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A Década Depois Da Primavera

Capítulo 33

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— Nós vamos conseguir sair daqui. — A voz firme de Dom era um farol na tempestade, me lembrando que não estava.

Um tiro ecoou no ar, seguido por outro. O som dos disparos retumbavam na sala, misturado aos gritos dos criminosos chamando por seu chefe. Imediatamente, nos abaixamos, a adrenalina pulsando no sangue fervorosamente.

No meio do caos, rastejamos para o canto da sala. O corpo de Dominic tocou o meu, e sua mão fria descansou nas minhas costas. Um arrepio percorreu meu corpo com o toque inesperado.

O barulho era ensurdecedor; os disparos ecoaram em meus ouvidos, e o cheiro de pólvora enchia o ar, sufocante. A porta, cada vez mais marcada por buracos, liberava um odor metálico que queimava as narinas.

A arma se mantinha firme e protetora nas mãos de Dominic, ainda que a fé de escapar daquela situação fosse escorrendo como areia. Depois de um momento olhando-o, pensei em ir até Eduardo, mas a voz de Dom me cortou.

— O que pensa que está fazendo? Você não vai! — Dom agarrou meu pulso, sua força me puxando de volta. Seus olhos intensos eram mais duros que suas palavras.

Suas mãos agora seguravam meus ombros, um gesto protetor e inabalável. O aroma dele me envolvia, e um leve tremor percorreu meus ombros.

Estilhaços da porta voavam, atingindo Eduardo, que jazia no chão, o sangue se espalhando como um lençol vermelho. A imagem era uma sombra persistente na minha mente, insistindo em ficar ali.

Com ele inconsciente, a esperança de descobrir o que aconteceu com meu padrasto se esvaía. Um suspiro derrotado escapou dos meus lábios; ele provavelmente estava morto, abatido por seus próprios homens.

A sirene da polícia cortou o barulho, e os tiros começaram a diminuir. O som dos disparos se afastava, dando lugar ao silêncio. Uma batida na porta interrompeu o momento tenso.

Dominic me olhou e afastou suas mãos. Ele se adiantou para abrir a porta, revelando o mesmo policial que me abordou antes.

— Vocês estão bem? — perguntou, com preocupação em seu tom.

— Sim, estamos. — Dominic entregou a arma e apontou para Eduardo, explicando a situação com calma.

— Não se preocupe, nós cuidaremos disso. Vamos levar o corpo para o necrotério. — O policial avaliava a cena, seu olhar se detendo em mim por um breve instante antes de desviar. — As câmeras registraram tudo.

Quando o policial sugeriu um hospital, Dominic recusou, afirmando que poderíamos cuidar dos ferimentos em casa. Eu concordei rapidamente; o cansaço era intenso, mas suportável.

— Vamos embora — falei com um suspiro pesado, seguindo em frente, sem olhar para trás. Andava como se carregasse o fardo do mundo nas costas, parecia que todo o peso do dia se acumulava no meu corpo.

No carro, o silêncio era palpável. Após um momento, olhei pela janela, a paisagem se transformando em borrões.

— Lamento te envolver nisso. — Minha voz era um sussurro, carregada de culpa. A velocidade do carro tornava tudo um turbilhão de cores. — Meu padrasto não teve compaixão ao me arrastar para isso. Mas não esperava que você se arriscasse tanto por mim.

Dominic reduziu a velocidade, seu olhar fixo na estrada.

— Você não estava sozinho. Levou mais alguém com você. — Sua voz era suave, mas firme. Um breve olhar encontrou o meu antes que ele voltasse a se concentrar na estrada.

Os vultos do mundo exterior continuavam a passar, e o silêncio que se seguiu entre nós era denso, como uma pausa musical.

— Aquele homem não te contou onde encontrar seu padrasto? — ele perguntou.

— Não. Ele disse que também estava procurando. No fim, não sei nada sobre seu paradeiro. — A frustração tingiu minha voz.

— Você pensa em procurá-lo? — continuou.

— Não. — Meu tom foi brusco, minhas unhas cravando nas palmas das mãos, formando punhos.

— Entendo. — Dominic murmurou, mais para si mesmo.

Ele me lançou um olhar antes de voltar a atenção à estrada, como se o assunto estivesse encerrado.

Observei seu semblante; ele estava suado, sem expressão, apenas cansado. Talvez compreendesse meu incômodo. Relaxei as mãos, observando as palmas calejadas e, em seguida, voltei a olhar pela janela contemplando os espaços longínquos. Estava claro que de um lado e de outro, só restou a condição do recolhimento e a pausa verbal.

 

 

 

Capítulo 33
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