatisfação.

“O que o jovem mestre produz tem uma qualidade tão baixa que não dá para conseguir um bom preço. Então a quantidade vai ter que compensar. A partir do mês que vem, você terá que fazer cinco peças. Entendeu?”

“C-cinco peças?”

Fazer duas já era difícil, cinco peças seria absolutamente impossível. 

Vendo-me completamente espantado, Gurab franziu a testa.

“Bom, se não consegue, deixe para lá. Mas nem pense em me pedir favores adicionais no futuro…”

“E-espere um pouco!” Segurei-o com urgência quando ele estava prestes a se virar para ir embora, implorando e me agarrando a ele novamente. “C-cinco peças é realmente… Eu lhe peço, você não poderia aliviar só um pouco? Dou um jeito de fazer duas, não, até três peças… Por favor, me ajude um pouco. Eu lhe imploro, por favor…”

Ao me ver implorar e me agarrar a ele repetidamente, Gurab estalou a língua mais uma vez.

“Puxa vida, só estou facilitando para você porque fico com pena da sua situação, ouviu?”

“Sim, sim, claro. Muito obrigado, muito obrigado…” Agradeci várias vezes seguidas, ele deu uma olhada rápida para a muda que segurava e a estendeu para mim como se estivesse me fazendo um grande favor.

“Tome, de qualquer forma eu já tinha trazido isso mesmo.”

“Obrigado, muito obrigado mesmo… Que Deus lhe conceda graça.” Recebi a muda e expressei minha gratidão novamente.

Gurab deu uma pigarreada e continuou: “Bom, então fico no aguardo de três peças no mês que vem. E então, precisa de mais alguma coisa?” Ele olhou para mim de cima a baixo e perguntou.

Hesitei por um instante e respondi com cuidado.

“Eu gostaria de mais uma muda de figueira e também de remédios… Antisséptico, analgésico e… um pouco de antibiótico.” Após refletir por um momento, acrescentei por impulso: “E também… roupas masculinas de tamanho grande. O maior tamanho possível.”

Mesmo que o homem recuperasse a consciência, ele permaneceria ali até o próximo mês. 

Pensando que ele precisaria de roupas novas para vestir antes de ir embora, fiz o pedido, mas a expressão de Gurab empalideceu no mesmo instante.

“Para que roupas masculinas tão grandes? Se for para o jovem mestre vestir, até o menor tamanho seria mais do que suficiente.”

Apressando-me em dar uma desculpa qualquer, respondi.

“Hum, é q-que… eu preciso disso. Por favor, agradeceria se você pudesse trazer para mim…” Ele me encarou em silêncio.

Seguindo um pressentimento ruim, Gurab coçou o queixo e disse: “Para tudo isso, apenas três peças não vão ser suficientes. Acho que precisaria ser cinco peças.”

Era algo totalmente fora do meu alcance, mas desta vez nenhum apelo funcionou. No fim, sem escolha, decidi adiar a muda de figueira para depois e receber apenas os remédios e as roupas.

Esse foi o preço combinado em troca das três tapeçarias.

Implorando quase até estar exausto, consegui acrescentar sal e óleo ao pedido. Com a promessa de que viria bem cedo no quinto dia do próximo mês, Gurab partiu. Fiquei observando o carro dele se afastar com um sentimento de vazio no peito.

Não, eu fiz o certo. Salvar uma vida vem em primeiro lugar.

Além disso, aquela era a primeira vez desde que cheguei aqui que encontrava alguém além de Gurab. Era como se Deus o tivesse enviado para que eu o salvasse. Chacoalhei a cabeça rapidamente para espantar os pensamentos e voltei a me mover com agilidade.

Que bom que Gurab foi embora sem suspeitar de nada. 

Olhando melhor agora, havia pegadas confusas de camelo espalhadas perto da cabana. Se Gurab tivesse olhado um pouco mais ao redor, teria descoberto tudo. Eu não podia preocupar meu tio, que já dizia estar passando por momentos difíceis.

A próxima visita de Gurab seria em cerca de um mês. Até lá, o homem já estaria recuperado, então eu poderia vesti-lo com as roupas novas e mandá-lo embora. No fim das contas, seria como se nada tivesse acontecido. Pensando assim, comecei a levar as bagagens para dentro da cabana, uma a uma.

Enquanto isso, o homem continuava dormindo sem abrir os olhos nem uma única vez. Talvez estivesse inconsciente. Depois de arrumar rapidamente o ambiente e soltar o ar que estava preso na minha garganta, chequei o estado dele novamente. Examinei o curativo que fiz com empenho e vi que não havia mais marcas de sangue vazando.

Após checar o ferimento mais uma vez, ergui a cabeça e o corpo do homem entrou na minha visão. Mudando o olhar lentamente, caí na real mais uma vez.

O homem era realmente enorme. 

