Kiss The Stranger

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🟡 Em breve

O homem olhou fixamente para mim quando parei abruptamente, segurando os frutos que havia colhido nas árvores.

No entanto, sua expressão ainda vacilante fazia parecer que ele não tinha acordado totalmente. Após hesitar por um instante, dei passos cautelosos e me aproximei em sua direção. Ele esperou em silêncio enquanto eu me aproximava.

Olhando para o rosto do homem, meu olhar de repente se deteve em seus lábios. A partir daquele momento, não consegui chegar mais perto. Sentei-me a uma distância de três ou quatro passos e o homem franziu a testa, confuso. Fiz de conta que não percebi e perguntei:

“Como você está?… Seu corpo… Seu ombro não dói?” Meu peito se encheu de emoção ao perceber que estava conversando com o homem de olhos abertos.

Há quanto tempo eu não conversava com outra pessoa? Com Gurab, eram no máximo uns dez minutos, e mesmo assim trocávamos apenas poucas palavras.

Senti minha voz tremer levemente enquanto olhava para ele.

Só então o homem pareceu se dar conta de seu ferimento, baixando o olhar para verificar as ataduras. Ele franziu o rosto por um instante, mas logo voltou a me encarar com uma expressão indiferente. Pensei nas perguntas que ele poderia fazer e tomei a iniciativa de falar:

“É… aqui é um oásis nos arredores de Al Fatih… e são terras do Senhor local. Se você veio de outra região, pode ficar até seus ferimentos sararem, mas seria melhor ir embora antes que outras pessoas te vejam, se possível.”

Evitei dizer intencionalmente que, caso contrário, ele precisaria da permissão do Senhor.

O homem provavelmente já devia saber disso e falar sobre o tio que atualmente ocupava aquele posto me deixava desconfortável. Se meu tio descobrisse que tive contato com um estranho, certamente ficaria mais do que preocupado: ficaria furioso.

“……”

Terminei de falar e observei sua reação, mas o homem continuava sem dar grande resposta. A ruga entre suas sobrancelhas se aprofundou ainda mais, porém era difícil decifrar o significado. Fiquei esperando que ele falasse primeiro e, só depois de um longo tempo, ele finalmente abriu a boca.

“…Onde é aqui?”

“Al Fatih.” Respondi imediatamente, mas ele voltou a se calar.

A maneira como ele olhava ao redor parecia um pouco estranha. Quando comecei a ter uma sensação incômoda, o homem voltou a falar:

“Quem é você?… Qual é a nossa relação?”

Confirmando que havia algo realmente estranho, respondi com cuidado.

“Meu nome é Yohan. É a primeira vez que nos vemos… Eu te encontrei ferido, trazido por um camelo.”

O homem ficou em silêncio novamente.

Diante daquele silêncio angustiante, continuei falando: “Se você me disser de onde veio, posso te indicar a direção. O camelo também está sendo bem cuidado e saudável; de onde quer que tenha vindo, se for para a cidade montado nele, conseguirá ajuda rapidamente. Desculpe, mas aqui não temos telefone nem nada do tipo…”

Pensando bem, na correria, nem cheguei a checar os pertences dele. 

Porém, dando uma olhada rápida, vestindo apenas uma camisa leve e calças, não parecia carregar nada que revelasse sua identidade. Perguntei de propósito com um tom de voz mais animado:

“Sabe… qual é o seu nome? Como posso te chamar?”

Pensava que ele poderia se levantar e ir embora a qualquer momento.

Mesmo assim, ao perguntar por mera cortesia, a expressão do homem mudou de forma bizarra em um instante. Fiquei desconcertado com aquela feição contorcida que via pela primeira vez e acabei piscando os olhos, surpreso.

“…Não.” Depois de um longo silêncio, o homem sussurrou.

Não foi fácil entender sua voz fraca e presa.

Quando inclinei a cabeça sem pensar para observá-lo, o homem abriu a boca com o rosto pálido e rígido, mas nenhum som saiu. Com os lábios trêmulos, ele se esforçava para dizer algo e, finalmente, conseguiu emitir som.