Maior do que qualquer um que eu já tenha visto antes.

Será que um urso seria grande assim?

Olhei de relance para o corpo dele e pensei, meio aéreo, observando as pernas infinitamente longas. Sem perceber, engoli em seco.

Ou talvez ele fosse um urso vestindo roupas humanas.

Na verdade, essa parecia uma ideia mais razoável. Não era possível existir uma pessoa tão grande. Concordando em silêncio com a minha própria lógica, virei o rosto. Mas, no instante em que vi o rosto do homem, tive que aceitar a realidade.

Aquele homem era, sem sombra de dúvidas, uma pessoa. E uma pessoa incrivelmente gigante e bonita.

O peito do homem, descoberto para que eu pudesse enfaixá-lo, parecia ter três vezes o meu tamanho. Se ele já era assim relaxado, nem conseguia imaginar como seria quando estivesse de pé. Além disso, os músculos abdominais bem definidos eram tão firmes como se não permitissem um pingo de gordura.

Por fim, ao constatar que uma única coxa dele era tão grossa quanto a minha cintura, senti um medo tardio.

Como um homem assim acabou se machucando?

Se algo de ruim acontecesse, ninguém aqui poderia me ajudar. Se esse homem decidisse me machucar, quebrar meu pescoço com uma só mão seria algo extremamente fácil para ele. Não, talvez conseguisse até com apenas dois dedos. Foi bem no momento em que um arrepio subiu pela minha espinha.

“Você precisa ajudar, Yohan.”

De repente, lembrei-me das palavras que meu pai costumava dizer.

“Todas as pessoas devem ajudar uns aos outros.”

A memória daquele dia me deu coragem. Meu pai viveu e partiu exatamente como costumava dizer. É, comparado com aquilo, isso não era nada. Respirei fundo e me acalmei.

Rikal, que tinha se aproximado sem eu perceber, rondava ao meu redor miando. Percebendo que precisava dar comida a ele, levantei-me apressado.

“Desculpe, Rikal. Vou te dar agora mesmo.”

Hoje era, ao menos, o único dia fartamente bom do mês. Como queria que Rikal comesse o quanto quisesse ao menos hoje, sempre enchia a tigela dele com peixe e arroz.

No entanto, desta vez hesitei por um momento.

Porque agora havia mais uma boca para alimentar. 

Enquanto pegava o arroz para preparar a refeição de Rikal, olhei de relance para trás. O homem ainda estava desacordado, mas podia acordar com fome. Se isso acontecesse, com aquele porte físico incomparável ao meu ou ao de Rikal, ele certamente devoraria uma quantidade enorme de comida.

Fiquei dividido por um instante pensando que precisava economizar mantimentos até o próximo mês.

Mas a escolha era sempre a mesma. Bastava eu pular mais uma refeição. 

Mas por mais que Rikal comesse, o quanto ele poderia comer?

Decidido, lavei o arroz e o coloquei para cozinhar. Rikal, empolgado, miava e rodeava meus pés. Também peguei um peixe seco inteiro, sendo generoso.

Enquanto eu me movia de um lado para o outro, o cheiro gostoso do arroz cozinhando subia no ar. Era um final de tarde como outro qualquer. Exceto pelo homem deitado no meio da pequena cabana apertada e pelo camelo parado calmamente à beira da água.

***

Um som não familiar me fez acordar do meu sono leve.

A princípio, não consegui identificar que som era aquele. Fazia muito tempo que eu não ouvia o som de outra pessoa além de mim enquanto dormia.

Ao abrir os olhos a todo custo, vi que tinha dormido encostado no suporte enquanto tecia a tapeçaria. Verifiquei às pressas se a peça em que trabalhei tão duro tinha estragado, mas por sorte estava intacta. Em seguida, virei a cabeça para descobrir a origem do barulho.

A fonte do som era o homem deitado no chão.

“…Ngh, ugh.” O homem suava frio e rangia os dentes, soltando gemidos abafados.

Aproximei-me rapidamente e encostei a mão com cuidado em sua testa; estava pelando de tão quente. Ele claramente estava com febre alta, mas, como continuava inconsciente, não havia como fazê-lo engolir o remédio. Tentei trazer água e dar na boca dele, mas o líquido escorria pelos cantos do lábio, e ele não estava em condições de engolir um remédio tão amargo.

O que eu faço?

Se continuasse assim, o estado dele só iria piorar.

Como prova disso, o rosto do homem ficava cada vez mais vermelho por causa da febre. Os gemidos que escapavam de seus lábios também soavam profundos e dolorosos.

Coloquei primeiro uma toalha molhada e fria em sua testa e olhei para ele por um momento. Só havia um jeito. Tomei um gole grande da água que pretendia dar ao homem, segurei o remédio na boca e, em seguida, encostei meus lábios diretamente nos dele.

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