“Não sei, nada.”

Meus olhos se arregalaram sem que eu percebesse. O homem não se importou com a minha reação e soltou com uma voz áspera.

“Não me lembro de nada. Não sei de nada, absolutamente nada!”

Por fim, o homem soltou um palavrão e cobriu a cabeça com as duas mãos. Fiquei sem reação, apenas observando a resposta intensa dele.

***

Depois que a onda de agitação passou, o homem voltou a se acalmar.

Ele parecia até meio aéreo. Ver ele sentado encarando o nada, com a cabeça apoiada na parede da cabana, me deu pena. Peguei um pouco da comida que já estava pronta e levei até ele.

“Hum… coma um pouco disso.” Estendi a tigela com cuidado, e o homem olhou sem energia. Empurrei a tigela mais um pouco em sua direção e disse: “Você precisa comer para recuperar as forças. Se descansar, sua memória logo vai voltar. Não fique tão ansioso…”

Isso era tudo o que eu podia dizer.

Mesmo que quisesse levá-lo a um médico, não havia como. 

Por enquanto, torcer para que sua memória voltasse naturalmente era a única coisa ao meu alcance.

“Tome”, disse eu, forçando uma reação ao colocar a tigela em suas mãos.

O homem baixou o olhar.

Na tigela, havia uma sopa de arroz bem cozido em muita água, ficando empapado. Tudo o que fiz foi colocar um pouco de sal e ferver. Cedi a ele até o pouco de carne seca que restava. Rikal já tinha esvaziado duas tigelas e, satisfeito, ronronava cochilando em um canto. O homem olhou da sua tigela para a minha e logo franziu a testa. Percebendo o motivo, apressei-me em responder.

“Eu costumo comer só isso mesmo…”

Não estava totalmente errado. 

Quando os mantimentos começavam a acabar, eu comia essa quantidade apenas uma vez ao dia. Para o homem, servi o triplo da minha porção.

Com esse corpo grande, ele precisa comer mais.

Como esperado, antes mesmo de eu esvaziar metade da minha tigela, ele devorou toda a sua porção. Talvez pensasse que comer algo faria sua memória voltar mais rápido. Mas, claro, era um julgamento precipitado. O homem olhou para a tigela vazia por um momento, de testa franzida, e então mudou de estratégia.

“Ah.” Soltei um som involuntário ao vê-lo se levantar de repente.

Ele ficou em pé, com a cabeça quase tocando o teto baixo da cabana, e olhou para mim.

Que tal dormir antes que a fome volte?

Engoli as palavras que quase saíram da minha boca, dei um sorriso sem jeito e balancei a cabeça. O homem me olhou como se me achasse estranho, mas logo virou o rosto e deu alguns passos.

Olhei para as costas dele saindo da cabana e tomei um gole do caldo onde boiavam alguns grãos de arroz. O homem, que parecia explorar os arredores, desapareceu da minha vista pouco depois, como se tivesse ido para um lugar fora do alcance da cabana.

Terminei minha refeição lentamente.

O homem só voltou depois que arrumei os utensílios e terminei de lavar a louça. Olhando de relance para sua expressão, percebi que seu olhar tinha falhado. Ele entrou com um rosto ainda mais arrasado do que antes.

Sem dizer uma palavra, ele caminhou e se sentou na cama sem pedir licença.

Como ele iria embora em breve de qualquer forma e ainda estava ferido, não disse nada. Acima de tudo, o simples fato de haver outra pessoa além de mim me deixava feliz.

O homem esperou enquanto eu me movimentava para terminar de arrumar as coisas. Dava para saber que seus olhos estavam grudados em mim sem que eu precisasse olhar para trás. Além do sentimento de felicidade, a sensação de constrangimento fez com que eu lavasse a toalha duas vezes sem necessidade, mudasse panelas de lugar para lá e para cá, acariciasse a cabeça do Rikal que cochilava para acordá-lo e voltei ao banheiro umas quatro vezes.

Por fim, sem ter mais como evitar a situação, olhei na direção dele.

Quando direcionei meu olhar, nossos olhos se cruzaram imediatamente. Engoli em seco sem perceber e ele abriu a boca.

“Já terminou?” Sua voz era calma, mas senti um calafrio na espinha.

O fato dele ter esperado em silêncio até que meus movimentos terminassem me pareceu assustador. Com o coração na mão, acenei com a cabeça, e ele lançou um olhar para o espaço ao seu lado. O sinal era claro: ‘venha se sentar’. Desta vez, mantive uma distância de três ou quatro passos dele.

O motivo era diferente de antes. 

Sem perder tempo, o homem começou a falar.

“Não tem nada ao redor.”

“Pois é.” Concordei com a cabeça. “Para chegar à cidade, é preciso andar um bom pedaço. Como eu disse antes, aqui é Al-Fatih, e são terras particulares do Senhor de Al-Fatih…”

“Propriedade particular significa que pertence ao Senhor, certo? Mas por que você mora aqui sozinho?”

Apesar de ter perdido a memória, o homem era bem astuto.

Como não esperava que ele fosse perguntar logo isso, hesitei por um instante. Tentar mentir dizendo que havia outro morador não funcionaria. Olhando para qualquer canto, a mobília simples e solitária não deixava margem para desculpas.

“…É por conta de assuntos pessoais meus.”

Esquivei-me de responder diretamente, e o homem franziu a testa. Enquanto eu prometia a mim mesmo não dizer nada mesmo que ele insistisse, ele perguntou novamente.

“Você precisa viver escondido? O Senhor sabe que você está aqui?”

“…Sim.”

Achei que podia revelar até aí.

Na verdade, era melhor que ele soubesse. Assim, ele também entenderia a situação geral. Ele devia captar o clima.

Ao olhar de relance, o homem acariciava o queixo com uma expressão séria. Parecendo imerso em pensamentos, ele soltou um suspiro profundo e esfregou o rosto com as duas mãos. Dava para ver que nada vinha à sua mente. Sentindo pena dele, tomei a iniciativa de falar com cuidado.

“Olha, por que não descansa um pouco sem se afobar? Não adianta ter pressa… Seus ferimentos ainda não curaram e, mesmo para recuperar a memória, seu corpo precisa melhorar para você poder ir embora daqui…”

Enquanto falava, pensei: Ah, não. Que besteira eu tinha acabado de dizer, justo quando devia mandá-lo embora o quanto antes? Tentei contornar a situação rapidamente, mas perdi o momento.

O homem parou o movimento que fazia e, um instante depois, soltou outro suspiro.

“…Você tem razão.” Ver aquele homem parecer ter perdido todas as forças me fez sentir compaixão novamente.

Apressei-me em me levantar, fui até a cama e desdobrei rapidamente o tecido que estava amarrotado e amassado ali.

“Por enquanto, durma. Aos poucos a sua memória vai voltar. Quando a gente está cansado, a cabeça não funciona direito mesmo, então tente relaxar primeiro.”

No instante em que virei a cabeça dizendo isso, nossos olhos se cruzaram.

Inconscientemente, parei todos os meus movimentos e fiquei olhando para ele. Olhando para as pupilas do homem bem de perto pela primeira vez, só então percebi que a cor dos seus olhos era completamente diferente do que eu tinha pensado.

Não era um preto com tom azulado. 

Bem naquele momento, a luz do sol entrou pela janela e, sob a luz abundante, prendi a respiração por um instante ao ver com clareza suas pupilas roxo escuras brilhando intensamente.

Olhei para os olhos dele como se estivesse enfeitiçado. Nunca tinha visto uma cor assim. As pupilas do homem eram de um violeta tão escuro que pareciam pretas no escuro ou na sombra, mas sob a luz forte do sol revelavam sua cor com clareza.

Enquanto eu encarava hipnotizado aquelas pupilas intensas que me lembravam a cor de uma joia que vi na infância, o homem abriu a boca.

“…Você, por acaso.”

A voz do homem ficou visivelmente mais baixa do que antes, ressoando suavemente no meu ouvido.

“Me beijou?”

Naquele momento, percebi tardiamente que o olhar dele estava fixo nos meus lábios.

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